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HARRY POTTER

Uma nova busca do Graal

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Que poção mágica estimula tanto a fascinação por Harry Potter? É bom saber que essas aventuras não são apenas um “melting pot” de bruxos, caldeirões e sortilégios, mas respondem a algumas das preocupações de seu público-alvo, a faixa de 11 a 14 anos

Serge Tisseron - (01/12/2001)

Primeiramente, as Aventuras de Harry Potter são também as de Ron, Hermione e seus amigos. E as capas das várias obras, nas quais o menino aparece cercado por seus pares, nos lembram isso. Os pais estão longe. Aliás, os pais que criaram Harry não são seus verdadeiros pais e sua burrice os desqualificou para sempre, aos olhos dele e do leitor. Na realidade, eles são “trouxas”, ou seja, pobres humanos excluídos para sempre do mundo da bruxaria. Harry deve, pois, contar muito mais com a solicitude de seus colegas do que com a de seus - falsos - pais. Ora, muitos jovens têm o sentimento de que devem enfrentar sozinhos uma enormidade de problemas de relacionamento, contando apenas com o apoio de seus amigos. Eles se reconhecem num menino cujos interlocutores privilegiados são os poucos amigos da mesma idade.

O mundo hierarquizado dos feiticeiros evoca a velha aristocracia... e também, infelizmente, alguns privilégios dos “bem nascidos” da República

O sucesso do seriado de televisão i>Friends já tinha em boa parte esse ponto de vista: uma sociedade de pares à qual não se impõe nenhum confronto com pessoas mais velhas que dão lições, com adultos distantes de qualquer idealização, e a afirmação repetida de que as provas só podem ser vencidas pela coerência do grupo e o reconhecimento das competências de cada um, mesmo, e sobretudo, se estas aparecem, inicialmente, como idiossincrasias individuais. As Aventuras de Harry Potter acrescentam a esses ingredientes a cumplicidade cada vez maior do herói, ao longo das peripécias, com o espírito bom do lugar – o feiticeiro diretor da escola. Mas ele deve conquistar essa cumplicidade aos poucos e apenas com seus próprios méritos, enquanto que, à sua volta, o mundo hierarquizado dos feiticeiros, eles mesmos descendentes de várias gerações de feiticeiros, evoca, com suas filiações mais ou menos “puras”, a velha aristocracia e seus costados de nobreza... e também, infelizmente, alguns privilégios dos “bem nascidos” da República.

As metamorfoses do mundo mágico

Acrescentemos ainda que a situação familiar de Harry aproxima-se, também, do romance edipiano que toda criança tem tendência a criar para si a partir de sua própria história: seus pais biológicos seriam diferentes do homem e da mulher que o educaram e, evidentemente, muito mais inteligentes, ricos e célebres que estes. A desqualificação do pai e da mãe permite à criança administrar melhor os sentimentos exagerados que alimenta em relação a eles: se são apenas usurpadores, o difícil trabalho de separação entre eles torna-se bem mais fácil! E esses sonhos de uma filiação prestigiosa são enriquecidos, para Harry Potter, pela história exemplar de seus genitores, que descobre aos poucos, ao mesmo tempo em que se impõe a ele o destino glorioso de vingá-los.

A situação familiar de Harry lembra o romance edipiano que toda criança tende a criar: seus pais biológicos não seriam o homem e a mulher que o educaram

Tintin era uma espécie de herói da latência, sem sexualidade nem revolta, que correspondia à época. Como Peter Pan, ele ficava fixado na Terra do Nunca: nunca barba, nunca pelo nas pernas, nunca fantasias ou sonhos sexuais. Esse também era o caso de Spirou. Nem crianças, nem adultos, suas adolescências eram, ao mesmo tempo, engessadas e eternas. Porém, hoje, as menininhas de oito anos pedem para se vestir de maneira “sexy” e as crianças são informadas sobre as mudanças da puberdade antes mesmo que estas afetem seus corpos. Sinal dessa evolução, Harry Potter tem mais um ano de idade em cada novo volume de suas Aventuras, passando, desta maneira, da infância à idade adulta, com todo o cortejo das angústias adolescentes. Mas o mundo mágico no qual evolui o faz enfrentar, também, outras metamorfoses que nada têm a ver com o crescimento e que decorrem das bruxarias que os diferentes feiticeiros da história lançam contra uns e outros, mestres ou aprendizes, maus ou bons.

Angústias da adolescência

Essas transformações irão confrontar, inevitavelmente, o jovem leitor com as que afetam seu corpo no momento da puberdade e que, ainda que sejam reconhecidas, continuam portadoras de uma forte carga de ansiedade. Pois o adolescente, em confronto com sua nova musculatura, com seus pêlos que nascem e com seus órgãos genitais que crescem, experimenta também a angústia de seus desejos sexuais e de suas capacidades destrutivas, aumentadas consideravelmente com o crescimento.

No terceiro volume, intitulado O prisioneiro de Azkaban, um personagem, contra sua vontade, transforma-se em lobisomem e seus amigos, em cães, para protegê-lo: os animais bons contra os maus... O adolescente depara-se, nesse ponto, com uma cena próxima de suas próprias angústias: a animalidade que sente, às vezes, ferver dentro de si não o faz correr o mesmo risco? E alguém poderá protegê-lo?

A esses desafios do conteúdo, a escrita de J. W. Rowling acrescenta a sedução de um jorro permanente de situações imprevisíveis que, como num vídeogame, apelam para soluções também imprevisíveis. E a comparação não termina aqui. Freqüentemente, os jovens leitores dizem que, ao percorrer esses livros, “vêem” os acontecimentos como se estes se desenrolassem diante deles, numa tela de cinema.

Uma escrita do movimento

Tintin, Peter Pan e a turma de Spirou não eram crianças, nem adultos: suas adolescências eram, ao mesmo tempo, engessadas e eternas

Antes de Harry Potter, eu só havia tido tal sensação lendo dois romances: O Cão dos Baskervilles, de Conan Doyle, e Drácula, de Bram Storker. Para criá-la, a escrita de Rowling privilegia as descrições, exatamente as dos movimentos e dos descolamentos. Na realidade, não são os lugares nem o aspecto das personagens que prendem a atenção e, sim, apenas as atividades, enfim, tudo o que se mexe! Nenhum corpo é descrito se não estiver fazendo alguma coisa e nenhuma paisagem é descrita se não for o palco de uma ação que, em geral, é esboçada, simultaneamente, em seus aspectos sonoros, emocionais e cinestésicos, sendo que todas as variedades do movimento são ilustradas no bestiário imaginado pela autora.

Esta escrita do movimento fascina o adolescente à medida que entra em ressonância com as perturbações de que ele se sente o palco e o que o impelem, por exemplo, a procurar a excitação da velocidade – tanto faz se nos patins ou numa motocicleta – ou a embriaguez das tecno-danças marcadas pelo ritmo rápido das luzes intermitentes. Mas também funciona para ele como a garantia de que um caminho inverso pode ser percorrido, indo das perturbações de seu corpo, as quais percebe profundamente, até sua expressão através de palavras. Essa escrita teria, então, um efeito euforizante sobre seus jovens leitores, ao lhes mostrar a eficácia da linguagem para transmitir imagens que traduzem suas mudanças internas. Não é proibido sonhar, é?

O modelo do Graal

Seria possível considerar as Aventuras de Harry Potter como uma espécie de conto de fadas moderno, envolto pela embalagem publicitária, made in USA, de um Hallowen convencional. Mas só à primeira vista. De fato, ao contrário do que se passa em muitos contos de fadas – e no mundo balizado dos Pokémons ou de Tintin –, é sistematicamente impossível para o herói decidir o significado preciso, amigável ou hostil, benéfico ou maléfico, dos gestos e atitudes das personagens com que se encontra. Em outros termos, as personagens nunca estão claramente situadas do lado do Bem e do Mal. Ora, tal trama narrativa, que não é a do conto, tem antecedentes. Seu modelo é o do... mito do Graal.

Esse mito não é específico de nenhuma cultura, tendo percorrido várias delas - especialmente a indo-européia, a celta e a cristã. Para além de suas inúmeras variantes, os textos que nele se inspiram põem em cena objetos e situações características comuns1 . Encontram-se pelo menos cinco exemplos disso nas Aventuras de Harry Potter: a utilização de armas muito especiais, o “gamo” como animal emblemático, a prova do “beijo”, o papel do caldeirão que dá a vida e, finalmente, a importância do estigma como prova de um destino excepcional.

As analogias com o mito

A escrita da autora acrescenta a sedução de um jorro de situações imprevisíveis que, como num vídeogame, apelam para soluções também imprevisíveis

Em primeiro lugar, as espadas e lanças utilizadas na busca do Graal são de um tipo muito especial. Sua característica é poderem, conforme o caso, matar ou curar aquele para quem estão apontadas. É exatamente o que se encontra em Harry Potter, com a diferença de que, aqui, se trata de varinhas mágicas que podem matar ou curar segundo as intenções de quem as manipula.

Em seguida, no mito do Graal, o “gamo” têm um papel essencial. Em Harry Potter, este também é o animal emblemático do pai do herói: ele se transformava em gamo para esconder-se quando era jovem e é sob esta forma que aparece depois de morto para salvar seu filho.

