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Aguardando as grandes mudanças

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Em 20 anos, a sociedade senegalesa passou por várias e profundas crises: a criação do plano de ajuste estrutural, o plano de emergência que se seguiu, a desvalorização da moeda local em 1994 e a intensificação do êxodo rural nas décadas de 80 e 90

Anne-Cécile Robert - (01/02/2002)

A situação social do Senegal regrediu nitidamente em alguns anos, chegando a classificar o país na categoria dos países menos avançados (PMA)

Dacar, 16 de dezembro de 2001. Uma certa efervescência toma conta das ruas e cresce a agitação nos mercados. Nas calçadas formigantes da capital senegalesa, multiplicam-se as vitrinas improvisadas: artigos de couro, vídeo-cassetes, telefones celulares, temperos, acessórios de cozinha... No dia seguinte, se surgir no céu a lua crescente, haverá o korité, a grande festa que celebra o fim do Ramadã. Esgotados por quatro semanas de jejum, os 92% dos senegaleses muçulmanos preparam-se para a festa com uma arte que é só sua.

No entanto, a situação social do Senegal regrediu nitidamente em alguns anos, chegando a provocar, em julho de 2000, a classificação do país na categoria pouco invejável dos países menos avançados (PMA) 1 . Mais de 65% da população vive abaixo do limiar de pobreza2 e a miséria fica exposta, chocante, nas ruas. Além disso, a harmonização fiscal incentivada pela criação do mercado comum da União Econômica e Monetária da África Ocidental3 provocou uma brusca elevação de preços nos produtos de necessidade básica. Nessa véspera do korité, uma certa tristeza contrasta com o espírito festivo.

Empobrecimento e angústia

O país ocupa o 160º lugar, entre 175, no índice de desenvolvimento humano elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Os jornais dão conselhos específicos (por exemplo, como explicar a um amigo que não se teve condições de lhe oferecer o presente desejado) e lembram, com bastante propriedade, alguns princípios básicos (gastar demais contraria o espírito religioso4 ). Mas nada detém os senegaleses de festejar: “Vivo o dia-a-dia, despreocupada, sejam quais forem os problemas. Nos dias de festa, deve-se viver com alegria”, explica, com um enorme sorriso, uma jovem no mercado popular de Sandaga, no centro de Dacar. Ela veio, com uma amiga, escolher o tecido para um vestido novo. “A festa de todos os preços”, diz, em manchete, Le Soleil, pendurado por um pregador numa banca de jornais.

Em vinte anos, a sociedade senegalesa passou por várias e profundas crises: a criação do plano de ajuste estrutural, no final da década de 80, o plano de emergência (um plano de austeridade) que se seguiu, a desvalorização do franco CFA em 1994 e a intensificação do êxodo rural nas décadas de 80 e 905 . Segundo os sociólogos Momar Coumba Diop e Mamadou Diouf, esse período foi marcado por um “empobrecimento generalizado e, principalmente, pela angústia dos jovens6 ”. O país ocupa o 160º lugar, entre 175, no índice de desenvolvimento humano elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Chegam os tecnocratas

No dia 19 de março de 2000, a derrota eleitoral do presidente socialista Abdou Diouf fez nascer uma imensa esperança de mudanças7 . “O 19 de março de 2000 é o nosso 10 de maio de 1981”, diz Modou, um estudante de economia da Universidade de Cheikh Anta Diop, em alusão à eleição vencida naquela data por François Mitterrand. Houve uma grande mobilização dos jovens e o processo eleitoral transcorreu praticamente sem incidentes. Porém, mais que uma adesão à coalizão sopi (“mudança”, no idioma wolof), liderada pelo liberal Abdoulaye Wade, era a rejeição de um sistema que se manifestava. O ex-presidente socialista havia cristalizado no seu nome as frustrações sociais acumuladas por vinte anos de ajuste estrutural e a vontade de pôr fim à corrupção e ao clientelismo. “A raiva era tão grande que, se tivéssemos uma cabra competindo com Diouf, ela seria eleita”, conta Alain Agboton, ativista de uma ONG.

