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AFEGANISTÃO

Cresce a raiva contra os EUA

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Longe de estar pacificado, o país está entregue a lutas entre clãs rivais. Os atentados são diários e as forças norte-americanas continuam os bombardeios em busca de supostos membros do Taliban e da Al-Qaida

Selig S. Harrison - (01/05/2002)

“É uma guerra estúpida e inútil. Acompanhei-a com uma tristeza imensa e melhor seria que terminasse logo. Agora é hora da reconstrução1.” O ex-rei Mohammed Zaher Shah não sabia que um jornalista estava presente quando disse essa frase ao dirigente de uma missão humanitária italiana, que havia perguntado o que achava dos combates em seu país. Embora ignoradas por toda a imprensa norte-americana, essas palavras deveriam ser levadas a sério. No mês de junho, Zaher Shah irá presidir a Loya Jirga, ou Grande Conselho, que vai designar o governo de transição que irá suceder ao de Hamid Karzai, e ele próprio poderá tornar-se chefe do Estado. No exílio, em Roma, o ex-rei prepara-se para voltar triunfalmente a Cabul.

Em junho, o ex-rei Zaher Shah irá presidir a Loya Jirga, ou Grande Conselho, que vai designar o governo de transição que irá suceder ao de Karzai

Suas críticas amargas repercutem a crescente raiva dos afegãos diante das vítimas civis das operações militares norte-americanas. Ninguém sabe ao certo o número de mortes provocadas pelos bombardeios entre a população civil. No entanto, uma pesquisa realizada por um economista da Universidade de New Hampshire, Marc W. Herold, que reuniu meticulosamente depoimentos de voluntários de entidades humanitárias e de jornalistas enviados ao Afeganistão, relaciona 3.712 civis mortos durante as primeiras semanas de combates – ou seja, um número superior ao dos 3.067 norte-americanos que foram vítimas dos atentados de 11 de setembro2. De início, o secretário norte-americano da Defesa, Donald Rumsfeld, disse lamentar esses “danos colaterais”, mas depois voltou atrás. Reconhecendo que dezesseis civis inocentes haviam sido mortos por ocasião de uma ofensiva a norte de Kandahar no dia 24 de janeiro, ele declararia, algumas semanas depois: “Não penso que se tenha tratado de um erro. Querendo ou não, a realidade é que a situação no Afeganistão é muito difícil. É um caos. Não é uma situação clara, em que os bons estão de um lado e os vilões do outro3

Um “grande número” de vítimas civis

As adversidades da guerra – oito anos de combates contra o exército soviético seguidos por treze anos de uma guerra interna – endureceram os afegãos. Entrevistados por jornalistas durante as primeiras semanas de combates, alguns deles hesitavam em criticar os Estados Unidos, reconhecendo abertamente que todo mundo erra. Mas, atualmente, sua paciência parece chegar ao fim, e a popularidade de Karzai já vem sendo minada pela desenvoltura com que os norte-americanos tratam o sofrimento da população – da qual são exemplo as declarações de Rumsfeld.

“Não é uma situação clara, em que os bons estão de um lado e os vilões do outro”, disse o secretário da Defesa dos EUA, justificando a morte de civis

Por ocasião da “operação Anaconda”, na região de Gardez – que provocou oito baixas do lado norte-americano –, as primeiras informações sugeriam que as forças militares se encontravam diante de uma situação relativamente clara, em que os “vilões” estavam todos juntos, de um único lado. Como Karzai observou, a região de Gardez é “a última base terrorista isolada no Afeganistão”. Seria pouco provável que, em sua caçada ao que sobrou dos taliban e da Al-Qaida, as forças norte-americanas se deparassem com situações tão “claras” quanto essa. Pois, mesmo em Gardez, o jornalista John F. Burns, do New York Times, entrevistou um morador do vilarejo que lhe disse que “os bombardeios norte-americanos provocaram um grande número de vítimas civis4”.

Karzai muda o discurso

O jornalista Charles Clover, do Financial Times, que também estava em Gardez, revela que a intervenção militar norte-americana não teve “qualquer” apoio local. “As pessoas não agüentam mais guerra nesta região”, escreveu. Embora o comando norte-americano afirmasse que as forças inimigas entrincheiradas nas montanhas vizinhas eram compostas por membros do alto comando da Al-Qaida, Charles Clover relata que “os moradores da região afirmam, categoricamente, que se trata de afegãos, ex-taliban fugitivos, que querem ser deixados em paz” e não pretendem se reagrupar nem criar quaisquer novos problemas5.

