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AMIANTO

A “ciência” como álibi

* Jornalista

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Ao longo de décadas, três “professores” ajudaram a indústria do produto a continuar matando

Patrick Herman - (01/04/2002)

“Num primeiro momento, ganham dinheiro ‘amiantando’. Depois, quando a mina acaba, ganham ‘desamiantando’”

Se um número considerável dos responsáveis pelo desastre sanitário do amianto tentam ser esquecidos, outros não se preocupam em reaparecer nos lugares mais inesperados: em Bordeaux, um defensor do uso do amianto – o professor Patrick Brochard – dirige o centro de recuperação médica das pessoas que contribuiu a expor; em Clermont Ferrand, acaba de ser instalado um laboratório que analisa poeiras, fibras e outras partículas – LHCF Environnement. Seu diretor-presidente? Daniel Bouigue, que na época era secretário-geral da Câmara patronal do amianto e membro da Comissão Permanente para o Amianto (CPA), representando a Asbestos International Association. Uma autêntica provocação, no entender das operárias da Amisol: “Num primeiro momento, ganham dinheiro ‘amiantando’, e depois, quando essa mina se acaba, ganham dinheiro ‘desamiantando’.”

No início da década de 70, o caráter cancerígeno do amianto foi estabelecido de forma indiscutível1. Na época, o professor Jean Bignon colocava algumas questões: “Acredito que não temos o direito de esperar por provas mais convincentes”, escreveu, com relação a Jussieu, em 20 de novembro de 1975 “para evitar a poluição no interior de locais como esse2.” Mas, depois de promovido a chefe do serviço de pneumologia do hospital intermunicipal de Créteil (departamento de Val de Marne) em 1982, ele ajudaria na criação do CPA. Pilotado pelo lobby industrial e com uma assessoria de comunicação, esse organismo iria administrar as questões do amianto, na França, durante cerca de quinze anos, com a bênção dos respectivos governos... O dr. Bignon chegou, inclusive, a dar conselhos à indústria canadense, que pretendia “suprimir a toxicidade do amianto, modificando a planta física de suas usinas3". Na época, já era membro do grupo de pesquisa e estudo sobre afecções respiratórias e ambientais do hospital Mondor, em Créteil.

Desinformação também no Brasil

Bignon garantiu, no Brasil: “quando utilizado corretamente, o amianto é inofensivo”

Apoiado no poder dessa autoridade científica – também pertence à unidade Inserm 139 e dirige a clínica de patologia respiratória de Créteil –, nosso especialista intervém em simpósios internacionais. Convidado pela Associação Brasileira do Amianto em janeiro de 1990, por exemplo, ele garantiu: “Quando utilizado corretamente, o amianto é inofensivo...” Uma mensagem que vale o seu peso em fibras (e honras), pois, na mesma época, o Instituto do Amianto Canadense lançava uma campanha para reabilitar o crisótilo, uma variedade de amianto mentirosamente apresentada como quase-inofensiva4.

O professor Bignon não é o único a suar a camisa. Concorre com ele o dr. Patrick Brochard, professor na Universidade de Paris XII, pneumologista, especialista em patologias profissionais e pesquisador no Inserm. Sob o peso de todos esses títulos, ele concede uma palavra de conforto em qualquer centro de triagem postal atapetado de amianto.

Após fazer a defesa do mito do “uso controlado” do amianto, inventado pelo CPA, encontrou-se, em junho de 1995, com seu colega Bignon, quando co-assinaram uma carta a Pierre-André Périssol, ministro da Habitação da época: “Com toda objetividade, o CPA (...) fez um excelente trabalho durante os últimos treze anos.” Quanto àqueles que reivindicam a proibição do amianto, estariam “aproveitando-se da situação para alarmar a sociedade...” Conclusão: “No atual contexto, não nos parece oportuna a tomada de decisões apressadas.” Resumindo: é urgente que nada seja feito. Na véspera da proibição pelo governo, o professor Bignon ainda tentaria fazer uma manobra acrobática: “Deveríamos ter-nos oposto, coletivamente, à criação do CPA5.”

