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PENTECOSTALISMO

Ópio do povo ou cultura popular?

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Nascido do protestantismo – e praticamente simultâneo – no início do século XX, nos Estados Unidos, África do Sul, Brasil e Chile, o movimento Despertar (pentecostalismo) passou por uma verdadeira explosão a partir da década de 80

André Corten - (01/12/2001)

Nunca a Igreja Universal do Reino de Deus obtivera tamanha audiência. Em 12 de outubro de 1995, dia da festa da padroeira do Brasil, através da rede brasileira mais importante de televisão, um bispo daquela Igreja tenta convencer seus adeptos sobre a idolatria dos católicos, chutando uma estátua de Nossa Senhora Aparecida. Com isso, pretende implicitamente denunciar a religiosidade de um Estado supostamente laico. Naquele dia, muitos brasileiros que jamais haviam prestado atenção à Igreja Universal do Reino de Deus, ficaram indignados com o sensacionalismo, ao mesmo tempo que muitos deles se sentiram secretamente orgulhosos dessa multinacional de cor brasileira.

Em setenta países do mundo, a Igreja Universal prega uma mesma mensagem, bem sucedida: “Pare de sofrer”. Acuada pelas comissões parlamentares que investigam as seitas na França (1995) 1 e na Bélgica (1997) – segundo esta última, ela seria “palco de inúmeros escândalos sexuais” –, a Igreja Universal do Reino de Deus está em franca expansão na América Latina e na África.

O futuro do cristianismo no Terceiro Mundo

Acuada por comissões parlamentares que investigam as seitas na Europa, a Igreja Universal está em franca expansão na América Latina e na África

Assim, em uma cidade como Kinshasa, no Congo (ex-Zaire), completamente devastada pela miséria, o pentecostalismo também explodiu: “Jesus, Jesus!”, urram nas igrejas os fiéis em transe, rolando pelo chão, inflamados por pastores carismáticos às vezes chamados de “vigaristas de Deus2 ”. Eles fazem esquecer a fome, a doença, a promiscuidade, desmascarando “os ataques de bruxaria a que é exposta qualquer vítima de uma decepção pessoal, de melancolia e de incredulidade”, segundo o trecho de um sermão proferido na capital do Congo. Fazem os fiéis sonhar com a “prosperidade milagrosa”. E se as igrejas invadem as ruas e, ao cair da noite, ecoam de todos os lados cânticos e gritos, também penetram pela televisão, pelos vídeocassetes e até pela Internet. “Se não forem tomadas medidas draconianas, dentro de dez anos a nação congolesa será constituída por uma geração de tarados e psicopatas”, afirma o professor Mweze, decano das Faculdades Católicas de Kinshasa3 .

Além da “influência ameaçadora de um islamismo extremista, em expansão na Ásia e na África”, a Igreja católica receia a “concorrência devoradora, nas grandes metrópoles do Terceiro Mundo, das Igrejas evangélicas, das seitas e de um ‘pentecostalismo’ desenfreado4 ”. E no entanto, perguntam teólogos protestantes5 , “não seria o pentecostalismo o futuro do cristianismo no Terceiro Mundo?” De qualquer maneira, tanto na África quanto na América Latina, fala-se cada vez mais em conversão. As Igrejas multiplicam-se com os mais diversos nomes, alguns deles conhecidos, como Assembléia de Deus ou Igreja de Deus, e outros menos, como Deus É Amor, Igreja Viva, Templo de Sion, Igreja da Vitória etc. O termo “pentecostal” raramente aparece nos nomes; utiliza-se quase sempre a palavra “evangélicas” para as designar.

O fator uniformidade

E no entanto, perguntam teólogos protestantes, “não seria o pentecostalismo o futuro do cristianismo no Terceiro Mundo?”

O que se entende por pentecostalismo? Sua especificidade doutrinária (que nada tem de heterodoxo com relação às Igrejas instituídas) considera como atuais os dons do Espírito Santo (falar línguas, cura, profecia, exorcismo etc.) tais como são descritos na narrativa de Pentecostes dos “Atos dos Apóstolos”. Nascido do protestantismo – e praticamente simultâneo – no início do século XX, nas Igrejas negras dos Estados Unidos, África do Sul, Brasil e Chile, o movimento Despertar passou por uma verdadeira explosão a partir da década de 80. Incluindo-se o grupo das Igrejas sionistas6 e apostólicas, abrange, na África do Sul, mais da metade da população, quando não passava de um quarto há vinte anos. Em países como o Chile e a Guatemala, atrai de 15 a 25% da população. Tanto na África quanto na América Latina, o número de adeptos deste novo proselitismo já ultrapassaria os cem milhões.

