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Al-Qaida, um histórico

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Nas fitas que enviou à emissora Al Jazira, Osama bin Laden coloca-se diante de uma gruta, numa referência a Maomé expulso de Meca. Não ousa posar como Deus, mas identifica-se com o Profeta no exílio, ou com Saladino expulsando os cruzados

Pierre Conesa - (01/01/2002)

Todos os ingredientes dos acontecimentos de 11 de setembro já existiam antes da tragédia. Mas, como todas as revoluções estratégicas, os atentados sintetizam e põem em sinergia tendências e evoluções em germe há vários anos. Marcam uma importante mutação estratégica, já que desencadearam o primeiro conflito entre um Estado e uma seita, a primeira guerra que não tem frente de batalha e visa, não a uma conquista territorial, mas à destruição física do outro. É por isso que a revolução estratégica que provoca obriga a um reexame completo dos conceitos sobre os quais os analistas ocidentais raciocinavam até aqui.

Poucos observadores analisaram as evoluções do mundo islâmico à luz dos fenômenos sectários que atravessam o mundo moderno há algumas décadas. O islã dá uma grande liberdade de interpretação religiosa aos crentes e não qualifica as manifestações islamistas recentes de sectárias. No entanto, várias características permitem aproximar a al-Qaida de certas seitas, como, por exemplo, a ideologia milenarista e o desvio mortífero.

O “paraíso” na terra

A mutação estratégica do novo tipo de guerra obriga a um reexame completo dos conceitos sobre os quais os analistas ocidentais raciocinavam até aqui

As referências do chefe da al-Qaida são exclusivamente religiosas. No seu discurso de 7 de outubro, divulgado pela emissora Al Jazira, do Catar, Osama bin Laden lembra, antes de qualquer outro argumento, o fato de que a “nação islâmica sofre, há oitenta anos, humilhação e desprezo”. Ao dizer isso, faz referência não à Palestina ou ao Iraque, mas à... abolição do califado por Atatürk, em 1924. E prossegue: “A América não viverá em paz antes que a paz reine na Palestina (entenda-se: enquanto Jerusalém não for libertada) e que todo o exército dos infiéis deixe a terra de Maomé” (a Arábia Saudita). Não estabelece, entretanto, qualquer ligação com situações políticas locais, como o fim do boicote contra o Iraque ou a situação na Argélia... Adepto do sunismo salafista, Bin Laden não manifesta solidariedade muçulmana absoluta: o assassinato do comandante Massoud, também muçulmano, nada tem a ver com ele, que também não procura qualquer sustentação ou apoio junto ao regime iraniano, certamente islamita, mas xiita!

Essa religiosidade desemboca num milenarismo que impregna os discursos do chefe da al-Qaida e reduz o político ao mínimo indispensável. Nos “Estudos militares do Jihad contra os tiranos”, documento de cerca de duzentas páginas encontrado na Grã-Bretanha, em maio de 2000, diz-se que “o martírio (...) permite a realização da religião de Alá todo-poderoso na terra1 ”. Como em todos os discursos de seitas, o religioso encobre o político e o torna inútil, anunciando uma realização rápida do paraíso na terra.

A morte como método da guerra

Existem várias características que permitem aproximar a al-Qaida de certas seitas, como, por exemplo, a ideologia milenarista e o desvio mortífero

Esta nova forma de islamismo radical resulta, é verdade, de um certo número de constatações de fracassos políticos e ideológicos: o fim do terceiro-mundismo, o fracasso do socialismo árabe, o impasse do Islã político2 , associados à tomada de consciência de que as autoridades religiosas oficiais do mundo árabe foram “nacionalizadas” pelos regimes locais (como na Arábia Saudita ou no Egito, com a Universidade Al-Azhar...).

Os atentados de Nova York e de Washington não foram, aliás, reivindicados, nem continham exigências que abrissem caminho para uma negociação com o “outro”. Nenhum dos terroristas desaparecidos em 11 de setembro tem passado militante, nenhum tem vínculos com um partido do islã político. Por um processo que lembra a recusa de Trotski ao socialismo num só país, Bin Laden recusa a idéia do islamismo num só país. Ele não tem estratégia nacional porque trabalha pelo triunfo de Alá no mundo inteiro.

Outra característica sectária dessa forma de islamismo: o desvio mortífero. O caso dos kamikazes do Hamas não é isolado. Na Argélia, os assassinatos estúpidos de mulheres e crianças, perpetrados pelo Grupo Islâmico Armado (GIA) ou pelo Grupo Salafista pela Pregação e o Combate (GSPC), não buscam legitimidade política ou estratégica alguma: tornaram-se o próprio método da guerra. Do mesmo modo e visivelmente, Bin Laden tomou emprestada a noção de “mártir” morrendo por sua fé do xiismo - do qual é característica - como demonstrou o modelo dos bassidji, jovens combatentes chamados à frente de batalha pelo regime do aiatolá Khomeini durante a guerra contra o Iraque3 .

