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ISRAEL

Quando os soldados recusam-se a matar

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A recusa a combater os palestinos deixou de ser marginal. O fenômeno se ampliou e atingiu novas camadas sociais. Alcança, em especial, unidades do exército regular, particularmente as dos reservistas

(01/03/2002)

Uma petição, assinada por 52 soldados e oficiais reservistas, provocou polêmicas em todas as esferas da sociedade israelense, a começar pelo exército

“Nós, oficiais e soldados reservistas membros de unidades de combate das Forças de Defesa de Israel, criados segundo os princípios do sionismo de sacrifício e devoção ao povo e ao Estado de Israel, que estivemos sempre presentes nas linhas do front e fomos os primeiros a assumir qualquer tipo de missão, fosse esta difícil ou fácil, para a defesa e consolidação do Estado de Israel. (...) Nós, que sentimos como as ordens que recebemos nos Territórios [ocupados] destróem todos os valores que nos foram ensinados neste país. Nós, que compreendemos que o preço da ocupação significa a perda do caráter humano do exército de Israel e a corrupção moral de toda a sociedade israelense. Nós, que sabemos que os Territórios não pertencem a Israel e que, no final, todas as colônias deverão ser evacuadas. (...) Não iremos mais combater além das fronteiras de 1967 com o objetivo de dominar, expulsar, matar pela fome e humilhar um povo inteiro. Declaramos que continuaremos a servir ao exército de Israel e a cumprir qualquer missão que sirva à defesa do Estado de Israel. As missões de ocupação e repressão não servem a esse objetivo – não as desempenharemos.”

Publicada pela primeira vez na forma de informe publicitário pelo jornal Haaretz de 25 de janeiro de 2002, essa petição, assinada por 52 soldados e oficiais reservistas1, tornou-se uma bola de neve. No final de fevereiro, já contava com 230 assinaturas. Ao totol, depois da eclosão da intifada, em outubro de 2000, perto de 500 reservistas recusaram-se a servir nos territórios ocupados. E 46 reservistas ou soldados negaram-se a fazer prisões. Nesse meio tempo, a iniciativa provocou polêmicas em todas as esferas da sociedade israelense, a começar pelo exército, desencadeando um amplo debate que ganhou o Knesset (Parlamento de Israel).

Sharon em Haia?

O objetivo dos soldados e oficiais israelenses é “criar um movimento de rejeição popular que obrigue a mudar a ordem das prioridades nacionais”

No mesmo dia 25 de janeiro, o jornal Yedioth Aharonot publicava depoimentos de reservistas. O reservista Ariel Shatil, sub-oficial de artilharia, contava como descobrira que soldados da sua unidade atiravam contra inocentes. David Zonshein, tenente pára-quedista, presenciou camaradas seus tomarem casas à força, destruindo-as. Ishai Sagi, tenente de artilharia, foi enviado para proteger colonos que atacavam palestinos e queimavam seus automóveis na Cisjordânia. O sub-oficial pára-quedista Shoki Sadé ouviu soldados do seu batalhão contando, sem qualquer emoção, como haviam matado um garoto em Khan Younes. Sionistas convictos, esses quatro veteranos das guerras travadas por Israel no Líbano, estão dispostos a servir como reservistas, mas não nos territórios ocupados, onde – o jornal explica – “sentiram que estavam perdendo o seu lado humano. A partir de então, decidiram que não se calariam. Seu objetivo: criar um movimento de rejeição popular que obrigue a mudar a ordem das prioridades nacionais”.

Praticamente ninguém, em Israel, seria bobo a ponto de imaginar que o exército poderia reprimir a revolta palestina sem cometer crimes de guerra. O próprio ministro dos Transportes, ex-general de brigada Ephraïm Sneh, preveniu, seis meses após o início da Intifada, sobre os perigos de uma escalada: “Sharon”, declarou, “talvez tenha que comparecer perante o Tribunal Internacional de Haia sem a minha presença2.” Mas a opinião pública só absorveu gradativamente a medida dos excessos cometidos pelo exército em sua guerra contra os palestinos – que chegaram ao paroxismo em meados de fevereiro de 2002, com a destruição de dezenas de casas habitadas, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Os desmentidos do alto comando não convenceram ninguém.

