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“Big Brother” e a crise

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O perfil dos concorrentes dessa versão de “Big Brother” – um homem e uma mulher com uns vinte anos de idade, solteiros, estudantes, ou empregados com curso superior – tem muito pouco a ver com a população que vive com salário-mínimo

Nicolas Monceau - (01/02/2002)

De acordo com o princípio do programa “102 milhões”, dois concorrentes devem (sobre)viver durante um mês, com o equivalente ao salário-mínimo vigente

A onda avassaladora de programas do tipo reality show, que invadiu todos os países ocidentais, não poupou a Turquia. Durante o ano 2001, a difusão desse tipo de programa nos dez canais privados nacionais registrou uma enorme audiência, provocando violentas controvérsias. O fenômeno teve uma ressonância especial devido à depressão econômica e financeira sem precedentes que abala o país desde fevereiro de 2001.

Mais de um milhão de desempregados em um ano, 80% de inflação anual e 40% da população vivendo com apenas 1,5 dólar por dia: os últimos números do Ministério do Trabalho revelam uma situação explosiva. De repente, proliferaram os programas de televisão de animação, com prêmios valiosos, baseados essencialmente no voyeurismo e no exibicionismo. “Quem quer 500 bilhões?” (Kim 500 milyar ister?) – que se chamava “Quem quer 125 bilhões?” antes da desvalorização da libra turca, “Toque-me”(Dokun bana), “Faça-me voar”(Uçur beni), ou ainda “O beijinho da noite” (Iyi geceler opucugu) tiveram um sucesso fulgurante junto a candidatos dispostos a tudo para ganhar dinheiro fácil e junto ao público1 . .Mas os programas mais espetaculares do ano 2001 foram, certamente, “102 milhões” e “Alguém nos observa”, emblemáticas adaptações do conceito do programa “Big Brother” 2 na Turquia dos dias de hoje.

Reflexo da crise

Os concorrentes revelam, diante de uma situação precária, uma realidade definitivamente insuspeitada: a vida cotidiana de milhões de seus compatriotas

Lançado em junho de 2001 pela emissora privada Kanal D, o programa “102 milhões” (102 Milyon) apresenta a crise econômica e financeira. De acordo com o princípio desse jogo inédito, dois concorrentes devem (sobre)viver durante um mês, em Istambul, com uma quantia de 102 milhões de libras turcas (cerca de 210 reais), ou seja, o equivalente ao salário-mínimo (asgari ücret) vigente. Filmados ininterruptamente por uma dezena de câmeras, eles devem pagar todas as despesas comuns do dia-a-dia (alimentação, pequenas despesas, lazer, com exceção do aluguel) para ganhar um prêmio de 25 bilhões de libras turcas (cerca de 50 mil reais) e um carro.

A televisão reflete, em parte, o peso crescente da crise. Os candidatos esforçam-se para restringir suas despesas com alimentação ao mínimo necessário (a lista das compras é exibida semanalmente na tela), ou vão a pé para o trabalho a fim de economizar a despesa com transporte, ou ainda buscam mil e uma maneiras de superar sua precária situação. Revelam, dessa forma, uma realidade até então definitivamente insuspeitada: a vida cotidiana de milhões de seus compatriotas.

Contradições e tensões da juventude

Destinada a provar que é possível viver na Turquia com o salário-mínimo, a competição pouco tem de realista

Dirigindo-se à massa de telespectadores vítimas da depressão – essa “outra Turquia” com a qual se diz solidária – e oferecendo um modelo de sobrevivência exemplar, essa versão do “Big Brother” provoca reflexões tanto sobre as modalidades quanto sobre a natureza desse tipo de competição. O perfil dos concorrentes – um homem e uma mulher com uns vinte anos de idade, solteiros, estudantes ou empregados com curso superior – tem muito pouco a ver com a população que vive com salário-mínimo, em sua maioria operários ou mães de famílias numerosas, sem diplomas e egressos de gerações mais velhas. Destinada a provar, segundo a vontade do produtor, que é possível viver na Turquia com esse salário, a competição entre candidatos que não pagam aluguel e não têm o pesado encargo de uma família pouco tem de realista. Essa representação da vida cotidiana de milhões de deserdados, protagonizada através das peripécias de privilegiados totalmente estranhos a essa realidade social, ressalta, principalmente, a indiferença de uma elite diante de desigualdades crescentes. E também evidencia a irresponsabilidade dos meios de comunicação diante de uma crise vista sob um aspecto lúdico, como uma aventura em terra desconhecida ou uma missão impossível a ser cumprida com toda a segurança.