A derrota eleitoral de Abdou Diouf, em março de 2000, fez nascer a esperança de mudanças. Os jovens se mobilizaram e a eleição transcorreu tranqüila

Muitos senegaleses associam o sucessor escolhido pelo presidente Léopold Sedar Senghor, em dezembro de 1980, a uma ruptura na história pós-independência. “Diouf significou a chegada dos tecnocratas, dos ‘pinguins’ com pinta de FMI”, avalia, por exemplo, Moussa Sene Absa, diretor do seriado de televisão Goorgoorlu, muito popular, e que narra o cotidiano de um senegalês de classe média. Na realidade, os anos do governo Diouf são os da inserção na globalização e da ruptura com os compromissos sócio-econômicos do período pós-colonial. Asfixiado pelos credores, o poder público descarregou o ônus da dívida, de modo progressivo, sobre a “sociedade civil”. Embora tradicionalmente abertos para o exterior e trabalhadores, os senegaleses tiveram que enfrentar a situação com uma estranha energia, misturando biscates com o fascínio pela modernidade, a nostalgia dos valores rurais com a contestação ríspida e com a tentação pelo exílio. Para a maioria, generaliza-se o “sistema D”: pequenos bicos de um só dia e a malícia para se virar.

Loucura, droga e mendicância

Um ano e meio após a alternância, a população já estava impaciente. Embora a opinião pública e a imprensa mantivessem, de uma maneira geral, um a priori favorável ao novo governo, os programas interativos de várias rádios (como a Sud FM e a Walf FM) difundiam críticas bastante agressivas, às vezes. Em Dacar, onde existem cerca de mil grupos de rap, os músicos transmitiam as dificuldades e destacavam os clamores por mudanças. Muito criativos, os senegaleses não hesitaram em passar a manifestar suas reivindicações por meio de jornais satíricos, por obras de arte ou pichações iradas: custo de vida, luta contra a corrupção, melhoria do transporte público, coleta de lixo...

“A raiva era tão grande que se tivéssemos uma cabra competindo com Diouf, ela seria eleita”, conta Alain Agboton, ativista de uma ONG

“É muito difícil manter o equilíbrio”, explica Bobo, 30 anos, que tem esse apelido devido às tranças rastafari que o fazem parecer-se com Bob Marley. Ele é guia de turistas na ilha de Gorée. “O Estado deixou de criar empregos e as manifestações de solidariedade tradicionais já não são como eram antes. Os jovens entregam-se à loucura, à bebida, à droga, dormem na rua.” Na rua, não faltam mendigos, meio-simpáticos, meio-espertalhões, que ficam na cola dos toubab (gringos) de um lado para o outro. “Quando eu era menino”, conta Iso, assistente social, de uns quarenta anos, “ninguém ousaria pedir dinheiro desse jeito. Meu pai me teria seriamente repreendido.” Segundo Meissa, um jovem motorista que faz entregas, “hoje em dia, é triste quando nos dirigimos a um estrangeiro para lhe dar as boas-vindas, uma tradição nossa, e ele pensa que queremos pedir-lhe dinheiro”.

Clientelismo e corrupção

A frustração é ainda maior porque a riqueza é visível. Automóveis do último modelo desfilam pelas ruas, em contraste com um parque automobilístico obsoleto, alimentado pela importação de carros encalhados, de origem européia; inúmeros canteiros de obras em construção – e as mansões não são raras. O Senegal é o país africano de língua francesa que mais ajuda recebe: duas vezes mais que a Costa do Marfim; uma ajuda que equivale a 93 euros (193,40 reais) por habitante, ou seja, 2,5 vezes mais que a média do continente. A ajuda do exterior triplicou em quinze anos, mas dois terços são destinados ao pagamento da dívida externa.

“É evidente que existe dinheiro!”, exclama Ibrahima Thioub, professor de história na Universidade Cheikh Anta Diop. “Mas não atende à população porque é reciclado no sistema, para manter alguns grupos no poder e afastar outros.” O clientelismo é considerado, de maneira geral, como uma das causas do subdesenvolvimento. Num café próximo à Praça da Independência, Déthié Sall, executivo de uma companhia de seguros em Paris, recorda: “Eu conheci o suplício do sistema senegalês: tentei montar uma pequena empresa na década de 90, em Dacar. Dava trabalho a cerca de dez pessoas. Mas tive que desistir: é impossível fazer o que quer que seja sem suborno ou sem favores.” Para ter sucesso, é necessário conhecer as pessoas certas, pertencer a uma rede, ter contatos e, às vezes, até apelar para o apoio da umbanda8 .

