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VENEZUELA

A “sociedade civil” contra o povo

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Os bastidores de um golpe frustrado. As conquistas e impasses da “revolução bolivariana”, que mobiliza os pobres, apavora as elites e preocupa Washington

Maurice Lemoine - (01/05/2002)

Com sua pele escura e insolência, ele parece um motorista de táxi, um camelô. Mas é por se parecer com o povo pobre que ocupa o palácio presidencial

Apontadas para o apresentador, as câmeras de televisão também enquadram a cidade de Caracas estendendo-se ao pé da montanha El Avila, na vertente da qual foi instalado o estúdio improvisado. O apresentador do show acaba de arrancar uma gargalhada dos espectadores ao lembrar como conseguiu fazer cantar – “Realmente, ele canta bastante mal!” – Fidel Castro em um de seus antigos programas. Poético, ele fala da Guatemala, depois do Libertador, Simón Bolivar. Cantarola, faz perguntas a seus convidados – entre os quais, um monte de ministros –, bate papo com uma telespectadora humilde de quem se despede com um “Bem, meu amor, te mando um beijo”... Sua desenvoltura faria corar de inveja qualquer vedete da telinha. No entanto, não se trata de um profissional. Seu nome é Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela.

Nesse dia 17 de março, por ocasião de seu 100º programa dominical “Alô, Presidente!”, ele se superou: comunicou-se, por satélite, com os presidentes guatemalteco, dominicano e cubano. “Bem, Fidel, se a gente não se encontrar por estes dias, conversamos por telefone... Hasta la victoria, siempre!” Em seguida, distribuiu críticas aos jornalistas, terminando em tom ameaçador: “E gostaria de dar um conselho aos que me querem desestabilizar: sei quantos são e quanto pesam depois do almoço!” Das fileiras da massa, totalmente fascinada, eleva-se uma ovação: “Não voltarão! Viva nuestro comandante!

A Venezuela muda de mãos

O comandante não deixa por menos: 6 horas e 35 minutos no ar, sem parar. Mas avalia que essas grandes “missas” são necessárias para manter um contato direto com os excluídos, com os pobres e com as forças de esquerda, que constituem a sua maioria.

Aprovada por um plebiscito em dezembro de 1999, uma profunda reforma da Constituição precedeu a sua reeleição, no dia 30 de julho de 2000

Nos bairros de La Castellana, Altamira, Palos Grandes e Las Mercedes – zona nobre de Caracas – os escuálidos1 se desesperam: “Esse cara é um demagogo, um populista, um louco de pedra!” Na melhor das hipóteses, concordam que seus antecessores também não valiam coisa alguma. “Mas ele está levando o país à ruína”, dizem, antes de o executarem sumariamente: “De qualquer maneira, o seu lugar não é na presidência. Um militar só sabe fazer duas coisas: obedecer e comandar!” No interior da casta constituída pela oligarquia, pelas finanças e pelas classes médias, esse intruso é odiado. Com sua pele escura e sua insolência, ele parece um motorista de táxi, um porteiro de hotel, um deserdado dos ranchos, um buhonero2 . Só que é justamente por se parecer com o povo pobre que ele ocupa o palácio presidencial de Miraflores.

Em fevereiro de 1992, esse tenente-coronel dos pára-quedistas tentou, por meio de um golpe de Estado, pôr fim a trinta anos de hegemonia dos partidos Ação Democrática (AD, social-democrata) e Copei (democrata-cristão). Na seqüência, eles arrastaram 80% da população do país – importante produtor de petróleo – para um patamar abaixo do limiar da pobreza. Preso, e depois solto, o rebelde conquistou democraticamente o poder em dezembro de 1998. Aprovada por um plebiscito em dezembro de 1999, uma profunda reforma da Constituição precedeu a sua reeleição, no dia 30 de julho de 20003 . Resumindo: Chávez venceu e a Venezuela, pacificamente, mudou de mãos.

Iniciativas do governo não decolam

A partir de então, o governo vem empreendendo uma revolução atípica: “Ela não é socialista, nem comunista, pois se dá num contexto capitalista, mas é radical e produz mudanças profundas na estrutura econômica”, explica Rafael Vargas, ministro da presidência. Numa iniciativa que provoca fortes surtos de febre em Washington, Caracas também pretende promover uma política petrolífera que permita manter o preço do brut acima de 22 dólares/barril, por meio da revitalização da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). E multiplica declarações contra a globalização neoliberal e em favor de um mundo multipolar, em oposição à pretensão hegemônica dos Estados Unidos.