A terceira analogia com o mito do Graal é a prova do “beijo”. No mito do Graal, esta prova aparece no segundo ato de Percival, quando o herói descobre que o beijo de Kundry – uma personagem ora maléfica, ora benéfica – é a verdadeira arma que fere. Da mesma forma, em Harry Potter, os “dementadores”, que trabalham na prisão de Azkaban, impõem aos feiticeiros criminosos um beijo mortal que, literalmente, aspira suas almas.

Personagem da tradição crística

O quarto elemento comum é o caldeirão. Esse recipiente, onde se prepara a receita da imortalidade, está em consonância com o cálice eucarístico da mitologia cristã. No quarto volume de suas Aventuras, Harry, lançado na busca de uma “taça de fogo”, é desviado para um cemitério onde se organiza uma cerimônia em volta de um caldeirão. Nessa situação, se vê obrigado a dar um pouco de seu sangue para permitir a ressurreição de seu inimigo mortal, aliado do Deus das trevas, lorde Valdemor. Participando dessa poção da imortalidade, o sangue de Harry Potter iguala-se ao do Cristo, que garante a “vida eterna” através do mistério da comunhão, de tal forma que o próprio Harry encarna o Santo Graal, ou seja, “o cálice da vida eterna” contendo o sangue de Cristo recolhido ao pé da cruz! Nos vídeogames, o adolescente se familiariza com a idéia de ser uma espécie de Deus Pai dirigindo e educando suas criaturas, como em Populous ou Blake and White. Aqui, ele é convidado a identificar-se com o Deus Filho!

Aliás, Harry Potter traz uma cicatriz na testa que é, ao mesmo tempo, a marca do atentado que sofreu quando era um bebê e a prova de sua ressurreição. De fato, seu pai e sua mãe, que estavam entre os feiticeiros mais poderosos, foram assassinados por lorde Valdemor, e também Harry Potter, que, entretanto, saiu vivo dessa prova após haver, misteriosamente, atravessado a obscuridade mortal. A cicatriz que leva na testa evoca a expressão “está escrito na testa”, que se emprega para designar um escolhido, mas evoca igualmente os estigmas que Cristo têm nos pés e nas mãos. Harry Potter, nesse sentido, é uma personagem que se situa na tradição crística: condenado à morte, ressuscitado e, enfim, portador de uma chaga visível que indica seu destino excepcional.

Não adianta definir objetivos

Harry Potter traz uma cicatriz na testa que é, simultaneamente, a marca do atentado que sofreu quando era um bebê e a prova de sua ressurreição

Longe de ser uma espécie de conto de fada, as Aventuras de Harry Potter são uma versão moderna do mito do Graal. A autora terá consciência disso? Há muitas coincidências para que essa aproximação seja casual. Entretanto, é mais difícil analisar em que medida essa referência contribui para o seu sucesso, ainda que os jogos de role playing games (RPG) tenham familiarizado bastante os adolescentes com os temas desenvolvidos na mitologia do Graal para que estes sejam relembrados quando os jovens os encontram em Harry Potter.

Poderia também haver uma última receita para o sucesso dessas aventuras: a moral implícita desenvolvida pelas obras de Rowling corresponde exatamente à filosofia da existência compartilhada pela maioria dos jovens. Isso pode ser resumido do seguinte modo: tudo evolui tão rapidamente - a começar pelo próprio pré-adolescente! - que de nada adianta definir objetivos a atingir; o melhor é adaptar-se às mudanças à medida que acontecem. Esta forma de pensamento é tão familiar aos jovens que não só não é mais questionada na vida social, como nunca o foi e também prevalece em inúmeros vídeogames. Evidentemente, ela se opõe à forma de pensamento, mais tradicional e que ainda rege com freqüência o campo científico, em que se tenta alcançar um objetivo através de um encaminhamento lógico.

No mundo de Harry Potter, de nada serve querer partir de hipóteses para elaborar estratégias. O real – se é que se pode chamá-lo assim! - é sempre de tal forma inimaginável, que a única possibilidade é agir por aproximações sucessivas, aperfeiçoando, à proporção que acontecem, as ações que se mostram compensadoras. Num mundo em que os referenciais da geração anterior parecem, muitas vezes, pouco úteis diante da renovação permanente dos problemas que se apresentam, os jovens tateiam e constroem, no mesmo movimento, seu mundo interior e o mundo social que, amanhã, será o nosso.
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Sobre o assunto, pode-se consultar Gilbert Durand, Chaoying Sun, “Graal dans tous ses états”, in Mythes, Thèmes et variations, Paris, ed. Desclée de Brouver, 2000.




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