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O fator palestino

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O assassinato, em outubro, de um ministro israelense de extrema-direita por uma organização palestina, deu a Ariel Sharon o pretexto para a escalada com que sonhava: em poucos dias, o exército israelense ocupava todas as cidades autônomas

Dominique Vidal - (01/12/2001)

“Cada um tem o seu Bin Laden. O nosso chama-se Arafat1 .” Essa fórmula resume a tática do general Ariel Sharon a partir de 11 de setembro. Mal haviam sido divulgados os monstruosos atentados em Nova York e Washington, o primeiro-ministro israelense acreditava que os Estados Unidos avalizariam, friamente, uma ofensiva contra a Autoridade Palestina. Enviou seu exército, sem esperar, para várias cidades autônomas. Uma semana depois, o ministro (trabalhista) da Defesa, Benyamin Ben Eliezer, declarava: “É verdade que matamos quatorze palestinos (...) sem que o mundo dissesse uma palavra. Para Arafat, isso é catastrófico2 .”

A euforia dos extremistas não iria durar muito. Longe de incentivar a aventura, Washington pediu que fosse imediatamente suspensa. Sob pressão, o chefe do governo foi forçado a retirar suas tropas das cidades autônomas e pôr fim ao assassinato de dirigentes palestinos; teve ainda que aceitar que o seu ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres, se encontrasse, no dia 26 de setembro, com o presidente da Autoridade Palestina; e, finalmente, teve que se desculpar, de forma subserviente, por ter suspeitado que George W. Bush desejasse sacrificar Israel, como fizeram as democracias européias com os sudetos em 1938.

Interesses e prioridades

“A idéia de um Estado palestino”, disse Bush em outubro, “sempre fez parte da nossa visão, desde que o direito de Israel a existir seja respeitado”

“Sharon enlouqueceu”, foi comentário da imprensa de Tel Aviv3 . Isso porque, no dia 2 de outubro, o presidente Bush divulgara a sua “Declaração Balfour”: “A idéia de um Estado palestino”, garantia, “sempre fez parte da [nossa] visão, desde que o direito de Israel a existir seja respeitado4 .” Segundo várias fontes5 , Bush pretendia retomar as propostas de seu antecessor, do final de 2000: retirada de Israel para as fronteiras de 4 de junho de 1967, com exceção do território necessário a 80% das colônias; reconhecimento do caráter judeu de Israel e árabe do Estado palestino; partilha da soberania de Jerusalém6 . Pior ainda, aos olhos dos israelenses: no início de outubro, o secretário da Defesa norte-americano, Donald H. Rumsfeld, deu início a uma viagem pelo mundo árabe para apresentar esse plano – sem ter consultado previamente Israel e sem ter sequer passado pelo país.

“É fundamental avançar no que se refere à questão palestina se quisermos o apoio da população árabe na luta contra o terrorismo7 ”, declarou o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a uma delegação européia. Na realidade, a maioria dos regimes árabes aliada de Washington entrega-se a um jogo acrobático, entre as exigências norte-americanas e a opinião pública antiamericana. Por ocasião da guerra do Golfo, vários desses países participaram da guerra de George Bush pai contra o Iraque: dez anos depois, nem dão seu assentimento formal aos bombardeios do Afeganistão ordenados por George Bush filho. Sem falar da possível reação que terão caso os norte-americanos ataquem o Iraque... Entretanto, do ponto de vista de Washington, as necessidades estratégicas em 1991 eram de curto prazo, enquanto as de 2001 se inserem num prazo mais longo. Resumindo, uma escalada no conflito palestino-israelense poderia arruinar todos os esforços político-diplomáticos do Departamento de Estado, e até desestabilizar os regimes árabes mais frágeis.

A advertência de Shimon Peres

Porém, o rolo compressor norte-americano obteve seus primeiros resultados quando, no dia 17 de outubro, o ministro israelense do Turismo, de extrema-direita, foi assassinado por militantes da Frente Popular da Libertação da Palestina (FPLP). O principal líder da FPLP na Cisjordânia, e possível sucessor do já idoso George Habache, foi assassinado no final de outubro, juntamente com dezenas de outros líderes da Intifada. Essa “vingança” acabaria se revelando um grave erro político. Ela ofereceu ao general Sharon o pretexto para a escalada com que sonhava: em poucos dias, o exército israelense penetrava, de novo, em todas as cidades autônomas. Essa operação – a maior ofensiva desde a assinatura dos acordos de Oslo – parecia preparar um ataque direto contra a Autoridade Palestina, cujo presidente estaria pessoalmente ameaçado. Isso, a ponto de o próprio Shimon Peres se ter antecipado e advertido: “No lugar dele, teremos que negociar com o Hamas, o Jihad Islâmico e o Hezbollah8 .”

Tal pai, tal filho? É sabido como, em 1991, Bush pai impediu Itzhak Shamir de revidar aos mísseis Scud lançados por Bagdá, antes de o arrastar para a conferência de Madri. Dez anos depois, Bush filho hesita em exercer pressões concretas sobre seu “aliado estratégico” israelense. Seriam necessárias cinco semanas para que o exército israelense se retirasse das cidades autônomas que havia ocupado. Essa nova aventura custou a vida de cerca de 90 palestinos, elevando o balanço da Intifada para perto de mil mortos, um quinto dos quais, israelenses.

Vingança catastrófica

Os dirigentes norte-americanos entendem que seus interesses passam na frente de quaisquer outros: no momento atual, a prioridade absoluta é a coalizão

Mas o primeiro-ministro israelense não se limitaria a isso. No dia 23 de novembro, mandou executar Abul Hanud, um dos principais dirigentes do Hamas, sabendo que o movimento islamista revidaria energicamente e rompendo a trégua que Arafat o havia convencido a aceitar até então. Nos dias 1º e 2 de dezembro, foi uma matança: trinta mortos em Jerusalém e Haifa. Mas uma vez, essa “vingança” se revelaria catastrófica: o Tsahal (exército israelense) passou a visar a própria Autoridade Palestina, bombardeando não só as repartições da Polícia, como o quartel-general de Arafat, em Ramallah, assim como seus meios de transporte. Um obus caiu a trinta metros do gabinete presidencial!

Durante algumas horas, temeu-se pela vida do presidente da Organização da Libertação Palestina (OLP). E vários observadores lembraram o cerco de Beirute, durante o qual, no verão de 1982, o homem do keffieh só conseguiu escapar à fúria israelense, com seus feddayin, sob a proteção de uma força multinacional. Após o que, os refugiados dos campos de Sabra e Chatila foram massacrados por milicianos falangistas sob o olhar do exército israelense, que nada fez para impedir a carnificina. Estaria o general Sharon querendo, agora, terminar o “trabalho” interrompido há 19 anos?

Perspectiva diplomática afastada

Também desta vez, ele acha que tem Arafat à sua mercê. Mas, com a experiência libanesa adquirida, ele irá tentar impedir qualquer porta de saída. O velho general exige de seu inimigo, por exemplo, a punição imediata dos responsáveis. Mas, ao mesmo tempo, o impede de fazê-lo, técnica e politicamente: por um lado, esforça-se por paralisar a polícia palestina, com bombardeios ininterruptos; por outro, afasta qualquer perspectiva diplomática, privando a Autoridade Palestina do apoio popular para reprimir as organizações terroristas – e até tentando detonar uma guerra civil inter-palestina. E, com o apoio do horror que as ações terroristas palestinas representaram – apagando, por algum tempo, os meses de terrorismo do Estado de Israel da opinião pública, local e internacional – Sharon reduz ao silêncio todos os que tentaram, até as últimas semanas, preservar as possibilidades de uma solução pacífica.

