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ENRON/GLOBALIZAÇÃO

Mil e uma trapaças

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Foi na hora da concordata que se tornaram visíveis as fraudes. E o exagero prodigioso dos lucros que provocou o colapso de um império cujo faturamento superava os 100 bilhões de dólares. Em um ano, a cotação na bolsa foi dividida por 350

Tom Frank - (01/02/2002)

“Estamos do lado dos anjos: em todos os negócios que empreendemos, somos os bons moços”, explicou Jeff Skilling, ex-presidente da Enron

“Acredito em Deus e acredito no mercado”, explicava, um ano atrás, Kenneth Lay, presidente da Enron1 . Depois, associando Jesus Cristo a uma espécie de liberal-libertário do fim do século, esse titã do setor de energia acrescentou: “Ele queria que as pessoas pudessem optar.” A Enron entregou-se, portanto, ao trabalho do Senhor, operando a favor da flexibilização da eletricidade. No caminho, a empresa sofreu uma metamorfose. Especialista em oleodutos, tornou-se o negociante gigante no mercado da energia – a EDF2 chegou a estar em sua mira. A predestinação divina se confirmou: o salário de Lay chegou a 141,6 milhões de dólares em 2000, um aumento de 184% em relação ao ano anterior. “Estamos do lado dos anjos: em todos os negócios que empreendemos, somos os bons moços”, explicou Jeff Skilling, ex-presidente da Enron, à revista Business Week.

A empresa deleitava-se com sua “transparência”. Na hora da concordata, tornou visível uma mistura de fraudes e nepotismo. Sem esquecer de mencionar um exagero prodigioso de seus lucros, o que provocou o pânico dos investidores e o colapso de um império cujo faturamento superava os 100 bilhões de dólares. Em um ano, sua cotação na bolsa de valores foi dividida por 350. Um destino desses é esclarecedor, a seu modo, para o debate sobre os fundos de pensão: 60% das quantias destinadas a financiar a aposentadoria dos empregados da Enron estavam investidos em ações da empresa...

“Criatividade” e “liberdade”

Um dado esclarecedor: 60% das quantias destinadas a financiar a aposentadoria dos empregados da Enron estavam investidos em ações da empresa...

Se são vários os fatores que explicam a derrocada, a ideologia da empresa e uma paixão pelos mercados, próxima ao culto de uma seita, constituem o elo entre eles. Porque foi apenas uma coincidência o fato de se terem revelado delinqüentes financeiros os que criaram anúncios zombando dos funcionários obcecados pelo desejo de regulamentar a atividade de destruidores de tabus. Uma vez que a Enron era a menina dos olhos de todos os que pensavam que os mercados eram o apogeu da existência, sua falência oferece uma boa oportunidade para se meditar sobre o furacão de privatizações e de flexibilizações a que assistimos nos últimos vinte anos. A partir da Enron, observa-se, simultaneamente, uma diretoria de empresa que desaparece embolsando dezenas de milhões de dólares, empregados que perdem tudo, até o dinheiro investido para suas aposentadorias, usuários que são condenados a sofrer blecautes, autoridades políticas corruptas, empresas de auditoria cada vez mais condescendentes, na medida em que as empresas por elas fiscalizadas às vezes retribuem esses serviços a título de assessorias3 , milícias patronais, bolhas de investimentos na bolsa que um dia estouram. Em suma, uma lição a ser aprendida.

É evidente que a Enron enganou os especialistas financeiros. Mas, no final das contas, o que é mais importante ainda, foi “politicamente” bem sucedida, vendendo ao mundo inteiro a idéia de que a paixão pelos mercados e pela flexibilização correspondia a uma “revolução”, à expressão de “criatividade”, à própria liberdade. As empresas deviam ser livres para agir como se fossem deuses seculares no mundo inteiro, a fim de que acedêssemos à democracia e ao poder do povo.

O “Elvis Presley” da nova economia

A falência da Enron é uma boa oportunidade para se meditar sobre o furacão de privatizações e de flexibilizações a que assistimos nos últimos 20 anos

Para os gurus do management, a Enron era uma operação quase santa. O pequeno fabricante de oleodutos que se tornou grande – e ambicioso – comprava, vendia, propunha sua energia ao país inteiro. Mas que se lixem os oleodutos, as fábricas e os ativos físicos que se tornaram arcaicos! Tratava-se da era da Internet, da “nova economia”. A Enron não era nada menos do que um “criador de mercados”, um missionário do espírito empreendedor e da acumulação dos lucros, não hesitando, para realizar sua tarefa, em penetrar nas camadas mais profundas de uma velha economia ainda paralisada por uma ideologia de regulamentações e de serviço público. Vocês duvidam? Vejam nossos lucros!