Posando de Maomé

Bin Laden não estabelece qualquer ligação com situações políticas locais, como o fim do boicote contra o Iraque ou a situação na Argélia

Todos os atentados atribuídos à al-Qaida exigiram o sacrifício de um ou vários homens – tanto os ataques de agosto de 1998, contra as embaixadas norte-americanas da África Oriental, como o de outubro de 2000, contra o navio USS Cole. Encontra-se essa necessidade da morte do crente, ou do combatente, como passagem privilegiada para o paraíso nos suicídios coletivos de seitas (o Templo Solar, na Guiana), a sanção da traição em relação à seita política (o Exército Vermelho japonês ou os Tigres Tamil) ou religiosa (a seita japonesa Aum). E as vítimas inocentes aparecem como a condição inevitável da realização desse objetivo milenarista. O testamento encontrado na bagagem de Mohamed Atta não expressa qualquer piedade em relação aos futuros mortos, às vezes qualificados de “inimigos” por não serem muçulmanos. Em contrapartida, segundo a seita Aum Shinriko, responsável pelo primeiro atentado não convencional, com gás sarin, no metrô de Tóquio, em 20 de março de 19954 , os mártires e as vítimas recebem igualmente uma passagem privilegiada para o paraíso. Entre as inúmeras seitas milenaristas existentes no planeta, algumas vão até o mito da invencibilidade mágica: por exemplo, os combatentes do Holy Spirit Movement, de Uganda, se jogam contra as balas, convencidos de sua proteção divina e da ineficiência das armas de seus inimigos.

O guru é indispensável para que a dimensão parúsica5 seja completa. Seus próximos chamam o chefe da al-Qaida “xeque Osama” ou “emir Bin Laden” porque seus conhecimentos religiosos não lhe permitem ter um estatuto de doutor da fé6 . Mas, nas fitas que ele mandou à emissora Al Jazira, o homem não hesita em colocar-se diante de uma gruta, numa referência a Maomé expulso de Meca. Se não ousa posar como Deus, pode, implicitamente, identificar-se com o Profeta no exílio, com Saladino expulsando os cruzados ou com Hassan Sabah, o “velho da montanha”, chefe da seita dos Assassinos.

Teologia e antiglobalização

Como em todos os discursos de seitas, a religiosidade encobre o político e o torna inútil, anunciando uma realização rápida do paraíso na terra

Sua ideologia baseia-se, por outro lado, no conforto intelectual de um racismo sem remorsos. Os inimigos são “os cruzados e os judeus”, “os hipócritas e os descrentes”, como demonstra a fatwa7 que lançou em 1998, em apoio ao xeque Oman Abdul Rahman, condenado pelo primeiro atentado contra o World Trade Center. Essa fatwa exorta “todo muçulmano a matar cidadãos norte-americanos, sejam militares ou civis”. Encontram-se aqui certos simplismos do discurso de Khaled Kelkal, o responsável pelos atentados cometidos na França em 1995, segundo o qual os judeus inventaram o xiismo para enfraquecer o sunismo.

Esse racismo se manifesta também na temática anti-semita dos judeus que dominariam o mundo das finanças. Os atentados não visaram a Cidade do Vaticano, o Knesset8 ou a Estátua da Liberdade, mas (pela segunda vez) as duas torres do World Trade Center revelando, assim, uma visão mais hostil à globalização do que uma guerra religiosa. Na mesma gravação de 7 de outubro, Bin Laden qualificava a América de “símbolo do paganismo moderno”. Essa mistura de teológico e de anti-globalização simboliza a profunda esquizofrenia da sociedade saudita, que vive no estrangeiro tudo o que se proíbe em seu país e vê no “outro lugar”, especialmente no norte-americano, um inferno que se parece muito com o paraíso prometido ao combatente – o álcool e as mulheres aí esperam o mártir, segundo o documento encontrado na bagagem de Mohamed Atta.

Assassinato e atentados como objetivos

Seus próximos o chamam “xeque Osama” ou “emir Bin Laden” porque seus conhecimentos religiosos não permitem que ele tenha o estatuto de doutor da fé

Coexistem três gerações nas tropas da al-Qaida. Além dos pais fundadores, que são veteranos da guerra do Afeganistão e originários do Oriente Médio (Bin Laden e seu braço direito, Ayman Al- Zawarhi etc), uma segunda geração de muçulmanos juntou-se ao movimento a partir de 1992-1993 e seria reencontrada no atentado ao World Trade Center (como Ramzi Yousef, por exemplo). São desenraizados por necessidade, nascidos de casamentos entre pais de origens diversas que fazem deles uma espécie de sem-documentos no Oriente Médio. Não são palestinos, mas às vezes originários do Paquistão, das Filipinas ou dos países do leste da África (como Zacarias Mussaui, Samir Al-Jarrah etc) e que se tornaram radicais durante sua vida no Ocidente. Fenômeno clássico, a entrada na seita se faz ao preço de uma ruptura individual com a família, com o país de adoção e com o país de origem, e confere uma nova identidade. “Não sou francês nem argelino, sou muçulmano”, dizia Khaled Kelkal.

