Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» “Não esqueçam Julian Assange”

» Índia ocupa a Caxemira muçulmana

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» Portugal, o novo alvo da extrema-direita

» E quando nos levantaremos contra os rentistas?

» “Quem tá na rua nunca tá perdido”

» Eles querem organizar a população de rua

» Municipalismo, alternativa à crise da representação?

» A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

» Marielle, Moa, Marley, Mineirinho

Rede Social


Edição francesa


» Population, subsistance et révolution

» Une nouvelle classe de petits potentats domine les villages

» Vers une « révolution agricole »

» En dehors de la « Petite Europe » d'autres débouchés s'offriront aux produits tropicaux

» Dans le domaine agraire il serait dangereux de vouloir brûler toutes les étapes

» L'expérience de M. Fidel Castro pourrait être mise en péril par une socialisation trop rapide de l'industrie cubaine

» Au Japon, le ministre de la défense s'inquiète

» Les soucoupes volantes sont-elles un sous-produit de la guerre froide ?

» Ovnis et théorie du complot

» Boulevard de la xénophobie


Edição em inglês


» On ‘la pensée unique'

» Manufacturing public debate

» August: the longer view

» Trump returns to the old isolationism

» Yellow vests don't do politics

» Kurdish territories in northern Syria

» The changing shape of the Balkans: 1991 / 2019

» Minorities in Kosovo

» Borders 1500-2008

» Man with a mission or deranged drifter


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto


LIVROS

Edward Said, arqueólogo de si mesmo

Imprimir
Enviar

Ler Comentários
Compartilhe

Em ’Out of Place’, autor mostra por que é, além de um grande erudito, rebelde e estrangeiro em qualquer parte

Gilles Perrault - (01/05/2002)

Ninguém arriscaria prever que esse respeitado intelectual tentaria um dia nos seduzir com as lembranças de sua tia-avó Mélia e de sua avó Munira

Ele nasceu em Jerusalém em 1935. Chamaram-no Edward porque o príncipe de Gales, naquele ano, era a coqueluche das mulheres. Sobrenome: Said. Nunca ninguém lhe pôde explicar de onde vinha esse nome, que não era o de nenhum de seus avós. Nacionalidade? Norte-americana, já que seu pai, também nascido em Jerusalém, emigrou para os Estados Unidos em 1911, alistou-se em 1917 e voltou para a Palestina com passaporte norte-americano. Some-se a essas particularidades o fato de sua família pertencer de longa data à religião protestante. A família vivia no Cairo, onde o pai, gênio dos negócios, acumulou uma bela fortuna, de maneira que o jovem Edward (ele odeia seu nome), vestido com um uniforme de estudante inglês, freqüenta instituições inglesas em que professores ingleses, na atmosfera lúgubre do desmantelamento do Império, oferecem um ensino desprezível aos rebentos da burguesia egípcia cosmopolita, os quais também não se sentem parecidos em nada com a massa nativa.

Com 17 anos, com o futuro escolar já comprometido devido a uma atitude sistematicamente rebelde, Edward Said viajou para os Estados Unidos, onde faria um brilhante curso universitário em Princeton e em Harvard, e onde se instalaria definitivamente. Depois de 40 anos de vida em Nova York, ele escreve: "Continuo me sentindo longe de casa". Que fique claro que ele não se sente em casa em parte alguma: o estrangeiro absoluto.

Um "romance de formação"

Ele é um dos grandes espíritos do nosso tempo. Professor de Literatura Comparada na Universidade de Columbia, musicólogo renomado, ensaísta fecundo, seu pensamento e suas posições suscitam entusiasmo e escândalo. Ninguém arriscaria prever que esse respeitado intelectual tentaria um dia nos seduzir com as lembranças de sua tia-avó Mélia e de sua avó Munira. Para isso, foi necessária a revelação fulminante, em 1991, aos 56 anos, de que tinha uma leucemia linfática crônica, um câncer incurável. Fuga para o passado ou retomada das origens para melhor lutar contra a doença? Said decide desenterrar sua infância e juventude, sem nenhuma nostalgia, com a paixão de um arqueólogo atento, desvendando o passado. O título francês de seu livro - A contre-voie - descaracteriza um pouco o título original Out of place (embora a tradução seja excelente) 1 . Trata-se da história de uma pessoa que, sempre e em toda parte, se sentiu deslocada, fora das normas, um estrangeiro. Como não pensar, lendo-o, e apesar das evidentes diferenças entre o teórico e o prático, em um Henri Curiel, outro natural do Cairo que também foi, até sua morte, um estrangeiro?

Inesperado, o livro é tão apaixonante quanto tocante. Insere-se na tradição clássica do "romance de formação", dominado pelo relacionamento difícil com um pai, que no fundo, não era má pessoa, embora um pouco bruto, e o relacionamento apaixonado com uma mãe, carinhosa e manipuladora, sobre quem o autor escreve: "Ela foi certamente a amiga mais próxima e a mais íntima dos primeiros 25 anos da minha vida".

A tragédia vista por uma criança

Apaixonante e tocante, o livro insere-se na tradição do "romance de formação", dominado pelo relacionamento difícil, com o pai, e apaixonado, com a mãe

Said gastou muito tempo e força para se livrar da fôrma em que seus pais, e depois seus professores, o moldaram, e cujo símbolo, a seus olhos, era o seu detestável nome. Escrito com um humor tipicamente britânico (obrigado, Edward!), o livro dá, deliberadamente, as costas à política, já que o jovem Said não se interessava por ela. No entanto, ele a recupera por vias sutis. O drama palestino, por exemplo, que causava estranha indiferença aos pais de Edward, é evocado apenas pela tia Nahira, personagem extraordinária que, também residente no Cairo, desenvolveu, depois de 1948, a atividade sobre-humana de socorrer os refugiados palestinos abandonados numa miséria total. Percebida pela sensibilidade de uma criança que ignorava as causas e as conseqüências, a tragédia ganha mais força ainda.

Na busca de sua identidade profunda, Edward Said não procura atingir uma unidade fictícia, pois suas raízes geográficas e emocionais formam um emaranhado inextricável. Retomando, com ele, um percurso quase retilíneo, compreende-se melhor por que seu pensamento é muitas vezes considerado herético. Para alguns, a inteligência consiste em simplificar uma realidade espessa e espinhosa. Para Edward Said, ela consiste em lhe acrescentar sempre mais complexidade. Assim é esse livro, no qual sua personagem multiforme nos ajuda a tomar uma medida mais justa do complicado Oriente.
(Trad.: Denise Lotito)

1 - A Contre-voie, de Edward Said, ed. Serpent à plumes, Paris, 2002, 500 p., 21 euros (45 reais).




Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Intelectuais

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos