Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Gilvan, trabalho e sono no capitalismo periférico

» Por um imposto global sobre as transnacionais

» As eleições 2020 na encruzilhada brasileira

» Cinema: Os últimos soldados da Guerra Fria

» A eleição mais árdua de Evo Morales

» Reviravolta no Oriente Médio: os curdos podem resistir

» Atualismo: assim percebemos o tempo no século XXI

» Porto ameaça cartão-postal amazônico

» Banco Mundial, parceiro de maldades de Bolsonaro

» Por que os EUA traíram a guerrilha curda

Rede Social


Edição francesa


» Un journalisme de racolage

» Une Europe des citoyens

» Ces dures grèves des ouvriers américains

» 17 octobre 1961 : rendez-vous avec la barbarie

» La gauche dans son ghetto, la droite à la radio

» Les médias américains délaissent le monde

» Fruits et légumes au goût amer

» La Bolivie dans l'étau du néolibéralisme

» La crise suscite de sérieux remous en Irak et relance la guerre froide en Proche-Orient

» Les rivalités entre Washington, Moscou et Pékin


Edição em inglês


» Iraq's demographic time bomb

» October: the longer view

» Socialism resurgent?

» Power to decide who's guilty

» East Germany's loyal returnees

» Ankara realpolitik

» South Africa's lands must be shared

» Turkey's rival Islamists

» Argentina's unlikely presidential duo

» Reversing the polarities


Edição portuguesa


» A crise catalã nasceu em Madrid

» Quantas divisões há entre os curdos?

» Edição de Outubro de 2019

» Estabilidade para quem?

» Washington contra Pequim

» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda


LITERATURA

América de tiranos e déspotas

Imprimir
enviar por email

Ler Comentários
Compartilhe

Uma retrospectiva do romance político latino-americano

Ramón Chao - (01/05/2002)

No auge de sua carreira literária, Mario Vargas Llosa, com a Festa do Bode1 , realiza um rito tradicional pelo qual passam os grandes escritores latino-americanos que desejam exorcizar a história de seu continente: o romance de ditadores. Em 1830, Simon Bolívar, alguns anos antes de sua morte, já doente e desiludido, profetizava que a América ficaria entregue a "pequenos tiranos quase imperceptíveis, de todas as cores e de todas as raças". O que o Libertador certamente não previa era que isso fizesse nascer um novo gênero literário.

O fenômeno despótico caracteriza sátrapas megalômanos tão diferentes como Rosas, na Argentina, Guzmán Blanco, na Venezuela, ou Porfirio Díaz, no México. Suas raízes estão nas guerras de Independência e crises dos Estados pós-coloniais, em que persistem situações arcaicas como latifúndio, pobreza, religião, racismo, caciquismo etc.

As raízes, no século XIX

Esteban Echeverría foi o primeiro a fazer uma literatura em que a lógica absurda do poder absoluto acaba por justificar o terror, a tortura e os crimes

É a paixão romântica pela pátria que leva os escritores a denunciar os abusos dos novos governantes. Os primeiros ditadores da América Latina surgiram a partir do início do século XIX como expressão do militarismo. A Argentina conheceu muito cedo a ditadura de Juan Manuel Rosas, fruto podre da divisão entre centralistas e federalistas. O romancista argentino Esteban Echeverría foi o primeiro a fazer uma literatura que mistura um realismo cru com uma fantasia desenfreada, na qual a lógica absurda do poder absoluto acaba por justificar o terror, as torturas e os crimes. Em Matadouro (1838-1840), Echeverría descreve magistralmente Buenos Aires sob a ditadura de Rosas.

Outros escritores seguiram a via traçada por Echeverría: em 1851, o argentino José Mármol, em Amália, insistiu na irracionalidade e na crueldade do tirano Rosas, porém seu romance peca pela excessiva influência de Walter Scott. Na mesma época, a peruana Mercedes Cabello tratou dos primeiros tempos do ditador Leguía em El Conspirador, e Rufino Blanco-Fombona descreveu, em 1923, "o Estado apodrecido" da Venezuela sob a ditadura de Juan Vicente Gómez.

