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NEOLIBERALISMO

Pensando o impensável

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A ideologia neoliberal e imperial norte-americana parece triunfar por toda parte: dominação militar, diluição da Europa numa zona de livre-comércio... E o movimento anti-globalização parece estar na defensiva. Como os neoliberais, há 30 anos...

Serge Halimi - (01/01/2002)

Com paciência e tenacidade, às vezes o trabalho ideológico, o voluntarismo político e a militância dão à luz uma nova “exigência”

Abalado pelas crises financeiras que sacudiram a Rússia, o Sudeste Asiático e a América Latina em 1998, um zelador do “capitalismo global” avaliava que se tratava de “um recuo total, talvez por vários anos”. E o semanário Business Week previa “um recuo do capitalismo do livre comércio, a verdadeira ideologia do pós-guerra fria; um mundo em que os países se retiram do sistema de mercado que todo mundo achava ser inquestionável1 ”. E, coroando tudo isso, o ministro das Finanças japonês dizia ser “um keynesiano da velha escola2 ”.

A ilusão não durou muito, e as coisas – e os negócios – retomaram o seu ritmo normal. Mas já ocorrera, em outros períodos, uma inversão do sistema dominante de crenças econômicas – e das políticas públicas legitimadas por essas crenças. E nunca foi por acaso, ou por fatalidade, ou como resultado mecânico de arranjos sociais e históricos. No caso dos Estados Unidos, o livro que Rick Perlstein acaba de dedicar a Barry Goldwater, o candidato republicano à eleição presidencial de 1964, lembra-nos, oportunamente, o poder do político, a existência de um momento em que, contra todas as expectativas, são os “perdedores” que escrevem a história, pois mobilizaram, semearam as idéias e criaram os movimentos que amanhã vencerão3 .

As ideologias convergentes

Prever bem para ter êxito na ação nem sempre é, necessariamente, como acredita a maioria dos pesquisadores de opinião e dos jornalistas, prolongar as curvas de gráficos existentes, dissolver-se no ar dos tempos, curvar-se aos meios de comunicação e às suas exigências. Às vezes, significa preparar uma ligeira inclinação das curvas para possibilitar a sua volta – com paciência, tenacidade, e até, eventualmente, não hesitando em combater os fofoqueiros das idéias na moda. Às vezes, o trabalho ideológico, o voluntarismo político e a militância dão à luz uma nova “exigência”.

A “guerra contra a pobreza” de Lyndon Johnson atingiu, socialmente, suas metas. Politicamente, foi o canto do cisne da era do voluntarismo keynesiano

Em 1964, Barry Goldwater foi esmagado pelo democrata Lyndon Johnson: teve apenas 38% dos votos. Comentaristas e especialistas redigiram rapidamente o seu epitáfio, proclamando o triunfo da ideologia democrata, centrista e keynesiana. Foi decretado o “fim” do radicalismo conservador. “O extremismo, quando se defende a liberdade, não é um vício; a moderação, quando se busca a justiça, não é uma virtude”, anunciara com estardalhaço Barry Goldwater. Com este candidato, o Partido Republicano aceitara o risco de propor ao eleitorado cores vivas e um discurso de ruptura, de contra-revolução. Poderíamos dizer, nos dias de hoje, que compreendeu a lição. Em novembro de 1964, as eleições se ganharam, como sempre, no centro; o radicalismo assusta, o progresso está garantido, o New Deal parece eterno , as ideologias convergem, as técnicas vencem, o pensamento é único: não-há-solução-alternativa4 .

O “extremismo” muda de campo

Em 1958, o presidente republicano Dwight Eisenhower admitia que “a expansão gradual do Estado federal” era “o preço de um rápido aumento de crescimento”. Em 1960, a plataforma do Partido Democrata anunciava que a “erradicação definitiva” da pobreza era “possível”. Lyndon Johnson se empenharia nessa tarefa, acreditando que “podemos fazer qualquer coisa: temos os meios para isso5 ”. E lançou – a partir da capital federal, com o dinheiro dos impostos e a participação de milhares de funcionários extraordinários – uma “guerra contra a pobreza”. Socialmente, atingiria alguns de seus objetivos6 Politicamente, era o canto do cisne da era do voluntarismo keynesiano: “uma guerra contra o seu bolso”, como resumiu Barry Goldwater.

Porque já se esboçam realinhamentos. O New Deal não é eterno, o patronato prepara sua revanche, a coalizão democrata implode de ambos os lados: os “pequenos brancos”, principalmente os do Sul, abandonam Lyndon Johnson devido à questão dos direitos civis concedidos aos negros, enquanto os “radicais” o combatem devido à exigência de alistamento e do Vietnã. O pensamento irá deixar de ser único. E o “extremismo” irá mudar de campo.

