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O desejo do maravilhoso

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O público, indiscutivelmente, está incrivelmente ávido pelo maravilhoso, e não apenas no que se refere às imagens – ainda que, devido à magia de Hollywood e à lógica do lucro, seja em imagens, em última instância, que tudo se resume na nossa sociedade

(01/03/2002)

Quando os EUA se consideravam invulneráveis, a população acorria aos cinemas para ver filmes-catástrofe. Porém, após o 11 de setembro, esse tipo de espetáculo foi proibido

Por que essa correria para ir ver Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas? Por que esses universos de conto de fadas, fora de moda nos últimos vinte anos, atraem atualmente um público tão grande e de todas as idades? E, se considerarmos que os dois primeiros títulos citados foram, antes de filmes, livros de sucesso, como compreender esse entusiasmo dos nossos contemporâneos pelo maravilhoso?

Isso porque, indiscutivelmente, eles estão incrivelmente ávidos pelo maravilhoso, e não apenas no que se refere às imagens – ainda que, devido à magia de Hollywood e à lógica do lucro, seja em imagens, em última instância, que tudo se resume na nossa sociedade. Mas será que somos diferentes de nossos antepassados? Na realidade, não foi a necessidade do maravilhoso que mudou, mas os caminhos que são percorridos. Dois acontecimentos contribuíram para isso: um deles, progressivo, pode ter seu desenvolvimento acompanhado ao longo de todo o século XX; o outro, brutal, coincide, justamente, com os atentados de 11 de setembro. Comecemos pelo segundo.

Proximidade e distância da imagem

Em todas as histórias infantis, o que a criança receia – e, muitas vezes, deseja – é projetado para um mundo distante que encarna as suas preocupações

O referencial é a criança. Angustiada diante do risco de se ver separada de seus pais, procura as histórias em que um ursinho perde a mãe, e depois a reencontra. Estaria a criança preocupada com a possibilidade de acontecer um acidente com seu irmãozinho ou irmãzinha? A história de um franguinho acidentado, e depois curado, volta a tranqüilizar a criança. Estaria ela angustiada com punições imaginárias provocadas por suas atividades auto-eróticas? Uma historinha sobre um lagarto que perde o rabo e depois, para alegria geral, o reencontra, permite-lhe relativizar essa preocupação.

Em todas essas histórias, o que a criança receia – e, muitas vezes, deseja, ao mesmo tempo – é projetado para um mundo distante que encarna as suas preocupações, mas de maneira suficientemente indireta para que a criança possa se familiarizar “lateralmente” com elas, ou seja, sem as encarar de frente. Com o adulto, é a mesma coisa. Qualquer espetáculo de ficção apóia-se na representação de um mundo simultaneamente próximo e distinto daquele que se tem por real. Dessa forma, estabelece-se uma indispensável proximidade com as imagens – sem a qual nada do que vemos na tela nos interessaria – e uma não menos necessária distância, sem a qual o espectador não conseguiria, justamente, entregar-se às delícias da ficção. É a garantia de que as coisas se passam de outra maneira na realidade – pelo menos, para nós – que nos permite saborear as ficções. Nesse equilíbrio, a distinção entre o que é ou não concebível, em termos de realidade, tem um papel fundamental.

Da ficção ao reflexo da realidade

Os filmes “maravilhosos” não se limitam a espaços e épocas imaginários. Também recusam a representação da violência e das angústias do cotidiano

Ora, desse ponto de vista, os atentados de 11 de setembro mudaram o quadro. Na época em que os Estados Unidos se consideravam um território invulnerável, a sua população acorria às salas de cinema para ver filmes-catástrofe, em que aviões eram seqüestrados e o Pentágono era ameaçado por uma organização terrorista. Porém, após o 11 de setembro, esse tipo de espetáculo foi proibido, pois corria o risco de deixar de ser visto como uma ficção irreal, e sim, como reflexo da realidade. Em sentido inverso, os espectadores votaram em Amélie Poulain e sua fictícia colina inexistente de Montmartre, assim como no Senhor dos Anéis e em Harry Potter, que restabelecem o vínculo com a velha receita do conto de fadas: “Num país muito distante, há muito, muito tempo, era uma vez...”

