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CINEMA

A resistência do cinema de arte

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Das 5.103 salas existentes na França, 1.200 são classificadas como “cinemas de arte”. Há vida, portanto, fora do grande circuito comercial. E se o cinema francês teve sucesso em 2001, o trabalho minucioso das salas independentes tem muito a ver com isso

Philippe Lafosse - (01/03/2002)

Patrick Brouiller, presidente da Associação Francesa de Cinemas de Arte, dá o recado, em alto e bom tom: “O cinema de arte deixou de ser marginal”

Há alguns meses, multiplicam-se informações e discursos sobre o perigo que ameaça o cinema francês e que mascara – com exceção dos delicados sonhos de Amélie Poulain – seus resultados recentes, cujos números são indiscutíveis: uma freqüência que aumentou 11% em relação aos nove primeiros meses de 2001, o dobro de investimentos entre 1994 e 20001.

A toda hora – e com toda pertinência, ainda que às vezes com intenções eleitorais – são evocados o decreto de 9 de julho de 2001, que redefine a noção de filme independente; a criação da Vivendi-Universal-Entertainment; e as declarações maliciosas e perversas de Jean-Marie Messier, seu dono. Produção e distribuição são o centro de todas as atenções, de todos os comentários. Mas o último elo da cadeia é quase sistematicamente esquecido, salvo quando é ligado a um circuito de distribuição, como a UGC ou a Gaumont/Pathé: a exibição.

Diversidade faz bem

O ganho do público está na diversidade de produções, que vão de filmes de grande público a filmes ‘diferentes’, que marcam os espíritos e são verdadeiros êxitos comerciais

Ocorre que o cinema é também, e antes de tudo, um espaço. Em termos concretos, 2.164 estabelecimentos, totalizando 5.103 salas, das quais, cerca de 1.200 são classificadas como cinemas de arte. Há, portanto, toda uma vida, fora do grande circuito comercial.

E se o cinema atingiu números significativos em 2001, o sustento e o trabalho minucioso das salas independentes tem muito a ver com isso. Patrick Brouiller, presidente da Association Française des Salles d’Art et Essai (Associação Francesa de Cinemas de Arte - AFCAE) –, que tem salas em Marly-le-roi, Trappes, les Clayes-sous-bois, Asnières, Nanterre, Boussy-Saint-Antoine et Epernay – dá o recado, em alto e bom tom: “O cinema de arte deixou de ser marginal. É um dos fatores responsáveis pela boa situação do filme francês. Fala-se muito dos quatro filmes que superam cinco milhões de espectadores, mas há um número considerável de filmes, que reúnem entre 300 mil e 1 ou 2 milhões de espectadores, que contribuíram para essa evolução”.

Os números não mentem: os quatro filmes franceses primeiro colocados (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, La Vérité Si Je Mens 2, Le Placard e Le Pacte des Loups) somam 25 milhões de ingressos – de um total de 184,4 milhões registrados em 2001. “O ganho de espectadores do cinema francês”, continua Brouiller, “baseia-se na diversidade de produções, que vão de filmes de grande público a vários filmes ‘diferentes’, filmes que marcam os espíritos e que são, dentro de sua própria economia, verdadeiros êxitos comerciais”. É a quantidade de filmes diversificados que faz a boa saúde do cinema e permite a resistência.

Relação de intimidade com o público

Para ser classificada como “cinema de arte”, não basta a uma sala passar uma porcentagem de filmes de longa e curta metragem com esse rótulo

Para ser classificada como “cinema de arte”, não basta a uma sala passar uma porcentagem de longas e curtas-metragens com esse rótulo – porcentagem que vai de um mínimo de 35%, para localidades com menos de 30 mil habitantes, a um mínimo de 75%, para as grandes cidades –, mas, além da projeção de obras em versão original, há outros critérios como debates, a política de preços, a projeção de documentários, filmes clássicos, o trabalho efetuado junto ao público jovem e aos aposentados, a edição de documentos... A qualidade das projeções também é levada em conta, e o será ainda mais depois que passar a vigorar, este ano, a última reforma do Conselho Nacional do Cinema, elaborada em conjunto com os profissionais da área. Ser um “cinema de arte” é mais do que meramente exibir: é estar fortemente motivado, é lutar por essa causa.

Criada há mais de 50 anos, por iniciativa de críticos e exibidores independentes, a AFCAE reúne praticamente todos os cinemas de arte do país: é uma rede única no mundo, com salas que, inclusive em Paris, mantêm uma relação de intimidade com o seu público.