Dependência do mercado externo

Um ano e meio após a alternância, a população já estava impaciente. Em Dacar, músicos de rap (mais de mil grupos) destacavam os clamores por mudanças

Chegando ao poder através de uma razoável transparência eleitoral, o governo de Wade goza de uma legitimidade incontestável e a opinião pública espera que se aproveite disso. Mas, para Ibrahima Thioub, será difícil erradicar o clientelismo, pois este está inserido em uma “longa herança de personalização de cargos e na utilização do poder como acumulação e redistribuição de riqueza. Isso vem dos tempos das monarquias da economia atlântica dos séculos XVI e XVII; talvez até antes, da época medieval”.

Em suas grandes linhas, o governo de Abdoulaye Wade mantém a política econômica de seus antecessores, em conformidade com os mandantes credores (Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial), cuja aprovação se tornou um argumento político, apesar da degradação da situação social. O programa de privatização das grandes empresas nacionais prosseguiu: a Société nationale d’électricité (Senelec), a Société nationale des oléagineux du Sénégal (Sonacos), a Société de développement des fibres textiles du Sénégal (Sodefitex), o transporte ferroviário... As orientações básicas da economia também não foram questionadas: a economia continua dependente dos mercados externos, tanto no que se refere a alimentos quanto aos produtos das novas tecnologias9 . Por um certo período, a importância concedida pelo presidente Abdoulaye Wade ao sistema de infra-estrutura, principalmente o transporte, permitiu imaginar que se buscava alguma forma de intervenção pública10 . Os projetos, no entanto, ficaram pouco claros, acabando por se diluir na Iniciativa Africana de Desenvolvimento, aprovada na reunião de cúpula da Organização da Unidade Africana (OUA) de 11 de julho de 2001, em Lusaka, na Zâmbia11.

Privatizações e desemprego

A frustração é ainda maior porque a riqueza é visível. Automóveis do último modelo desfilam pelas ruas e as mansões não são raras

O clima social ficou tenso. O país voltava aos tempos dos grandes movimentos grevistas da era Diouf. Às vezes, ganhando dimensões espetaculares, como as manifestações dos integrantes do contingente senegalês da Missão das Nações Unidas no Congo (Monuc) que, de volta ao país, não receberam seus vencimentos. Por várias vezes, e principalmente em Thies, os soldados bloquearam as vias de acesso à capital. De uma maneira geral, a tensão nascia da ausência de perspectivas sociais num país em que o Estado é omisso e não assume suas responsabilidades. As universidades, por exemplo, passam por greves constantes e, em janeiro de 2001, a manifestação dos estudantes da Universidade Cheikh Anta Diop excedeu-se e acabou com a morte de um jovem.

Empresas fecham de um dia para o outro, deixando os empregados sem qualquer apoio, pois os meios de exigir que sejam cumpridas as poucas leis existentes são insignificantes. “Os fiscais do trabalho nem recebem gasolina para seus carros”, critica Mody Guiro, secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores Senegaleses (CNTS), principal central sindical do país. Além do que, quando se trata de privatizações, as questões sociais são subestimadas: “Levam-se em conta aqueles que nunca trabalharam”, salienta o dirigente da ex-central sindical socialista, “mas sempre são esquecidos aqueles que perdem o emprego. Com cada um deles – considerando-se a importância da solidariedade familiar no Senegal – são umas quinze pessoas que passam a viver em dificuldades.”

A “moda” das ONGs

Mas, como em todos os países pobres, é o espectro do setor informal que dá uma idéia da situação em que se encontram as relações sociais. Uma autêntica válvula de segurança e de sobrevivência em tempos de crise, esse é o setor que gera mais empregos. Com apenas 200 mil assalariados recenseados entre uma população economicamente ativa de 3,8 milhões, e com uma taxa de desemprego oficial em torno de 11%, a maioria das pessoas depende, portanto, da economia paralela. Esta abrange inúmeros serviços úteis, como alimentação e transporte, e o seu desenvolvimento acompanhou o ritmo da urbanização (cerca de 40% dos senegaleses vivem na cidade). Para Mody Guiro, em alguns casos, como o do setor de coletivos rápidos, é possível observar-se uma transferência do trabalho profissional para a economia informal, pois esse setor foge a toda proteção legal em matéria de saúde e de direitos trabalhistas. Além do que, considerando-se a mediocridade dos salários12 , “todo mundo é tentado, em um ou outro momento, pelo mercado informal, inclusive os servidores públicos que ganham, em média, 600 mil francos CFA (190 reais) por mês”, acrescenta Guiro, com estatísticas na mão.