A direita invoca Gramsci

Para “salvar” o Partido Republicano, Eisenhower atrelou-o aos temas e às políticas do Partido Democrata. 40 anos depois, Clinton faria o contrário

Um pouco como mudou de campo um certo Ronald Reagan. Em 1964, é republicano e faz campanha para Barry Goldwater7 . E também ele reivindicava “uma opção, não uma repetição”. Atingirá seus objetivos. Para “salvar” o Partido Republicano – excluído da Casa Branca desde 1933 – Dwight Eisenhower o havia atrelado aos temas e às políticas do Partido Democrata. Quatro décadas mais tarde, poderia creditar-se a William Clinton uma proeza semelhante. Mas em sentido inverso. Dessa vez, quando o Partido Democrata assumiu os temas e as políticas do Partido Republicano, este adotou uma orientação neoliberal radical. Presidente da Heritage Foundation, o think tank (caixa de idéias) da direita norte-americana e que formou vários quadros do atual governo Bush, Edwin Feulner explicava, em 1993: “Quando começamos [em 1973], chamavam-nos de ‘ultra-direita’ ou de ‘extrema-direita’. Atualmente, nossas idéias fazem parte da corrente dominante8 .”

No entanto, seria idealismo atribuir tal reviravolta exclusivamente ao trabalho ideológico dos think tanks, às instituições econômicas internacionais, aos intelectuais e aos jornalistas que fizeram rimar “modernidade” com alinhamento às teses do patronato. O voluntarismo intelectual de uma direita que não hesita em invocar as teses sobre a conquista necessária da hegemonia cultural, do comunista italiano Antonio Gramsci, não atinge seus objetivos senão em função de uma mudança da correlação de forças social e política em seu favor.

As explicações de Clinton

A questão das “minorias” ajudou a desarticular a coalizão democrata. Foi esquecida a contribuição trazida pelo Estado de bem-estar social (New Deal) e apenas se retiveram seus custos (impostos); os tributos fiscais e a inflação foram progressivamente entendidos por certas categorias populares como o preço a pagar por políticas que não mais os favoreciam. Desde 1964, a campanha de Goldwater vem demonstrando que é possível, com o trunfo da carta racial e a dos “valores”, forçar uma guinada à direita por parte de um eleitorado popular que se tornou rebelde à ação distributiva do Estado quando não vê nela senão uma intervenção coercitiva em benefício das “minorias” e dos pobres. Ao citar o caso de um usuário de vale-alimentação (distribuído pelo governo), presumivelmente negro, “que, à sua frente, na fila do caixa do supermercado, compra um belo filé mignon enquanto você espera sua vez, com um pacotinho de carne moída”, Ronald Reagan sabia o que fazia.

O voluntarismo intelectual da direita não atinge seus objetivos senão em função de uma mudança da correlação de forças social e política em seu favor

O cientista político Benjamin Barber conta que, em janeiro de 1995, dois meses após a derrota do Partido Democrata nas eleições legislativas, o presidente Clinton lhe explicou: “Perdemos nossa base no Sul. O nosso pessoal votou em Gingrich (o dirigente republicano da época). Conheço bem esse pessoal, cresci com eles. Pensam que estão pagando demais por nossas reformas. Desde a guerra civil, todas as reformas progressistas se fizeram às suas custas. São eles que pagam o preço do progresso. E nós continuamos imputando-lhes o preço da liberdade dos outros9 .”

A “modéstia” de Milton Friedman

Mas o ressentimento “racial” rompeu a solidariedade de classe, o que se tornou mais fácil principalmente a partir da guinada à direita do final da década de 70, quando o desemprego, a precariedade e a concorrência desenfreada de todos contra todos diminuíram a disposição de “pagar” nos meios populares. Ainda que esse fosse “o preço do progresso” em benefício de grupos ainda mais desfavorecidos que eles. Paradoxalmente, o fracasso social do neoliberalismo iria proporcionar seu sucesso eleitoral e político: um capitalismo selvagem libera um populismo reacionário. De direita ou de esquerda, os governos adotam uma política que favorece os mais ricos. Depois, com o apoio dos meios de comunicação, que pertencem aos poderosos, uma possível raiva operária, decorrente de reivindicações econômicas, é convertida em pânico de identidade. E numa exigência de “lei e ordem” 10 .

Paradoxalmente, o fracasso social do neoliberalismo propiciou seu sucesso eleitoral e político: um capitalismo selvagem libera um populismo reacionário

Em 1976, ao concluir seu discurso de aceitação do prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman observou: “A mudança radical que se operou em matéria de teoria econômica não resultou de uma guerra ideológica. Foi quase totalmente produzida pela força dos fatos. A experiência teve um efeito muito maior que a mais poderosa das vontades ideológicas ou políticas11 .” Excessiva modéstia. Sem o paciente trabalho de “extremistas”, como Barry Goldwater e os think tanks conservadores dirigidos por Friedman e Friedrich von Hayek, nada garantiria que a “experiência” da estagflação da década de 70 seria interpretada como o foi. Uma crise proporciona o questionamento do status quo. Mas em que sentido?