Caracas também pretende promover uma política petrolífera que permita manter o preço do brut acima de 22 dólares/barril, revitalizando a Opep

No entanto, uma coisa é anunciar o nascimento de um novo país, e outra é realizar as necessárias mudanças. “Não há trabalho, não há progresso”, lamenta-se, em Valencia, um pobre que garante que o desemprego não diminuiu. Numa enorme favela batizada Marizabel de Chávez (nome da mulher do presidente), um camarada corpulento desabafa: “A única coisa que eu sei fazer é afanar um ou outro. Mas aqui, sinceramente, não sei quem eu poderia depenar...”

No bairro Alicia Pietri de Caldera (nome da mulher do presidente anterior!), a realidade é outra: os privilegiados ganham 84 mil bolivares (180 reais) por 15 dias como seguranças particulares, uma atividade econômica que cresce no país. Assim como em tantos outros países, o salário mínimo ficou estagnado em 158.400 bolivares (340 reais), quando são necessários 240 mil bolivares (510 reais) para alimentar uma família de cinco pessoas4 . E mesmo as iniciativas mais generosas do governo parecem não decolar. “A escola bolivariana funciona”, diz uma mãe de família. “Há uma cantina gratuita, como era previsto, para as três refeições das crianças. Mas acabaram de fechá-la porque não têm como pagar aos fornecedores.”

Uma administração gangrenada por 40 anos

Muitas vezes, o rei Chávez fica nu. Articulado às pressas para ganhar as eleições, o seu Movimiento por la V Republica (MVR) não tem uma estrutura forte. Com a perspectiva de vitória, vieram aglutinar-se “chavistas” convictos, revolucionários, mas também, na mira de sinecuras e benefícios, pessoas dos antigos partidos políticos e oportunistas de todo tipo. O mesmo vale para os partidos aliados – Movimiento al Socialismo (MAS), Causa R, Movimiento 1er Mayo, os maoístas de Bandera Roja e o líder de Patria Para Todos (PPT), Pablo Medina5 . Mais dia, menos dia, apresentam a fatura ao presidente. Em conseqüência disso, são inúmeras as dissidências, as rupturas, as renúncias e as demissões, às quais se segue a adesão ao inimigo, dando a impressão de que o poder funciona numa improvisação permanente.

Na perspectiva da vitória, aglutinaram-se “chavistas” convictos, revolucionários, e também, na mira de sinecuras e benefícios, oportunistas de todo tipo

O mesmo tipo de obstáculos existe no aparelho do Estado e na administração, gangrenados por 40 anos de clientelismo. Os ministros, e os 14 governadores “chavistas”, só podem contar, para empreender as reformas em suas instituições, com uns poucos funcionários do alto escalão. “Não fizemos uma caça às bruxas. Garantimos a transição com funcionários antigos, em sua maioria militantes da AD ou do Copei.” Esse exército de quadros intermediários e de funcionários freia os programas, sabota projetos e paralisa a transferência de recursos para os municípios. “Modificar essa estrutura é um processo lento. Não podemos demitir todo mundo”, diz, com uma careta, no calor tórrido de Puerto Ayacucho (Amazonas), Diogenes Palau, secretário-geral do governo local e que enfrenta o mesmo tipo de dificuldades. “Só é possível fazer isso pouco a pouco.”

“Taliban” armados até os dentes...

São dois, portanto, os pilares em que Chávez se deve apoiar para contornar as estruturas que lhe são hostis: o exército, de onde veio e que é a coluna vertebral do Estado, e a população não-organizada que o levou ao poder. Em abril de 2001, quando pediu a formação de “um milhão de Círculos Bolivarianos” para lhe dar apoio, dezenas de milhares de venezuelanos saíram às ruas, em seus bairros, em suas barriadas6 , respondendo com entusiasmo. Reunidos em grupos de sete a quinze pessoas, discutem a definição do futuro, de suas vidas, das necessidades essenciais, repercutindo, de imediato, junto às autoridades responsáveis. “É o único meio de conseguir que os recursos sejam corretamente encaminhados”, explicam na coordenação dos Círculos Bolivarianos do município de Sucre, a leste de Caracas. “Até agora, era uma minoria de políticos que dirigia, como bem entendia, o destino da comunidade.”