Mas essa explicação não basta. Na verdade, esses filmes não se limitam a projetar acontecimentos representados em espaços e épocas totalmente imaginários; também abrem mão, em grande parte, da representação realista da violência e das angústias do cotidiano. Resumindo: não muda apenas o contexto em que surgem essas imagens, mas também o seu conteúdo. Ora, a crise do 11 de setembro é inseparável de um importante fenômeno: naquele dia, os norte-americanos substituíram angústias múltiplas, difusas e cujas causas são pouco definidas, como o desemprego, a precariedade econômica e a insegurança, por uma única angústia, com as feições de Bin Laden.

Experiência pela identificação

Uma vez que a causa do mal-estar do espectador é conhecida, trata-se de esquecer esse mal-estar. Nesse contexto, o maravilhoso... faz maravilhas!

Ora, a relação com as imagens de ficção pode ser bem diferente: o espectador pode procurar, por meio delas, fugir de um mal-estar que o incomoda e que ele não consegue identificar, ou evitar preocupações que tem claramente definidas e das quais conhece a causa. Quando o mal-estar que sente é difuso e mal identificado, ele procura espetáculos que possam dar-lhe um sentido. Quando se passa por sentimentos dolorosos, difíceis de identificar e impossíveis de dominar, começa-se por tentar aliviá-los, relacionando-os, pelo menos durante o tempo de um espetáculo, a coisas nítidas. É o caso de quem se sente humilhado sem conseguir estabelecer uma situação: vai, então, ver filmes em que se possa identificar, alternadamente, com a vítima e com o algoz. Já quem se sente mal amado sem saber por quê, vai ver filmes em que a personagem é apresentada numa situação afetiva difícil, sejam quais forem as causas, desde que sejam aparentes.

Essa é uma das maneiras pela qual as imagens nos aliviam de nossas perturbações diárias. Elas nos permitem uma experiência nítida, em que identificamos os amigos, o medo, a raiva ou o desencanto que sentimos – ainda que os motivos para essas emoções sejam muito diferentes daqueles que experimentamos na realidade –, enquanto, na maioria das situações do dia-a-dia em que sentimos esses mesmos sentimentos, é quase sempre impossível reconhecê-los – e, mais difícil ainda, encontrar um interlocutor para identificá-los.

Imagens para “mudar as idéias”

O ser humano é modelado por imagens – a começar pelos sonhos –, mas precisa certificar-se de que partilha as imagens que o possuem com seus semelhantes

Por outro lado, quando um espectador identifica claramente as causas de seu mal-estar e os meios de o aliviar – ou, em outras palavras, quando seu mal-estar pessoal se baseia na opinião pública social –, ele tende a procurar espetáculos que o façam rir, chorar, excitar-se... para esquecer, provisoriamente, a angústia, o medo e o desencanto que ele experimenta numa situação real que está cansado de conhecer! Deixa de ser o desejo de relacionar o mal-estar a uma causa, pois esta é conhecida, e sim, de esquecer provisoriamente. Nesse contexto, o maravilhoso... faz maravilhas!

Mas voltemos ao 11 de setembro. Antes dessa data, inúmeros norte-americanos sentiam-se preocupados, mas era difícil encontrar o motivo, como, aliás, ocorre com cada um de nós diante das dificuldades da vida cotidiana. O fato é que procuravam menos fugir às suas preocupações do que relacioná-las provisoriamente a uma causa precisa – nem que fosse pelo tempo de duração de um espetáculo. Os filmes de ficção violentos, que, além do mais, permitiam aos espectadores comentários entre si, eram muito valorizados. Contudo, a partir do dia 11 de setembro, todos os males dos Estados Unidos passaram a ser canalizados para Bin Laden... e os norte-americanos passaram a procurar imagens que pudessem “mudar suas idéias”.

