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DOSSIÊ MÍDIA & NEGÓCIOS

Os senhores das redes

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A comunicação tornou-se uma indústria pesada, comparável à siderurgia da segunda metade do século XIX, ou à do automóvel na década de 1920: é nesse setor que são feitos hoje os investimentos mais importantes

Ignacio Ramonet - (01/05/2002)

Tal como uma imensa teia de aranha, surge, no ritmo da world culture, uma "sociedade da informação global" dopada pelo avanço das novas tecnologias. Aproveitando-se da revolução digital, uma infra-estrutura da informação vai se desdobrando em escala planetária, beneficiando a interconexão de serviços vinculados à comunicação e às culturas de massa. Ela decorre da sobreposição de três setores – a informática, a telefonia e a televisão - que se confundem na multimídia. Desconhecida há apenas dez anos, a Internet abalou, dessa maneira, todo o setor das comunicações.

Em termos de comunicação, tínhamos três sistemas de símbolos: a escrita, o som e a imagem. Cada um desses elementos induziu à adoção de um sistema técnico. A escrita desembocou no trabalho editorial, na gráfica, no livro, no jornal, no linotipo, na máquina de escrever etc. Assim como o som resultou na linguagem, no rádio, no gravador, no telefone e no disco. A imagem produziu a pintura, a gravura, as histórias em quadrinhos, a fotografia, o cinema, a televisão, o vídeo etc.

Megagrupos de mídia integrada

As empresas do setor eletrônico fundem-se com as de telefonia, de transmissão a cabo e editoras, para constituir megagrupos de uma mídia integrada

No final do século XVIII, a revolução industrial ocorreu quando a máquina a vapor tomou o lugar dos músculos e da força física; na atual mutação tecnológica, não são os músculos que são substituídos, mas o cérebro...

A revolução digital faz os três sistemas de símbolos convergirem num único equivalente. Atualmente, a escrita, o som e a imagem se expressam em bits. Os bits veiculam igualmente o texto, o som e a imagem. E um mesmo "canal" permite encaminhar esses bits à velocidade da luz... Isso transformou inteiramente o mundo das comunicações e da diversão. E proporcionou a fusão-concentração de todas as empresas desses setores.

Atualmente, as empresas do setor eletrônico fundem-se com empresas de telefonia, de transmissão a cabo ou editoras, para passar a constituir mega-grupos de uma mídia integrada. O faturamento das indústrias de comunicação, em seu sentido mais abrangente, que era de cerca de 1 trilhão de euros em 1995 (cerca de 2,08 trilhões de reais), passaria, em cinco anos, para 2 trilhões de euros (4,15 trilhões de reais), representando10% da economia mundial...

O controle do novo Eldorado

A revolução digital fez a escrita, o som e a imagem convergirem num único equivalente. Os três sistemas se traduzem em bits, que veiculam qualquer deles

Os gigantes da informática, da telefonia e da televisão avaliam que os lucros do futuro se encontram nessas fabulosas jazidas que se abrem diante de seus olhos por meio da tecnologia digital. Mas também sabem que, a partir de agora, seu próprio território deixou de ser seguro e que, com os instintos de um tiranossauro, os mastodontes de setores vizinhos estão de olho nele. Nos últimos dez anos, uma guerra de brutalidade invulgar vem sendo travada, sem dó nem piedade, no campo das indústrias culturais. A empresa que operava com telefones, quer agora fazer televisão e cinema, a que mexia com informática mergulha nos vídeo games, uma outra que distribuía água agora quer dominar a telefonia celular, a televisão paga e as gravadoras de música.

A comunicação tornou-se uma indústria pesada, comparável à indústria siderúrgica da segunda metade do século XIX, ou à do automóvel na década de 1920: hoje, é nesse setor que são feitos os investimentos mais importantes. Todas as empresas que funcionam em rede, e em particular as que vendem fluidos ou fluxos e possuem uma malha de "canais" (água, gás, eletricidade, telefonia, televisão a cabo, estradas de ferro, empresas rodoviárias etc.), aspiram a controlar uma parte desse novo Eldorado.

