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RELIGIÃO

Balanço de um pontificado

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É evidente que João Paulo II restaurou a Igreja. Mas qual Igreja? É claro que fortaleceu o lugar da Igreja na sociedade. Mas qual lugar?

François Houtart - (01/05/2002)

Vários teólogos sofreram condenações. Um deles, Tissa Balasuriya, foi excomungado por haver publicado um livro bastante ambíguo sobre a virgindade de Maria

A visão de um homem idoso, cansado, doente e que, apesar de tudo, continua a assumir uma tarefa esmagadora, desperta um sentimento de respeito, de simpatia ou de piedade. O carinho de multidões imensas e populares em tantos países do mundo não deixa de ser impressionante. Uma personalidade que alia amplos conhecimentos, o domínio de numerosas línguas, um componente esportivo, uma real coragem física, uma espiritualidade profunda, uma grande força de convicção e a fidelidade na amizade, suscita a admiração. Entretanto, um balanço exige outras perspectivas, um outro tipo de análise.

Reconstituir algumas das linhas-mestras do pontificado de João Paulo II não é uma tarefa simples, considerando-se o tempo passado no governo da Igreja Católica (quase um quarto de século), as quase cem viagens internacionais, mais ou menos uma dúzia de encíclicas, incontáveis discursos, inúmeros encontros com personalidades, beatificações e canonizações às centenas. E tudo isso numa época da história que viu o Consenso de Washington1 orientar a economia mundial para o neoliberalismo com suas catástrofes sociais, o muro de Berlim desabar, o pensamento único se impor e os movimentos de protesto florescerem em escala mundial, sem falar do ataque terrorista contra os Estados Unidos e das guerras que fortalecem o controle do sistema mundial dominante.

Restauração doutrinária, moral e institucional

Ao assumir o comando da Igreja Católica, João Paulo II se atribuiu uma dupla missão: restaurar uma Igreja abalada pelo Concílio Vaticano II e fortalecer a presença da Igreja na sociedade para que pudesse realizar sua tarefa de evangelização.

O cardeal Karol Wojtyla participou ativamente do Concílio Vaticano II2 . Partidário da modernização da imagem da Igreja Católica, apoiou muitas reformas aprovadas pela assembléia dos bispos. No entanto, de sua Polônia natal, observou com preocupação as conseqüências do Concílio sobre uma Igreja que se reformava em profundidade, e não sem traumas e conflitos internos. Próximo da Opus Dei3 , que o abrigara durante várias de suas viagens ao exterior, lançou um olhar de reprovação não só sobre alguns excessos litúrgicos (introdução de textos ou de músicas profanas, entre outros), mas também sobre inúmeras aplicações concretas das decisões conciliares. Suas convicções eram reforçadas pelo vínculo com o catolicismo polonês, sólido, mas sempre simplista em seu conteúdo, vigoroso em sua espiritualidade marcada pelo culto à virgem Maria, rígido em sua moral, culturalmente hegemônico em sua sociedade, cimento da nação e alma da resistência ao comunismo. Tudo iria levar o eleito do conclave a uma restauração doutrinária, moral e institucional da Igreja Católica4 .

Interrompendo o diálogo com a Ásia

O apego a uma filosofia da natureza ultrapassada e dogmatismo no caso da Aids tiraram da Igreja boa parte de sua credibilidade

No plano doutrinário, quase todos os assuntos foram abordados – por ele mesmo, ou pelos órgãos da Santa Sé: a fé, o magistério e a autoridade da hierarquia eclesiástica em termos de doutrina, o colegiado entre os bispos para o funcionamento da Igreja universal, a liturgia, o sacerdócio, o papel das mulheres na Igreja, o ecumenismo e as relações entre Igrejas cristãs, as religiões não cristãs, a doutrina social... Definições interessantes aparecem ao lado de advertências, de apelos doutrinários e mesmo de condenações explícitas. Foram muitas as freadas, acompanhadas por medidas disciplinares cada vez mais constrangedoras, ao invés do acompanhamento pastoral de um difícil processo de reformas para que a Igreja pudesse transmitir melhor a mensagem do Evangelho num mundo complexo.