Mediante a apresentação de projetos, e por meio dos organismos apropriados – Banco do Povo, Banco das Mulheres, Fundo de Desenvolvimento da Micro-empresa, Fundo Intergovernamental para a Descentralização (Fides) etc. –, o Estado começa a alocar essas estruturas de verbas significativas. A oposição irrita-se, acusando-os de serem uma “tropa de choque” a serviço de um projeto totalitário, ninhos de “Taliban” que as permanentes bolas (boatos) dizem estar armados até os dentes pelo governo. Os interessados nem ligam para isso: “Olhe à sua volta, aqui não há senão pessoas pacíficas que trabalham pelo benefício da comunidade.” Logicamente, alguns militantes radicais estão mais preparados: “Sejamos claros. Os homens e as mulheres que participam deste processo estão dispostos a se defender. Pacificamente. Mas, se for necessário, por outras formas.”

Um pacto de (in)governabilidade

Um exército de quadros intermediários e de funcionários freia os programas, sabota projetos e paralisa a transferência de recursos para os municípios

Concentrados em suas continhas e seus interesses mesquinhos, os escuálidos ficaram perplexos quando, em 13 de novembro de 2001, radicalizando a revolução, Hugo Chávez assinou a Lei das Terras, a Lei da Pesca e a Lei sobre Hidrocarbonetos (leia, nesta edição, texto de Maurice Lemoine sobre o assunto). No dia 10 de dezembro, em protesto contra esses “atentados ao livre mercado”, a organização patronal Fedecámaras, dirigida por Pedro Carmona, lançou uma greve geral, apoiada pelos... meios de comunicação e pela Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV). Organização corrupta e correia de transmissão da Ação Democrática, a CTV negociou com os patrões, durante anos, contratos coletivos em que vendia sua alma e seus filiados em troca de algumas significativas gorjetas para seus dirigentes. O governo recusa-se a reconhecer qualquer representatividade a seu secretário-geral, o social-democrata Carlos Ortega que, em 25 de outubro de 2001, proclamou-se vencedor das eleições destinadas a renovar a direção sindical – durante um processo marcado pela violência e por irregularidades.

No dia 5 de março de 2002, esse “dirigente operário” apertaria a mão de Carmona e, com a Igreja Católica por testemunha, assinaria um Pacto Nacional de Governabilidade que tinha por objetivo “a saída democrática e constitucional” do presidente.

A ameaça à desestabilização econômica

Sem programa, sem projeto, auto-proclamando-se “a sociedade civil” e omitindo cinicamente a maioria que continuava apoiando o chefe de Estado, os quatro protagonistas – a Fedecámaras, a CRV, a Igreja e as classes médias –, aos quais se juntariam os meios de comunicação, agora transformados em partido político, tentaram criar artificialmente uma situação de ingovernabilidade. Essa intolerância totalitária fez explodir de raiva a massa da população que se uniu em torno da “sua” revolução. “Eles nos excluem e fingem representar, sozinhos, a sociedade civil. Muito bem! Mas somos nós que somos o povo! E se, por um ou outro motivo, a legalidade constitucional for questionada pela campanha de desestabilização, nós a defenderemos com nossas vidas, com nosso sangue!”

Nem as repetidas declarações incendiárias, nem as manifestações de protesto (seguidas por contramanifestações, muito maiores, dos partidários do governo), nem o surgimento de quatro militares dissidentes que criticaram publicamente o chefe de Estado7 abalaram o poder. Mas quando jogaram a cartada da desestabilização econômica, a tensão aumentou sensivelmente. O petróleo representa 70% das exportações e 40% da receita do país. Quando seu preço despencou, devido aos atentados do 11 de setembro de 2001, as viagens de Hugo Chávez à Europa, à Argélia, à Líbia, à Arábia Saudita, ao Irã, à Rússia e mesmo ao Iraque, assim como a atuação de Alí Rodríguez, secretário-geral venezuelano da Opep, permitiram estabilizar as cotações por meio de um acordo para diminuir a produção8 .

A greve da “meritocracia”

Grupos de sete a quinze pessoas, os Círculos Bolivarianos discutem o futuro, suas vidas, as necessidades essenciais. Repercutem de imediato junto às autoridades

Sociedade anônima que tem o Estado como único acionista, a Petróleos de Venezuela (PDVSA) é controlada por um grupo de quarenta funcionários de alto escalão. Esses “generais do petróleo” mandam e desmandam, instituem a “sua” política, privilegiam os interesses estrangeiros, violam as normas da Opep aumentando a produção, vendem com prejuízo, enfraquecem a empresa e preparam avidamente a sua privatização. Preocupado em colocar a PDVSA a serviço de um projeto coletivo, o executivo pretende retomar o controle desse setor estratégico cuja contribuição fiscal evidencia os descaminhos: dos 75% do lucro total que eram repassados para o Estado há vinte anos (arrecadando a empresa os restantes 25%), a arrecadação pela empresa passou a ser 70%, cabendo à Receita apenas 30%. Então, o chefe de Estado nomeou um novo presidente para a empresa, Gastón Parra, e uma equipe de direção. Em nome da promessa de um quadro de carreira, da eficiência administrativa, da produtividade e da rentabilidade, os tecnocratas argumentaram com uma “meritocracia” que acabavam de inventar para evitar as nomeações e convocar à rebelião.