Somente o ministro das Relações Exteriores francês, Hubert Védrine, teve a coragem de repetir que “atacar a Autoridade Palestina para a enfraquecer, e até eliminar, seria um erro fatal (...)”. E acrescentou: “Receio que, por detrás disso, exista uma verdadeira política do pior, no sentido de eliminar a Autoridade Palestina, para que Israel não tenha pela frente senão uma massa de palestinos desesperados, sobre os quais o Hamas ganharia influência. Para, então, alguma autoridade israelense poder dizer: ‘Você há de compreender que não é possível termos um Estado com essa gente pela frente’9 .”

Guinada norte-americana

A recusa por parte de Israel em atender aos interesses dos EUA deve-se à ideologia de Sharon, visceralmente oposto à criação de um Estado palestino

De Washington, nada de novo. As pressões de setembro-outubro, amenizadas (verbalmente) em novembro, acabaram silenciando, numa espécie de “sinal verde”, com a palavra reconfortante da Casa Branca: “É evidente que Israel tem o direito de se defender10 .” Tudo indica que vítimas dos atentados de 1º e 2 de dezembro tenham enviado ao esquecimento o discurso presidencial de 2 de outubro. E, também, o de 19 de novembro, quando o secretário de Estado, Colin Powell, divulgou, por sua vez, a visão de um “Estado palestino viável”, lado a lado com Israel, e convocou este último a pôr fim à “ocupação” e à “colonização11 ”.

Entenda-se... Teriam os rápidos e decisivos êxitos no Afeganistão embriagado George W. Bush? Teria, com isso, o seu secretário de Estado caído em desgraça, devido à sua oposição a um eventual desdobramento de operações militares, principalmente contra o Iraque? Teria o presidente sido seduzido pelos aprendizes de feiticeiro para quem o simples sumiço, físico ou político, de Arafat seria o bastante para restabelecer a ordem na Palestina? Ou estaria o futuro candidato à presidência receoso – a um ano das eleições legislativas e a três da eleição presidencial – de um oposição do lobby pró-Israel que, supostamente, teria causado a derrota de seu pai?

Reação do mundo árabe

Sejam quais forem os seus motivos, a guinada do chefe do Executivo norte-americano dificilmente parece compatível com as ambições propaladas pelos Estados Unidos após o dia 11 de setembro. Se, após o bombardeio do Afeganistão, o antiamericanismo da opinião pública árabe ainda não se evidenciou através de manifestações maciças, nada indica que o mesmo ocorra caso uma nova tragédia se passe na Palestina. O destino de Osama bin Laden, no fundo, deixa indiferente boa parte da população árabe – que sabe que sua organização, a Al-Qaida, se interessa por uma única “terra santa”: a Arábia Saudita – mas Arafat, para além dos imprevistos de suas ações, continua encarnando uma parte, simbolicamente enorme, da cultura árabe.

Permitir que Israel liquide a Autoridade Palestina significa matar no ovo o projeto do “Estado palestino viável” aprovado pela Casa Branca. E também, tornar obsoleta, antes mesmo de ser organizada, a idéia de uma nova conferência internacional: assim como a guerra do Golfo desembocou em Madri – ponto de partida para as negociações que prepararam os acordos de Oslo –, também a guerra do Afeganistão deveria ser seguida por uma nova iniciativa, capaz de retomar as discussões interrompidas em Taba, em janeiro de 2001.

Política suicida

A guerra do Afeganistão poderia vir a ser seguida por uma nova reunião internacional, para a retomada das negociações interrompidas em Taba

E isso é exatamente o que o primeiro-ministro israelense tenta impedir. Pouco lhe interessa o que vier a suceder à Autoridade Palestina, desde que ela tenha sido varrida do mapa. O importante, para ele, é que desapareça qualquer interlocutor nacional e internacionalmente reconhecido, e, portanto, em condições de negociar a criação de um Estado palestino. Essa política suicida deve-se, sem dúvida, pelo menos em parte, à ideologia de Ariel Sharon, visceralmente oposto à criação de um Estado palestino, ainda que tenha sido forçado a pronunciar essa fórmula. Outro fator que pesa, para Sharon, é o receio de se desvincular da extrema-direita e, pior ainda, permitir a ascensão de seu rival, Benyamin Netanyahu. Também é importante ressaltar que o chefe do Estado-Maior, Shaul Mofaz, e seu vice, Moshe Yaalon, vêm desenvolvendo sua própria linha, particularmente dura – o deputado trabalhista (de esquerda) Yossi Beilin chegou a denunciar um “quase-golpe de Estado12 ”. E, finalmente, a manutenção dos ministros trabalhistas serve de aval, interno e externo, para a política irresponsável de Ariel Sharon, excluindo qualquer possibilidade de alternância. O que semeia a confusão entre uma opinião pública que em que – as pesquisas o indicam de maneira cada vez mais evidente – o desejo de retomar as negociações de paz prevalece sobre as pulsões belicistas13 ...

