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GEOPOLÍTICA DA CRISE

Os paradoxos dos países do Golfo

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Os países do Golfo pérsico são aliados incondicionais de George Bush. No entanto, um abismo separa os povos árabe-muçulmanos dos Estados Unidos, ou, mais precisamente, da política externa e da estratégia planetária da hiper-potência norte-americana

Eric Rouleau - (01/12/2001)

Como se esperava, o Barein, os Emirados Árabes Unidos e o Catar alinharam-se à coalizão “Liberdade duradoura”, para lutar contra o terrorismo

Três dos países do Golfo Pérsico – o Barein, os Emirados Árabes Unidos e o Catar – figuram entre os aliados incondicionais premiados de Washington. Ostentam todas as qualidades exigidas. Considerando-se vulneráveis, colocaram-se sob a proteção do Tio Sam aceitando suas bases militares, suas tropas, seus agentes da Central Intelligence Agency (CIA) e do Federal Bureau of Investigations (FBI) e, na esteira dessa generosidade, seus vendedores de canhões e seus polivalentes especialistas. Paladinos da globalização, adotaram uma economia ultraliberal e confiaram à Wall Street centenas de bilhões de dólares. Sacrificam seus próprios interesses em benefício das indústrias ocidentais, mantendo o preço do petróleo a níveis “razoáveis”. Consomem, de forma maciça, mercadorias i. Seus dirigentes e suas elites – formados, em sua maioria, em universidades anglo-saxônicas – vivem, na intimidade, à moda ocidental, apreciam o jazz de Nova Orleans e os filmes de Hollywood, são fascinados pelo pragmatismo inovador e pelo dinamismo da nação norte-americana. Como se esperava, esses países alinharam-se, imediatamente após os atentados de 11 de setembro, sob a bandeira da coalizão “Liberdade duradoura” para lutar contra o terrorismo.

No entanto, não custa a um observador estrangeiro constatar que tudo não passa de uma fachada, cuja transparência permite detectar, em segundo plano, o abismo insondável que separa os povos árabe-muçulmanos dos Estados Unidos, ou, mais precisamente, da política externa e da estratégia planetária da hiper-potência norte-americana. O consenso é espantoso: do chefe de Estado ao cidadão anônimo da rua as críticas, disfarçadas ou não, são idênticas no conteúdo, ainda que as opiniões variem segundo o interlocutor, seja ele de tendência liberal, nacionalista ou islamista. Apesar de tudo não deixa de surpreender ouvir da boca do emir de Catar, o xeque Hamad ben Khalifa, o desabafo: “Meu país não é uma bomba de gasolina dos Estados Unidos”, ou, dirigindo-se a um alto funcionário francês, enfatizar estas palavras: “Não sou e jamais serei um marionete de Washington.”

“Bin Laden não passa de um impostor”

“Meu país não é uma bomba de gasolina dos Estados Unidos”, desabafou o xeque Hamad ben Khalifa, emir do Catar. “Não sou um marionete de Washington”

O príncipe que reina nesse riquíssimo emirado – cuja renda per capita é virtualmente a maior do mundo – voltou recentemente da capital norte-americana muito frustrado, e até humilhado, pela recepção que lhe deram. Entre os vexames por que passou, seus interlocutores lhe exigiram que exercesse controle sobre algo que até há pouco só era motivo de elogios: a emissora de televisão Al-Jazira, o mais precioso símbolo da liberalização empreendida pelo emir, com a bênção de Washington. Além do que, se recusaram taxativamente a lhe fornecer o mínimo elemento que comprovasse a culpa de Osama bin Laden nos atentados de 11 de setembro. “Minhas dúvidas continuam as mesmas”, revelou-nos, durante uma entrevista informal, antes de recorrer a outras hipóteses bastante plausíveis.