Por seu lado, o programa “Alguém nos observa” (Biri Bizi Gözetliyor, ou “A casa BBG”), lançado em fevereiro de 2001 pela rede Show TV, um canal muito populista, terminou triunfalmente no dia 19 de maio de 2001 depois de manter em suspense a Turquia inteira e ter provocado uma polêmica sem precedentes. O princípio permaneceu praticamente idêntico ao de seus modelos ocidentais: quinze jovens encerrados numa casa, sob o olhar das câmeras, devem sobreviver eliminando-se uns aos outros até o último, que ganharia um prêmio de 100 milhões de libras turcas (200 e poucos mil reais). As violentas controvérsias suscitadas pelo surgimento de “Big Brother” na paisagem audiovisual demonstraram – sem dúvida, mais do que em qualquer outro país – as contradições e as tensões em que vive a juventude de hoje. Em um país onde mais da metade dos sessenta e cinco milhões de habitantes tem menos de vinte e cinco anos, que representações o programa transmitiu e como avaliar seu impacto sobre os telespectadores?

Reclamações moralistas

A representação da vida cotidiana de milhões de deserdados, protagonizada por personagens estranhas a essa realidade, ressalta a indiferença das elites

Num momento em que o conceito de mosaico cultural, herdado do império otomano, está cada vez mais presente no debate político-social, a composição do grupo de candidatos selecionados recolocou em discussão a questão dessa diversidade e de sua representatividade nos meios de comunicação. Nem curdos nem alévis participaram da “Casa BBG”, mas, de preferência, jovens do oeste do país, representantes de um modo de vida ocidental, urbano e moderno. Da mesma forma, o status social dos concorrentes – todos com diplomas universitários ou em condições de tê-lo – contrasta de maneira gritante com o nível de instrução geral de uma nação onde 16% dos adultos são analfabetos (25% das mulheres), segundo um relatório recente do Banco Mundial3 , e somente 2,5% do total da população concluíram cursos superiores.

Reduzindo as “paisagens humanas da Turquia” à sua componente mais ocidentalizada, o programa traça um retrato da juventude totalmente desequilibrado e, principalmente, idealizado por uma maioria de espectadores originários da Anatólia. De ponta a ponta, “A casa BBG” reflete, antes de tudo, a população da região “leste” do país, pobre e tradicional, contemplando o “oeste”, sua riqueza e sua modernidade. Espelho de uma comunidade imaginária, cara a Benedict Anderson4 , a telinha projeta a imagem de uma modernidade ocidental em que se cristalizam os sonhos e fantasmas, mas também as frustrações de uma população que disso não tira benefício algum. Longe de denunciar as crescentes desigualdades de uma sociedade de dois ritmos, esse programa reforça, por seu dispositivo, a fratura social entre beneficiários das conquistas da modernização (atores do programa) e os que dela são excluídos (telespectadores).

O desenrolar da competição – e mais particularmente o sistema de eliminação dos candidatos –evidenciou, por sua vez, a perenidade da importância dos valores morais e religiosos em um país de tradição muçulmana. Se nenhuma diversão sexual é retransmitida pelas câmeras, contrariamente ao que ocorre em outros países, os concorrentes devem igualmente respeitar uma conduta moral em conformidade com os costumes sociais sob pena de serem punidos. A eliminação de Hülya, mãe de família de 36 anos, que compartilhava o quarto com seu rival Melih, cuja idade é quase a de seus filhos, foi aprovada por grande parte dos telespectadores porque sua atitude foi considerada “contrária à proteção da estrutura da família turca e da moral pública”. Quase três mil reclamações – um recorde na história da televisão turca – foram enviadas, em um mês, ao Conselho Superior de Rádio e Televisão ( RTUK), o todo-poderoso e controvertido órgão de controle que, por essa razão, decidiu interromper durante um dia toda a programação do canal Show TV. Mais de dois terços das reclamações foram feitas por homens, dentre os quais uma centena de deputados e cinco ministros.