Uma brecha na “muralha” de Israel

Praticamente ninguém, em Israel, seria bobo a ponto de imaginar que o exército poderia reprimir a revolta palestina sem cometer crimes de guerra

Uma semana antes fora realizado, em Tel Aviv, um debate sobre o tema “Você vai para Haia?” Ex-coronel, ex-piloto de guerra, prisioneiro de guerra depois que seu avião foi abatido no Egito, em agosto de 1970, durante a “guerra de desgaste”, o médico Igal Shohat citou o veredicto do Tribunal que condenou alguns dos responsáveis pelo massacre de Kfar Kassem (29 de outubro de 1956) e reconheceu o direito de desobedecer a ordens ilegais. “Matar civis propositalmente é um crime de guerra”, disse. E convocou os soldados a não servirem nos territórios ocupados, os pilotos a se recusarem a bombardear as cidades e os motoristas de buldôzeres a não destruírem casas. Em suma: que todos, e cada um, desobedecessem a ordens “cobertas pela bandeira negra da ilegalidade”. “Existem pessoas”, acrescentou, “que nunca percebem a presença da bandeira negra, mesmo quando assassinam um árabe amarrado. E existem outras que só o percebem quando começam a envelhecer. Como eu: quando era um jovem piloto, eu não questionava a escolha dos meios3.”

Bem no meio da polêmica, o ex-general Ami Ayalon – também ex-chefe da Marinha militar e principalmente ex-chefe dos serviços de segurança, o Shin Bet – manifestou seu espanto de que “muito poucos soldados desobedeçam a ordens claramente ilegais. Pois, quando se matam crianças desarmadas, trata-se de uma ordem ilegal4”. Essa foi a gota d’água que desencadeou a fúria do establishment político-militar, decidido a pôr fim ao movimento. O general Shaul Mofaz, chefe do Estado-Maior, advertiu todos os signatários da petição que seriam conduzidos perante uma corte marcial, e punidos, caso insistissem em recusar-se a servir nos territórios ocupados. Seu antecessor, o ex-general Amnon Lipkin-Shahak, descreveu essa recusa, por seu lado, como uma brecha que ameaçaria fender a “muralha” do Estado de Israel5.

A firmeza de Leibovitz

O movimento surgiu na década de 70, quando, por iniciativa individual, soldados se recusaram a servir nos territórios ocupados e, mais tarde, no Líbano

O movimento surgiu, em Israel, no final da década de 70, quando, por iniciativa individual, soldados se recusaram a servir nos territórios ocupados e, mais tarde, no Líbano. Não imaginavam que seus filhos passassem, muitos anos mais tarde, por uma situação semelhante. Em abril de 1970, durante a guerra de desgaste entre Israel e o Egito, um grupo de jovens estudantes enviou, às vésperas do seu alistamento, uma carta aberta à primeira-ministra Golda Meir, pedindo-lhe que não abrisse mão de uma possibilidade de paz. No verão de 1980, 27 jovens comunicaram ao ministro da Defesa, Ezer Weizmann, que se recusavam a prestar serviço nos territórios ocupados – alguns foram condenados a duras penas de prisão. Durante o verão de 1983, um outro grupo de jovens decidiu que não iria para o Líbano e criou a organização Yesh Gvul (Há Um Limite), que é atuante até hoje.