No sentido comum do termo, trata-se de “seitas”, devido ao proselitismo e às exigências rigorosas exigidas de seus membros. Entretanto, o movimento não atende a vários outros critérios que caracterizam as seitas (principalmente o de caráter ultraminoritário) visto que, no sentido sociológico do termo, não há exclusividade (a fórmula “fora da Igreja, não há salvação” não se aplica: o que conta é a “conversão a Jesus”) e o afastamento com relação ao “mundo” é cada vez menos acentuado7 . Seja ela o que for, essa crença extraordinária pode-se medir pela multiplicação das denominações, que atravessam fronteiras (Quênia, Uganda, Ruanda, Burundi, Tanzânia ou Brasil, Venezuela, Uruguai, Argentina). Aliás, o que chama atenção é a uniformidade. Como explicar a semelhança desses novos cultos em Ruanda, Zimbábue, Costa do Marfim, Bolívia, Brasil, Guatemala e Haiti? Efeito ou manifestação da globalização8 ?

A crítica da “simplificação”

O termo “pentecostal” raramente aparece nos nomes das igrejas; utiliza-se quase sempre a palavra “evangélicas” para as designar

Até o final da década de 80, circulava uma única explicação sobre esta explosão, que, nos meios católicos, é resolutamente denominada de “seitas”. Faz-se referência ao Relatório Rockefeller de 1969 bem como ao Documento de Santa Fé, plataforma ideológica do presidente norte-americano Ronald Reagan em 1980. Em ambos os casos, trata-se do perigo de infiltração marxista na Igreja católica e dos perigos da teologia da libertação. Aliás, a hierarquia católica também se preocupa. Não é que, desde 1969, com o apoio discreto da CIA, a Universidade de Louvain, na Bélgica, tenta fundar um centro de ética cristã do desenvolvimento para controlar melhor os teólogos latino-americanos, em parte formados por ela mesma? Em conseqüência disso, e para contrabalançar a influência da teologia da libertação no mesmo terreno, a estratégia sugerida por esses relatórios consiste, principalmente, em apoiar as Igrejas evangélicas que começavam na época a se expandir. Há, portanto, um elemento de realidade na opinião obsessiva de que as Igrejas pentecostais constituem o “braço espiritual” do imperialismo norte-americano.

Em 1990, dois livros brilhantes – o de David Stoll9 , um norte-americano de espírito crítico, e o de David Martin10 , famoso sociólogo britânico, estudioso das religiões – põem um ponto final a essas simplificações. Se é verdade que Washington vê com bons olhos o desenvolvimento desses movimentos evangélicos – por introduzirem elementos da cultura norte-americana, contrabalançando a influência mais européia do catolicismo – não está definitivamente provado que a extraordinária expansão desses movimentos se deva a financiamento dos Estados Unidos. Nem está provado que tenham recebido qualquer apoio financeiro importante (mais importante, em todo o caso, que os destinados às diversas correntes católicas).

A “teologia da prosperidade”

O que se entende por pentecostalismo? Sua especificidade doutrinária considera como atuais os dons do Espírito Santo descritos nos “Atos dos Apóstolos”

Na realidade, muitas dessas Igrejas são totalmente autônomas. A expansão da Igreja Universal do Reino de Deus fornece mesmo um eloqüente contra-exemplo no que se refere à direção dos fluxos financeiros. No caso, é o dinheiro dos pobres brasileiros que permite a implantação da Igreja em todos os continentes (inclusive nos países do hemisfério Norte).

A homogeneização dos estilos de religiosidade e de doutrina, com base no modelo norte-americano, fornece um argumento mais sólido em favor da tese do “braço espiritual”. Em qualquer lugar da África ou da América Latina, grandes cruzadas atraem massas impressionantes de adeptos ou de curiosos aos estádios, programas televisivos de “cura divina”, às vezes transmitidos 24 horas sem parar, atingem camadas cada vez maiores da população, e, até nas cidades menores, encontram-se disponíveis nas prateleiras das livrarias evangélicas best-sellers de devoção, traduzidos de edições norte-americanas. Tudo é sempre associado aos nomes de alguns grandes televangelistas como Jimmy Swaggart, Pat Robertson, Kenneth Copeland, Reinhard Bonnke ou Paul Yonggi Cho, alguns dos quais lideram, nos Estados Unidos, a coalizão cristã e fazem parte do círculo íntimo dos presidentes.

