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PIERRE BOURDIEU (1930-2002)

Conversa com sindicalistas

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Em Atenas, num encontro com sindicalistas e pesquisadores, Pierre Bourdieu fez seu último discurso público (leia abaixo). Um dos mais importantes intelectuais franceses – e mundiais – Bourdieu foi sempre polêmico: “Não há democracia sem contra-poder crítico”, dizia

(01/02/2002)

Se hoje é importante, senão necessário, que pesquisadores independentes se juntem ao movimento social, é porque estamos diante de uma política de globalização (eu disse exatamente isso: uma “política de globalização”; não falo de “globalização” como se se tratasse de um processo natural). A produção e a difusão dessa política são, em grande parte, mantidas em segredo. E já constitui todo um trabalho de pesquisa, que é necessário, descobrir tal política antes que comece a ser aplicada. Ela também tem efeitos que podem ser previstos graças aos recursos das ciências sociais, mas que, a curto prazo, ainda são invisíveis para a maioria das pessoas. Outra característica sua: é produzida, em parte, por pesquisadores. A questão é saber se aqueles que antecipam, a partir de seu saber científico, as conseqüências funestas dessa política, podem e devem guardar silêncio. Ou se não há nisso uma espécie de não-assistência a pessoas em perigo. Se é verdade que o planeta está ameaçado por calamidades graves, os que crêem saber, de modo antecipado, dessas calamidades, não teriam o dever de sair da discrição que, tradicionalmente, os cientistas se impõem?

Na cabeça da maioria das pessoas cultas, sobretudo em ciências sociais, existe uma dicotomia que me parece absolutamente funesta: a dicotomia entre scholarship e commitment – entre os que se dedicam ao trabalho científico feito segundo métodos científicos, e destinado a outros cientistas, e os que se engajam e levam seu saber para fora. A oposição é artificial e é preciso ser, de fato, um cientista autônomo que trabalhe segundo as regras do scholarship para poder produzir um saber engajado, isto é, um scholarship with commitment. É necessário, para ser um verdadeiro cientista engajado, legitimamente engajado, engajar um saber. E só se adquire tal saber no trabalho científico, submetido às regras da comunidade científica.

Em outros termos, é necessário destruir um certo número de oposições que estão em nossas cabeças e que são formas de permitir omissões: a começar pela omissão do intelectual que se isola em sua torre de marfim. A dicotomia entre scholarship e commitment tranqüiliza o pesquisador em sua boa consciência porque ele tem a aprovação da comunidade científica. É como se os cientistas acreditassem ser duplamente sábios porque não fazem nada com sua ciência. Porém, quando se trata de biólogos, isso pode ser criminoso. Mas também é grave quando se trata de criminologistas. Essa discrição, essa fuga na pureza, tem sérias conseqüências sociais. Pessoas como eu, pagas pelo Estado para fazer pesquisa, deveriam guardar cuidadosamente os resultados de suas pesquisas para os colegas? É absolutamente fundamental dar prioridade à crítica dos colegas sobre o que se acredita ser uma descoberta, mas por que reservar para eles o saber coletivamente adquirido e controlado?

Parece-me que, hoje, o pesquisador não tem escolha: se está convencido de que há uma correlação entre as políticas neoliberais e as taxas de delinqüência, uma correlação entre as políticas neoliberais e as taxas de criminalidade, uma correlação entre as políticas neoliberais e todos os índices daquilo que Dürkheim teria chamado de anomia, como poderia deixar de dizê-lo? Não só não há como criticá-lo, como deveria ser felicitado por essa atitude. (Talvez eu esteja fazendo uma apologia de minha própria posição...)

Mas, o que vai fazer o pesquisador no movimento social? Primeiro, não vai dar aulas – como faziam alguns intelectuais orgânicos que, não sendo capazes de impor suas mercadorias no mercado científico, onde a concorrência é dura, iam dar uma de intelectuais junto aos não-intelectuais dizendo que o intelectual não existia. O pesquisador não é um profeta, nem um sábio. Deve inventar um papel novo que é muito difícil: deve ouvir, deve buscar e inventar; deve tentar ajudar os organismos que têm por missão – cada vez menos convictos, infelizmente, inclusive os sindicatos – resistir à política neoliberal; deve atribuir-se a tarefa de ajudá-los fornecendo-lhes instrumentos. Em particular, instrumentos contra o efeito simbólico que exercem os “especialistas” contratados pelas grandes empresas multinacionais. É necessário dar nome aos bois. Por exemplo, a atual política de educação é decidida pela UNICE, pelo Transatlantic Institute etc. 1 . Basta ler o relatório da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre os serviços para se conhecer a política da educação que teremos dentro de cinco anos. O Ministério da Educação limita-se a transmitir essas instruções elaboradas por juristas, sociólogos, economistas, e que, uma vez revestidas da forma jurídica, são postas em funcionamento.