As adaptações litúrgicas começadas em várias Igrejas locais da Ásia, por exemplo, e especialmente na Índia, visando a uma expressão cultural mais flexível da fé, foram interrompidas. O documento Dominus Jesus sobre a função salvadora universal de Jesus pôs fim à tentativa de repensar a relação com as grandes religiões do Oriente: esse texto foi interpretado por alguns dirigentes religiosos ou políticos asiáticos como uma justificativa do proselitismo em sociedades que recuperavam, com dificuldade, sua identidade cultural, particularmente pelo viés da religião. Vários teólogos sofreram condenações, proibições de ensinar ou de publicar, e um deles, Tissa Balasuriya, do Sri Lanka, foi excomungado por haver publicado um livro bastante ambíguo sobre a virgindade de Maria e sobre o conceito de pecado original.

A repressão à teologia da libertação

Na América Latina, o Celan, antiga vanguarda da renovação, foi pouco a pouco transformado num órgão de restauração

É verdade que, em matéria de relações com as outras confissões cristãs e com outras religiões, houve algumas manifestações impressionantes, como os encontros de Assis, em 1986 e 2002, o jejum do último dia do Ramadã, em 2001 etc. Mas a intransigência doutrinária e os obstáculos a colaborações mais institucionais, em especial com o Conselho Mundial das Igrejas, colocaram limites intransponíveis a certos avanços. Os pedidos de perdão pelos erros de membros da Igreja Católica - no tempo das Cruzadas, da Inquisição, ou ainda por comportamentos racistas ou anti-semitas - nunca questionaram as responsabilidades da própria instituição5 .

O colégio episcopal, um dos pontos fortes do Concílio Vaticano II, foi claramente subordinado por João Paulo II à autoridade romana. Os sínodos gerais ou continentais transformaram-se, com freqüência, em estúdios de gravação da linha pontifícia, ou em lugares de desabafo sem grandes conseqüências. O documento final de cada um devia ser aprovado pelo papa antes da publicação e, em muitos casos, até foi modificado6 .

A teologia da libertação foi objeto de uma repressão específica. Nascida na América Latina, teve expressão também na África, sobretudo entre os teólogos protestantes, na Ásia, na Índia, nas Filipinas e na Coréia do Sul. Reflexão sobre Deus, como toda teologia, seu ponto de partida era a situação dos pobres e dos oprimidos, explicitando, assim, o caráter contextual, o que outras correntes geralmente se recusam a fazer, dissimulando, desse modo, a relatividade do discurso.

João Paulo II decreta fim do marxismo

As instituições bancárias do Vaticano viveram escândalos retumbantes, dentre os quais o do Banco Ambrosiano, que custaram centenas de milhões de dólares à Igreja

Inspirando-se no Evangelho, a teologia da libertação exigia, na complexidade das situações sociais contemporâneas, a mediação de uma análise social para estabelecer claramente seu ponto de partida. Mas esse pensamento ia muito além do campo da ética social. Com os olhos dos explorados, encontrava o sentido da pessoa de Jesus, recolocado no contexto histórico da Palestina de seu tempo. Desenvolvia uma espiritualidade e expressões litúrgicas que compreendiam a vida dos pobres. Lançava um olhar severo sobre uma Igreja muito freqüentemente comprometida com os poderes opressores. Falava de libertação no presente como expressão do amor de Deus por seu povo. Em resumo, era perigosa para a ordem - tanto social quanto eclesiástica.

A reação romana foi muito dura. Era-lhe fácil acusar de marxismo essa corrente teológica porque se baseava na existência de estruturas de classe. Tal perspectiva, dizia o cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, levava diretamente ao ateísmo. Muitos teólogos foram, conseqüentemente, proibidos de ensinar e de publicar. Os centros educacionais receberam ordem de proibir qualquer ensino que falasse de teologia da libertação. Esta encontrou abrigo junto a centros de estudos ou de formação ecumênicos e em universidades laicas. O próprio João Paulo II, em visita à Nicarágua em 1996, declarou que a teologia da libertação não tinha mais razão de ser, pois o marxismo estava morto.