A contribuição do cinema de arte

Criada há mais de 50 anos, por iniciativa de críticos e exibidores independentes, a AFCAE reúne praticamente todos os cinemas de arte do país

Também isso é a exceção francesa: “Exibidores que, com ou sem fundos públicos, por toda a França, no meio rural, nos subúrbios, nas cidades, exercem o seu ofício pelo prazer de mostrar filmes, e escolhem uma programação independente que não está vinculada ao consumo, à rentabilidade”, comenta Xavier Blom, que tem salas em Plaisir e em Massy, e é programador de quinze salas parisienses. É um trabalho de fôlego, que passa, naturalmente, pela divulgação dos filmes, mas também por um trabalho de formação, de “condução” do público, que só pensa em filme francês. “É justamente o contrário do auto-consumo, ou o voltar para si mesmo, como há quem queira fazer crer: é a abertura, a descoberta”, explica Patrick Brouiller. “Se, sem a exceção francesa, não se conhecesse Philippe Garrel, nem Manuel Poirier ou François Ozon, ela também não privilegia exclusivamente o filme francês. Sem essa rede, não haveria Michelangelo Antonioni, Abbas Kiarostami, nunca teríamos visto os filmes asiáticos...”

Sem a rede de salas de cinema de arte – das quais, uma em cada cinco é considerada “de pesquisa”, em função de uma exigência que ela deve provar –, onde teríamos visto Little Sénégal, de Rachid Bouchareb, distribuído por uma pequena empresa, a Tadrart? Só a rede de cinemas de arte o exibiu. No entanto, graças ao trabalho efetuado sobre esse filme, houve bastante público – 36 mil ingressos vendidos na primeira semana e 270 mil até o final de janeiro –, que levou os que não o tinham comprado antecipadamente a quererem exibi-lo uma semana depois da estréia. Consciente da contribuição da rede de cinemas de arte, o programador Xavier Hirigoyen explica que continuou com filmes independentes por toda parte onde fosse possível, sem, no entanto, descartar o grande circuito, pois “não se pode privar o público de um filme”.

A “magia da hipnose”

Criada há mais de 50 anos, por iniciativa de críticos e exibidores independentes, a AFCAE reúne praticamente todos os cinemas de arte do país

Se esses filmes, com uma economia frágil, encontram espectadores, não é obra do acaso. “É devido a uma educação do público, que se tornou curioso há muitos anos”, observa Marie-Louise Troadec-Le-Quéré, que dirige sete salas em Lannion, Guingamp e Perros-Guirec, cidades com população bem inferior a 20 mil habitantes. “É fruto de um trabalho diário e profundo”, completa Colette Périnet, que tem duas salas em Bron e é presidente do Agrupamento Regional de Ação Cinematográfica (GRAC), que reúne trinta salas da região, “um trabalho sem descanso que passa por contatos permanentes com entidades, casas de bairro, centros sociais e inúmeras iniciativas, como a organização de festivais de curtas e longas metragens franceses e estrangeiros”. Exemplos? Na região de Lyon: o festival de filmes ibéricos e latino-americanos (em Villeurbanne), um festival de primeiros filmes e outro para a infância e a juventude.

Convencidos de sua “enorme responsabilidade na formação do gosto do público”, como diz Xavier Blom, os exibidores independentes são os únicos a efetuar um trabalho cuidadoso e contínuo, baseado na descoberta, durante o ano inteiro, com professores, educadores e o público jovem. Seu objetivo é fazer compreender que o cinema é algo diferente, que deve ser percebido de forma diferente – ou, nas palavras de Blom, “que o cinema é sensação coletiva, a magia da hipnose.”

Um dinamismo exemplar

Sem a rede de salas de cinema de arte, onde teríamos visto Little Sénégal, de Rachid Bouchareb, distribuído por uma pequena empresa, a Tadrart?

“E isso começa pela própria sala”, constata Xavier Blom. “Ela pode ser um pretexto para fazer contas, resolver problemas temáticos... As crianças, que na maioria das vezes não sabem o que é um support film, vão embora com pedaços de película na mão...”. Além disso, há as projeções: “Em Massy, mostramos filmes de 40 a 45 minutos a crianças a partir de três anos, despertamos seu imaginário... Para os maiores, trabalhamos com um grupo de professores que se servem do cinema como um trabalho para temas particulares...”

Colette Périnet contratou uma apresentadora que, depois de as crianças terem assistido ao filme no cinema, volta à sala de aula com uma montagem do filme e os inicia na narração, na construção da imagem e, quase sempre, no olhar. Essas iniciativas são muitas vezes vinculadas a ações do Conselho Nacional de Cinema: Escola e Cinema, Colégio e Cinema etc. Em Hérouville-Saint-Clair (região de Calvados), Geneviève Troussier propôs, fora do horário escolar, o Cinekids de 8 a 12 anos: uma assinatura de 27,4 euros (cerca de 60 reais) que dá direito a oito filmes por ano – com filmes estrangeiros em versão original –, apresentações, estágios... e lanches. Uma idéia que também foi aceita em cinemas da Baixa Normandia.