O sucesso de Tirano Banderas

Escrito após uma viagem de Valle-Inclán ao México, Tirano Banderas situa-se num mundo imaginário, com a pampa, os esteros, a ciénaga e a floresta virgem

Todos esses romances precederam o aparecimento da primeira obra-prima do gênero: Tirano Banderas, do espanhol Ramón Valle-Inclán. Escrito após uma viagem do autor ao México, esse romance situa-se em um mundo imaginário onde se encontra um apanhado da geografia latino-americana: a pampa, os esteros (mangues), a ciénaga (pântanos) e a floresta virgem. Valle-Inclán combina traços lingüísticos, informações e características de países diferentes, todavia, as fontes são principalmente mexicanas. A ação situa-se em Tierra Caliente, a prisão descrita é o castelo de San Juan de Ulúa e o embaixador da Espanha e sua alma maldita, Roque de Cepeda, são caricaturas de diplomatas que residiram, de fato, no México. O tirano Santos Bandera é também uma mistura de personagens: um índio sanguinário e taciturno que, segundo ele próprio, "não crê nas virtudes nem nas capacidades de sua raça", e que tem traços que fazem lembrar o ditador espanhol Primo de Rivera (1923-1930), pois para Valle- Inclán os déspotas latino-americanos são herança dos conquistadores.

Tirano Banderas, publicado em Madri em 1926, teve, imediatamente, grande repercussão. Xavier Bóveda, co-fundador, com Jorge Luis Borges, da revista Síntesis, aconselhava "todos os latino-americanos a comprarem Tirano Banderas em todas as livrarias do continente". Foi editado em inglês, em 1929, e em russo, em 1931, e o New York Times Book Review reconheceu que, se Tirano Banderas não tivesse sido traduzido para o inglês, seria porque o interesse de seu país pela América Latina "era mais econômico do que literário".

A "dimensão biológica" da linguagem

A partir de Tirano Banderas, nenhum romance do novo gênero ignorou as formas do sarcasmo herdadas do modelo esperpéntico, criado por Valle-Inclán

Daí em diante, nenhum romance desse novo gênero ignorou as diferentes formas de sarcasmo herdadas do modelo esperpéntico (grotesco) criado por Valle-Inclán. O chileno Ricardo A. Latcham publicou em 1929 Esperpento de las Antillas. No mesmo ano, o mexicano Martín Luis Guzmán, em A Sombra do Caudilho, reproduziu os esquemas de Valle-Inclán, mas ao invés de insistir sobre a figura do ditador, dedicou-se a descrever a decadência moral dos novos "revolucionários" que agem em torno dele.

Os traços mais notáveis de Tirano Banderas podem ser encontrados em O Senhor Presidente (1944), do guatemalteco Miguel Angel Asturias. Valle-Inclán havia estabelecido certos elementos estruturais que Astúrias adotou e aprofundou, ultrapassando seu modelo em muitos aspectos. No livro, inspirado por lembranças da adolescência do autor que, quando estudante, havia participado da luta pacífica contra o déspota Estrada Cabrera (1857-1924), o distanciamento no tempo e no espaço (o romance foi escrito e reescrito, em Paris, por dezenove vezes!) fez com que Asturias, ao buscar as raízes da ditadura, se afastasse do documentário, fugisse do realismo, deformando-o e o exagerando-o, para chegar ao que chama "dimensão biológica da linguagem". Além da novidade da apresentação "em tableaux" (certamente influenciada pelo surrealismo e pelo cubismo), ele desenvolve uma concepção original do mundo a partir da sensibilidade indígena e da cosmogonia maia.

A "moral franciscana" do Ditador Supremo

Daí em diante, uma imaginação sem limites e a presença ritual dos mitos indígenas passariam a marcar a literatura latino-americana, criando o "real maravilhoso" e o "realismo mágico".