A “globalização da solidariedade”

O Papa torna-se vítima de uma Cúria cujos grandes tenores, nomeados por ele próprio, foram tão longe na restauração que provocaram reações mesmo entre os moderados

Quanto às questões morais, é conhecida a insistência do papa sobre o respeito à vida, mesmo antes do nascimento, sua oposição radical ao aborto, à contracepção, ao divórcio, à eutanásia, mas também à pena de morte. Logicamente, o positivismo científico, os poderes econômicos genocidas e o relativismo de um certo pensamento pós-moderno põem a vida em perigo. Entretanto, a recusa pontifícia em levar em consideração as condições sociais e psicológicas concretas dos seres humanos, o apego a uma filosofia da natureza ultrapassada pelos conhecimentos contemporâneos, as conseqüências dramáticas de algumas posições dogmáticas, como no caso da Aids na África, levaram a Igreja Católica a perder uma boa parte de sua credibilidade.

A doutrina social continuou como ponto privilegiado da atenção de João Paulo II. São incontáveis os documentos sobre o assunto. Em nome do Evangelho, condenou do modo mais duro os abusos e os excessos do capitalismo, denunciando mesmo, em Cuba, o neoliberalismo e seus efeitos perversos. Mas se, na encíclica Centesimus Annus, condenava o socialismo em sua essência – porque portador do ateísmo –, estigmatizou o capitalismo selvagem por suas práticas, mas não em sua lógica. Ora, a referência desse documento a uma “economia social de mercado” omitia a indicação de que os mesmos agentes econômicos de tal modelo adotam práticas “selvagens” no hemisfério Sul e na Europa Oriental. Donde os apelos freqüentes e insistentes à “globalização da solidariedade” que não desembocam numa denúncia das causas profundas da pobreza e das desigualdades. Aliás, um dos instrumentos de elaboração e de difusão de sua doutrina social é a Comissão de Justiça e Paz, instaurada pelo Vaticano II: a designação, no ano de 2000, de Michel Camdessus, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), para integrá-la como conselheiro, é suficiente para pôr em dúvida que ela possa ser o porta-voz dos pobres e dos oprimidos...

A ascensão da Opus Dei

Para garantir o êxito de seu projeto prioritário - a restauração doutrinária e moral - João Paulo II precisava de uma instituição que o divulgasse. Sua política de nomeações episcopais orientou-se nesse sentido. Em muitas dioceses, os novos bispos começaram, sob inspiração da Santa Sé, a controlar os centros de formação, a desmantelar o trabalho pastoral de seus predecessores, a introduzir congregações religiosas e organizações católicas conservadoras. Na América Latina, o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) -, na vanguarda da renovação e organizador, em 1968, da Conferência de Medellín para a aplicação do Concílio Vaticano II no continente - foi, pouco a pouco, transformado em órgão de restauração. As conferências episcopais foram reorientadas pelo viés das novas nomeações. Centenas de dioceses, no mundo inteiro, viveram transições pastorais difíceis e que, amiúde, desembocaram em dramas pessoais entre os que haviam acreditado numa Igreja profética e numa instituição mais humana. Somente algumas dioceses, com uma cristandade mais antiga e com a autonomia preservada, puderam frear a vaga impetuosa das nomeações conservadoras7 .

Onde o comunismo continuava no poder, ele estimulou a criação de um contra-poder. Donde as visitas à Polônia e o apoio ao sindicato Solidariedade

Em 1982, quatro anos após a eleição de João Paulo II, a Opus Dei adquiriu o status de prelatura pessoal, acima da jurisdição dos bispos. Seu fundador foi canonizado em 2002, apenas 27 anos depois de sua morte. Vários de seus membros chegaram ao episcopado, particularmente em dioceses importantes, e alguns, ao cardinalato. Sua influência se fez sentir sobretudo na administração central da Igreja Católica - na Cúria. Seus membros ocupam cargos importantes em numerosos setores e beneficiam-se de “promoções” internas. A “Obra de Deus” poderia vir a desempenhar um papel importante na designação do sucessor do papa atual.