“Leninistas” de mercado

A Société du Mont Pèlerin, a Heritage Foundation ou o Cato Institute não hesitam em “pensar o impensável” No fundo, o nome do partido no poder pouco lhes interessa: era necessário que, num certo prazo, todos os partidos se vissem forçados a adotar uma política econômica a serviço da “empresa”, que adversários se enfrentassem, desde que do mesmo lado. À direita, eram todos keynesianos em 1960: conservadores britânicos, republicanos norte-americanos e gaullistas franceses. À esquerda, todo mundo era neoliberal em 2000: trabalhistas blairistas, democratas clintonistas e socialistas franceses.

Preparando, desde fevereiro de 1947, a grande alternativa ao “socialismo”, Hayek anunciava: “Nosso esforço é diferente de uma tarefa política: deve visar, fundamentalmente, ao longo prazo, e não ao que possa ser praticável de imediato12 .” O que significa que o ideal neoliberal não será amenizado em função de agradar a uma burguesia progressista, obtendo, dessa forma, vitórias sem continuidade. Para esses homens de ruptura, não se trata de seduzir o eleitorado centrista, os parlamentares, os meios de comunicação – que mudam de direção conforme sopra o vento – mas de inverter o sentido das ondas. Leninistas de mercado, os neoliberais acreditavam no papel das vanguardas. Não eram os ministérios que lhes interessavam, mas o poder.

Goldwater, Reagan, Thatcher, Hayek, Friedman: nosso mundo se parece, a cada dia um pouco mais, a seus sonhos. Eles dispunham de armas com que os adversários da globalização neoliberal não podem contar: as grandes empresas não irão financiar as pesquisas de quem quer destruir o seu poder; e a imprensa, atualmente nas mãos de multinacionais, trataria de os desacreditar, se necessário fosse. No entanto, os contestadores dispõem de um trunfo. A idéia de transformar o mundo numa mercadoria é insana. Quando as idéias loucas do poder dominante se tornam o “círculo da razão”, são permitidas algumas esperanças aos que, em defesa dos interesses de uma maioria da população do planeta, tentam recolocar o mundo em pé. Será que eles não poderiam, por sua vez, se impor a determinação e a paciência dos cruzados do mercado que, à margem dos jogos políticos e das seduções da mídia, souberam outrora pensar o impensável?
(Trad.: Jô Amado)

1 - Robert Samelson, em Newsweek, 14 de setembro de 1998; e Business Week, 14 de setembro de 1998.
2 - International Herald Tribune, 9 de setembro de 1998.
3 - Ler, de Rick Perlstein, Before the Storm: Barry Goldwater and the Unmaking of the American Consensus, ed. Hill and Wang, Nova York, 2001.
4 - Alguns anos mais tarde, essa mesma fórmula seria empregada por Margaret Thatcher, mas para proclamar o caráter instransponível de uma filosofia ainda mais à direita que a de Barry Goldwatwer, que se tornou conhecida pela sigla TINA (There Is No Alternative).
5 - Em relação às citações, ler o livro de Rick Perlstein, Before the Storm: Barry Goldwater and the Unmaking of the American Consensus, págs. 13, 327 e 304.
6 - O número de norte-americanos vivendo abaixo do limiar da pobreza passou de 22%, em 1959, para 11%, em 1979. Foi principalmente entre a população idosa que o programa de Johnson obteve efeitos apreciáveis.
7 - Em 1960, dizendo-se “democrata pró-Nixon”, Ronald Reagan havia apoiado o candidato republicano contra John Kennedy.
8 - Ler “Les boîtes à idées de la droite américaine”, Le Monde diplomatique, maio de 1995. Sobre o papel dos think tanks no governo Bush, ler, de Robin Toner, “Conservatives Savor Their Role as Insiders in the White House”, The New York Times, 19 de março de 2001.
9 - Ler, de Benjamin Barber, The Truth of Power: Intelectual Affairs in the Clinton White House, ed. Norton, Nova York, 2001.
10 - Ler, de Thomas e Mary Edsall, Chain Reaction: The Impact of Race, Rights and Taxes on American Politics, ed. Norton, Nova York, 1991.
11 - Citado por Richard Cockett em Thinking the Unthinkable: Think Tanks and the Economic Counter-Revolution, 1931-1983, ed. Fontana Press, Londres, 1995; ler também, de Keith Dixon, Les évangélistes du marche, ed. Raison d’agir, Paris, 1998.
12 - Ler, de Richard Cockett, Thinking the Unthinkable: Think Tanks and the Economic Counter-Revolution, 1931-1983, ed. Fontana Press, Londres, 1995, p. 104.




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