A imaginação e os mitos indígenas passariam a estar presentes na literatura latino-americana, no "real maravilhoso" e no "realismo mágico"

José Gaspar Rodríguez de Francia, herói de Eu, o Supremo, de Augusto Roa Bastos, foi uma espécie de Robespierre paraguaio. Seu modelo era a Revolução Francesa, sua religião o livre-pensar e seu autor favorito, Jean-Jacques Rousseau. Tomou o poder em 1812 e proclamou-se "Ditador Supremo". Até 1840, tentou aplicar suas idéias de progresso através do terror, todavia preservou a independência contra as ambições conjugadas do Brasil voraz, do Uruguai e seu fundador Artigas, assim como da Argentina, incentivada pela Inglaterra. Cercou o Paraguai com uma cortina de ferro instransponível e deu ao povo uma consciência nacional. Para muitos paraguaios, permanece um "santo leigo", ainda que Simón Bolívar tenha, ele próprio, tentado organizar uma expedição para "livrar-se desse monstro". A oligarquia paraguaia jamais perdoou Francia por ter decapitado o exército e suprimido as grandes propriedades (latifúndios) para criar em as Estancias de la Patria, fazendas coletivas com as quais conseguiu alimentar o povo e até exportar parte da produção. Todos os paraguaios reconhecem, hoje, que o Ditador Supremo transformou a vida pública com sua "moral franciscana", impôs um regime fiscal justo e abriu escolas em toda parte para erradicar o analfabetismo.

A metáfora da decadência física

Já na primeira leitura constata-se que Roa Bastos tenta restabelecer o verdadeiro sentido das palavras "tirano" e "ditador" (tirano, no sentido clássico, significa "aquele que sob pretexto de progresso, bem-estar e prosperidade de seus governados, substitui o culto do povo pelo de sua própria pessoa". E ditador, "aquele que dita a seu escriba suas reflexões sobre seus decretos e sobre sua política").

José Gaspar R. de Francia, herói de Eu, o Supremo, foi uma espécie de Robespierre paraguaio. Tomou o poder em 1812 e proclamou-se “Ditador Supremo”

A narrativa começa alguns instantes antes do falecimento do personagem que narra na primeira pessoa: "Eu, o Supremo Ditador da República, ordeno que após minha morte meu cadáver seja decapitado, a cabeça alçada sobre uma estaca durante três dias na Praça da República, onde o povo se concentrará ao forte repicar dos sinos". Durante a segunda leitura, uma questão se impõe: um homem que governa com poder absoluto pode escapar da corrupção que esse mesmo poder engendra?

A mesma pergunta foi feita por Gabriel García Márquez em O Outono do Patriarca (1975) e, em ambos os casos, a resposta é a metáfora da decadência física do Supremo, ou do Patriarca, que acompanha o declínio de seu mandato. "Meu corpo cresce, incha; agita-se na água racial que meus inimigos tentavam conter com grilhões."

Ilusões de sonho e realidade

García Márquez tenta destruir o mito que envolve os ditadores, esses seres "personalistas, épicos e excepcionais". Seu Patriarca é um amálgama do tirano Rosas, de Franco e de Pinochet, sua selvageria é secundada por uma retórica monstruosa na qual os meandros da sintaxe servem para dissimular a própria verdade da narrativa: o Patriarca existe apenas no labirinto de frases sempre repetidas e jamais verificadas. Em última instância, o Patriarca "era apenas uma visão incerta, um tremor de lábios taciturnos, o adeus furtivo da luva vazia de um velho sem destino que não seria senão uma brincadeira de mau gosto da imaginação".

Em O Recurso do Método (1974), Alejo Carpentier analisou, como nos dois romances precedentes, o discurso do autocrata, embora com intenção e técnica diferentes. As primeiras páginas de Recurso descrevem a incerteza do déspota que, de manhãzinha, não consegue distinguir sonho e realidade. Essa é a tese do romance: a instabilidade do país é produto das ilusões provocadas e sofridas pelo próprio ditador. Esse personagem é, então, um dos mitos da América Latina no qual estão refletidos todos os conflitos históricos, sociais ou culturais do hemisfério, "uma história que se repete, morde a própria cauda, devora-se, imobiliza-se a cada vez".
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, São Paulo, ed. Mandarim, 2000.




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Romance
» América Latina

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos