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News time”, filmando a vida na Palestina

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Depois de uma tentativa infrutífera junto aos vizinhos, cuja história de amor ela filmava e que abandonaram a filmagem fugindo da violência, ela se interessa pela vida de quatro adolescentes, dos quais observa os vaivéns cotidianos sob sua janela

(01/12/2001)

Com os garotos, ela passeia pelas ruas de Ramallah, atendo-se aos signos que marcam uma cultura da morte – posters, fotos de desaparecidos...

“Somos todos viciados em notícias, na Palestina”, responde a diretora palestina Azza El-Hassan, a respeito de seu documentário News Time, apresentado em pré-estréia durante a 12ª edição do Festival Internacional do Documentário de Marselha1. Por sentir que a profusão e a banalização das imagens transmitidas sobre os palestinos lhe estava fazendo “perder a vida: nossa nação foi a mais filmada do mundo. Somos uma fábrica de boas notícias”, ela decidiu rodar um filme “que capte o que constitui minha vida, minha forma de ver o acontecimento”.

Apesar da observação de um de seus colegas – “Este não é o momento de fazer filmes, é o momento de fazer notícias” – ela decidiu fazer um retrato do dia-a-dia de sua vida em Ramallah. Depois de uma tentativa infrutífera junto aos vizinhos, cuja história de amor ela filmava e que abandonaram a filmagem bem no meio, fugindo da cidade tomada pela violência, ela se interessa pela vida de quatro adolescentes, dos quais observa os vaivéns cotidianos sob sua janela.

Quarenta anos enclausurados

Presos no conflito, os garotos se divertem com brincadeiras de guerra. “No começo eu não sabia brincar disso,” diz um deles, com uma atiradeira na mão, acrescentando: “Mas precisamos treinar, para nos proteger.” Com eles, ela passeia pelas ruas de Ramallah, atendo-se aos signos que marcam uma cultura da morte – posters, fotos de desaparecidos...

“Meus filmes tratam, todos, do exílio, da idéia do retorno, obsessiva, quando se passou a infância em uma família de refugiados”, diz Azza El-Hassan

“Diante da banalização da morte”, salienta a diretora, “estas brincadeiras são táticas de sobrevivência para as crianças.” Ao longo da filmagem, os depoimentos da vida dos garotos – entre os quais, alguns filhos de refugiados – evocando suas lembranças, tecem ao longo dos dias uma memória soterrada pelos dramas.O filme logo lhes oferece um lugar onde reconstruir outra realidade. “As crianças estão cercadas de mortes e as notícias nos desumanizam. Eu quis fazer um filme que seja uma celebração de nossa vida”, insiste Azza El-Hassan. Ilustrando a desumanização e o exílio pelo exemplo extremo de uma família de refugiados palestinos em Saïda, os Khalaf, “que se escondem do sol e das pessoas”, ela mostra as imagens espantosas de dois gêmeos, enclausurados há quarenta anos, até que, descobertos pelas autoridades libanesas, aparecem à luz do dia, mal-cuidados e cabeludos, agitando seus membros deslocados... como que cegados pela incursão no real. Os dois irmãos – escondidos pelo pai, que não suportava que os chamassem de “refugiados” – esperavam, reclusos, que se cumprisse a promessa paterna de voltar a Haifa. “Meu pai é natural de Haifa, eu nasci na Jordânia, cresci no Líbano. Vivi na Escócia e na Inglaterra. Meus filmes tratam, todos, do exílio, do estatuto de refugiado e da idéia do retorno, obsessiva, quando se passou a infância em uma família de refugiados.”

Sobre a vida

Assim, ao longo das entrevistas com os garotos, o filme se constrói, substituindo as notícias por uma outra história, humana, íntima – a volta para si mesmo. Foi então que a diretora sentiu a necessidade de parar a filmagem. “O filme nos fazia pensar demais!”, resume. Mas os jovens voltam, dia após dia. “O que eu prefiro, neste momento, é essa possibilidade de contar minha vida”, insiste um deles, para convencê-la a prosseguir. No entanto, ela insiste em sua recusa. E depois, uma manhã, ninguém mais bate à sua porta. E ela sente o vazio. Um dos garotos foi morto... Mais tarde ela irá cruzar com eles num cortejo fúnebre. À pergunta que ela lhes faz: “Vocês aceitariam, mais tarde, que eu os filmasse?”, eles respondem: “Sim. Se ainda estivermos vivos.” “Agora”, conclui Azza El-Hassan, “meus filmes não abordam mais as questões dos territórios. Eles só tratam da vida.”
(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - O festival ocorreu de 27 de junho a 1º de julho de 2001.




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