Escândalos e eminências pardas

João Paulo II também fortaleceu a Cúria Romana. Ora, a manutenção desse aparelho exige recursos importantes que a contribuição dos fiéis não basta para assegurar. Mas a Santa Sé dispõe de um patrimônio considerável, graças, especialmente, aos acordos de Latrão (1929), através dos quais a Itália fascista indenizou o Vaticano pela perda dos antigos Estados pontifícios. Esse considerável capital imobiliário e financeiro produz rendas importantes. Mas as instituições bancárias do Vaticano viveram, sob o atual pontificado, escândalos retumbantes, dentre os quais o do Banco Ambrosiano8 , que custaram centenas de milhões de dólares à Igreja Católica. Muitos negócios violentamente contrários ao espírito do Evangelho, mas sobre os quais o público sabe muito pouco: todos os poderes - econômicos, políticos, judiciários e das comunicações - se aliaram para abafá-lo, com medo de pôr em perigo uma instância moral que, em sua visão, constitui uma garantia da ordem social.

Bispo de Roma, João Paulo II deveria ter-se aposentado aos 75 anos, como todos os bispos são convidados a fazer depois do Vaticano II: sua recusa fortaleceu o poder de uma administração cada vez mais conservadora. Novo “prisioneiro do Vaticano”, o papa torna-se a vítima de uma Cúria cujos grandes tenores, nomeados por ele próprio, foram tão longe na restauração, que esta acabou provocando reações crescentes até nos meios moderados da Igreja.

Leigos relegados a posição subalterna

A “nova evangelização” promovida por João Paulo II caracteriza-se por duas diretrizes principais: de um lado, a da Opus Dei, que visa a evangelizar através do poder, fazendo da espiritualidade um sinal de excelência social; e, de outro, a dos diversos movimentos carismáticos, que são exigentes quanto aos comportamentos pessoais, valorizam o afetivo, mas são, em geral, pouco inclinados a integrar uma dimensão social. Em contrapartida, as Comunidades Eclesiais de Base, nascidas na América Latina e caracterizadas pela tomada da palavra pelos pobres e pela autogestão, foram marginalizadas e, às vezes, até destruídas: padres que as assistiam foram transferidos, o acesso aos locais paroquiais foi-lhes proibido e criaram-se novas, com o mesmo nome, sob a égide clerical.

A busca da paz foi outra preocupação constante. Infelizmente, esta evocação de valores permaneceu quase sempre abstrata.

O papel dos leigos na Igreja, ainda que valorizado nos textos, foi amplamente relegado a um plano subalterno, salvo quando se tratava de organizações incondicionais, como a Opus Dei. Em compensação, exemplo surpreendente, a Juventude Operária Católica Internacional (JOCI), apesar de apoiada por várias conferências episcopais, se viu marginalizada, seu status de organização internacional católica foi revogado e criou-se, artificialmente, uma federação concorrente. Essas tendências se inserem num contexto de fragmentação cultural típica, que as correntes filosóficas refletem como uma parte das ciências humanas, da produção artística e da busca religiosa, na qual a ênfase é posta no indivíduo. Paradoxalmente, a época é marcada, ao mesmo tempo, pela predominância do mercado e por um endurecimento autoritário à frente das instituições.

As forças hostis à mensagem cristã

As inúmeras viagens de João Paulo II pelo mundo revelaram, é claro, sua energia pouco comum; foram muito apreciadas por inúmeras comunidades populares, principalmente no hemisfério Sul, mas também - logicamente - na Polônia e, em geral, pelos núcleos católicos fervorosos. Entretanto, mais que verdadeiramente tomar contato com a realidade dos lugares visitados, tratava-se, sobretudo, de difundir o pensamento romano. O evento precedeu a mensagem. Se as visitas pontifícias provocaram emoção enquanto celebrações coletivas, desembocaram, na maioria das vezes, num fortalecimento da ala conservadora do catolicismo.

A restauração da Igreja Católica depois do Concílio Vaticano II traduziu-se, pois, para João Paulo II, numa solidez doutrinária redefinida, num código moral sem falhas e numa autoridade que pretende ser indiscutível, a serviço de um projeto conservador no conteúdo e modernizado na forma. Tal orientação parecia-lhe necessária para enfrentar as forças hostis da sociedade. É por isso que tomou Pio XII como referência e abriu seu processo de beatificação - bem como o de João XXIII, que a vox populi há muito tempo já havia colocado nos altares.