Os últimos anos foram os da Enronfilia. Num livro de Gary Hamel publicado em 2000, , o autor considerava que, nessa empresa “revolucionária”, as “idéias radicais” floresciam, pois eram estimuladas a se exprimirem: “novas vozes podem se fazer ouvir”. A empresa se baseava até em Gandhi, Lincoln e nos militantes dos direitos civis que, em 1963, puseram em risco suas vidas, no Alabama, para conseguir a igualdade dos negros...

Em abril de 2000, a revista Fortune associou a Enron a Elvis Presley. O trecho seguinte é tão bizarro que merece ser reproduzido na íntegra: “Imagine um jantar dançante no Country Club com um grupo de velhos canastrões rodopiando com suas esposas ao som de uma música de Guy Lombardo interpretada por uma orquestra de smoking. De repente, o jovem Elvis entra ruidosamente, vestido com uma roupa de lamê dourado, rebolando e com uma guitarra cintilante. Metade dos dançarinos desmaia, a outra metade, ou quase, fica indignada. Mas alguns deles começam a gostar do que ouvem, descobrem que seus pés acompanham o ritmo, passam a pegar outros parceiros de dança e, de repente, se entregam a uma ginga bem diferente. Pois bem: no universo regulamentado das empresas energéticas, a Enron Corp. é Elvis.”

Papel de “criador de mercados”

Em setembro de 2000, Jeff Skilling, então diretor-presidente da empresa, garantia, na capa de Business 2.0, que “A revolução continua”, precisamente no momento em que as perspectivas de lucro acabavam de soçobrar. Para ele, a transformação da Enron numa “empresa virtual integrada” permitia ver a “luz de um futuro possível”. As verdades revolucionárias da nova economia ainda não haviam dito sua última palavra.

Para a Enron, as empresas deviam ser livres para agir como se fossem deuses seculares, a fim de que acedêssemos à democracia e ao poder do povo

Esse número da revista ainda estava nas bancas quando Jeff Skilling desapareceu misteriosamente do quartel-general da Enron. Bem rapidamente, no entanto, declarou-se que a concordata nada tinha a ver com o culto dos mercados e das privatizações. “Não há qualquer relação!”, cortou o Wall Street Journal, em editoriais sucessivos e frenéticos. Na verdade, tudo ficava explicado pelo fato de o Estado não ser suficientemente flexibilizado4 ... Um dos programas financeiros da rádio pública NPR considerou que, levando-se em conta os esforços da Enron para manter baixos os preços da energia, os consumidores deveriam recear a falência de uma empresa quase filantrópica.

Mesmo nos momentos mais gloriosos da empresa, era difícil compreender o que a Enron “fabricava” exatamente. Aparentemente, o papel de “criador de mercados” (market maker) implicava numa superabundância de contratos e de investimentos financeiros audaciosos. Obrigava-a também a se comprometer com a política, ou seja, a financiar os dois principais partidos norte-americanos, já que deles dependia a abertura de novos mercados.

Relações simbióticas com políticos

Foi também por isso que a Enron teve de se dedicar a um trabalho permanente de relações públicas. “Revolucionária”, a empresa vendia a flexibilização como um grande avanço da liberdade humana. Tratava-se – não é mesmo? – de devolver o poder ao povo. Se, em certos Estados, os eleitores não gostavam, a empresa ia para outro lugar, comprando de maneira absolutamente legal – via suas contribuições financeiras às campanhas dos políticos – os apoios de que o povo esperava afastá-la. Kenneth Lay dava dinheiro para o presidente Clinton, com quem jogava golfe? O governo democrata considerava um dever apoiar as empresas da Enron no exterior. A Enron deu também dinheiro – e muito – ao líder parlamentar republicano Thomas Delay? Foi ele que apresentou o projeto de lei relativo à flexibilização do mercado da eletricidade.

Em setembro de 2000, um diretor da empresa garantia que “a revolução continua”, no momento exato em que as perspectivas de lucro acabavam de soçobrar

A Enron também se empenhou em auxiliar George W. Bush a se tornar uma personalidade política nacional. Quando o atual presidente dos Estados Unidos ainda era governador do Texas, atravessava esse Estado num jato particular fornecido pela empresa. Depois, em sua campanha para a Casa Branca, teve a Enron como principal contribuinte. Mas não era só isso. Kenneth Lay também era um amigo de negócios do atual vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Cheney, e co-presidente da Fundação Barbara Bush contra o analfabetismo. A simbiose da Enron com os círculos dirigentes permitiria que Lay fosse o único dono de uma empresa elétrica a se encontrar a sós com Cheney, no momento em que este preparava o plano energético do governo. Teria também sugerido um certo número de pessoas para a direção da agência federal encarregada de regulamentar seu setor de atividade. Na Grã-Bretanha, onde a Enron soube tirar partido da privatização da água, a empresa fez parte, em 1998, dos colaboradores financeiros do congresso anual do Partido Trabalhista.