A lógica do matador

Em cinco anos, de 1995 ao ano 2000, o faturamento das indústrias de comunicação passou a representar cerca de 10% da economia mundial...

De um extremo ao outro do planeta, os senhores dessa guerra de redes são os mesmos, conglomerados gigantescos que se tornaram os novos donos do mundo: a America OnLine (que comprou a Netscape, a Intel e o grupo Time-Warner-CNN), a Vivendi-Universal (ex-Générale des Eaux, que comprou a Havas, o Canal Plus, a USA Networks e o grupo Seagram, que era dono da Universal), a Viacom, a News Corporation, de Rupert Murdoch, a AT&T (que domina a telefonia mundial), a IBM, a Microsoft (que reina no mercado de softwares para informática e quer conquistar o dos vídeo games com a X-Box), a General Electric (que adquiriu o controle da rede de televisão NBC), a NTT (principal grupo de telefonia japonês), a Disney (que comprou a rede de televisão ABC), a Bertelsmann (principal grupo de comunicações alemão), a Pearson (dona do jornal The Financial Times, da editora Penguin Books e da BBC Prime), a Telefonica, a Prisa (principal grupo de comunicações hispânico), a France Télécom, o grupo Bouygues, a Lyonnaise des Eaux etc.

Em meio a essa enorme mutação do capitalismo, a lógica que prevalece é a do matador. Não se buscam alianças, e sim, o controle e a fusão-absorção. Estão envolvidas nessa guerra as empresas que produzem o conteúdo – editoras, agências de notícias, jornais, cinema, música, rádios, televisões, sites na Internet etc. – e as empresas de telecomunicações e de informática que os elaboram, que os transportam, que os tratam, que os codificam e decodificam. O maná de que se querem apoderar os novos predadores é o fluxo de dados, crescente e constante: conversas, mensagens, textos, imagens, músicas, filmes, programas, espetáculos, esporte, noticiários, Bolsa de Valores, enfim, todo tipo de símbolos. Nos últimos vinte anos, o mundo produziu mais informações que nos 5 mil anos antecedentes...

O "livre fluxo da informação"

Abrir as fronteiras do maior número possível de países ao "livre fluxo da informação" equivale a entregar estes países aos predadores norte-americanos

O objetivo almejado por cada um dos senhores das redes é o de se tornar o único e exclusivo interlocutor do cidadão. Poderá fornecer-lhe informações, lazer, diversão, esporte, cultura, serviços profissionais, dados do mercado financeiro etc. E colocá-lo, por exemplo, num estado de interconexão através de todos os meios disponíveis: telefone (fixo ou celular), fax, cabo, televisor, computador, correio eletrônico, Internet etc.

Esse objetivo somente será realizável se as comunicações puderem fluir sem obstáculos através do planeta. Justamente por isso, os Estados Unidos (inventores da Internet, principais produtores das novas tecnologias e sede das principais empresas) jogaram pesado na batalha da desregulamentação. Abrir as fronteiras do maior número possível de países ao "livre fluxo da informação" equivale a entregar esses países aos predadores norte-americanos.

Por seu lado, a União Européia decidiu liberalizar seus mercados de telefonia desde 1º de fevereiro de 1998. Prevendo uma concorrência feroz dentro de cada mercado nacional, os monopólios foram desfeitos e as operadoras públicas privatizadas. A British Telecom, assim como a Telefonica (Espanha) foram privatizadas. A France Télécom abriu parte de seu capital, da mesma forma que a operadora pública alemã, Deutsche Telekom.

Consumo e publicidade

Em meio a essa fantástica mutação do capitalismo, a lógica que prevalece é a do matador. Não se buscam alianças, e sim, o controle e a fusão-absorção

O que interessa aos novos predadores é a quantidade de pessoas que freqüentam um veículo determinado, o número de assinantes de um canal de televisão paga e o número de internautas que têm acesso a determinado portal na Internet. Esse número de fiéis (pagantes ou não) tornou-se uma das principais fontes de riqueza dos gigantes da comunicação. Mais do que o conteúdo ou as equipes. É uma revolução. Antes, as empresas culturais vendiam informação, ou diversão, às pessoas. Agora, preferem vender consumidores (leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas) aos anunciantes. E quanto maior o número de consumidores - de preferência, ricos -, maior serão as cotas de publicidade...

