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ORIENTE MÉDIO

O dia-a-dia da repressão

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O exército israelense destruiu três casas, onde viviam as famílias de três homens procurados, num vilarejo próximo a Ramallah: um do Hamas e dois da FPLP. Em alguns segundos, os explosivos deixaram cerca de trinta pessoas desabrigadas

Amira Hass - (01/12/2001)

Omar, de quatro anos, pergunta à mãe: “Como é que os Estados Unidos chegaram até nós, mamãe?” Um destacamento do exército israelense está em via de se instalar no vilarejo de Beit Rima, a noroeste de Ramallah. Estamos na madrugada de 24 de outubro de 2001. Blindados, unidades de infantaria e três helicópteros acabam de explodir duas posições estratégicas palestinas: a Polícia e a “Segurança Nacional” (uma espécie de polícia das fronteiras). Em uma hora, cinco palestinos são mortos - dois policiais e três homens da Segurança Nacional – e nove ficam feridos, dentre os quais um civil.

Os oficiais israelenses afirmaram que o exército apenas respondeu a tiros; em outros termos, que se tratava de um combate. Mas vários depoimentos coincidentes revelam que pelo menos três dos homens mortos dormiam no momento em que atiraram neles, e que a maioria dos outros compreendeu rapidamente que seus fuzis kalachnikovs não podiam fazer muita coisa contra o enorme poder de fogo que os cercava. O exército não permitiu às equipes médicas palestinas, nem ao médico local, que socorressem os feridos. É por isso que, nas primeiras horas após a ofensiva, boatos mencionavam um grande número de mortos. Vários feridos perderam sangue durante quatro a cinco horas, até a chegada da equipe médica militar israelense. É difícil saber se alguns dos que morreram teriam podido salvar-se se tivessem sido assistidos mais cedo.

Granadas e gás lacrimogêneo

Os depoimentos de várias testemunhas são coincidentes: revelam que pelo menos três dos homens mortos dormiam no momento em que atiraram neles

O tiroteio continuou até seis horas, quando o toque de recolher foi imposto no vilarejo. Até as onze horas, as forças armadas prenderam quarenta e dois moradores, que foram levados, com pés e mãos amarrados, os olhos vendados e a cabeça coberta com um saco, para uma tenda-prisão instalada não longe dali, em terras da colônia vizinha de Halamich. Foram deixados assim durante horas, sentados no chão, de cabeça abaixada, até serem interrogados por um oficial do Shin Beth. Ao cabo de várias horas, receberam permissão para se apoiarem nas costas uns dos outros. Trinta e um deles foram soltos depois de meia-noite e puderam, finalmente, voltar para suas casas, enquanto os outros onze foram levados presos. Entre estes, pelos menos cinco foram soltos. O exército declarou ter efetuado prisões importantes, relacionadas com o assassinato do ministro Rehavam Zeevi, no dia 17 de outubro. Mas os dois principais suspeitos por tal assassinato, originários do vilarejo, não estavam lá no momento da ofensiva.

Durante esse tempo, o exército destruiu três casas onde viviam as famílias de três homens procurados: um membro do Hamas (suspeito de envolvimento no atentado a uma pizzaria em Jerusalém) e dois membros da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP). Em alguns segundos, os explosivos colocados pelos soldados deixaram cerca de trinta pessoas desabrigadas. A força da explosão também danificou casas próximas. Todo o interior de uma quarta casa, esta de pedra, se incendiou: os soldados recusavam-se a acreditar nos vizinhos, que lhes explicavam que os moradores, no momento, se encontravam em Ramallah. Jogaram no interior uma granada ofensiva, ou fumígena, e uma bomba de gás lacrimogêneo. Algo se incendiou e logo nada sobraria senão uma espessa nuvem de fumaça e carcaças de sucata de ferro, carbonizadas. Só um cinzeiro de vidro grosso escapou intacto do fogo.

Destruindo casas com buldôzer

Vários feridos perderam sangue durante quatro a cinco horas – a assistência foi proibida – até a chegada da equipe médica militar israelense

No dia seguinte, dezenas de crianças divertiam-se no pequeno vilarejo, de 4 mil habitantes, à procura das relíquias do ataque: centenas de cartuchos vazios, de vários calibres: os maiores, particularmente pesados, provinham dos helicópteros e ainda estavam amarrados com tiras de borracha.

Esse tipo de espetáculo tornou-se freqüente ao longo do ano que está acabando: crianças palestinas catando cartuchos vazios, estilhaços de obuses, de bombas de gás lacrimogêneo, de granadas ofensivas – o que sobra, depois de cada operação israelense. As crianças agitam para os passantes pesados sacos, cheios dessas provas.