Na encíclica Gaudium et Spes9 , o Vaticano II pensava o papel da Igreja como inspiração moral, e não como exercício de um poder. Querer dividir as alegrias e as esperanças da humanidade parecia decorrer de um otimismo no limite do realismo, mas resultava de uma inspiração pragmática. O novo papa iria, rapidamente, traduzi-la num duplo confronto contra as forças hostis à mensagem cristã: o comunismo ateu e, depois, o secularismo ocidental.

Ação especial na Polônia e Nicarágua

Tradicional, a luta contra o comunismo fora reforçada pela proclamação do ateísmo como “religião de Estado” nos países do Leste, mas também, de modo mais concreto, pela repressão das liberdades e das perseguições religiosas. Para João Paulo II, guiado pela experiência polonesa, era necessário mobilizar os católicos para a erradicação do comunismo. Isso deveria manifestar-se tanto no interior da Igreja – e, por isso, a condenação da teologia da libertação – quanto fora dela, através de uma ação direta.

O papa condenou do modo mais duro os abusos e os excessos do capitalismo, chegando a denunciar, em Cuba, o neoliberalismo e seus efeitos perversos

Onde o comunismo continuava no poder, ele estimulou a criação de um contra-poder. Donde as visitas à Polônia, que permitiram uma mobilização religiosa, bem como um apoio ao sindicato Solidariedade - inclusive no plano financeiro, via Banco Ambrosiano. Onde o comunismo estava em via de tomar o poder, era necessário arregimentar os católicos numa frente de oposição. Donde, na Nicarágua, em 1983, o confronto com a Frente Sandinista. Em sua homilia em Manágua, o papa condenou a Igreja popular e o “falso ecumenismo” dos cristãos engajados no processo revolucionário. E conclamou à unidade sob a bandeira de um episcopado particularmente reacionário (o arcebispo de Manágua, Dom Miguel Obando y Bravo, seria nomeado cardeal após a visita pontifícia). Essa atitude acarretou uma forte repressão eclesiástica e criou uma profunda comoção entre os cristãos dos meios populares que tinham vindo celebrar, ao mesmo tempo, sua revolução e a visita de seu papa.

Apelo em favor de Pinochet

A viagem a Cuba situava-se na mesma perspectiva. No espírito de João Paulo II, a ilha era o último bastião do comunismo no Ocidente, mas em fim de carreira. A agressividade já não seria conveniente. O estado de saúde do papa tampouco lhe permitia isso. Na sua visão, a revolução cubana era um parêntese na história, e não a mencionou: apenas destacou seus efeitos, todos negativos. Ao voltar a Roma, João Paulo II declarou que sua visita produziria os mesmo efeitos que na Polônia, dez anos antes.

A luta anticomunista não só precisava de uma Igreja forte e disciplinada, mas exigia também uma aliança com outras forças econômicas e políticas. Donde os numerosos compromissos com o poder norte-americano, cujos fundos oficiais e secretos em favor do Solidariedade haviam sido canalizados por várias organizações católicas na Europa e em Roma. Donde, também, a tolerância em relação a regimes ditatoriais de direita, como no Chile, na Argentina10 , nas Filipinas. Os artesãos dessas relações duvidosas foram promovidos por João Paulo II para dirigir importantes órgãos da Santa Sé, começando pela Secretaria de Estado. Donde, enfim, a intervenção em favor do general Augusto Pinochet, ou, num plano simbólico, a beatificação, em 1998, do cardeal Stepinak, próximo do regime fascista croata durante a II Guerra Mundial.

