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CHECHÊNIA

Uma guerra que não acaba

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A operação “antiterrorista”, lançada em 1999, deveria terminar, segundo o governo russo, em março do ano seguinte, mas continua: a guerra de desgaste causou a morte de dezenas de milhares de civis, uma enorme destruição e despovoou a Chechênia

Vicken Cheterian - (01/03/2002)

A destruição de dois helicópteros, em 2001, custou a vida de dois generais e oito coronéis russos

Um dia como qualquer outro na Chechênia. Uma patrulha militar russa pisa numa mina. Torna-se alvo de tiros de metralhadoras e mísseis. Soldados jovens tombam. Seus caminhões e tanques se incendeiam. Os combatentes chechenos se retiram. Poucas horas depois, reforços russos iniciam uma operação de “pente fino” nos vilarejos da vizinhança. Prendem homens e, às vezes, até mulheres. Entre os presos alguns “desaparecem”; outros, cujas famílias pagam pela libertação, são soltos após serem espancados.

A operação “antiterrorista”, lançada no verão de 1999, deveria terminar, segundo o governo russo, em março do ano seguinte, mas prossegue. Esta guerra de desgaste causou a morte de dezenas de milhares de civis, uma enorme destruição e despovoou a república caucasiana. Segundo fontes oficiosas, a população teria passado de 1,2 milhão, na época soviética, para 400 mil, atualmente1. Do lado russo as perdas também atingem níveis insustentáveis2. Por exemplo, a destruição de dois helicópteros, em 17 de setembro de 2001, custou a vida de dois generais e oito coronéis que estavam em um dos helicópteros abatidos; depois, em 27 de janeiro, morreram o vice-ministro russo do Interior, general Mikhail Rudchenko, e treze outros oficiais de alto escalão. A Rússia caiu na armadilha e seus dirigentes não têm qualquer perspectiva de saída.

Duzentos anos de hostilidades

Declarar uma guerra total prova que os dirigentes russos não conhecem sua história, nem souberam tirar conclusões do primeiro conflito na Chechênia

Contudo o impasse era previsível, pois trata-se de uma guerra de guerrilha prolongada. Em 1999, no norte do Cáucaso havia realmente um problema de segurança e a Rússia deveria “fazer alguma coisa” na Chechênia. Independentemente dos atentados a conjuntos residenciais em Moscou e outras cidades – que também foram atribuídos à polícia russa – e à invasão do Daguestão por várias centenas de rebeldes, na maioria chechenos, a situação exigia, necessariamente, uma reação. Mas tentar resolver o problema descartando qualquer iniciativa não-militar e declarando uma guerra total foi um absurdo. E comprova que os dirigentes russos não conhecem sua própria história – não leram Lermontov, nem Tolstoi3, nem souberam tirar conclusões do primeiro conflito na Chechênia, entre 1994 e 1996.

Consta que o segundo motivo estaria no histórico das hostilidades russo-chechenas, que já dura duzentos anos, e até mais. Uma análise ao mesmo tempo errônea e perigosa, pois introduz uma visão determinista da história, que sugere que russos e chechenos estivessem em estado permanente de guerra. No século XIX, a Rússia não combatia o grupo étnico dos chechenos, e sim, uma frente de resistência dos povos caucasianos cuja figura mais representativa era o imã Chamil, um avar natural do Daguestão. Os avar conservaram um espírito tão combativo quanto o dos chechenos, mas não se rebelaram contra Moscou desde o início da década de 90, tanto quanto outros povos muçulmanos do Cáucaso: os kabardos, os tchercassianos, os inguches e os lesguianos. A Chechênia também poderia ter encontrado uma solução negociada com o novo poder em Moscou.

A guerra como cabo eleitoral

O argumento russo de que a perda da Chechênia levaria ao colapso da Federação Russa, segundo o modelo da União Soviética, parece injustificável

Da mesma maneira, o argumento russo de que a perda da Chechênia levaria ao colapso da Federação Russa, segundo o modelo da União Soviética, parece injustificável. Desde os acordos concluídos entre as autoridades federais e a Tartária, em fevereiro de 1994, a Chechênia foi o único “súdito” da federação a reivindicar a soberania plena4. O que mais minou a autoridade da Rússia no Cáucaso foram as maciças violações de direitos humanos cometidas por Moscou, além de sua impotência militar e política.

Em resumo, um conflito que se arraste no Cáucaso não interessa à Rússia. Entretanto, por duas vezes, em dez anos, os governantes russos tentaram manipular a situação explosiva no norte do Cáucaso com o objetivo de resolver problemas políticos do Kremlin. A invasão de dezembro de 1994 foi decidida para aumentar as chances de Boris Yeltsin na eleição de 1996. Da mesma forma, em 1999, o conflito contribuiu para dar popularidade a Vladimir Putin, um desconhecido na época. A invasão do Daguestão por forças chechenas, sob o comando do célebre comandante Chamil Bassaiev e seu aliado, o jordaniano de tendência wahabita Habib Abd Ar-Rahman Khattab, representou, evidentemente, uma séria ameaça, mas ao revidar com uma guerra total, a Rússia optou por não abordar os problemas ao norte do Cáucaso.