Uma lista de personalidades

Oferecer aos legisladores “amigos” um emprego ou uma posição privilegiada na empresa também foi uma arma muito eficaz. Em 1993, Wendy Gramm, esposa de um senador republicano do Texas, candidato às eleições presidenciais em 1996, obteve, na qualidade de membro de uma Comissão de Regulamentação, uma lucrativa isenção para a Enron. Não demorou muito para se tornar membro do Conselho de Administração da firma. Houve a mesma coincidência no caso de Lord John Wakeham, um conservador britânico que desempenhou um papel-chave por ocasião da desastrosa privatização do setor elétrico na Grã-Bretanha. Uma outra coincidência foi o caso de Frank Wisner, embaixador dos Estados Unidos na Índia no tempo do governo Clinton: ele permitiu à empresa conseguir, em 1993, um contrato de 3 bilhões de dólares para construir uma controvertida central elétrica de 740 megawatts em Dabhol e, depois, fez pressão sobre o governo indiano no momento em que este decidiu voltar atrás da decisão (o vice-presidente Cheney também interferiu). Um lugar no Conselho de Administração da Enron esperava Wisner quando se aposentou do Departamento de Estado.

Também não poderiam deixar de ser mencionadas algumas personalidades políticas ligadas à Enron: o atual presidente do Partido Republicano, Marc Racicot, James Baker, ex-secretário de Estado, Lawrence Lindsay, um dos economistas assessores do atual presidente e dois dos dirigentes da campanha presidencial democrata de Albert Gore. O escândalo pode, portanto, atingir muitos adoradores do mercado de ambos os partidos5 .

A “herança” da flexibilização

Um dos programas financeiros da rádio pública NPR considerou que os consumidores deveriam recear a falência de uma empresa quase filantrópica

A empresa dirigida por Lay também se destacou de outra maneira: foi uma das únicas a ser objeto de um relatório da Anistia Internacional que detalhava o tratamento brutal infligido a habitantes de Dabhol por seguranças da Enron. As técnicas de persuasão assumiram outras formas. John Kachamila, ministro dos Recursos Naturais de Moçambique, que foi encarregado de um contrato de gás natural solicitado pela Enron, lembra as pressões dos representantes do governo norte-americano: “Eles ameaçavam fazer-nos perder fundos de desenvolvimento, se não assinássemos – e depressa. Seu diplomata, em especial Mike McKinley [na época, encarregado de negócios em Maputo], me obrigou a assinar um acordo que não era conveniente para Moçambique. Não era um diplomata neutro: tinha-se a impressão de que trabalhava para a Enron. Recebíamos também solicitações de senadores norte-americanos que nos ameaçavam disto ou daquilo, caso não assinássemos. Lançaram uma campanha de calúnias contra mim, sugerindo que me recusava a assinar porque queria uma comissão6 .”

Os defensores da Enron temem um questionamento da “herança” da flexibilização. E têm razão. Privada das pressões políticas e dos financiamentos das campanhas eleitorais, a flexibilização não tem o mesmo futuro. Se, a partir de agora, as municipalidades decidirem unicamente em função do preço e da qualidade do serviço, é provável que passem a privilegiar exclusivamente os serviços municipais. O exemplo da flexibilização na Califórnia teve valor pedagógico: a explosão do preço da eletricidade foi geral em todo o Estado, com exceção da cidade de Los Angeles que tinha suas próprias centrais.

A “nova economia” da década de 90 cultuou a idéia de um serviço prestado ao público no altar da ideologia do mercado. Os mercados, explicava-se, são sempre preferíveis e são sempre mais democráticos. Durante muito tempo, a grande imprensa propagou esse dogma, de acordo com a Enron. Ao saber do colapso do grande conglomerado, um funcionário californiano deixou escapar, aliviado: “Deus existe.”
(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - San Diego Union Tribune, 2 de fevereiro de 2001.
2 - N.T.: O equivalente à Eletrobrás na França.
3 - Foi esse, especificamente, o caso da empresa de auditoria Arthur Andersen, que recebeu 27 milhões de dólares da Enron.
4 - Em sua edição de 18 de janeiro de 2002, o Wall Street Journal, republicano convicto, atribuía a concordata da Enron à cultura dos “anos Clinton”. E o pensador George Gilder, partidário de Reagan, imputou as confusões financeiras da empresa à complexidade das normas fiscais norte-americanas.
5 - As contribuições eleitorais da empresa privilegiaram evidentemente o Partido Republicano, mas os democratas também se aproveitaram dos donativos da empresa atualmente em concordata.
6 - Houston Chronicle, 1° de novembro de 1995.




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