De saída, a informação, por exemplo, pode ser oferecida gratuitamente. A mídia já o faz, na Internet, como chamariz: existem mais de 3 mil jornais de acesso gratuito na Internet. Sem contar as estações de rádio e as emissoras de televisão. É por isso, aliás, que os jornais gratuitos se multiplicam nas maiores cidades do mundo...

Estabelece-se, portanto, uma corrida em que, para alcançar seus objetivos no mercado planetário, cada um dos senhores das redes define dois objetivos principais: crescer o suficiente e diversificar suas atividades por todos os setores da comunicação. As restrições legais à concentração são cada vez menos respeitadas. Três dos principais gigantes da comunicação - AOL-Time-Warner, Viacom e News Corporation - obtiveram, recentemente, uma vitória jurídica nos Estados Unidos que suprime as restrições que impediam certas fusões1. A Viacom, por exemplo, pôde comprar a rede de televisão CBS, e nada impede que a AOL venha a adquirir a rede NBC, que pertence à General Electric. Os predadores da comunicação são insaciáveis... Esse clima de competição permite as jogadas mais infames: "Cada vez que converso com os grandes da telefonia", declarou Louis Gallois, presidente da SNCF (empresa estatal das ferrovias francesas) "tenho a impressão de ter entrado numa jaula de feras2."

O caso emblemático da Vivendi

O objetivo almejado pelos senhores das redes é o de se tornar o único interlocutor do cidadão, colocando-o em conexão com todos os meios disponíveis

No dia 6 de fevereiro de 1997, na França, a empresa Générale des Eaux, que já passara a ser o grupo Vivendi3 , apossou-se brutalmente do controle da Havas e do Canal Plus, com o objetivo de “reunir no interior de um único grupo de comunicação toda a competência necessária ao seu desenvolvimento, principalmente internacional” e de criar “um grupo integrado de comunicação de dimensões mundiais”. Jean-Marie Messier explicou a necessidade dessa fusão pela “rápida convergência entre as indústrias de telecomunicações e as da comunicação”. “Em breve”, acrescentou, “haverá em cada casa um único ponto de entrada para a imagem, a voz, a multimídia e o acesso à Internet. Essa evolução já existe: dentro de doze a dezoito meses, será uma realidade comercial. Essa aceleração me levou a concluir que é preciso ser competente, para conservar as margens, para dominar todo o processo: o conteúdo, a produção, a difusão e o vínculo com o assinante."

É essa a ambição dos novos titãs das indústrias da comunicação: dominar todo o processo. Para eles, tudo o que circula nas redes (filmes, programas, música, criações intelectuais) é comunicação. E, portanto, antes de mais nada, uma mercadoria de que as empresas podem dispor a seu bel-prazer, de acordo com as leis do mercado. Num momento em que o mercado é submetido a uma hiper-concorrência e em que os acionistas exigem lucros exorbitantes. "Uma empresa como a Vivendi", escreveu Messier, "pertence a seus acionistas. E exclusivamente a eles. A diretoria apresenta propostas. O conselho administrativo as encaminha. E, sem dúvida alguma, é o mercado que toma as decisões, fazendo subir ou descer o valor de suas cotações na Bolsa."

No mundo da comunicação e da cultura de massa pilotado por senhores das redes desse calibre, como poderiam a exceção cultural e a criação artística ser senão um arcaísmo ou uma miragem?
(Trad.: Jô Amado)

1 - Le Figaro, 4 de março de 2002.
2 - Le Nouvel Observateur, Paris, 20 de fevereiro de 1997.
3 - Jean-Marie Messier explicou a escolha desse nome da seguinte forma: “Gosto de música, da latinidade. Ao escolhermos o nome Vivendi, procuramos projetar uma palavra de origem latina, tal como um piscar de olhos à história da Europa, mas também voltada para a vida, para o futuro.” Entrevista a Philippe Sollers, Air France Magazine, Paris, janeiro de 2002.




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