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Uzbequistão, um país-chave

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Com 24 milhões de habitantes e uma posição geograficamente privilegiada, o Uzbequistão é um território crucial no contexto político-militar da atual guerra. Mas é governado por um dos regimes mais repressivos da Ásia central

Vicken Cheterian - (01/11/2001)

Um indício claro é a permanência de aviões e soldados norte-americanos na base uzbeque de Khanabad, perto da fronteira com o Afeganistão: essa ex-república soviética desempenha um papel crucial nas operações militares contra a milícia taliban. Um velho sonho do líder Islam Karimov, essa estreita colaboração com Washington poderá vir a reforçar a importância regional e as ambições do país. Com o peso de seus 24 milhões de habitantes, da sua posição estrategicamente central e das suas forças armadas, o Uzbequistão é um país-chave da região.

O país passa por um “vazio ideológico”, onde os símbolos da era soviética foram substituídos por um nacionalismo desprovido de profundidade histórica

Mas também é – com vários milhares de presos políticos, a inexistência de um partido de oposição e a contínua censura aos meios de comunicação – um dos regimes mais repressivos. Nos últimos dez anos, sua economia passa por uma fase ruim, amplamente controlada pelo Estado. O país também passa por um “vazio ideológico”, onde os símbolos da era soviética foram substituídos por um nacionalismo desprovido de profundidade histórica.

A aliança Washington-Tachkent

A partir de 1997, uma série de enérgicas reformas levou ao fechamento de centenas de mesquitas. E consta que mais de sete mil muçulmanos – praticantes, ou simplesmente crentes – teriam sido presos. Essa repressão maciça veio inchar as fileiras dos combatentes que se tinham juntado à oposição no Tadjiquistão durante a guerra civil travada por Juma Namangani. Após o acordo de paz assinado em 1997 no Tadjiquistão, Namangani se teria aliado a alguns dos líderes da oposição que se opunham ao acordo, criando bases de apoio no Vale do Karategin, no Tadjiquistão, mas também no Afeganistão. O Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU), que lidera, teria realizado ataques na região Sul da Quirguistão em 1999, e em várias outras frentes durante o verão de 2000 – ataques esses que provocaram várias centenas de mortos. Na primavera de 2001, o movimento guerrilheiro lançou uma ofensiva, mas, curiosamente, o MIU suspendeu os ataques.

Ao citar o MIU entre os 27 “grupos terroristas” que denunciou no dia 24 de setembro de 2001, o presidente George W. Bush reforçou a aliança entre Washington e Tachkent. Inclusive porque, em seu relatório, os norte-americanos destacam o MIU ao lado da rede Al-Qaida e da milícia taliban. As entidades humanitárias receiam que o regime de Tachkent se aproveite disso para impor sua política na região com mão mais forte: fechamento de fronteiras, campos minados, sistemas de controle por meio de vistos e redução da cooperação nas áreas de comércio e distribuição de recursos.

Os mesmos erros de sempre

Uma guerra prolongada no Afeganistão colocaria em xeque a fórmula da paz tadjique: a partilha do poder entre o governo e a ex-oposição islâmica

A República pós-soviética do Tadjiquistão é ponto de passagem obrigatório para a ajuda à Aliança do Norte. A partir de 1997, sua capital, Doushanbe, tornou-se o centro diplomático da oposição afegã, e o aeroporto de Kulyab, a base de sua força aérea e de seu centro logístico. Porém, ao contrário do Uzbequistão, o Tadjiquistão permanece sob forte influência de Moscou: os 10 mil homens das tropas russas que ali se encontram sediadas controlam os pontos estratégicos, como os aeroportos e as fronteiras com o Afeganistão.

Uma guerra prolongada no Afeganistão colocaria em xeque a fórmula da paz tadjique: a partilha do poder entre o governo e a ex-oposição islâmica. O líder do Partido Islâmico da Restauração (IRP), Abdullo Nuri, rejeitou os apelos ao jihad (guerra santa), mas nem por isso deu seu apoio aos bombardeios norte-americanos. Dentro do governo, os partidários da linha dura poderiam vir a utilizar a guerra para marginalizar o IRP. Isto, porém, poderia permitir o surgimento de movimentos islâmicos radicais. Por fim, o governo do Tadjiquistão preocupa-se com a crescente influência do Uzbequistão, o que poderia reacender a competição regional.

A curto prazo, a intervenção direta dos Estados Unidos na Ásia central pode reforçar o poder dos regimes autoritários. A longo prazo, no entanto, irá polarizar as sociedades, sem alterar o adubo da dissidência. Dessa forma, Washington repete, na Ásia central, os erros óbvios que cometeu no Oriente Médio: aliar-se a regimes corruptos e impopulares, correndo o risco de passar, em seguida, a ser o “inimigo” de todos os que defendem mudanças.
(Trad.: Jô Amado)




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