Seu ceticismo é amplamente compartilhado pela opinião pública. Pesquisas mostram que a maioria das populações daquela região acredita que o chefe da organização Al-Qaida não é o autor dos atentados, não lhe reconhecendo, entretanto, qualquer legitimidade religiosa. “O Ocidente fez de Bin Laden um chefe espiritual islâmico, quando ele não passa de um impostor”, declarou o xeque Sultan ben Zayed, vice-primeiro-ministro do emirado de Abu Dahbi. E nem tem qualquer credibilidade quando ataca o Estado de Israel, afirma o diretor de um dos grandes jornais do Dubai: ninguém ignora que esse bilionário saudita jamais contribuiu com um dólar ou com uma bala de revólver para as organizações de resistência palestinas ou libanesas.

Repressão nos Emirados Árabes

A maioria das populações da região acredita que Osama bin Laden não é o autor dos atentados, embora não lhe reconheça qualquer legitimidade religiosa

E também ninguém acredita que Bin Laden tenha um projeto político sério, que não o de tentar desestabilizar os regimes árabes, principalmente o da Arábia Saudita, que detesta acima de qualquer outro. O paradoxo é gritante: apesar de tudo, o “impostor” é extremamente popular. Ora apelidado de “Robin Hood”, ora de “Che Guevara árabe”, ele fascina a opinião pública – segundo nos explicam – por ser o único a desafiar a maior das potências mundiais, criticando-lhe a hipocrisia, a parcialidade, as injustiças. “O Che Guevara não seduziu milhões de pessoas não-comunistas por todo o Terceiro Mundo?” diz, à guisa de explicação, o xeque Saud, um político formado em universidades norte-americanas e filho do emir de Ras el-Kheima.

No entanto, os governos tentaram aplicar ao pé da letra as instruções de Washington no que se refere à luta contra o terrorismo. Deram toda a sorte de facilidades às forças armadas norte-americanas, instituíram uma estreita cooperação com a CIA e o FBI, assim como com os serviços secretos franceses e britânicos. Após romperem relações com o regime taliban, os Emirados Árabes Unidos mandaram efetuar inúmeras detenções – oficialmente qualificadas como “prisões preventivas” – e, dentre elas, a de uma centena de militares; realizaram interrogatórios “duros”, com a participação de agentes de segurança norte-americanos; expulsaram cidadãos afegãos ou paquistaneses residentes no país, suspeitos de terem simpatia por Bin Laden; e alguns imãs, de mesquitas que se opuseram à censura de suas prédicas, foram mandados para casa. O doutor Hassan Alkim, assessor particular do príncipe herdeiro de Ras el-Kheima e um militante islamista notório, foi demitido da universidade, onde dava um curso de Relações Internacionais, apesar de suas insistentes declarações resolutamente democráticas. Diplomado em universidades britânicas e norte-americanas, ele continua, no entanto, a publicar uma crônica semanal no jornal oficioso Al-Ittihad.

Os “modernistas” do Catar

Bin Laden fascina a opinião pública por ser o único a desafiar a maior potência do mundo, criticando-lhe a hipocrisia, a parcialidade, as injustiças

Os governos do Barein e do Catar não tiveram que apelar para o uso da força. Os movimentos islamistas no Barein – tanto os sunitas quanto os xiitas – são hostis, em princípio, a qualquer forma de terrorismo que, aliás, nunca praticaram; em sua maioria, militam, há cerca de 25 anos, lado a lado com os partidos leigos, defendendo um pluralismo democrático, porém declarando lealdade absoluta ao emir que, a partir do começo do ano, deu início à liberalização do sistema político. Sendo um país de turismo, tolerante a aberto aos costumes ocidentais, o Barein recebe centenas de milhares de muçulmanos, principalmente da Arábia Saudita, em busca de liberdades de que são privados em seus países de origem.