Assim navegam as carreiras das sumidades médicas... Atualmente, o professor Bignon está aposentado. Quanto ao professor Brochard, dirige o departamento de patologia profissional do Hospital Universitário de Bordeaux e foi encarregado de dar acompanhamento médico às pessoas expostas ao amianto na região de Aquitaine.

O terceiro no pódio

Os que reivindicam a proibição do produto estariam “aproveitando-se da situação para alarmar a sociedade”

No pódio das olimpíadas da desinformação, existem três lugares, como é de direito. Ninguém tirará do professor Etienne Fournier a desonra de ocupar o terceiro. Presidente da Comissão de Doenças Profissionais no Conselho Superior de Prevenção contra Riscos Profissionais, Fournier acumulou as funções de diretor do Centro Anti-tóxico Fernand-Widal, em Paris, de professor na Clínica de Toxicologia, de membro da Academia de Medicina e de médico-conselheiro (especialmente para a Air France). Seu nome é constantemente citado, ao longo das décadas negras do amianto na França.

Presente desde 1964, deu prova de seus talentos em 1977, presidindo o simpósio “Amianto e cancerogênese humana”, cujo objetivo, para o lobby patronal, era readquirir a confiança dos meios científicos e médicos. O professor Jean Roujeau, da Faculdade de Medicina de Lariboisière, em St. Louis, foi curto e grosso: “Pensava que se tratasse de um simpósio científico com fins desinteressados. Ora, acabo de saber que o verdadeiro organizador do simpósio é a Câmara Sindical Patronal do Amianto (...). Não posso aceitar que minhas opiniões possam ser deformadas e utilizadas por patrões cujo único interesse é fabricar e vender seus produtos com o máximo de lucro6.”

Processo arquivado

O CPA seria extinto. Fournier ainda teria tempo de fazer a Academia Nacional de Medicina aprovar um relatório falseador

Nem assim, entretanto, Fournier entrega os pontos. Na esteira do simpósio mundial sobre o amianto, em maio de 1982, ele apadrinhou a criação do CPA, acompanhado por Dominique Moyen, na época diretor do Instituto Nacional de Pesquisa e Segurança (INRS). Dessa forma, os líderes do mundo médico e do mundo da prevenção davam o chute de saída para quinze anos de manipulação...

O CPA seria extinto, de forma sub-reptícia, pouco antes da proibição do amianto. O professor Fournier, entretanto, ainda teria tempo para fazer aprovar, pela Academia Nacional de Medicina, um relatório publicado em agosto de 1996: avaliações de mortalidade inventadas, negação de doenças fora do contexto de exposição profissional, superestimação do papel do amianto como causa de cânceres pulmonares... Está tudo lá. Devido a esse relatório, ele responderia por um processo de publicação e divulgação de falsa informação. O qual foi imediatamente arquivado. Pouco tempo depois, o professor Fournier seria convidado a abandonar a Comissão de Doenças Profissionais. (Trad.: Jô Amado)

1Os fatos foram estabelecidos por meio dos trabalhos de Richard Doll (1953) e de Irving Selikoff (1961). 2Carta datada de 20 de novembro de 1975, e endereçada a Maurice Arvonny, em resposta ao artigo “L’amiante, un matériau à surveiller”, Le Monde, 12 de novembro de 1975. 3 “Un nouvel avenir pour l’amiante”, Le Monde, 8 de junho de 1984. 4Ler, de Patrick Herman e Annie Thébaud-Mony, “La stratégie criominelle des industriels de l’amiante”, Le Monde diplomatique, junho de 2000. 5 “Une experise officielle admet que l’amiante causera au moins 1950 décès em 1996”, Le Monde, 3 de julho de 1996. 6Carta endereçada ao professor Fournier no dia 2 de maio de 1977.




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