O papel das grandes religiões

É possível questionar se o domínio do cinema norte-americano não contribuirá para o seu próprio sucesso, alimentando em cada espectador a ilusão de fazer parte de um público planetário

Porém, paralelamente a esse fenômeno específico, existe outro, mais subterrâneo, que também contribui – e, provavelmente, por um longo tempo – para garantir o sucesso do maravilhoso. A descoberta do inconsciente, e especialmente a sua vulgarização, abalaram as relações dos imaginários individuais e do imaginário coletivo. Na realidade, o ser humano é modelado por imagens – a começar pelas de seus sonhos, que o invadem todas as noites –, mas precisa certificar-se constantemente de que partilha as imagens que o possuem com seus semelhantes.

Sem o imaginário, o ser humano sente-se vazio; enquanto provido de imagens, receia ficar sozinho: o imaginário só é tranqüilizador quando se faz acompanhar pela certeza de que é compartilhado. Ora, durante muito tempo, essa espera foi preenchida pelo fato de que as produções imaginárias pessoais desembocavam no molde das grandes religiões. Os padres sempre tiveram o poder de relacionar as imagens que obcecam as consciências individuais com padrões pré-estabelecidos, interpretando acontecimentos suscetíveis de exaltar as imaginações como sinais enviados pelos deuses.

O modelo religioso controla o imaginário

Para ficar na religião católica, as imagens de solidão e desespero eram, para os cristãos, inseparáveis dos últimos momentos de Cristo – e as de fim do mundo e de uma catástrofe generalizada revezavam-se, imediatamente, com as do dilúvio e do juízo final. A meditação sobre sofrimentos infligidos, ou sofridos, vinculava-se à hagiografia dos mártires e dos Grandes Santos. Esse enquadramento do imaginário individual pelo coletivo era ainda mais evidente no que se refere a fatos ocorridos durante o período noturno. Em praticamente todas as culturas, os sonhos foram relacionados a uma inspiração não-humana – benevolente ou maléfica, conforme o caso –, quer se tratasse de comunicação com os mortos, de encontros com o além ou de presságios sobre o futuro. De uma maneira geral, esse enquadramento obedecia a dois aspectos: um controle sobre a difusão das imagens, por um lado, e um controle das consciências, por outro.

Controlar a difusão de imagens faz parte das preocupações oficiais de todos os poderes desde o imperador romano Constantino1. Mas essa imposição devia grande parte de sua eficácia a uma série de procedimentos que permitiam verificar, junto a cada consciência individual, que ela tinha sido bem-sucedida. As representações, impostas de forma centrífuga pelo poder central, eram, portanto, tradicionalmente inseparáveis de um controle centrípeto que adequava o conteúdo das consciências aos modelos dominantes. Resumindo: sem os padres, para colocar no bom caminho o imaginário de cada fiel, o controle da difusão de imagens teria sido em vão. A Inquisição especializou-se nessa tarefa e, durante muito tempo, os padres continuaram a verificar, pelo ritual da confissão, se a produção imaginária individual estava de acordo com o molde definido pelo poder religioso.

Surge a psicanálise

O que muda, nos dias de hoje, é que esse controle já não existe. E, quanto menos os nossos contemporâneos têm certeza da adequação de seu imaginário pessoal ao imaginário coletivo, mais têm o desejo, na ausência desse controle, de adotar imagens que supostamente representam um imaginário universal. O que está em jogo é, nada mais, nada menos, a certeza de se sentir fazer parte do gênero humano. Esse desejo, evidentemente, não é novo, ainda que assuma, nos dias de hoje, uma importância excepcional.

Ainda no século XIX, a decadência da influência religiosa assistiu à multiplicação das “chaves dos sonhos”, vinculando os resultados oníricos das pessoas a uma espécie de reservatório comum, onde qualquer um poderia reconhecer-se – ou seja, em outras palavras: ao qual qualquer pessoa podia vincular-se. A oniromancia2 galopante da segunda metade do século XIX não passou de uma tentativa de substituir – num período de falência da fé cristã – um referencial religioso, em vias de desaparecer, por um referencial leigo de leitura dos sonhos. Seria inútil insistir sobre a maneira pela qual o controle religioso das consciências cedeu, a partir de então, mas, além disso, surgiu um fenômeno novo, que contribuiu para remeter os imaginários individuais à sua subjetividade radical: a psicanálise.