No Catar, os movimentos que reivindicam a religião do Profeta inexistem, enquanto as pessoas do círculo próximo ao poder – ironicamente designados como “islamistas ao volante de Mercedes” – são perfeitamente inofensivas. E, no entanto, estão sempre presentes nos corredores do poder. O xeque Fahd, por exemplo, filho caçula do emir, está sempre acompanhado por “afegãos árabes”, mujahidines que lutaram na guerra contra o invasor soviético da década de 80. Dividida, a família real tem diversos “modernistas”, cujo chefe de fila é o próprio monarca, conhecido por sua francofilia; a seu lado, uma esposa militante, Moza al-Misnad, e seu ministro das Relações Exteriores, o xeque Hamad ben Jassem. O ministro do Interior, outro membro da família, considerado muito conservador, foi posto para escanteio a fim de se acelerar a liberalização dos costumes. Neste país, que adota o islamismo wahabita, o uso do véu é facultativo e as bebidas alcoólicas são acessíveis aos nativos em lugares públicos.

Entidades caritativas suspeitas

Os governos do Barein e Catar não apelaram para o uso da força. Os movimentos islamistas (sunitas e xiitas) são hostis a qualquer forma de terrorismo

Se a repressão às atividades de grupos islâmicos radicais foi bem sucedida, o problema do financiamento clandestino de organizações terroristas está longe de ter sido resolvido. O congelamento de contas bancárias consideradas duvidosas revelou-se, em grande parte, impraticável no Barein, onde funcionam dezenas de bancos estrangeiros off-shore que fogem ao controle do Estado; no Catar, as instituições financeiras – muitas vezes administradas por amigos da família real – garantem que seus clientes, com algumas raras exceções, estão acima de qualquer suspeita; nos Emirados Árabes, contas bancárias de 149 empresas e clientes particulares foram “colocadas sob observação”, podendo vir a ser congeladas caso se descubram operações suspeitas.

Quanto às riquíssimas entidades caritativas que os norte-americanos suspeitam de transferir fundos para movimentos subversivos, as autoridades estão conscientes do duplo papel que elas desempenham. Por um lado, dão assistência a populações deserdadas do mundo muçulmano, financiando principalmente a construção de uma infra-estrutura de interesse público e dando uma ajuda em dinheiro às famílias carentes. Por outro lado, dão uma ajuda multiforme aos “mujahidines da liberdade” em diversos países – da Chechênia aos Bálcãs, do Cáucaso à Palestina. É bastante possível que sejam desviados fundos para causas inconfessáveis, mas como saber e, principalmente, como provar? Diante desse enorme dilema, os governos acabaram fazendo corpo mole, em prejuízo do aliado norte-americano.

Repúdio da opinião pública

A mesma impotência se verifica na luta contra a lavagem de dinheiro sujo. O porto de Dubai – considerado a principal escala do comércio triangular, do contrabando, de tráficos de todo tipo praticados por máfias internacionais, abrangendo uma área geográfica que vai de Moscou à Cidade do Cabo, do Texas ao sub-continente indiano, um paraíso fiscal apreciado por investidores e especuladores – é famoso por ser um santuário e uma correia de transmissão para capitais de origem duvidosa. “Por que essa obsessão com o Dubai?” pergunta, indignado, o xeque Hamdan ben Zayed, chefe da diplomacia dos Emirados. “Em plena era da globalização”, continua, “este porto não passa de um elo na longa cadeia de intermediários financeiros que se desfia de Nova York a Genebra, de Cingapura a Londres, passando por Hong Kong.” Em outras palavras, terroristas de qualquer tendência não precisam se preocupar quanto ao financiamento de suas atividades, seja qual for o destino de Bin Laden e seus cúmplices.

O xeque Fahd, por exemplo, filho caçula do emir do Catar, é freqüentemente visto na companhia de “afegãos árabes”, mujahidines

O regime taliban é desprezado por unanimidade, mas a campanha militar norte-americana no Afeganistão provoca tanto o repúdio da opinião pública (com 80% de hostilidade, segundo uma pesquisa), quanto uma certa reserva por parte dos dirigentes. Nenhum deles apoiou publicamente a intervenção dos Estados Unidos: todos estão persuadidos de que ela não porá fim ao mal que pretende extirpar, mesmo que seja coroada de êxito.