A paciência dos afegãos parece chegar ao fim e a popularidade de Karzai cai devido à forma com que os norte-americanos tratam do sofrimento da população

Para os moradores da região, se os Estados Unidos matam “estrangeiros” da Al-Qaida (árabes, paquistaneses, chechenos), é uma coisa; se matam combatentes taliban e suas famílias, que são afegãs, é outra inteiramente diferente. “Existe uma diferença entre os taliban comuns e os taliban partidários de uma linha dura, próximos à Al-Qaida.” A afirmação, que o governador de Paktia, Mohammed Wardak, fez ao jornalista Peter Baker, do Washington Post, faz bastante sentido6. Considerando o contragolpe provocado pelas vítimas civis no início da intervenção norte-americana, a continuação de bombardeios maciços, como a ofensiva sangrenta de Gardez, só irá fazer crescer o sentimento anti-norte-americano que já existe.

Hamid Karzai contribuiu para aplacar a ira dos afegãos, mantendo deliberadamente em sigilo os casos das vítimas civis de Karam, no dia 11 de outubro, de Tora Bora, em 1º de dezembro, e de Paktia, em 20 de dezembro. Todos eles, no entanto, provocaram grande comoção. Mas Karzai fez questão de desaprovar publicamente, quando bombas norte-americanas foram lançadas sobre civis reunidos para um casamento em Niazi Qala, no dia 29 de dezembro. Exigiu que fosse feita uma sindicância sobre a ofensiva de 24 de janeiro, obrigando o Pentágono a reconhecer que as forças norte-americanas haviam matado 16 civis por “inadvertência”.

Os fatores que explicam os erros

Em Niazi Qala, assim como já ocorrera por ocasião da operação nas vizinhanças de Kandahar, os norte-americanos confundiram os “bons” com os “vilões” pela simples razão de que os senhores da guerra afegãos passaram falsas informações aos serviços secretos norte-americanos para se livrarem de rivais locais.

Para os afegãos, se os EUA matam “estrangeiros” da Al-Qaida, é uma coisa; se matam combatentes taliban e suas famílias, é outra inteiramente diferente

O número – provisório – de 3.712 vítimas citado pelo professor Marc Herold baseia-se num levantamento minucioso, com inúmeras anotações, relatórios e depoimentos, dados por dirigentes das Nações Unidas no Afeganistão, por organizações não-governamentais, como Médicos Sem Fronteiras, e por inúmeros jornalistas que se encontravam no país, norte-americanos e estrangeiros – ingleses, franceses, canadenses, australianos, indianos e paquistaneses.

Todas as pesquisas, inclusive as que citam números inferiores, atribuem a três fatores o alto número de vítimas dos bombardeios7. Em primeiro lugar, as fortalezas taliban atacadas pela aviação norte-americana estavam instaladas nas antigas guarnições do exército soviético, em regiões populosas, onde a proteção era mais fácil. Em segundo lugar, os próprios taliban tentavam muitas vezes esconder seus depósitos de munições em zonas povoadas. E, por fim – fator mais importante –, a força aérea norte-americana substituiu a utilização de alvos guiados por laser, utilizada por ocasião da guerra do Kosovo, pelo sistema global positioning, por satélite, que é menos preciso.

Os EUA contra a força de paz ampliada

O efeito devastador desses erros de alvo foi agravado pela utilização de “tapetes de bombas” em amplas regiões, lançados de bombardeiros B-52 e B1B, com bombas de fragmentação CBU-87. A “bomba-mãe” CBU-87, que pesa 450 quilos, contém 202 pequenas bombas, cada uma delas equipada com um pára-quedas. Quando é lançada uma CBU-87, as pequenas bombas que solta cobrem uma área equivalente a dois ou três campos de futebol. Cada bombardeiro B1 chega a transportar trinta CBU-87. No final de janeiro de 2002, já haviam sido lançadas cerca de 600 bombas desse tipo. Teoricamente, esses artefatos deveriam explodir ao entrarem em contato com o solo, mas em 5% dos casos isso não acontece, o que significa, segundo o professor Herold, que cerca de 6 mil dessas pequenas bombas, semelhantes a minas, poderiam estar espalhadas pelo país.

A continuação de bombardeios maciços, com ofensivas sangrentas, só irá fazer crescer o sentimento anti-norte-americano que já existe

Quando, recentemente, obteve do Congresso um “adiantamento de urgência” de 10 bilhões de dólares para dar continuação às operações antiterroristas globais, Rumsfeld declarou que as operações militares norte-americanas no Afeganistão prosseguiriam, pelo menos, até outubro de 2003. E, apesar dos insistentes pedidos de Hamid Karzai e de Lakhdar Brahimi, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas, Rumsfeld recusa-se a dar apoio norte-americano a uma força de paz ampliada.