Em todas as cidades palestinas, a visão de casas carbonizadas, esburacadas pelos obuses israelenses, é dolorosamente familiar, nos dias de hoje. O principal instrumento de destruição das casas, sobretudo nos campos de refugiados de Rafah e de Khan Younis, na faixa de Gaza, continua sendo o buldôzer, cujo condutor não se vê: o exército resolveu criar uma zona-tampão entre o campo e a fronteira (com o Egito) de um lado, e o bloco principal de colônias, do outro. Em Rafah, as destruições de casas também se destinam, segundo o exército, a impedir a infiltração de armas provenientes do Egito: desde a década de 80, os palestinos cavaram trincheiras na direção do Egito pelas quais passavam, sobretudo, drogas e produtos de consumo barato - às vezes também pessoas. Atualmente, sempre segundo o exército, essas trincheiras tornaram-se uma via para fazer chegarem armas e munições aos “terroristas”.

Bombardeios de helicópteros e aviões

Jogaram uma granada no interior da casa. Algo se incendiou e, num instante, só se via uma nuvem de fumaça e carcaças de sucata de ferro, carbonizadas

Por detrás das fileiras de casas destruídas, erguem-se outras fileiras de casas palestinas crivadas de buracos, provocados pelos projéteis provenientes das posições israelenses e dos postos de tiro erguidos ao longo da fronteira e nas colônias. O exército israelense continua a destruir as casas e a atirar, enquanto palestinos anônimos sempre colocam explosivos nos eixos de circulação do exército israelense, em direção às colônias. Geralmente, não há feridos israelenses; mas, quase todos os dias, contam-se mortos e feridos palestinos.

O exército de Israel (Tsahal) afirma que seus tiros e seus obuses são uma reação aos tiros dos palestinos. Desde 29 de setembro de 2000, a Intifada vem sendo marcada pelo poder da repressão do exército israelense, muito superior ao das operações palestinas contra alvos israelenses: quando os palestinos começaram por arremessos simbólicos de pedras na direção das posições militares diante das cidades palestinas, os soldados responderam com tiros mortíferos, com balas verdadeiras, contra os manifestantes e os atiradores de pedras. Em um mês, foram mortas mais de cem pessoas que, segundo inúmeras testemunhas, não ameaçavam a vida dos soldados. Em um número não desprezível de casos, o exército não atirou “em reação”, mas por sua própria iniciativa. O exército respondeu com armas pesadas a tiros sem eficácia, “para o alto”, ou a morteiros artesanais e primitivos. Quando os tiros palestinos se tornaram “eficazes”, quando palestinos recomeçaram os atentados-suicidas em Israel, quando civis e soldados israelenses foram mortos, o exército israelense respondeu com bombardeios através de helicópteros, depois através de aviões. Segundo o porta-voz israelense, essas operações eram necessárias para lutar contra a ofensiva terrorista palestina.

Uma resistência artesanal

O exército israelense resolveu criar uma zona-tampão entre o campo de Rafah e a fronteira, de um lado, e o bloco principal de colônias, do outro

O raciocínio palestino é inverso: em outubro de 2000, diz-se em Belém, sete ou oito jovens da região, armados (mas que, no entanto, não pertencem à Segurança Palestina), decidiram que a luta contra a ocupação israelense deveria ser travada pelas armas. Provavelmente, são os responsáveis pelo assassinato de três soldados israelenses no dia 1° de novembro de 2000. Uma semana mais tarde, Israel assassinou o seu líder, Hussein Abyat. Hoje, ao cabo de um ano de assassinatos com alvo definido e de operações militares israelenses cuja amplitude não pára de aumentar, fala-se em Belém que há cerca de mil jovens – senão mais – equipados com armas que compraram com recursos próprios.

De 19 a 28 de outubro de 2001, quando o exército israelense entrou com um número considerável de forças blindadas no coração da cidade, instalando-se em sete casas, esses jovens armados tentaram organizar uma oposição: bombas artesanais, coquetéis molotov, tiros a partir das casas dos campos palestinos onde estão postados os tanques israelenses, snipers, fuzis kalachnikovs. Um desses jovens, que diz pertencer às “Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa”, próximas ao Fatah, explicou-me que eles sabem muito bem que, apesar das armas que possuem, são incapazes de deter os tanques. Mas sentem orgulho pelo fato de que nenhum soldado israelense tenha ousado descer dos veículos blindados nem mostrar a cara, com medo de tornar-se alvo de um sniper palestino. Em dez dias, em Belém, dezesseis palestinos - dos quais onze civis - foram mortos na rua ou em suas casas. Um soldado israelense sofreu ferimentos de gravidade média. Três outros palestinos armados foram mortos durante uma operação militar com alvos definidos.

Dois milhões na pobreza absoluta

Ao cabo de um ano de assassinatos com alvo definido, fala-se em Belém que há cerca de mil jovens palestinos – senão mais – equipados com armas

Nessa mesma época, final de outubro, um bairro do norte de Ramallah foi igualmente invadido pelos tanques, que bloquearam também as vias de acesso às cidades de Jenine, Tulkarem e Qalqiliya. Durante dois dias, em Ramallah, onde mora Marwan Barghouti, dirigente do Fatah, homens da Segurança Palestina e militantes armados do Fatah atiram nas forças israelenses, depois mais nada. Quatro palestinos armados morreram, nenhum israelense foi atingido. Quando pára o tiroteio, inúmeros soldados descem dos tanques e dos carros blindados. Impõem o toque de recolher 24 horas por dia e proíbem o acesso à cidade dos cerca de 30 mil habitantes dos vilarejos próximos e de um campo de refugiados vizinho. A cada dia, centenas de habitantes “transgridem as ordens” e vão a pé ao bairro sob toque de recolher, sob a ameaça dos canhões e das metralhadoras dos tanques e blindados. Às vezes, os soldados atiram bombas de gás lacrimogêneo e granadas ofensivas bem no meio dessas pessoas, que se escondem, fogem, deslocando-se por caminhos acidentados e pedregosos, escalando declives abruptos. Tudo isso para poderem chegar à escola, ao trabalho, ao mercado, ao posto de saúde, aos escritórios da Autoridade Palestina. Apesar de tudo, as ruas de Ramallah estão quase inteiramente vazias.

“Pelo menos, você tem como ganhar a vida!”, dizem a um vendedor de falafels – é a refeição para viagem mais nutritiva e menos cara que se pode encontrar - do centro de Ramallah. “Vou surpreender você, mas, até hoje, as pessoas nunca compraram tão pouco falafel!”, responde ele. Dois, dos três milhões de palestinos da Cisjordânia e de Gaza, vivem abaixo do limiar de pobreza, segundo os números do Centro Palestino de Estatísticas. Cerca de 15% das famílias perderam qualquer fonte de renda, principalmente na faixa de Gaza, onde não podem acabar se contentando com uma pequena produção agrícola familiar, como na Cisjordânia.

O inferno dos blocos de concreto

A economia palestina foi praticamente paralisada. Blocos de concreto foram postos à entrada das aldeias, impedindo a passagem dos carros

Em um ano, a economia palestina foi praticamente paralisada. Não se trata dos tanques nem dos helicópteros. Há um ano, blocos de concreto foram colocados nas entradas de todos os vilarejos palestinos, impedindo a passagem dos carros tanto num sentido como no outro. O trânsito pelas estradas que servem às colônias israelenses em geral é proibido aos palestinos. As pessoas andam quilômetros a pé e mudam de táxi três ou quatro vezes antes de chegarem a seu destino. Deslocamentos que antes levavam vinte minutos transformaram-se em odisséias de duas ou três horas. Estudos, trabalho, construção, desenvolvimento, vida social – tudo encolheu sem parar por causa desses blocos de concreto.

Dois vilarejos ainda são mais prejudicados que os outros por causa do bloqueio: Beit Furiq e Beit Dajan, a leste de Nablus, com uma população total de 12 mil habitantes. Ficam numa estrada que leva a três das colônias mais fanáticas. No final de outubro, a saída dos vilarejos foi pura e simplesmente interditada. Durante mais ou menos duas semanas, não puderam ser abastecidos nem de alimentos nem – o que é pior ainda – de água. Beit Furiq e Beit Dajan não estão ligados à rede de água (as colônias vizinhas estão) e dependem, portanto, da água de chuva e de fonte, mas, principalmente, do abastecimento através de caminhões-pipa. Durante oito dias inteiros, os soldados não deram autorização aos motoristas para buscarem água. Mais tarde, esses mesmos motoristas foram retidos durante horas na barreira, o que os impediu de trazer a quantidade de água suficiente para as necessidades do vilarejo.

Do lado do exército, dizem que, nesse período, havia ameaças de atentados, razão pela qual os caminhões-pipa e os caminhões com alimentos foram retidos na entrada dos dois vilarejos. Admite-se que, em alguns casos, “os caminhões foram retidos além da conta”; outros vilarejos e outras regiões sofrem atrasos do mesmo tipo, se bem que menos graves, em seu abastecimento de água e de alimentos. Os obuses, as balas e os assassinatos – me disse um dos moradores do vilarejo – atingem somente algumas centenas, talvez alguns milhares de pessoas. Mas os blocos de concreto fazem sofrer o povo todo.
(Trad.: Iraci D. Poleti)




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