Em qualquer país do mundo, o Estado acionista nomeia as diretorias das empresas estatais, comunicando-lhes suas orientações – o que, aliás, todos os governos venezuelanos anteriores sempre fizeram. Por outro lado, os inconformados – todos eles quadros superiores que ocupam cargos de confiança – não podem, pela natureza de suas funções, convocar uma greve. A “sociedade civil” assume a sua causa e defende os seus direitos. Estimulada pelos jornais, rádios e televisão, ela incentiva a paralisação do coração econômico do país. O que acaba ocorrendo, ainda que parcialmente (um número considerável dos operários recusou-se a aderir à greve).

Contatos pouco confessáveis

São dois os pilares em que Chávez se apóia para contornar as estruturas que lhe são hostis: o exército e a população não-organizada que o levou ao poder

Tudo isso enquanto aumentam os vôos entre Caracas e Washington, de onde o governo de George W. Bush não pára de criticar verbalmente o presidente “bolivariano”. Seu pouco empenho em abraçar a causa da “luta antiterrorismo”, especialmente contra as guerrilhas colombianas, seus acordos militares com a China e a Rússia, seu discurso antiglobalização e a sua revolução só fazem aumentar o ranger de dentes a cada dia. Em 6 de fevereiro de 2002, o secretário de Estado norte-americano, general Colin Powell, pôs em dúvida, perante o Senado, “que Chávez realmente acredite na democracia”, criticando suas visitas “a governantes hostis aos Estados Unidos e suspeitos de apoiar o terrorismo, como Saddam Hussein e Muamar Kadhafi9 ”.

No entanto, preocupados com os problemas que abalam seu terceiro maior fornecedor de petróleo, os Estados Unidos receavam uma suspensão das exportações se o país se tornasse ingovernável. Oficialmente, portanto, não se joga lenha na fogueira. Na moita, porém, no dia 25 de março, Alfredo Peña, prefeito de Caracas e opositor ferrenho do governo, encontrou-se com autoridades norte-americanas, entre as quais o muito controvertido Otto Reich, subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos10 . Alguns dias mais tarde, no gabinete do prefeito, poderiam ser encontrados Pedro Carmona, presidente da Fedecámaras, e Manuel Cova, secretário-geral adjunto da CTV, que também visitaria representantes do Instituto Republicano Internacional, todos eles interlocutores bastante conhecidos por sua defesa dos interesses dos trabalhadores!

A cartada da “greve ilimitada”

No dia 13 de novembro de 2001, radicalizando a revolução, Hugo Chávez assinou a Lei das Terras, a Lei da Pesca e a Lei sobre Hidrocarbonetos

O fantasma do Chile estaria pairando sobre a Venezuela se não fosse por uma diferença importante: o exército, que o presidente Chávez diz conhecer como a palma de sua mão e controlar por meio dos camaradas que se formaram com ele (1975). No entanto, correm boatos que põem isso em dúvida. O próprio general que dirige o Comando Sul do exército norte-americano (Southcom) disse, recentemente: “A Venezuela é o país que tem mais oficiais estudando em nossas academias do norte e, por isso, temos confiança total nesse país.” Quando citamos, no dia 14 de março, o caso dos quatro oficiais que, dias antes, haviam criticado o presidente, Francisco Ameliach, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento, respondeu: “Quando um oficial se pronuncia publicamente, isso significa que ele não tem o apoio do exército. Nós, que conspiramos (Ameliach participou do golpe de 1992, do tenente-coronel Chávez), sabemos que um coronel envolvido numa operação dessas não vai anunciar o fato em praça pública...”