A paz entre os povos

A cristandade precisa de um papa, diyia Harvez Cox, teólogo batista, professor em Harvard. Mas, acrescentava, enquanto expressão simbólica de unidade, não como poder

O segundo adversário de João Paulo II foi o secularismo ocidental, caracterizado pelo relativismo, pelo engodo do consumo e pelo hedonismo. Lembrou então, com veemência, os valores do amor pelo outro, da solidariedade, da moderação no uso dos bens materiais. Porém, mais uma vez, fez isso num quadro doutrinário e moral de tal forma rígido que a mensagem permaneceu amplamente incompreendida e, por fim, pouco eficaz. Infelizmente, pois a humanidade contemporânea aspira à espiritualidade, procura um sentido, e as lutas sociais indicam um profundo desejo de justiça diante de uma globalização econômica e cultural destruidora.

A busca da paz foi outra preocupação do papa João Paulo II. Manifestou-se contra a guerra do Golfo, alertou contra a de Kosovo, declarou-se reservado na do Afeganistão. Reivindicou o direito dos palestinos a um Estado. A paz entre os povos, fundada na justiça em suas relações, foi um leitmotiv constante. João Paulo II mostrou-se atento aos sofrimentos das vítimas, aos povos submetidos às restrições mortíferas dos embargos: condenou os que visavam ao Iraque e Cuba. Posições que tomou por fidelidade ao Evangelho.

Infelizmente, essa evocação de valores permaneceu quase sempre abstrata. O papa quase não explicitou as causas reais das guerras e seus vínculos com o imperialismo econômico. Por outro lado, a aliança concreta entre a Santa Sé e os poderes econômicos e políticos do Ocidente continua, baseada numa lógica institucional (a reprodução social da instituição eclesial), fazendo com que o discurso antiguerra perca uma grande parte de sua credibilidade.

Um gigante contraditório

Nessa área, o instrumento privilegiado da Santa Sé é o serviço diplomático. Este não é um órgão do Vaticano enquanto Estado, contrariamente ao que se crê com freqüência, mas sim da Santa Sé, isto é, da Igreja. Desenvolvido de modo considerável por João Paulo II, é não só seu elemento mais dispendioso, como também o mais comprometedor do ponto de vista social e, simbolicamente, o mais contraditório em relação à inspiração evangélica, porque sinal de poder (privilégio de um Estado) e expressão de riqueza (a implantação das nunciaturas ao lado das embaixadas).

No plano doutrinário, ou ele, ou os órgãos da Santa Sé, examinaram quase todos os assuntos: fé, magistério, doutrina, hierarquia eclesiástica, sacerdócio, mulheres...

Ninguém duvida que João Paulo II, o prelado esportivo e ex-trabalhador das indústrias de Solvay, na Cracóvia, o amador de teatro e o moralista da Universidade Católica de Lublin, o padre de espiritualidade mística e o pastor dos Cárpatos, ficará na história como um gigante da era contemporânea, o papa de um quarto de século que transtornou a humanidade, o papa da globalização11 . Mas, ao querer reconstruir uma Igreja sólida num mundo mais humano, acabou destruindo inúmeras forças vivas emergentes e impregnadas de uma visão evangélica e profética.

Símbolo de unidade, não de poder

A luz espiritual e moral de que pretendia ser o portador transformou-se em instância política. O governo central da Igreja, que deveria ser um serviço ao “povo de Deus”, tornou-se um aparelho reacionário, aliado de facto aos poderes opressores. Seu apelo à justiça e à paz, ao invés de tomar a dimensão profética - exigida pela enorme exploração, mais que nunca globalizada - virou uma crítica sensata. Ele se apoiou não sobre a força do símbolo, mas, sim, sobre a da autoridade. É evidente que João Paulo II restaurou a Igreja. Mas qual Igreja? É evidente que fortaleceu o lugar da Igreja na sociedade. Mas qual lugar?

