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Humanismo, para quê?

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Nos tempos atuais, a libido dominandi, vontade do poder temporal multiplicada pela acumulação do capital, exibe-se e transita alegremente. O dinheiro tornou-se um bem em si, meio e fim de qualquer atividade, sinal de êxito social e motivo de orgulho

Alain Accardo - (01/01/2002)

Nos dias atuais, seria preciso destacar as virtudes do estudo de grego e latim. Isso seria agradável, pois, daqui a algum tempo, teríamos mais graduados de alto nível1 – e, portanto, membros de nossas elites governantes – polidos com essa cultura “humanista” cuja prática se apoiava no prolongamento das humanidades clássicas.

Infelizmente – pressupondo que essa intenção obrigasse a decisões que reforçassem um ensino que atualmente é residual –, tais medidas permaneceriam sem eficácia real. Não basta introduzir nos cardápios escolares “especialidades” novas, ou renovadas, para criar, de forma voluntarista, a demanda correspondente. Apesar de suculentos, os novos pratos do cardápio só podem seduzir o cliente se este estiver, de fato, com apetite. Ora, isso não se decreta em uma reunião de ministros: é a expressão, no plano individual, de um estágio histórico da sociedade e, no caso, das classes médias, principais beneficiárias da relativa democratização dos ensinos secundário e superior.

Espíritos profundos e brilhantes

É inevitável que as famílias façam uma pergunta bastante pragmática sobre as opções oferecidas pelo mercado de formação escolar: “Para que serve isso?”

É inevitável e legítimo que as famílias façam uma pergunta bastante pragmática sobre as opções oferecidas pelo mercado de formação escolar: “Para que serve isso?” Apesar da crença de outrora, que concedia às humanidades clássicas a virtude do “desinteresse”, é hoje que essa formação é tida como “desinteressada” e, por conseguinte, desprovida de interesse. Na época em que eram o apanágio das elites burguesas e a via nobre para os cargos de poder, esses estudos suscitavam um enorme “interesse por”, que se duplicava geralmente em um vivo “interesse para”.

Naquele tempo, ainda era de bom tom afirmar que as verdadeiras riquezas eram as espirituais. Os apetites pelo poder temporal deveriam transfigurar-se para serem socialmente aceitáveis. Em outras palavras, a passagem pelas aulas de retórica não se propunha formar novos Erasmos, mas permitir às classes abastadas e seus aliados mais modestos demonstrarem ao mundo, e a si próprios, que seus representantes mais eminentes – especialmente os que saíam da rue d’Ulm2 para entrar nas alamedas do poder – não eram meros lojistas e, sim, espíritos profundos e brilhantes, impregnados pelos valores expressos nas obras da Antigüidade clássica e, por isso, dignos de reinar.

Três fundamentos indiscutíveis

A cultura, simultaneamente filológica, histórica e filosófica, veiculada pelas letras clássicas contribuía para esse enobrecimento. Contudo, apesar de simbolicamente lubrificar o movimento da mecânica social, não lhe foi possível evitar – um belo exemplo de “efeito perverso” – algumas pedras no caminho, exatamente sob a forma desse ideal humanista e utópico que o “realismo” modernista tachou de “arcaísmo”, mas que ainda não conseguiu eliminar totalmente. Desta forma, a herança das humanidades ficou preservada por algum tempo, ou seja, enquanto pôde integrar-se às estratégias da reprodução social dos dominantes.

No tempo em que as verdadeiras riquezas eram as espirituais, os apetites pelo poder temporal deveriam transfigurar-se para serem socialmente aceitáveis

As coisas mudaram muito. A libido dominandi, vontade do poder temporal multiplicada de maneira formidável pela acumulação do capital, pode exibir-se e transitar livremente sem qualquer freio moral. Na realidade, hoje já nem se questiona a legitimidade de buscar o enriquecimento, nem mesmo se há boas maneiras de fazê-lo. Nem mesmo é necessário que o vício homenageie hipocritamente a virtude, pois ele próprio transformou-se em uma. O dinheiro tornou-se um bem em si, ao mesmo tempo meio e fim de qualquer atividade, signo de sucesso social e motivo de orgulho. Roma não está mais em Roma, mas em Nova York. A representação ocidental do mundo baseia-se, atualmente, em três fundamentos indiscutíveis: filosoficamente, no neoliberalismo; economicamente, no capitalismo financeiro; e geopoliticamente, na submissão às estratégias conjuntas do Pentágono e de Wall Street.