Para defender a PDVSA – cuja diretoria teve sete quadros demitidos e doze outros aposentados compulsoriamente –, a greve nacional dos dias 9 e 10 de abril, convocada pela CTV e pela Fedecámaras, teve um sucesso relativo. Precipitada numa luta contra o tempo (ou como parte de um plano premeditado que se tornara incontrolável) e sem querer perder o espaço que ocupara, a oposição, sob o pretexto de que o governo poderia decretar o Estado de exceção (o que jamais fora sua intenção), convocou uma greve geral ilimitada para o dia 11 de abril. Fato preocupante: reaparecem os militares dissidentes pela mão do general Nestor González (destituído em dezembro de 2001), que, na televisão, acusa o presidente Chávez de traição e pede a intervenção do alto comando militar.

O surrealismo em meio à tragédia

O dia 11 de abril nasceu com mais de 300 mil opositores marchando, tranqüilamente, em direção à sede da PDVSA em Chuau, na zona Leste da capital. Foi ali que se perpetrou o crime, em meio a uma crescente efervescência que facilitava o plano. Para dar credibilidade à idéia de uma “sociedade civil” enfrentando uma ditadura, são necessários “mártires”... Às 13 horas, na zona Oeste da cidade, no palácio presidencial, Rafael Vargas, ministro da presidência, lívido, irrompe no gabinete de seus colaboradores: “O resto do país está tranqüilo, mas Carlos Ortega acaba de convocar, pela televisão, uma marcha sobre o palácio de Miraflores. É uma conspiração.” Às 13h40, funcionários do segundo escalão antecipam, sem saber ainda, o desenrolar dos acontecimentos: “Eles vêm pela rodovia... É preciso permitir a manifestação, mas interromper sua marcha antes de chegarem aqui, senão os Círculos Bolivarianos vão se mobilizar e isto vai terminar numa tragédia.”

Organização corrupta, a CTV negociou com os patrões, durante anos, contratos coletivos em que vendia sua alma em troca de algumas gorjetas para seus dirigentes

O pessoal fardado sabe ser maquiavélico. O alto comando da Guarda Nacional não tomou qualquer providência séria para evitar o inevitável. A manifestação da oposição chegou a menos de cem metros do palácio de Miraflores, onde já se encontravam dezenas de milhares de “chavistas” – alguns armados de paus e pedras – que tinham descido rapidamente dos morros para proteger o presidente com seus corpos. Entre um grupo e outro, para evitar o choque, quinze guardas nacionais – nem um a mais. Numa cena surrealista, o mais graduado desses guardas voltou-se para os fotógrafos e perguntou, angustiado: “Alguém aí pode me emprestar um celular para eu pedir reforços?” Com gás lacrimogêneo, seus homens conseguiram controlar a situação.

As trapalhadas de um almirante golpista

Afirmou-se que os 15 mortos e 350 feridos (157 dos quais, por armas de fogo) dessa jornada trágica teriam sido vítimas dos Círculos Bolivarianos, cujos militantes teriam atirado friamente sobre manifestantes pacíficos. É mentira. Misteriosos atiradores, dispostos no topo de um edifício de dez andares, atiraram em primeiro lugar contra os militantes bolivarianos. Em seguida, dispararam contra a oposição, com uma precisão letal. A confusão generalizou-se numa baderna total. Perto da estação de metrô El Silencio, uma brigada da Guarda Nacional respondeu à chuva de pedras da “sociedade civil” com enxames de granadas lacrimogêneas, mas também com rajadas de balas. Pequenos grupos da polícia metropolitana do prefeito Alfredo Peña (da oposição) atiram em tudo que mexe, sem qualquer distinção (embora outros colegas deles se comportassem decentemente).

Sem programa e proclamando-se “a sociedade civil”, a Fedecámaras, a CRV, a Igreja e as classes médias tentaram criar uma situação de ingovernabilidade

A Guarda de Honra do presidente “teria prendido três franco-atiradores, sendo dois deles policiais de Chacao (bairro da zona Leste da capital), e um da polícia metropolitana11 ”. No calor dos acontecimentos, um jovem, perplexo, afirma: “Vimos dois deles. Estavam fardados.” No dia seguinte, na tela da Venevisión, o vice-almirante golpista Vicente Ramírez Pérez afirmaria: “Tínhamos sob controle todas as chamadas telefônicas que o presidente fazia aos comandantes das unidades. Fizemos uma reunião às 10 horas da manhã para planejar a operação.” Que operação? Oficialmente, a essa hora, o fluxo da manifestação da oposição ainda não fora desviado para o palácio de Miraflores.