Unidade contra o invasor

O que mais minou a autoridade da Rússia no Cáucaso foram as maciças violações de direitos humanos, além de sua impotência militar e política

Ao fazê-lo, os generais russos voltaram as costas às lições da derrota de 1996 e, pensando que dobrariam a resistência chechena, concentraram mais efetivos militares no país. Dos 35 mil soldados enviados em 1994, passou-se a 90 mil em 1999, ou seja, o equivalente ao corpo expedicionário soviético enviado ao Afeganistão. As autoridades também trataram de fazer calar as críticas da imprensa. Após as “posições hostis” do canal independente NTV, que havia coberto o conflito anterior de forma crítica, e a compra do semanário Itogui pela gigante do gás Gazprom, um novo escândalo abalou a liberdade de imprensa em Moscou: a sentença de um tribunal ordenando o fechamento da TV6, último canal de televisão nacional que escapava ao controle do Kremlin5.

Os generais russos também menosprezaram as divisões entre os chechenos. Se a realidade, em 1999, era uma guerra civil na Chechênia, como esquecer que no outono de 1994 a república caucasiana estava na mesma situação, quando a autoridade do presidente Jokhar Doudaïev não ia além do perímetro do palácio presidencial? E isso não impediu que os chechenos – que nunca esqueceram as deportações em massa em 1944 – superassem suas divergências para resistir ao invasor...

A campanha “antiterrorista” também não conseguiu neutralizar os principais líderes da resistência chechena. Bassaiev e Kattab continuam a comandar operações militares contra as tropas russas. E ainda que os russos tenham conseguido a aliança do ex-mufti da Chechênia, Ahmad Qadirov, sua tentativa de estabelecer um governo local tem pouca chance de sucesso. Um “governo” conduzido por ele, crítico feroz do islamismo “wahabita” e partidário da tradicional tariqat6 sufi, não sobreviveria a uma retirada militar russa. Aliás, o ex-mufti foi alvo de várias tentativas de assassinato e seu braço direito, Adam Deniev, foi morto num atentado à bomba dos ativistas pró-independência, em abril de 2001.

Pontos básicos para a negociação de paz

Dos 35 mil soldados enviados em 1994, passou-se a 90 mil em 1999, ou seja, o equivalente ao corpo expedicionário soviético enviado ao Afeganistão

Os horrores cometidos pelo exército russo bastam para macular a legitimidade de qualquer colaboração com Moscou, independentemente de seus motivos, aos olhos dos chechenos. Não estamos mais em 1999, quando a opinião pública chechena, exaurida tanto pelos anos de caos e de conflitos, quanto pelo reinado dos senhores da guerra, teria acolhido favoravelmente qualquer tentativa de estabilização – até russa. Mas é evidente que a opinião pública chechena não foi levada em conta nas decisões tomadas pelos russos. Na verdade, caberia perguntar: como a Rússia pode pretender que os chechenos sejam cidadãos da Federação, quando seu exército se comporta como força de ocupação no território?

Se, inicialmente, o barulho das armas incentivou a mudança na chefia do Estado russo, a continuação do conflito é dolorosa e lembra, constantemente, a debilidade da Rússia. Moscou teria, portanto, interesse em pôr fim ao conflito. Um primeiro encontro entre Ahmed Zakaiev, representante do presidente checheno Aslan Maskhadov7, e Viktor Kazantsev, representante do presidente russo Vladimir Putin, em 18 de novembro de 2001, no aeroporto de Moscou, não teve prosseguimento e as operações militares intensificaram-se, apesar dos rigores do inverno. As negociações terão que abordar, necessariamente, as difíceis questões da representação política e do controle militar na República caucasiana, especialmente o desarmamento das tropas rebeldes e sua incorporação às forças policiais locais, além da retirada do exército russo. Quanto à espinhosa questão do estatuto político da Chechênia, ainda que possa ser deixada de lado no acordo inicial, deve necessariamente constar de um entendimento de princípios.

A decepção de um presidente sem poder

A campanha “antiterrorista” não neutralizou os líderes chechenos: Bassaiev e Kattab continuam a comandar operações militares contra tropas russas

Segundo fontes russas, o presidente Putin estabeleceu duas condições prévias às negociações com o checheno Aslan Maskhadov: “o desarmamento e as discussões sobre a paz8”. Por seu lado, Maskhadov declarou-se pronto a negociar com Moscou, distanciando-se dos líderes chechenos partidários de uma linha mais dura: ele afirmou à rádio alemã Deutsche Welle que “ao atacar o Daguestão, Bassaiev provocou a guerra contra a Rússia”.