Uma intervenção inaceitável

Em Doha, o chefe da diplomacia do Catar garante, numa entrevista, que “compreende a necessidade imperativa dos norte-americanos de vingarem seus mortos, mas teme as conseqüências “catastróficas” de uma guerra prolongada. De modo especial, a desestabilização dos regimes paquistanês e saudita – explicam seus colaboradores – arrastará no furacão os países vizinhos.

Em Abu Dhabi, o ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos emite uma opinião ainda mais importante: “Para nós, é uma questão de princípio”, afirma o xeque Hamdan ben Zayed, “pois nos parece inaceitável que uma potência, seja qual for, se encarregue de depor o regime de um outro país, por mais detestável que possa ser, criando um perigoso precedente nas relações internacionais.” O xeque Sultan ben Zayed, por seu lado, vice-primeiro-ministro, lamenta “o comportamento unilateral dos Estados Unidos, marginalizando a ONU, por exemplo, de um assunto que ela deveria e poderia tratar melhor e de outra maneira”.

A questão palestino-israelense

Em Manama, o xeque Mohamed ben Mubarak, chefe da diplomacia do Estado do Barein, insiste, como todos os seus colegas do mundo árabe, em que os Estados Unidos fariam um trabalho bem mais útil se se dedicassem à tarefa de desvendar as causas políticas do terrorismo. É claro que elas são múltiplas, reconhece Ben Mubarak, mas as frustrações decorrentes do interminável conflito no Oriente Médio têm uma importância capital.

O regime taliban é desprezado por unanimidade, mas a intervenção norte-americana provoca repúdio da opinião pública e reserva por parte dos dirigentes

Com relação a esse assunto, o consenso de opiniões idênticas entre os altos dirigentes é tal, que poderia ser resumido da seguinte forma: é urgente que os Estados Unidos intervenham, em estreita colaboração com a Europa e as Nações Unidas, para resolver o conflito palestino-israelense, e, de imediato, pôr fim à sangrenta repressão da Intifada, uma insurreição legítima por parte de um povo invadido e oprimido. A demagogia do chefe da Al-Qaida, que tenta legitimar seus crimes denunciando a parcialidade de Washington, não deveria servir de pretexto para ignorar a crescente raiva da opinião pública árabe, geradora de todo tipo de extremismos. Por outro lado, um acordo teria como efeito abrir caminho a uma plena normalização das relações entre Israel e os demais países do Oriente Médio.

Ceticismo e apreensões

Não foi certamente por acaso que todos os nossos interlocutores lembraram, de modo espontâneo, que “a paz com Israel é um objetivo estratégico dos países membros da Liga Árabe”, nos termos de uma resolução adotada logo após os acordos de Oslo. “Nós não cansamos de garantir aos Estados Unidos que estamos dispostos a reconhecer o Estado judeu e normalizar as relações com ele, desde que concorde em sair dos territórios ocupados”, declara, por exemplo, o chefe da diplomacia dos Emirados Árabes Unidos. O Catar confirma essas boas intenções ao não fechar o “escritório comercial” de Israel em Doha, mas apenas suspendendo suas atividades – e autorizando os diplomatas israelenses a ficarem em seus postos, à espera de dias melhores.

Apesar das declarações – de cunho tranqüilizador – do presidente George W. Bush e de seu secretário de Estado, Colin Powell, predomina o ceticismo no que se refere à vontade de Washington de alcançar um acordo justo no Oriente Médio e de restringir a sua “guerra contra o terrorismo”. Uma prova desse estado de espírito foi dada pela petição – assinada por 89 dos cem senadores – solicitando ao presidente Bush que não crie obstáculos à luta de Ariel Sharon “contra o terrorismo palestino”. Acima de tudo, os dirigentes dos países do Golfo temem que Washington passe a perseguir organizações palestinas – como o Hamas, o Jihad Islâmico e a Frente Popular, considerados como movimentos de resistência – e países considerados subversivos, o Iraque em primeiro lugar. Se forem essas as intenções norte-americanas, dizem em uníssono, o abismo que separa o Ocidente do mundo árabe-muçulmano aumentará ainda mais, podendo-se, então, temer pelo pior.
(Trad.: Jô Amado)




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