A cristandade precisa de um papa – dizia Harvey Cox, teólogo batista, professor em Harvard – mas, acrescentava, enquanto expressão simbólica da unidade, e não como poder. A humanidade precisa de mensagens de esperança com base em análises do real e de projetos para o futuro. Não se pode dizer que o balanço do pontificado tenha respondido a esta dupla expectativa. Isso será o desafio para o sucessor de João Paulo II12 que, para tal, poderá se apoiar na esperança de uma expectativa muito grande e em forças vivas felizmente sempre presentes em todo o planeta.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler, de Moisés Naim, “Avatars du consensus de Washington”, Le Monde diplomatique, março de 2000.
2 - Convocado por João XXIII, o Concílio Vaticano II significou uma reforma importante, em especial, com a constituição Lumen Gentium, que redefinia a Igreja como “povo de Deus”, e a constituição Gaudium et Spes, que apresentava a presença da Igreja no mundo contemporâneo como sendo de inspiração, e não de dominação. A reforma litúrgica introduziu a língua vernácula e as funções dos leigos foram ampliadas, particularmente em relação ao culto e aos sacramentos. O colégio dos bispos foi revalorizado como contrapeso à administração central romana.
3 - Fundada em 1928, na Espanha, por Dom Escriva de Balaguer, a “Obra de Deus”, freqüentemente classificada como “franco-maçonaria branca”, conta com mais de 80 mil membros, na maioria leigos, em cerca de cem países. Ler, de François Normand, “La troublante ascension de l’Opus Dei”, Le Monde diplomatique, setembro de 1995.
4 - Em 1984, o cardeal Joseph Ratzinger, nomeado por João Paulo II para dirigir a Congregação da Defesa da Fé (antigo Santo Ofício), declarou numa entrevista: “Depois dos exageros de uma abertura indiscriminada ao mundo, depois das interpretações demasiado positivas de um mundo agnóstico e ateu, [a restauração] é desejável e, aliás, já está em curso". (Jésus, Roma, 6 de novembro de 1984).
5 - Simbolicamente, João XXIII foi beatificado no dia 3 de setembro de 2000, ao mesmo tempo em que Pio IX, o papa do Syllabus (um documento antimodernista que condena inúmeras liberdades, hoje aceitas), de comportamento freqüentemente anti-semita.
6 - Como ocorreu no sínodo holandês, em 1984, quando o episcopado teve que assinar um documento preparado pela Santa Sé.
7 - Como nas dioceses de Chur, na Suíça, com a nomeação de Dom Haas; de Recife, com o sucessor de Dom Helder Câmara; de San Salvador, com a nomeação de um bispo da Opus Dei como sucessor de Dom Rivera Y. Damas e de Dom Oscar A. Romero; de Namur, na Bélgica...
8 - O Banco Ambrosiano financiava, entre outros, o regime do ditador Anastasio Somoza, na Nicarágua. Seu diretor, o banqueiro Roberto Calvi, foi encontrado enforcado sob uma ponte, em Londres. No dia 16 de abril de 1992, na sentença sobre a falência do banco, o tribunal de Milão explicou os vínculos existentes entre o banco e o Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano, dirigido, na época, por Dom Paul C. Marcinkus, de nacionalidade norte-americana, já marcado por outros negócios duvidosos. Ler, de Fernando Scianna, “La Mafia au cœur de l’Etat et contre l’Etat”, Le Monde diplomatique, outubro de 1982.
9 - A Igreja no mundo deste tempo.
10 - Na Argentina, o núncio na época da ditadura militar, o atual cardeal da Cúria Pio Laghi, dirigiu-se à guarnição de Tucumán, em 1976, nos seguintes termos: “Vocês sabem o que é a pátria, cumpram as ordens com obediência e coragem e mantenham o espírito sereno.” (La Nación, Buenos Aires, outubro de 1976). No Chile, o núncio no regime Pinochet era o atual cardeal Angelo Sodano que, na seqüência, foi nomeado secretário de Estado. Sobre o regime, ele declarou: “Até as obras-primas podem ter manchas; eu os convido a não se deterem nas manchas do quadro, mas a olharem o conjunto, que é maravilhoso.”
11 - George Weigel, professor na Universidade Católica de Washington, mostrou, em sua obra, os sentimentos de João Paulo II ao longo de sua trajetória à frente da Igreja Católica. Seu livro é um reflexo da visão do papa sobre a Igreja e sobre o mundo (Jean Paul II, témoin de l’Espérance, ed. Attes, Paris, 2001).
12 - Giancarlo Zizola abordou esse tema em seu livro Le successeur, ed. Desclée de Brower, Paris, 1995. Ler, do mesmo autor, “A guerra de sucessão no Vaticano”, Le Monde diplomatique, agosto de 2001.




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