Surge a ameaça do caos

A atual Força Internacional de Assistência à Segurança, que conta com 4.500 homens em Cabul, poderia, segundo as Nações Unidas, incorporar até 20 mil soldados que também poderiam ser enviados para outras regiões do país, como Harat, Kandahar, Jalalabad e Mazar i-Sharif. No contexto dessa nova força de paz, solicitam-se aos Estados Unidos um contingente de soldados, a disponibilidade de transporte aéreo para encaminhar homens e provisões que chegam de outros países, informações sobre o terreno e a retirada, por ponte aérea, das forças de segurança que eventualmente estivessem em perigo. O Pentágono afirma que o tamanho dessa força de paz obrigaria o desvio de recursos das operações militares diretas norte-americanas.

No entanto, a nova ameaça que surge é a do caos. A atitude do Pentágono esconde uma antipatia ideológica por operações militares multilaterais – que implicam dividir o controle –, mas também, e principalmente, evitar vítimas do lado norte-americano. Essa atitude não suscita qualquer simpatia por parte de seus parceiros da coalizão, nem por parte dos afegãos, que vêem morrer seus concidadãos civis sob as bombas lançadas em relativa segurança, acima do campo de batalha, pelos norte-americanos.

Financiando os senhores da guerra

A força aérea norte-americana substituiu a utilização de alvos guiados por laser pelo sistema global positioning, por satélite, que é menos preciso

Em apoio ao Pentágono, a Casa Branca rejeita categoricamente a idéia de uma participação norte-americana numa força de paz ampliada, mas se diz disposta a apoiar a sua ampliação desde que os países que já participam forneçam os efetivos adicionais necessários. Essa posição não foi apreciada pela Grã-Bretanha, que pretende reduzir o seu contingente de tropas no mês de abril, assim como não o foi pela Turquia, que deve enviar substitutos para alguns efetivos britânicos. Se os Estados Unidos não contribuírem por si próprios, ainda que de forma limitada, se não apoiarem a resolução das Nações Unidas que definiria os objetivos dessa força de paz e se não incentivarem outros países a participar, existe um perigo real de que essa força perca o apoio de todo mundo. E, no entanto, sua necessidade se faz sentir de maneira urgente, inclusive para garantir a segurança da próxima sessão da Loya Jirga, que pode vir a ser problemática.

Embora o governo Bush afirme que deseja o sucesso de Karzai, o Pentágono não só impediu a ampliação da força de paz como também boicotou o novo regime, financiando e armando até os dentes senhores da guerra que, atualmente, estão em condições de resistir à autoridade central. Em Jalalabad e Gardez, onde milícias locais lutam pelo poder, o Pentágono apóia sempre os adversários de Hamid Karzai.

Longo caminho da reconstrução

Uma autoridade central estável é fundamental para impedir que o Afeganistão volte a servir de base ao terrorismo, para erradicar o narcotráfico (atualmente em expansão) e para empreender o processo de reconstrução econômica de uma das sociedades mais pobres do mundo. O aumento da ajuda econômica parece, hoje, tão necessário quanto a criação de uma força de paz internacional ampliada.

Ainda serão necessários muitos anos, sem dúvida, para o Afeganistão se reerguer, mesmo com uma ajuda internacional contínua. Uma intervenção militar direta durante esse período, por parte dos Estados Unidos, nas questões internas afegãs, só contribuiria para aumentar o ressentimento já provocado pelos “danos colaterais”. Poria fim à simpatia que, no início, os Estados Unidos conquistaram por ter expulsado os taliban, e reforçaria os extremistas islâmicos no Paquistão e no Afeganistão – com quem os taliban deram os primeiros passos.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Declaração em off de Zaher Shah por ocasião de uma reunião com organizações humanitárias italianas. La Stampa, Roma, 7 de março de 2002.
2 - Ler o relatório de Marc W. Herold A Dossier On Civilian Victims of United States Aerial Bombing of Afghanistan: A Comprehensive Accounting, Universidade de New Hampshire, Durham, New Hampshire, dezembro de 2001. O professor Herold ensina Economia na Whittemore School of Business and Economics, Universidade de New Hampshire, Durham, New Hampshire, Estados Unidos.
3 - Washington Post, 18 de fevereiro de 2002.
4 - The New York Times, 7 de março de 2002.
5 - Financial Times, Londres, 9 de março de 2002.
6 - The Washington Post, 6 de março de 2002.
7 - Ler a pesquisa de Carl Conetta, do Project for Defense Alternatives (PDA), que conclui que foram 1.300 as vítimas diretas dos bombardeios: “Strange Victory: A Critical Appraisal of Operation Enduring Freedom and the Afghanistan War”, monografia de pesquisa (PDA), Cambridge, Massachusetts, 6 de janeiro de 2002. Ler também “Operation Enduring Freedom: Why A Higher Rate of Civilian Bombing Casualties”, Briefing Report nº 11, Cambridge, 24 de janeiro de 2002.




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