Por outro lado, como explica Paul Gifford11 , que mostrou o parentesco do pentecostalismo com a extrema-direita sul-africana, suas principais doutrinas são parcialmente (e em diversos graus) de origem norte-americana, quer se trate da “teologia da prosperidade” – Deus não ama a pobreza (enriquecer não é um pecado) –, da libertação e da guerra espiritual – o que importa é expulsar Satã de nossos corpos, de nossos espíritos e de nossos países –, ou ainda do que Gifford chama de sionismo cristão (ver nota de rodapé nº 6).

A promessa do enriquecimento rápido

Na África, assim como na América Latina, o número de adeptos do pentecostalismo já ultrapassaria os cem milhões

Tanto na África quanto na América Latina, isso justifica a referência constante a Israel nos sermões, assim como o convite feito aos fiéis para fazer peregrinações a Jerusalém, comparáveis às dos muçulmanos a Meca. Esta guerra espiritual de tom milenar toma também formas inesperadas: na Costa Rica, um famoso pastor pentecostalista sobrevoou o país “da fronteira de Nicarágua à do Panamá, e de Puntarenas a Limón, derramando óleo santo a cada seis quilômetros”, para “libertar o território nacional de modo a facilitar a evangelização12 ”!

Será que, à medida que o pentecostalismo clássico, o novo pentecostalismo (“neo-pentecostalismo”) e as Igrejas do mesmo tipo adaptam os “pobres” às exigências do mercado, se estaria não somente diante do “braço espiritual” do imperialismo norte-americano, mas também do neo-liberalismo triunfante? A julgar pela “máquina narrativa” do pentecostalismo, que divulga seu sucesso mundial, e que é dirigida aos indivíduos (em geral pobres) e não às camadas proletárias enquanto grupo, ele consegue efetivamente amortecer o choque dos programas de ajuste estrutural. E dá aos convertidos o que o Banco Mundial chama de votos, isto é o empowerment (a outorga de direitos) às mulheres e aos homens, a confiança em si mesmo e na capacidade de vencer a adversidade! Permite aos excluídos da sociedade não se deixarem esmagar e “renascer”.

Inebriados pela emoção de cultos exuberantes, os crentes atravessam, sem protestar, as novas provas a que a globalização neoliberal os submete. Com a chave da promessa de um enriquecimento rápido, à imagem dos pastores que dirigem um 4x4... Dê e Deus lhe dará em dobro!

Emoção ou felicidade ilusória?

Como explicar a semelhança desses cultos no Zimbábue, Costa do Marfim, Bolívia, Brasil, Guatemala e Haiti? Efeito ou manifestação da globalização?

Novo “ópio do povo”? Convém não esquecer a primeira parte da famosa frase de Marx: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o calor de um mundo sem coração, e o espírito das condições sociais das quais se encontra excluído o espírito.” Nessa perspectiva, é preciso ver que tanto o catolicismo quanto o protestantismo histórico passaram, nos últimos séculos, por uma crescente racionalização, um desencanto, a que Marcel Gauchet chama “uma saída da religião”, já não oferecendo o calor nem o consolo. Ora, em contrapartida, novas necessidades religiosas afirmam-se no mundo contemporâneo: necessidade de emoção, do sagrado (principalmente pelo surgimento de forças aterrorizantes), de participação. Na América Latina, o pentecostalismo retoma a devoção e o misticismo popular bastante difundidos no século XIX, expressão popular “pagã” que a Igreja católica pretendeu disciplinar, a partir do último terço do século em questão, pelo chamado processo de “romanização”.

Na África, o pentecostalismo alia-se ao profecismo – ao mesmo tempo abertura e resistência. Diante do crescimento da racionalização e da “virtualização”, os oprimidos do mundo reivindicam o calor da emoção e o sentimento de estar junto; buscam cenários que atestem a atrocidade do mal que os oprime, encontrando nisso um sentido do sagrado. Felicidade ilusória? Muitas vezes, eles se convencem que a ilusão se encontra do lado dos que, não sem irresponsabilidade, prometem revoluções que acabam por oprimi-los ainda mais.