A primeira pessoa a incentivar os opositores de consciência foi o professor Yechayahu Leibovitz (1903-1994), que, desde março de 1969, advertia Israel contra os perigos da ocupação de territórios árabes e a dominação exercida sobre centenas de milhares de árabes. Para ele, o Grande Israel não passava de um “monstro catastrófico” que poderia levar à “perversão do homem israelense e à liquidação do povo judeu”, “envenenando a educação” e “prejudicando a liberdade de pensamento e de crítica6”. Anos mais tarde, assegurava: “Se digo que esses jovens opositores de consciência são autênticos heróis de Israel é porque eles se recusam a obedecer ao poder e às ordens do exército. Ou seja: duas instituições legais cujas ordens transformam o caráter do Estado de Israel, que não foi criado com o objetivo de dominar outro povo. Os dirigentes civis e militares querem transformar uma instituição política da independência nacional do povo judeu no aparelho repressivo de um poder judeu violento contra outro povo, para impor o punho da autoridade dos judeus, revestido de ferro norte-americano, a todos os territórios situados além da ‘Linha Verde’7.”

Cresce a ofensiva pacifista

Quem primeiro incentivou os opositores de consciência foi o professor Leibovitz, que sempre advertiu Israel para os perigos da ocupação de territórios

Desde o início da repressão da atual Intifada, a organização Yesh Gvul apoiou os soldados que se recusavam a servir nos territórios ocupados quando, em números cada vez maiores, vários deles foram condenados a duras penas de prisão. Mas a organização também lançou uma campanha, com o tema “A guerra em defesa das colônias judias na Cisjordânia e em Gaza e de seus esbirros não é a nossa guerra”, propondo aos soldados que assinassem uma petição declarando que se recusavam a tomar parte na repressão ao povo palestino e a participar de operações para a segurança das colônias judias8. Em dezembro de 2001, a Yesh Gvul daria um novo passo em frente, lembrando aos soldados que “atirar em civis desarmados, bombardear bairros habitados, participar de ‘execuções programadas’, destruir casas, privar de abastecimento, de alimentos e de cuidados médicos, destruir empresas, significa cometer crimes de guerra”. E convocava os soldados e reservistas a responderem: “Eu, não! 9

Uma nova entidade (“Novo Perfil por uma Sociedade Cívica”) distribuiu, por exemplo, uma petição de jovens estudantes do ginásio, que escreveram ao primeiro-ministro, ao ministro da Defesa e ao chefe do Estado-Maior condenando a política belicista e racista do governo e do exército, e comunicando que se recusavam a tomar parte na repressão ao povo palestino10. Dois dos signatários cumpriram pena de prisão militar em janeiro de 2002.

O fracasso (omissão?) da esquerda

Além de jovens de extrema-esquerda, de não-sionistas e de pacifistas, o movimento cresce entre os israelenses que se definem como sionistas

É evidente que a recusa deixou de ser marginal. Não somente o fenômeno se ampliou, como atingiu novas camadas sociais. Alcança, em especial, unidades do exército regular, particularmente as dos reservistas. Envolve não apenas soldados, mas também oficiais. Além de jovens de extrema-esquerda, de não-sionistas e de pacifistas, cresce entre os israelenses que se definem como sionistas e que, até recentemente, faziam parte do consenso nacional em torno do tema “Right or wrong, my Country” (Certo ou errado, é o meu país).

O êxito do movimento traduziu-se numa evolução mais geral da opinião pública israelense, com um número considerável de cidadãos se recusando a tomar parte nos excessos cometidos nos territórios ocupados. Outros rejeitam, de uma maneira mais geral, a política do atual governo em todas as áreas, inclusive econômicas e sociais. Alguns refletem, o medo e a angústia, tanto diante da resistência armada por parte dos palestinos quanto dos atentados-suicidas de terroristas contra civis. Muitos deles, que votaram no ano passado em Ariel Sharon, se revelam decepcionados pelo fato dele não ter cumprido sua promessa de trazer a paz e a segurança – mas de fazer o oposto. Eleitores trabalhistas consideram uma traição o fato de que seus dirigentes avalizem, ao participar do governo, o aventureirismo de Ariel Sharon. Outros criticam, de forma genérica, o fracasso da esquerda, que não mobilizou – ou não quis mobilizar – a opinião pública contra a desastrosa política do atual do governo, assim como a do que o precedeu. A crítica não poupa os meios de comunicação que, em sua maioria, estão a serviço das autoridades, ao invés de garantir sua missão de informar honestamente os cidadãos11.