A avaliação do risco comercial de todos os filmes de arte é bem ilustrada pelo apoio que é dado, anualmente, a cerca de 25 filmes, que devem ser acompanhados “e aos quais garantimos exibição num circuito de 200 a 250 salas em toda a França”, explica Xavier Blom. A exibição desses filmes pode durar 20 semanas. E a vida deles depende disso. Em cada região, um representante da rede organiza a circulação da obra, em cidades de até 5 mil habitantes. Um dinamismo exemplar.

Embora reconheça que “está cada vez mais difícil”, pois o gosto do público tem tendência a se padronizar, Denis Blum apresenta, em Epinal, 125 filmes de arte por ano em seis salas, o que significa 285 mil ingressos – um aumento de 8%, em relação a 2000. Como tantos outros, ele está na origem da ação que busca o público, já que há anos soube, e pôde, criar uma identidade para suas salas. Se os membros da AFCAE têm, muitas vezes, perfis diferentes, raros são os que não rivalizam em iniciativas para que suas salas se afirmem com força. Todos têm consciência de sua missão, e cada um a executa em função do seu meio, de sua capacidade de inovar, de seus gostos – alguns chegam a organizar debates sobre cinema – e dos laços que mantém com os poderes públicos.

Prêmio para quem burla a lei

Cerca de 25 filmes são escolhidos e acompanhados, num circuito de 200 a 250 salas em toda a França. Sua exibição pode durar até 20 semanas

Atualmente, o trabalho de resistência – que faz com que exista fôlego para conviverem filmes diversificados, e para que o cinema seja também um lugar de vida social, cultural, coletiva... – está cada vez mais ameaçado. Xavier Hirigoyen usa o termo “situação desastrosa”.

Não há uma semana em que um mediador do Conselho Nacional de Cinema não seja solicitado para que as salas independentes tenham acesso a filmes que a UGC e a Gaumont querem monopolizar porque o autor, que em outros tempos teve o apoio da rede de cinemas de arte, tem agora um público mais comercial – Woody Allen é um exemplo típico. Quando se tem um multiplex de 15 ou 20 salas, pode-se exibir de tudo, inclusive filmes de arte, mesmo que seja só para prejudicar as salas independentes que se encontram nas proximidades. Daqui a pouco, o mediador do CNC também será convocado pelos pequenos distribuidores, que não encontram salas para seus filmes em Paris. A batalha por fatias do mercado e pela hegemonia é feroz. Em Paris, a UGC – que pertence à Vivendi-Universal- Entertinment – impôs sua lei. “Há cada vez menos independentes dentro do perímetro metropolitano”, confirma Xavier Blom, “e esses independentes nem sempre vivem bem. Atualmente, um independente já não pode abrir seu negócio em Paris.”

Vale tudo: a lei do mais forte, o prêmio a quem burla a lei. Segundo a AFCAE – e pelos dados disponíveis, já que não há transparência e não se conhece o preço médio de um ingresso nos grandes circuitos! –, com base num recente estudo feito pela CNC, a margem de lucro bruto sobre as pessoas que vão ao cinema com um cartão pré-pago, é de 0,2 euro (45 centavos) por espectador. Seria esta a quantia que sobra para os investimentos, para pagar o pessoal – que deve ser aumentado por razões de segurança – etc. Entre os independentes, essa margem é de cerca de 2,3 euros (4,85 reais), quantia bastante, na opinião geral, para garantir um funcionamento normal.

Indústria do lazer versus diversão inteligente

Decididamente, os grandes circuitos têm prejuízo, o que é condenado por lei. Se essas empresas agem assim, é porque são apoiadas por grandes grupos financeiros e porque não há vontade, por parte do governo, de impedi-las, já que os dirigentes políticos se curvam diante do dinheiro. “O sistema dos cartões jamais deveria ter sido aceito”, comenta Patrick Brouiller. “Nada foi feito, os políticos sumiram diante do conselho da concorrência, sabendo que um recurso leva tempo. E, de fato, o processo foi instruído há quase dois anos e, nesse meio tempo, o sistema do cartão se impôs”.

Seria o pior sempre inevitável? É claro que Jean-Marie Messier “é um autêntico predador”, continua Patrick Brouiller. “Ele se dá o direito de mudar a relação que temos com o cinema na França há um século. Para ele, o cinema não passa de uma indústria de lazer que não tolera diferenças, enquanto nós, que não somos aiatolás, que não dizemos que não há coisas boas fora dos filmes difíceis, dizemos apenas que todos devem ter o direito de existir: o pensamento, assim como a diversão inteligente.” (Trad.: Denise Lotito)

1 Le Monde diplomatique, julho de 2001, Libération, de 28 de dezembro de 2001, Télérama, de 29 de dezembro de 2001 e Les Cahiers du cinéma de janeiro de 2002.




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