A fantasia de ganhar na loteria

Há um elemento de realidade na opinião obsessiva de que as Igrejas pentecostais constituem o “braço espiritual” do imperialismo norte-americano

A “máquina narrativa” do pentecostalismo é dirigida aos indivíduos e não mobiliza camadas sociais. Ao mesmo tempo que mulheres e homens são separados, vivem em um universo holístico onde tudo está em tudo. Impregnados de uma cultura mediúnica – crêem na presença de espíritos –, continuam a se sentir próximos da natureza e de sua comunidade, que tentam recriar quando se desintegra. Em lugar algum o holístico se manifesta melhor do que no que se denomina de “cura divina”. Uma nova abordagem para cada indivíduo de seu corpo, de sua relação com os outros, de suas necessidades espirituais, a “cura divina” não significa uma simples mudança de estado psicológico: ela é uma regeneração. Ela é conseguida por um “novo nascimento” (born again), uma maneira de o indivíduo se reencontrar, mas também de a comunidade se reconciliar. A transição da África do Sul para uma nova sociedade – ainda que falte fazer tudo no plano das desigualdades econômicas (cada vez mais explosivas) – fez-se por meio dessa concepção de “cura” típica do cristianismo sul-africano.

Os pentecostais irritam espontaneamente os intelectuais. Para estes, o misticismo não passa de gestos grotescos, e os fiéis, crentes atrasados e mesmo oportunistas. Os pentecostais pregam a hipermodernidade (principalmente por meio de redes transnacionais e pelo uso dos meios de comunicação) mas, ao mesmo tempo, parecem atrasados pela crença nos maus espíritos (transfigurados em manifestações de Satã). Mostram-se muito rigorosos (proibição de álcool, tabaco, sexualidade muito restrita etc.) e ao mesmo tempo carnais (às vezes, os cultos assemelham-se razoavelmente a balés sensuais). Reivindicam a aplicação literal da Bíblia, adaptada à experiência de cada um. Apoiada em uma leitura literal sobre a prosperidade de Abraão abençoada por Deus, a “teologia da prosperidade”, por exemplo, apresenta-se como a expressão da fantasia popular de ganhar na loteria; ao mesmo tempo, é a afirmação de um direito, o de escapar à humilhação, à miséria e à dependência. Dedicando-se a Cristo, o crente transforma-se em “vencedor”.

Pregando a “guerra espiritual”

A “máquina narrativa” do pentecostalismo é dirigida a indivíduos: mulheres e homens vivem em um universo holístico onde tudo está em tudo

Esta adaptação irrestrita aos sinais da globalização irritou durante muito tempo os antropólogos. Envoltos na autenticidade africana, os africanistas em particular negligenciaram esse fenômeno “americano”. Foi preciso que a jovem geração de antropólogos, sociólogos e cientistas políticos (muitas vezes britânicos e franceses) se interessasse pelo assunto para que o fenômeno começasse a ser estudado. Na América Latina, brasileiros, chilenos e argentinos começaram antes, de forma que o fenômeno é hoje melhor conhecido.

A cultura do “mau gosto” e o estilo “supermercado da fé” do pentecostalismo, atualmente já são aceitos sem muito juízo de valor. Quer se goste ou não, percebe-se que se trata de uma expressão da cultura popular. Uma cultura que não quer ficar longe do que se passa no mundo – antes, uma cultura de retiro e de refúgio, o pentecostalismo tornou-se uma cultura de adaptação – mas que não renega suas tradições, muitas vezes vistas de fora como superstições.

O fenômeno espalha-se por todos os cantos do mundo. Fala-se muito de seu desenvolvimento na Ásia (mesmo na China13 ), mas os estudos são ainda pouco numerosos14 . Ele é vivido como uma guerra total. “A década de 90 será definitivamente testemunha da guerra espiritual mais intensa que a Igreja terá conhecido em 2000 anos de história”, ensina-se nas escolas bíblicas. “Não há zona desmilitarizada!” Os mesmos rituais se observam por toda parte, o mesmo uso da mídia, as mesmas “máquinas narrativas”.