Solidariedade direta judeu-árabe

Um movimento contestador, essencialmente composto por entidades de defesa dos direitos humanos, tenta preencher o vazio político de Israel

Um movimento contestador, essencialmente composto por entidades de defesa dos direitos humanos (como Médicos sem Fronteiras, Rabinos em defesa dos Direitos do Cidadão, Comitê contra a Destruição de Casas, B’Tselem, Centro de Informação dos Direitos dos Cidadãos nos Territórios Ocupados, Goush Shalom), tenta preencher esse vazio político. A essas entidades, juntou-se um novo grupo, árabe-judeu: Taayush, que, no idioma árabe, significa “viver juntos”.

A organização Taayush nasceu depois do início da Intifada Al-Aqsa. Em poucos meses, conseguiu mobilizar uma nova geração de jovens israelenses, não só dentro do país como nos territórios ocupados. Abalados pelos trágicos acontecimentos de outubro do ano 2000, quando a polícia israelense assassinou treze cidadãos árabes, esses jovens preocupavam-se com a inexistência de um grupo combativo de ação, judeu-árabe, que desafiasse a política racista e discriminadora. É esse o objetivo da Taayush: empreender ações de massa não-violentas, com uma referência localizada e sobre temas concretos, e, a partir daí, criar uma prática política alternativa e conjunta, judeu-árabe. Pretende pôr um fim à demonização dos palestinos e estabelecer pontes de solidariedade para o presente e para o futuro. Na opinião dos ativistas da Taayush, a única forma de derrotar o medo e o racismo é desenvolvendo uma solidariedade direta, uma aliança de base.

A luz da esperança

A crítica não poupa os meios de comunicação, que, em sua maioria, estão a serviço das autoridades, ao invés de garantir a missão de informar”

Até o momento, a entidade organizou oito comboios para levar mantimentos aos vilarejos palestinos sitiados. Compostos de caminhões e carros particulares, esses comboios foram organizados com a participação de militantes palestinos locais. Nem sempre conseguiram passar com facilidade pelas barreiras do exército israelense, que chegou a tentar impedi-los pela força – sem sucesso – que conseguissem alcançar seus companheiros palestinos. No verão do ano passado, 400 militantes dessa entidade participaram de um campo de trabalho para voluntários judeus e árabes, durante três dias, na aldeia árabe-israelense de Dar al-Hanoun, onde construíram uma estrada e uma área de jogos para as crianças12.

Se foi possível ao governo e ao exército israelense atacarem, durante meses a fio, os palestinos dos territórios ocupados sem ter que enfrentar uma resistência significativa na sociedade israelense, essa página negra parece ter sido superada. Um movimento pacifista cada vez mais forte opõe-se, agora, a essa política aventureira. E traz uma esperança: com ele, poderia finalmente surgir, no fim do túnel, aquela luz tão necessária à Palestina quanto a Israel. (Trad.: Jô Amado)

* Jornalista, Tel Aviv

1 www.seruv.org.il 2 Yedioth Aharonot, Tel Aviv, 20 de abril de 2001. 3 Haartez, Tel Aviv, 18 de janeiro de 2002. Salvo indicação em contrário, todas as citações têm como fonte o jornal Haaretz. 4 Canal 1, da televisão israelense, 1º de fevereiro de 2002. 5 Canal 2, 2 de fevereiro de 2002. 6 16 de março de 1969. 7 Ler, de Yechayahu Leibovitz, La mauvaise conscience d’Israël (Conversas com Joseph Algazy), ed. Le Monde-Editions, Paris, 1994. 8 1º de dezembro de 2001. 9 9 de dezembro de 2001. 10 6 de setembro de 2001. 11 Verificar na edição impressa. 12 www.Taayush.tripod.com




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