A apologia do individualismo

As violentas controvérsias decorrentes do surgimento de “Big Brother” na televisão demonstram as contradições e tensões em que vive a juventude de hoje

Se a seleção dos candidatos e sua eliminação foram discutíveis, o centro da controvérsia, entretanto, foi a imagem da juventude que se transmitiu. Dizendo-se apolíticos, enojados com uma vida pública considerada “suja” ou “corrupta”, os jovens da “Casa BBG” mostram-se totalmente alheios às realidades do país e indiferentes aos problemas de seu tempo. Profundamente individualistas, suas principais aspirações são enriquecer rapidamente e tornar-se conhecido após o programa. Colocados sob holofotes, alguns dentre eles se tornaram estrelas, como Tarik, gravando sucessos musicais, ou Melih e Eray, participando de novelas insípidas. Seus mínimos movimentos e gestos passaram a ser observados e não conseguem passear na rua sem serem assediados por fãs histéricos. Em suma, suas referências culturais traduzem a perda lenta das raízes tradicionais em favor da “cultura televisiva” – último avatar de uma cultura popular em voga há uma dezena de anos com a explosão do fenômeno da super-mediatização, da qual é prova a proliferação das revistas people, dedicadas à vida privada das personalidades da televisão. Aos olhos da maioria, o universo mental dos participantes do programa seria, definitivamente, “superficial”, “influenciável”, “sem identidade própria” e até “degenerado”, sob o efeito de um processo de aculturação.

Os jovens da “Casa BBG” encarnam, de certa forma, a “geração Özal”, nascida com o golpe de Estado militar de 12 de setembro de 1980 e educada no ambiente das políticas reformistas do então primeiro-ministro Turgut Özal, cuja orientação liberal e abertura mexeram profundamente com as mentalidades na Turquia. O elogio da sociedade de consumo ou a busca da felicidade individual, reivindicados pelos jovens candidatos do programa, são prova da consagração do dinheiro, que se tornou um novo valor em si ao longo das décadas de 80 e 90, sob a autoridade conjugada do liberalismo econômico e da americanização do modo de vida.

Crise de identidade cultural

Os participantes de “Casa BBG” foram, de preferência, jovens do oeste do país, representantes de um modo de vida ocidental, urbano e moderno

Por coincidência, a simultaneidade entre o lançamento do programa e o começo da crise econômica e financeira, em fevereiro último, teve um efeito de lupa ao ampliar, de maneira surpreendente, a distância que separa a situação dramática atravessada pelo país e a indiferença egocêntrica manifestada pelos participantes durante meses a fio.

Na ausência de ser um espelho fiel da sociedade turca, as locações preparadas pelo programa mostram, em particular, a defasagem entre uma minoria de privilegiados modernos e a maioria dos telespectadores mais tradicionais, ressaltando a desordem moral e a crise de identidade cultural em que vive a juventude de hoje, dividida entre o peso de uma herança cultural turco-islâmica secular – com a qual já não se identifica – e a busca de uma modernidade ocidental erigida em modelo absoluto pela República kémalista, cujos efeitos perversos se fazem sentir cada vez mais.
(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - O programa “Toque-me” reuniu, em torno de um carro, durante o verão, uma dúzia de concorrentes que, para vencer, eram obrigados a manter uma mão (com uma luva) permanentemente sobre o seu capô. Cenas de desmaio, crises de choro ou alucinações, interpretadas tanto como pressões físicas quanto psicológicas exercidas sobre os candidatos, marcaram essa prova cujo recorde ultrapassou 95 horas. Uma outra versão foi lançada, baseada no romance They shoot horses, don’t they?, de Horace Mccoy, que narra os anos da Grande Depressão nos Estados Unidos. Chamada “Faça-me voar”, apresentava uns vinte casais de concorrentes dançando até o esgotamento total. “Beijinho da noite” explorou o lado da frustração sexual da sociedade turca, convidando os telespectadores a conhecerem, pelo menos em parte, os corpos das apresentadoras do programa, em roupas colantes, em meio às câmeras dispostas sobre o palco.
2 - Ler, de Ignacio Ramonet, “Big Brother”, Le Monde diplomatique, junho de 2001.
3 - The World Bank Group in Turkey (Washington DC, fevereiro de 2001): htp//www.banquemondiale.org/regio...
4 - Ler, de Benedict Anderson, L’Imaginaire national, ed. La Découverte, Paris, 1996.




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