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MÚSICA

As preocupações dos rappers

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Aprovada no mês de junho, a capa de um álbum dos rappers do The Coup queria provar, “com sua implosão fantasmagórica”, que a música pode contornar as leis do capitalismo e fazer explodir o sistema. Detalhe: ao fundo, o World Trade Center, em chamas

Jean-Christophe Servant - (01/12/2001)

O rap deve ser o barômetro mais sensível das inflexões assumidas ou forçadas que poderão tomar conta da produção cultural norte-americana nos próximos meses. Depois dos anos de luta sob os governos de Ronald Reagan e George Bush pai; e depois da era da consagração financeira e da onda contestatória, sob Willian Clinton, o início do mandato de George W. Bush parecia assinalar uma retomada de reivindicações espirituais e sociais entre os novos produtores sonoros da América. Uma nova música soul com textos mais “conscientes” e menos egoístas – como Versão 2.1, de Marvin Gaye1 ou o disco Stay Human, do californiano Michael Franti2 , contra a pena de morte – e também a retomada da linha da contracultura, prenunciavam, pela primeira vez desde a Guerra do Vietnã, uma espécie de união sagrada da juventude norte-americana contra a política de Washington.

Capa de álbum censurada

Uma música soul mais “consciente” e a retomada da linha da contracultura prenunciavam uma união sagrada da juventude contra a política de Washington

As manifestações antiglobalização ocorridas em Seattle agiram como uma revelação para inúmeros estudantes californianos. Na costa leste, depois do assassinato do jovem africano Ahmadou Dialo por um policial em 1999, uma solidariedade inédita entre afro-americanos e africanos pareceu nascer em Nova York, capital cultural do rap3 . Em suma, todos os componentes de uma nova resistência civil e musical ao governo Bush pareciam aliar-se até 11 de setembro. No entanto, desde essa data, parece não haver outra escolha senão entre “o bem e o mal”, a fórmula do presidente. Para Marie Korpe, diretora-executiva da entidade Freemuse4 , “essa tragédia terá efeitos sobre o que as pessoas dirão e na forma como dirão. Será, na verdade, uma escalada absurda da autocensura”.

Primeiro exemplo dos efeitos colaterais de que é vítima a CNN da rua: a distribuidora Warner Bros, que se preparava para distribuir o terceiro álbum do grupo de rap anticapitalista The Coup5 (gravado pelo selo 75 Ark Records), decidiu trocar a sua capa. Nesta, via-se os dois membros do grupo (Boots Riley e Davey D), originários da fervilhante cena política californiana, posando diante das torres destruídas do World Trade Center. Para Boots, essa capa premonitória e metafórica, aprovada no mês de junho, visava a mostrar “o símbolo do capitalismo americano” e provar, com sua implosão fantasmagórica, “que a música pode, com sua mensagem, contornar as leis do capitalismo e fazer explodir o sistema”.

Mensagens de paz e solidariedade

Boots Riley, um dos integrantes de The Coup, é filho de um advogado simpatizante do Partido Comunista e dos Black Panthers

Acontece que, desde então, esse filho de um advogado simpatizante do Partido Comunista e dos Black Panthers avalia que “a razão pela qual a Warner Brothers retirou essa capa não tem nada a ver com a compaixão pelas vítimas. São eles mesmos que estão em vias de comprar os direitos cinematográficos daquilo que aconteceu no dia 11 de setembro. Essa mudança gráfica deve-se, principalmente, ao fato de termos uma visão política dos Estados Unidos e, portanto, de estarmos em posição de dar uma outra abordagem aos motivos dos atentados”. “Além disso, não nos esqueçamos”, diz seu colega Davey D, “que foi essa mesma empresa que, em 1992, recusou, depois das eleições presidenciais de fim de ano, o álbum do rapper Paris, que tinha uma música chamada Bush Killer e em cujo encarte se vê o músico, escondido atrás de uma árvore, pronto para assassiná-lo”.

Para Claude Grunitsky, diretor da revista nova-iorquina Trace, dedicada às culturas negras urbanas, “nos últimos anos, o rap corporate ganhou tanta força que os chamados rappers conscientes, como Mos Def, Talib Kweli e Dead Prez, foram marginalizados, dando lugar a ídolos corporate, como Puff Daddy ou Jay-Z. O fato deste último ter lançado seu novo álbum, The Blueprint, no próprio dia 11 de setembro, é significativo. Talvez marque o fim de uma época e a emergência dos discípulos do Public Enemy6 . Espero que seus propósitos sejam pertinentes e que abram os olhos da juventude norte-americana, que até então não tinha noção alguma do que se passava no resto do mundo. Os novos rappers ‘conscientes’ (muçulmanos ou não) acham que devem educar os jovens com mensagens de paz e de solidariedade, mais do que polarizar as comunidades para vender mais discos”.
(Trad: Denise Lotito)

1 - Entre os artistas dessa nova onda, destacam-se D’Angelo, Bilal, Erikah Badu e Jill Scottö.
2 - Michael Franti, “Stay Human”, selo Labels.
3 - É o que conta a faixa “Dialo”, do rapper de origem haitiana Wycleff Jean.
4 - Uma notável entidade dinamarquesa que, desde o final da década de 90, examina todo ato de censura musical: http://www.freemuse.org/
5 - The Coup, “Party Music”, selo 75 Ark Records/Pias.
6 - Grupo nova-iorquino, emblemático do rap engajado, autor, entre outros, de Burn Hollywood Burn. Também devem ser destacados os grupos Slum Village e os Cannibal Oax.




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