Em suas grandes linhas, o atual governo mantém a política econômica de seus antecessores, conforme exigem os mandantes credores (FMI e Banco Mundial)

Nesse contexto de crise, em que todo mundo participa do “sistema D”, as ONGs senegalesas, particularmente dinâmicas, tentam criar empregos e garantir as necessidades básicas, como a educação e a saúde. Além do que, os mandantes e credores incentivam essas ONGs a se tornarem intermediários dos programas de ajuda e de luta contra a pobreza. Para Babacar Diop Buuba, presidente do Conselho das Organizações Não Governamentais de Apoio ao Desenvolvimento (Congad), as ONGs deveriam contribuir para a recomposição de um tecido social abalado pela crise. Todos os dias os jornais relatam novas iniciativas: criação de um grupo de interesse econômico de deficientes que fazem cartolina de papel reciclado, escolas de rua para crianças abandonadas, grupos de mulheres comerciantes... Junta-se a isso a intervenção de inúmeras ONGs estrangeiras. “Virou moda trabalhar para uma ONG”, comenta um rapper, sarcástico.

O mito do eldorado no exterior

No entanto, se é certo que os projetos de desenvolvimento são apreciados por sua ajuda concreta, a arrogância de algumas pessoas, “que conduzem carros 4x4”, a competição, às vezes estéril, de vários grupos e a falta de uma assistência contínua também podem provocar incompreensões. Da mesma forma, as ONGs provocam a irritação dos dirigentes políticos, que lhes criticam a falta de transparência. “Em alguns vilarejos, as ONGs são mais conhecidas que os ministros”, diz, meio sorrindo, Babacar Diop Buuba. E eis que se chega a um círculo vicioso, quando se constata que é a omissão do Estado que, às vezes, leva as ONGs à intervenção no setor formal. Em 5 de julho de 2001, por exemplo, a Congad facilitou uma reunião entre sindicatos de professores e ONGs para articular a ação de uns e outros na prática. Para Oumar Sall, da Casa da Criança Abandonada de Dacar, “é necessária uma resposta política, pois nós só podemos trazer os problemas à luz do dia. Seria um perigo se fizéssemos a mesma coisa durante 30 anos, com apoio da Unicef, e nada mudasse”. É justamente o que diz Ibrahima Thioub, quando afirma, ligeiramente irritado: “A luta contra a pobreza não é um programa de desenvolvimento.”

A ausência de perspectivas e o fracasso das pretensões reformadoras do Estado pós-colonial13 incentivaram a hemorragia das forças vivas do país. No Senegal, os sonhos de exílio e de fuga de cérebros são alimentados pela tradicional abertura do país para o exterior e pela energia mercantil dos Wolofs, etnia majoritária. Por meio da frustração e do mimetismo, a televisão e os vídeo-cassetes alimentam o mito de um eldorado no exterior. E os que voltam são demasiado orgulhosos para confessarem como são duras as condições de vida para um imigrante sem diploma num país rico. Além do que, apesar de um salário insignificante, a diáspora dos emigrantes dispõe de um grande poder aquisitivo no Senegal, podendo alimentar aquelas ilusões.

Comportamentos e mentalidades

Com apenas 200 mil assalariados recenseados entre uma população trabalhadora de 3,8 milhões, a maioria das pessoas depende da economia paralela