Os pesquisadores também podem fazer uma coisa mais nova, mais difícil: incentivar o surgimento das condições organizacionais da produção coletiva da intenção de inventar um projeto político e, em segundo lugar, as condições organizacionais para o êxito da invenção desse projeto que, evidentemente, será um projeto coletivo. Afinal, a Assembléia Constituinte de 1789 e a Assembléia da Filadélfia eram formadas por pessoas como vocês e eu, que tinham uma bagagem jurídica, que haviam lido Montesquieu e que inventaram estruturas democráticas. Do mesmo modo, hoje é necessário inventar coisas... É evidente que se poderá dizer: “Há parlamentos, há uma confederação européia dos sindicatos, há todo tipo de instituições que supostamente o irão fazer.” Não vou, aqui, demonstrar isso, mas ocorre que eles não o fazem. É preciso, pois, criar as condições favoráveis para essa invenção. É preciso ajudar a vencer os obstáculos a essa invenção; obstáculos que, em parte, estão no movimento social encarregado de suprimi-los – e, particularmente, nos sindicatos...

Por que se pode ser otimista? Penso que se pode falar de boas chances de sucesso, que esse momento é o kairos, o momento oportuno. Quando fazíamos esse discurso, por volta de 1995, tínhamos em comum não ser ouvidos e passar por loucos. As pessoas que, como Cassandra, anunciavam catástrofes, eram ridicularizadas, atacadas pelos jornalistas e insultadas. Hoje o são um pouco menos. Por que? Porque se trabalhou. Houve Seattle e várias manifestações. E, também, as conseqüências da política neoliberal – que havíamos previsto abstratamente – começam a ser vistas. E as pessoas, agora, compreendem... Mesmo os jornalistas mais limitados e mais teimosos sabem que uma empresa que não tem um lucro de 15% parte para as demissões. As profecias mais catastróficas dos profetas da desgraça (que, simplesmente, eram melhor informados que os outros) começam a se realizar. Não é cedo demais. Mas também não é muito tarde. Porque é apenas um começo, pois as catástrofes só estão começando. Ainda é tempo de sacudir os governos social-democratas, para os quais os intelectuais olham encantados, principalmente quando deles recebem vantagens sociais de todo tipo...

Tornar os movimentos sociais eficazes

Um movimento social europeu, a meu ver, só tem chance de ser eficaz se reunir três componentes: sindicatos, movimento social e pesquisadores – com a condição, evidentemente, de integrá-los, e não apenas justapô-los. Eu dizia ontem aos sindicalistas que há, entre os movimentos sociais e os sindicatos em todos os países da Europa, uma profunda diferença quanto aos conteúdos e, ao mesmo tempo, quanto aos meios de ação. Os movimento sociais fizeram ressurgir objetivos políticos que os sindicatos e os partidos haviam abandonado, ou esquecido, ou rechaçado. Por outro lado, os movimentos sociais trouxeram métodos de ação que os sindicatos pouco a pouco, mais uma vez, esqueceram, ignoraram ou rechaçaram. E, em particular, métodos de ação pessoal: as ações dos movimentos sociais recorrem à eficácia simbólica, uma eficácia simbólica que depende, em parte, do engajamento pessoal dos que protestam; um engajamento pessoal que é também um engajamento corporal.

É necessário correr riscos. Não se trata de desfilar de braços dados, como tradicionalmente fazem os sindicalistas no dia 1° de maio. É preciso agir, ocupar locais de trabalho etc. O que exige, ao mesmo tempo, imaginação e coragem. Mas vou dizer também: “Cuidado, nada de ‘sindicalismofobia’. Há uma lógica dos aparelhos sindicais que é preciso entender.” Por que é que digo aos sindicalistas coisas que são próximas do ponto de vista dos movimentos sociais sobre eles, e por que vou dizer aos movimentos sociais coisas que são próximas da visão que os sindicalistas têm deles? Porque é com a condição de que cada um dos grupos veja a si mesmo como vê os outros que se poderá superar as divisões que contribuem para enfraquecer grupos já muito fracos. O movimento de resistência à política neoliberal é globalmente muito fraco e enfraquecido por suas divisões: é um motor que gasta 80% de sua energia em calor, isto é, sob a forma de tensões, de divergências, de conflitos etc. E que poderia ir muito mais rápido e mais longe se...

Os obstáculos à criação de um movimento social europeu unificado são de vários tipos. Há obstáculos lingüísticos que são muito importantes, por exemplo, na comunicação entre os sindicatos e os movimentos sociais – os patrões e os executivos falam línguas estrangeiras, os sindicalistas e os militantes não tanto. Por isso, a internacionalização dos movimentos sociais e dos sindicatos se tornou tão difícil. Há ainda obstáculos ligados aos hábitos, aos modos de pensar, à força das estruturas sociais, das estruturas sindicais. Qual poderia ser o papel dos pesquisadores? O de trabalhar para uma invenção coletiva das estruturas coletivas de invenção que farão nascer um novo movimento social, quer dizer, novos conteúdos, novos objetivos e novos meios internacionais de ação.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler: Europe Inc. Liaisons dangereuses entre institutions et milieux des affaires européens, CEO, Agone, Marselha 2000.




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