Para alguns, é uma viagem sem retorno, pois a prisão, ou mesmo a morte, os espera no país. O Afeganistão tornou-se o refúgio dos que precisavam ou queriam fugir e o martírio é a forma digna para sair desse impasse. Todos esses exilados, prontos a se sacrificar, passaram pelas mãos de Bin Laden, a quem os taliban confiaram o monopólio do recrutamento dos não-afegãos. Essa geração, que viveu o fracasso dos partidos islâmicos em diferentes países, adere à luta contra o novo inimigo multiforme: “o Ocidente”. O número de sauditas entre os autores dos atentados do 11 de setembro – entre metade e dois terços dos dezenove terroristas – simboliza a grave crise política e moral que esse país atravessa. Como os niilistas russos, esses homens, diplomados e saídos de famílias de executivos, formam uma intelligentsia que se dirige ao povo recorrendo ao assassinato e ao atentado para provocá-lo e acordá-lo.

Uma holding de interesses terroristas

Sua ideologia baseia-se no conforto intelectual de um racismo sem remorsos. Os inimigos são “os cruzados e os judeus”, “os hipócritas e os descrentes”

Um último círculo reúne jovens revoltados, de origem francesa ou imigrados, que há uns trinta anos talvez tivessem seguido um movimento maoísta, como a Esquerda Proletária, e que hoje se convertem ao islã.... Não são apátridas, mas possuidores de passaportes múltiplos, como Wadi El-Hage, um libanês condenado pelos atentados de 1998 e titular de passaporte norte-americano. Muitas vezes, começaram uma ascensão social que, interrompida brutalmente, provocou uma decepção que conduziu à radicalização: é o caso de Mussaui e Kamel Daudi, como o de Khaled Kelkal, em 1995. Os escritórios de recrutamento desses militantes se situam em algumas das grandes mesquitas do ocidente, principalmente aquelas mantidas pela Tabligh: Finnsbury Park, Mantes-la-Jolie, Brooklyn etc.

A al-Qaida constitui uma espécie de holding, dirigida por um conselho de administração (chura), que inclui representantes de diferentes movimentos terroristas. É um quase Estado totalitário, cujas subdivisões organizam o conjunto das funcionalidades essenciais: ideológica, de comunicação, administrativa e militar. Tal estrutura assegura as providências indispensáveis às operações terroristas incluindo, provavelmente, o amparo às famílias dos mártires. Ela é capaz de montar alianças, uma espécie de grupamentos de interesses terroristas, com outros movimentos que se associaram a ela (Jihad egípcio, grupo filipino de Abu Sayaf...). Uma espécie de “franquia do terrorismo”, segundo a expressão de Jean-François Daguzan9 . A lista dos vinte e sete “alvos” da ação anti-terrorista publicada por Washington - completada, em meados de outubro, por uma outra lista de trinta e nove objetivos, incluindo grupos, organizações de caridade e personalidades - prova a complexidade das ligações tecidas, ao longo do tempo, por Bin Laden. Enfim, a al-Qaida, como toda boa seita, controla uma rede financeira encarregada de drenar as doações e os fluxos de dinheiro para escondê-los, como as grandes fundações islâmicas (al-Barakat, por exemplo).

Dessa forma, o islã é atingido, como todas as religiões contemporâneas, pelo fenômeno do sectarismo que exacerba todos os seus não-ditos e excessos. Também não se deve se surpreender se a al-Qaida juntar, numa mesma vingança, os Estados Unidos, autoridades muçulmanas oficiais, Israel, ONU e globalização.
(Trad.: Maria Elisabete de Almeida)

1 - Citado pelo International Herald Tribune, 29 de outubro de 2001.
2 - Ler, por exemplo, de Olivier Roy, sobre o fim do islã político, Esprit, Paris, agosto-setembro de 2001.
3 - Muito bem analisados por Farhad Khoskhokavar (Cavard) em um estudo sobre “As novas formas da violência” , Culture et conflits, n°29-30, ed. L’Harmattan, Paris, 1997.
4 - Ler o artigo de Sylvaine Trin no estudo “As novas formas da violência”, Culture et conflits, n°29-30, ed. L’Harmattan, Paris, 1997.
5 - A parúsia é a segunda vinda do Cristo: para os milenaristas, o Messias reinará mil anos sobre a terra antes do Julgamento Final.
6 - Entrevista de Bin Laden a Hamid Mir, editor do jornal paquistanês Aussaf, citada pelo jornal Libération, número especial, 21 de setembro de 2001.
7 - N.T.: Decreto religioso.
8 - N.T.: Parlamento de Israel.
9 - L’Hiper-terrorisme, obra publicada pela Fondation pour la recherche stratégique e coordenada por François Heisbourg, ed. Odile Jacob, Paris, 2001.




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