O espírito guerreiro dos chechenos permitiu-lhes obter importantes vitórias sobre uma potência superior, mas também acarretou tragédias para o seu povo. A resistência de 1994-1996 nunca levou a uma direção integrada e unificada. Por isso, os diferentes senhores da guerra puderam impor sua lei, causando a instabilidade permanente que mergulhou a Chechênia no caos. Desde a retirada russa, de 1996 a 1999, a República – independente, na prática – representava um Estado totalmente deteriorado. As únicas atividades econômicas eram ilícitas, e até criminosas: a indústria do seqüestro, do tráfico de armas e a pirataria de petróleo, encaminhado pelo oleoduto Baku-Novorossisk.

Pretendendo evitar uma guerra civil e ignorando as intenções russas, o presidente Maskhadov nem tentou controlar os diferentes grupos armados, revolucionários wahabitas e outros grupos criminosos9. Ora, a maioria dos chechenos esperava uma normalização, após anos de preocupação e guerra e essa independência com um presidente sem poder e com os senhores da guerra fazendo a lei os decepcionou profundamente. Se, entre 1994 e 1996, a resistência chechena lutava por uma independência nacional, atualmente destaca-se mais pela rejeição à invasão russa do que por um combate com um objetivo político.

Solução é uma nova retirada

A guerra “antiterrorista” conduzida pelos Estados Unidos põe a Rússia em uma posição ainda mais difícil. Evidentemente, o presidente Putin esforça-se em estabelecer um paralelo entre a guerra na Chechênia e a ofensiva norte-americana, insistindo sobre as ligações entre a facção islâmica da resistência chechena e a rede Al-Qaida. No entanto, o Kremlin sabe que assim que termine a campanha do Afeganistão, uma nova correlação de forças geopolíticas nascerá no ponto fraco que é a Ásia central. Daí, o sentimento de urgência no Cáucaso10. Apesar do silêncio presidencial, alguns políticos russos opõem-se abertamente à permanência das forças norte-americanas, por longo tempo, na Ásia central, enquanto a imprensa especula sobre o ressurgimento da rivalidade russo-americana no que diz respeito à Transcaucásia. Como disse um comentarista, terminou a lua de mel11.

Portanto, crescem as pressões para que Moscou ponha um fim à guerra. O conflito, além de ocasionar perdas enormes, paralisou a reforma militar prometida pelo chefe de Estado russo. E, além do mais, engoliu todos os recursos militares russos.

A única solução para Moscou consiste em efetuar uma nova retirada militar – e esse é exatamente o seu dilema. Abandonada ao caos e à incerteza, a Chechênia do pós-guerra corre o sério risco de tornar-se a mesma de antes da guerra, sem falar da afronta que sofreria um presidente russo que fez da vitória militar o cavalo de batalha de sua campanha eleitoral. Há uma década, apesar dos evidentes limites da opção militar, os governantes russos não elaboraram qualquer outra política para a Chechênia. Contudo, uma retirada militar parece ser a única solução para acabar com o banho de sangue. Entre o pensamento imperial russo e o espírito belicoso checheno, a história continua a repetir-se no Cáucaso. (Trad.: Teresa Van Acker)

1 Segundo o Human Rights Watch, dos 260 mil refugiados da Chechênia, 170 mil refugiaram-se na Inguchétia. Ver http://www.hrw.org/campaigns/russia... 2 Segundo fontes russas citadas pelo Neue Züricher Zeitung de 3-4 de novembro de 2001, a intervenção militar russa de 1999 na Chechênia fez 15 mil vítimas entre os combatentes, ou seja 3.438 soldados russos e 11 mil rebeldes chechenos. Essas fontes não contam as perdas civis. 3 Ler Un Héros de notre temps, de Mikhail Lermontov, coleção “Folio”, ed. Gallimard, Paris, 1998, e Les Causaques, de Léon Tolstoi, ed.Gallimard, 1938, que refletem a resistência dos chechenos e de outros povos do Cáucaso à expansão russa. 4 Para uma comparação entre a Tartária e a Chechênia, ler a “La voie étroite du Tatarstan”, Le Monde diplomatique, setembro de 1995. 5 A NTV e o Itogui pertenciam ao oligarca Vladimir Gussinski e a TV6, a Boris Berezovski. 6 N.T.: Tariqat pode ser compreendido, latu sensu, como caminho espiritual. 7 Eleito em 1997, sob a supervisão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. 8 Nezavisimaya Gazeta, Moscou, 17 de janeiro de 2001. 9 Ler a entrevista do presidente Aslan Maskhadov em Chienne de guerre, de Anne Nivat, ed. Fayard 2000. 10 Ler, de Gilbert Achcar, “O jogo triangular das potências”, Le Monde diplomatique, dezembro de 2001. 11 Ler, de Pavel Felgenhauer, “U.S. Is a demanding Spouse”, in Moscow Times, 24 de janeiro de 2002.




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