“E, a pesar de tudo, é possível ser bem sucedido aqui”, insiste Oumy Fall, 25 anos, diretora administrativa e financeira de uma empresa especializada em novas tecnologias. “Eu sou a prova disso. É preciso vontade e, principalmente, é preciso investir sua vontade aqui.” Diplomada pela Faculdade de Comércio de Dacar, recusou propostas de empresas estrangeiras para poder permanecer em seu país. Sonha com abrir um ciber-café, que também seria um local de formação para moças que deixam o campo para vir procurar trabalho na cidade. Como inúmeros outros jovens executivos, ela avalia que as novas tecnologias da informática e da comunicação mudam consideravelmente a situação14 : é possível pensar em ficar quando se sabe que se poderá ter acesso a bibliotecas, à cultura internacional, aos mercados... “As possibilidades oferecidas pela emigração são superestimadas, na mesma medida em que é subestimada a possibilidade de ter sucesso no Senegal”, avalia Ibrahima Thioub. “Nossas elites dão o mau exemplo quando, sistematicamente, vão se tratar no exterior, mesmo para operações banais que poderiam ser feitas em qualquer hospital senegalês. Além disso, se pusessem seus filhos nas escolas daqui, talvez se empenhassem em remunerar melhor os professores e em pôr um fim aos anos perdidos.”

“A mudança encontra-se nos comportamentos e nas mentalidades”, salienta o escritor Boubacar Boris Diop. A tradicional reverência para com o poder e a ausência da noção de bem público freiam essa evolução. Para Oumy Fall, no entanto, o tempo transcorre em favor do Senegal. “Minha geração é muito crítica; tenta mudar as coisas. E as gerações seguintes têm a mesma mentalidade.” No café da avenida Lamine Gueye, a penumbra do dia que termina vê chegarem os clientes que aguardam o fim do jejum, enquanto a sorridente jovem enrola suas tranças. “Desde que começou a alternância, amigos meus me telefonam do exterior pedindo que os ajude a encontrar um apartamento, pois sonham em voltar para Dacar.”

“Tenho esperança de que as coisas mudem”, diz Bobo. Perto do mercado de Sandaga, uma mão desajeitada desenhou a silhueta das tartarugas Ninja na parede de uma casa. “Se a alternância, pelo menos, servisse para identificarmos os problemas...”, suspira Boubacar Boris Diop.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Definida pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED), a atribuição do estatuto de PMA obedece a três critérios: um baixo nível do Produto Interno Bruto por habitante; insuficiência de recursos humanos; e pouca diversificação da economia. Ver o site: www.unctad.org
2 - Fonte: PNUD-Senegal. O limiar de pobreza é definido como renda necessária à aquisição do equivalente a 2.400 calorias por dia e por pessoa.
3 - A União Econômica e Monetária da África Ocidental abrange, além do Senegal, o Benin, o Burkina Faso, a Costa do Marfim, a Guiné-Bissau, o Mali, o Níger e o Togo.
4 - Le Soleil, Dacar, 15 de dezembro de 2001.
5 - Ler, de Tom Amadou Seck, “Le Senegal au défi de l’ajustement structurel”, Le Monde diplomatique, outubro de 1998.
6 - “Le baobab a été déraciné”, Politique africaine, Paris, junho de 2000.
7 - Ler, de Sanou M’Baye, “Alternance historique au Sénégal”, Le Monde diplomatique, abril de 2000.
8 - Ler, de Sophie Bava e Danielle Bleitrach, “Les Mourides entre utopie et capitalisme”, Le Monde diplomatique, novembro de 1995.
9 - Ler, de Sanou M’Baye, “Alternance historique au Sénégal”, Le Monde diplomatique, abril de 2000.
10 - “Wade est-il vraiment libéral?”, Economia nº 6, Paris, abril de 2001.
11 - A Iniciativa Africana vem a ser a fusão do Plano Ômega, do presidente Wade, com o Programa de Renascimento da África, proposto pelo presidente sul-africano Thabo Mbeki. Consiste de uma dezena de objetivos, a curto, médio e longo prazos, referentes à segurança, mas também ao crescimento econômico, à redução da dívida, ao desenvolvimento humano, ao meio ambiente e à infra-estrutura. Ler “Sénégal, Alternance économique?” Economia nº 12, Paris, setembro de 2001.
12 - O salário médio é de 61 euros (127 reais) no setor privado e de 92 euros (190 reais) no setor público.
13 - Ler, de Mamadou Diouf, Histoire du Senegal, ed. Maisonneuve et Larose, Paris, 2001.
14 - Ler “Internet, la grenouille et le tracteur rouillé”, Manière de voir nº 51 (Afriques en renaissance), maio-junho de 2000.




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