Diante da iminente catástrofe que representaria o êxito dos planos do general Sharon, aquilo que se convencionou chamar “comunidade internacional”, salvo raras exceções, vem observando um pesado silêncio. Esses mesmos países, que participaram da cruzada norte-americana contra o Iraque, que concordaram com os bombardeios da Sérvia e, atualmente, apóiam a operação afegã, permitem – quando não incentivam – que um dos mais poderosos exércitos do mundo, e sem dúvida o mais forte no Oriente Médio, transforme o revide aos atentados de 11 de setembro no esmagamento da Palestina e de seus dirigentes...

Paradoxo israelense

Mas o povo palestino, vítima principal desse interminável conflito, não é o único interessado. O futuro do próprio Estado de Israel está em questão. Somente a cegueira total do Likud e de seus aliados não vê que nenhuma das comunidades sairá vitoriosa da guerra civil israelo-palestina que se prenuncia. Os atos de barbárie cometidos por ambos os lados durante o último ano – do assassinato de dezenas de crianças palestinas ao linchamento de dois soldados israelenses em Ramallah; do pogrom anti-árabe de Nazaré à destruição do mausoléu de José, em Nablus e aos atentados-suicidas no interior da “linha verde” – poderão, amanhã, se generalizar.

Segundo os demógrafos – inclusive o especialista israelense Arnon Sofer – no ano 2020 os palestinos serão maioria na área entre o rio Jordão e o Mediterrâneo e representarão 32% da população instalada no interior da “linha verde” 14 . Portanto, paradoxalmente, a criação mais ou menos imediata de um Estado palestino ao lado de Israel, garante, a longo prazo, o caráter judeu deste último...
(Trad.: Jô Amado)

1 - The New York Times, 14 de setembro de 2001, Nova York, 2001.
2 - Agência France Presse, 14 de setembro, Paris, 2001.
3 - Maariv, Tel Aviv, 5 de outubro de 2001.
4 - The New York Times, 2 de outubro de 2001.
5 - Tais como os sites do Mideast Mirror (Londres) ou o Centro Israel-Palestina para a Pesquisa e a Informação (Tel Aviv).
6 - Segundo a fórmula do presidente Clinton, tudo o que fosse judeu pertenceria a Israel e o que fosse árabe, ao Estado palestino, inclusive a Esplanada das Mesquitas. O Muro das Lamentações ficaria sob soberania israelense. Essa fórmula, vale notar, ratifica a colonização israelense da parte oriental de Jerusalém.
7 - Le Figaro, 28 de setembro de 2001.
8 - Yediot Aharonot, Tel Aviv, 1º de outubro de 2001.
9 - Agência France Presse, 3 de dezembro de 2001.
10 - Agência France Presse, 3 de dezembro de 2001.
11 - Agência France Presse, 19 de novembro de 2001.
12 - Le Figaro, 16 de outubro de 2001.
13 - Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup publicada pelo jornal Maariv de 23 de novembro de 2001, 55% dos israelenses se pronunciaram pela negociação de um acordo definitivo, 20% por uma declaração de guerra à Autoridade Palestina e 19% pela manutenção do atual status quo. Além do que, 64% dos entrevistados (contra 31%) não acreditam que o seu primeiro-ministro venha a conseguir pôr fim à violência, pela forma como vem agindo.
14 - Newsweek, Nova York, 13 de agosto de 2001.




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