O “neurotizado” e o “caso-limite”

Com a psicanálise, pela primeira vez na história, devaneios diurnos, sonhos noturnos, fantasmas e imagens mentais são analisados como o resultado de conflitos meramente intra-psíquicos. É claro que algumas das forças que intervêm nesses conflitos são “sociais”, já que se trata de proibições culturais, mas as representações que decorrem são sempre eminentemente pessoais, de cada indivíduo. Freud reconhecia que existiam cenários de natureza fantástica que eram comuns a todos os seres humanos, mas, ao contrário de Jung, que defendia que as produções imaginárias eram dotadas de padrões que atravessavam as culturas, ele sempre defendeu a particularidade irredutível de cada produção psíquica.

O problema é que quanto mais o imaginário era individualizado, e confinado em cada espírito, mais crescia em nossos contemporâneos a angústia da perda – senão da cabeça, pelo menos um mínimo de referenciais coletivos que lhes garantissem fazer parte de seu grupo. O aumento, na década de 80, do que se convencionou chamar a patologia de “casos-limite”, também está, em parte, vinculado a esse fenômeno. Ao contrário do “neurotizado”, que não consegue se libertar do peso das obrigações sociais que sente, o “caso-limite” encontra-se dramaticamente emancipado. O primeiro sofre por nunca conseguir se livrar do peso que o esmaga, enquanto o segundo tem um medo permanente de ser abandonado por seus congêneres devido à sua excessiva originalidade.

A ilusão de um público planetário

Logicamente, os padres foram substituídos pelos psicanalistas, mas, apesar do que disse Michel Foucault3, estes não são como aqueles. Ainda que os textos em que se inspira o psicanalista lembrem, às vezes, um corpus mais religioso que científico, e ainda que ele trabalhe no sentido de libertar da culpa, como o padre, em princípio ele se interessa mais pelo caráter pessoal dos produtos da imaginação de seus clientes do que por sua adequação a um modelo pré-estabelecido.

O problema é que cada pessoa, entregue ao caráter subjetivo de suas imagens interiores, deve enfrentar uma solidão que nossos antepassados – com algumas, poucas, exceções – não poderiam ter vislumbrado. O desejo de ligar os fios de seu imaginário pessoal a um grande imaginário coletivo se faz sentir na atual tendência em adotar religiões que enquadrem o imaginário individual de maneira mais coercitiva do que o faz a religião cristã. E é esse mesmo desejo que incentiva a ver grandes filmes maravilhosos. Como os procedimentos de controle individualizado das consciências já não existem, os nossos contemporâneos não têm outra alternativa senão procurar imagens supostamente universais para aí atracar o seu imaginário pessoal.

Ocorre, no entanto, que pela primeira vez na história, um país – os Estados Unidos – tem o desejo, e os meios, de impor suas imagens e seus sonhos a todo o planeta. Mas esse cinema não conseguiria provocar os fenômenos de massa que fazem sua fortuna e seu poder se não existisse o desejo, por parte de um número considerável de nossos concidadãos, de se deixarem submergir num imaginário coletivo que sonham ser o da dimensão da sociedade-mundo. E é até possível questionar se a reputação que tem o cinema norte-americano, de domínio sobre a produção mundial, não contribuirá para o seu próprio sucesso, alimentando em cada espectador a ilusão de fazer parte de um público planetário... (Trad.: Jô Amado)

Psiquiatra infantil, psicanalista e escritor. Seu último livro é L’Intimité Surexposée, ed. Ramsay, Paris, 2001.

1 Ler, de Marie José Mondzain, Image, Ícone, Économie, ed. Le Seuil, Paris, 1996. 2 N.T.: Arte de predizer o futuro por meio da interpretação dos sonhos. 3 Ler, de Michel Foucault, L’Archéologie du Savoir, ed. Gallimard, Paris, 1969.




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