Reproduzindo a ideologia dominante

A cultura do “mau gosto” e o estilo “supermercado da fé” do pentecostalismo, atualmente já são aceitos sem muito juízo de valor ou preconceito

No entanto, essa padronização está longe de nivelar as culturas. Ela é como a “chave inglesa”, que permite apertar os parafusos de formas sempre diferentes. É universal no sentido de que não respeita fronteiras. Mas, uma vez apertados os parafusos, novas configurações surgem. Às vezes, identidades afirmam-se mais restritas que as identidades nacionais, sem serem étnicas, mas freqüentemente são maiores que as fronteiras. O mais curioso é que não se trata aqui de uma geopolítica conduzida de cima para baixo (há milhares de denominações e mesmo as mais importantes são geralmente muito descentralizadas), mas de uma geopolítica conduzida a partir de baixo, por pequenos pastores “de pés descalços” (que tentam simplesmente, ampliando as relações com outros países, obter o respeito de sua família e de seus vizinhos).

Em sua convicção da “cura divina”, os crentes inventam uma nova cultura em lugarejos abandonados, em todos os sentidos (inclusive no plano dos cuidados com a saúde). Pode-se muito bem falar de cultura popular, exceto de que ela não é reconhecida como tal pelas elites intelectuais. Mas trata-se de uma cultura de resistência que reproduz, sem o saber, a ideologia dominante. Neste sentido, o pentecostalismo é mesmo o novo ópio do povo. Assim mesmo, é preciso lembrar o contexto em que Marx utilizou a expressão: é a emoção em um mundo sem emoção.
(Trad.: Marinilzes Mello)

1 - Ler, de Bruno Fouchereau, “O cavalo de Tróia norte-americano”, Le Monde diplomatique, maio de 2001.
2 - Ler, de Ruth Marshall-Fratani, “Prospérité miraculeuse: Pasteurs pentecôtistes et argent de Dieu au Nigéria”, Politique africaine, n° 82, Karthala, Paris, junho de 2001, pp. 24-44.
3 - Ler “Lavage de cerveaux”, dossiê de Marc Vanwesse, no Suplemento do jornal Soir (Bruxelas), de 7 de setembro de 2001.
4 - Le Monde, 22 de fevereiro de 2001.
5 - Ler, de Walter Hollenweger, Cahiers de l’IRP, n° 39, Universidade de Lausanne, abril de 2001.
6 - De acordo com esta última orientação doutrinária, Deus nunca abandonou Israel.
7 - Ler, de Jean-Paul Willaime, “Les définitions sociologiques de la secte”, Les “sectes” et le droit en France, org. Francis Messner, ed. Presses Universitaires de France, Paris, 1999, pp. 21-46. Ler também, de Danièle Hervieu-Léger, La religion en miettes ou la question des sectes, ed. Calmann-Lévy, Paris, 2001.
8 - Ler Between Babel and Pentecost: Transnational Pentecostalism in Africa and Latin América, org. André Corten e Ruth Marshall-Fratani, ed. Hurst Publisher/ Indiana University Press, Londres/ Bloomington, 2001.
9 - Ler, de David Stoll, Is Latin America Turning Protestant? The Politics of Evangelical Growth, ed. University of California Press, Berkeley, 1990. David Stoll distinguiu-se ainda no ano passado devido a uma polêmica (bastante contestável) sobre a biografia da vencedora do prêmio Nobel da Paz, a guatemalteca Rigoberta Menchu.
10 - Ler, de David Martin, Tongues of Fire: The Explosion of Protestantism in Latin América, ed. Blackwell, Oxford, 1990.
11 - Ler, de Paul Gifford, “The Complex Provenance of Some Elements of African Pentecostal Theology”, Between Babel..., org. André Corten e Ruth Marshall-Fratani, pp. 62-79.
12 - Ler, de Jean-Pierre Bastian, in André e Mary Corten (ed.), Imaginaires politiques e pentecostismes: Afrique/Amerique Latine, Karthala, Paris, 2001. p.220.
13 - Quando se trata da China, os índices são dotados de um coeficiente inflacionário: 60 milhões, afirma-se, em certos meios evangélicos. Convention Globale du pentecôtisme, Los Angeles, maio de 2001.
14 - Pau, Freston. Evangelicals in Latin America, Asia and Latin América, ed. Cambridge University Press, 2001.




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