O beija-mão dos EUA e Espanha

O objetivo tinha sido atingido. Às 18 horas, “abalado pelo número de vítimas”, o general Efraín Vásquez Velasco anunciou que o exército não iria obedecer ao presidente Chávez. Algumas horas antes, a quase totalidade do comando da Guarda Nacional já o fizera. Às 3h15 da madrugada, o general Lucas Rincón leu o último comunicado: “Diante de tais acontecimentos, foi pedida a renúncia ao presidente da República. Ele aceitou.” Essa mensagem seria transmitida a cada vinte minutos, pela televisão, durante as 36 horas que se seguiram.

Nomeado para a presidência no dia 12 de abril, Pedro Carmona, o patrão dos patrões, dissolveu a Assembléia Nacional, todas as instâncias constituídas e destituiu os governadores e prefeitos eleitos pelo voto. Dotado de todos os poderes, depois de ouvir o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleisher, felicitar o exército e a polícia venezuelana “por se terem recusado a atirar sobre manifestantes pacíficos”, Carmona concluiu, sem julgamento: “Simpatizantes de Chávez atiraram contra essas pessoas e isso criou uma situação que, rapidamente, o levou a renunciar.” No momento em que a Organização dos Estados Americanos se preparava para condenar o golpe de Estado, os embaixadores dos Estados Unidos e da Espanha foram cumprimentar o presidente de facto.

O presidente é devolvido ao povo

Parecendo incapaz de tirar qualquer lição dos acontecimentos trágicos, apenas alguns dias mais tarde a oposição já recomeçava a pressão

Nesse meio tempo, num país em que, nos últimos três anos, não se registraram assassinatos, desaparecimentos ou detenções por motivos políticos, a repressão baixou sobre ministros, deputados e militantes; dezenas de lugares e residências foram revistados, 120 “chavistas” conheceram a tortura da prisão. Na telinha da Venevisión, onde era entrevistado pela jornalista Ibeyssa Pacheco, o coronel Julio Rodríguez Salas, escancarando um sorriso, termina sua intervenção: “Tivemos um trunfo muito importante... A mídia!” E, já que a ocasião se apresenta, gostaria de a felicitar”. Em nome da democracia, a “sociedade civil” acabara de instalar uma ditadura. Caberia ao povo restaurar a democracia.

O que se seguiu é conhecido. Entregando-se sem resistência para evitar um banho de sangue, Hugo Chávez não renunciou. No dia 13 de abril, centenas de milhares de seus partidários ocuparam as ruas e as praças do país inteiro. À tarde, sua Guarda de Honra retomou o palácio de Miraflores e ajudou alguns ministros a reocuparem o gabinete presidencial. Seguindo o exemplo do general Raúl Baduel, comandante da 42ª Brigada de Pára-quedistas de Maracay, os comandantes fiéis à Constituição retomaram controle de seus batalhões. Dividido, sem uma perspectiva clara e temendo uma reação incontrolável por parte da população e confrontos entre militares, o alto comando perde o controle da situação. À noite, o legítimo presidente da República Bolivariana da Venezuela seria devolvido ao seu povo.

Parecendo não ter sabido tirar qualquer lição desses acontecimentos trágicos, apenas alguns dias mais tarde a oposição já recomeçava a pressão. No entanto, citando a onda avassaladora que vem abalando o país nos últimos três anos, uma militante previne: “É bom que não tenham ilusões. Com ou sem Chávez, a Venezuela jamais será como era antigamente”.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Termo pejorativo dado pelo presidente a seus adversários (e do qual eles se apropriaram, considerando-o um título de glória).
2 - Camelô.
3 - Ler, de Ignacio Ramonet, “Chávez”, e, de Pablo Aiquel, “Um presidente bolivariano”, Le Monde diplomatique, respectivamente de outubro de 1999 e de novembro de 2000.
4 - Datanálisis, in El Universal, Caracas, 14 de março de 2002.
5 - Após romper os vínculos, mas sem nunca se ter aliado à oposição, o PPT voltou a apoiar Chávez. Uma parte do MAS também se manteve fiel a ele.
6 - Favelas.
7 - O coronel Pedro Soto, o contra-almirante Carlos Molina, o capitão Pedro Flores e o comandante Hugo Sánchez.
8 - A crise do Oriente Médio também desempenhou um papel na alta do preço do petróleo.
9 - Miami Herald, 7 de fevereiro de 2002.
10 - Envolvido no escândalo do Irãgate, na década de 80, e intimamente vinculado ao lobby cubano-americano, Reich teve a sua nomeação recusada pelo Congresso durante muito tempo.
11 - El Nacional, Caracas, 13 de abril de 2002.




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