Outras vias de acesso ao poder

Não se trata de opor à grandeza idealizada das sociedades antigas o caráter filisteu dos tempos presentes. Os historiadores já nos esclareceram amplamente sobre aquelas. Sabemos, por exemplo, que as classes médias de Atenas ou de Roma não eram insensíveis às atrações do ganho, aceitavam o escravismo - e o espírito de lucro e de prazer fazia os mesmos estragos que faz hoje. Pelo menos, sabe-se que nossos longínquos ancestrais não viam nisso o objetivo da existência e sempre havia, entre os grandes testemunhos da consciência cívica, vozes autorizadas para estigmatizar os desvios e fazer, como Ovídio, por exemplo, constatações indignadas: “O que conta hoje é o dinheiro. O dinheiro traz as honras, o dinheiro traz as amizades. Por toda parte o pobre é pisoteado.”

Atualmente, basta aos aspirantes à dominação desviar-se das humanidades clássicas. Os pequenos burgueses encontraram outras vias de acesso às esferas do poder. O grego e o latim não teriam utilidade real para fazer carreira em uma sociedade que se entrega de modo frenético à gestão econômica e comercial. É extremamente significativo que na troca dos valores humanistas clássicos pelos negócios do comércio (assim como todas as atividades polarizadas pela mercadoria com objetivo de compra e venda, como o banco) – desprezados e declarados “indignos” por muito tempo – estes se tenham tornado profissões respeitadas, celebradas e valorizadas, para as quais as classes médias, em massa, dirigem seus filhos.

A forma moderna de alienação

É significativo que na troca dos valores humanistas pelos negócios do comércio estes se tenham tornado profissões respeitadas, celebradas e valorizadas

Nesse contexto, o que poderiam dizer de importante os grandes clássicos que não possa ser substituído, com vantagem, pelas declarações do diretor-geral do FMI e o coro dos editorialistas da imprensa, nossos atuais professores de retórica? Qual pode ser a utilidade, para as classes médias, de um humanismo que exaltava os valores do otium, ou da scholè, do lazer do estudo que permite ao cidadão consagrar-se às atividades do espírito e que considerava as atividades remuneradas ou lucrativas como um negotium, ou seja, como um trabalho de escravo? Não seriam as classes médias, que se preparam para o acesso (bastante aleatório) à grande burguesia, fundamentalmente filhas do negócio, seu destino não se deveu sempre ao desenvolvimento da economia mercantil, à monetarização das trocas comerciais, à luta impiedosa pela conquista dos mercados, da poupança, do crédito bancário etc.?

Seria, evidentemente, motivo para comemoração que o trabalho assalariado tenha superado a escravidão, se, infelizmente, não provocasse uma forma moderna de alienação mais insidiosa, que consiste em que o trabalhador se deixe possuir (em todos os sentidos da palavra) por um sistema capaz de roubar sua alma ao comprar sua força de trabalho. Mudaram-se os grilhões com a mudança de universo.

Traição, ambição e privilégios

O dinheiro é rei e as classes médias são incitadas pelas “elites” a fazerem funcionar um sistema que, sem sua colaboração, seria reduzido à impotência

O dinheiro é rei e nossas classes médias, além de não terem mais um Ovídio para o deplorar, são permanentemente incitadas por suas “elites” a se empenharem cada vez mais no funcionamento de um sistema que, na prática, sem sua colaboração, seria reduzido à impotência. Como poderiam nossos políticos, nossos gerentes, nossos diretores de jornais e outras eminências de nossa nobreza de Estado ou de empresas, continuar seriamente a propor a seus respectivos públicos a admiração por uma figura como Régulo que, segundo Cícero, pensava que, “para empenhar a palavra, nenhum vínculo era mais forte que o juramento”, ou a de um Aristides que, nas palavras de Plutarco, “considerava que era seu dever ser útil a sua pátria sem ganhar dinheiro nem honrarias”? Como fazer engolir essas velharias ridículas, nos dias de hoje, por pessoas a quem a mídia subserviente canta, sem parar, louvores a personalidades de todo tipo e cujo traço em comum é terem escolhido, como virtudes cardeais, a capacidade de trair, a ambição arrivista e a sede de privilégios – rebatizados como “capacidade de adaptação”, “criatividade”, “dinamismo” e “eficácia”?

Cada época tem suas figuras legendárias. As classes médias francesas têm as suas. Um desses heróis, que a mídia se deleita em louvar, é o carismático Jean-Marie Messier, presidente e diretor-geral do grupo Vivendi, o qual – entre duas estadias em Nova York, onde acaba de se oferecer um duplex com vista para o Central Park por algumas dezenas de milhões de dólares bem ganhos (em alardeadas compras, fusões de empresas e planos sociais) – ainda encontra tempo para nos edificar, ao trocar com o grande escritor e pensador, Philippe Sollers, uma conversa fiada, plena refinamento e urbanidade, sobre a nossa sorte de viver nesta época e deixar às gerações futuras o exemplo desses gigantes.
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - N.T. No original francês, a palavra é diplome, que neste contexto se refere aos diplomadas pelas “hautes écoles”, ou seja aquelas que, na França, tradicionalmente, forneceram os altos quadros da burocracia estatal.




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