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PALESTINA

A erradicação do território

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A guerra, na Palestina, não é feita apenas contra a população, mas contra o território. A destruição vista pela delegação de escritores que visitou a região, em março deste ano, ganhou este relato emocionante de Christian Salmon. Na mesma delegação, foram Russel Banks (Estados Unidos), Bei Dao (China), Breyten Breytenbach (África do Sul), Vincenzo Consolo (Itália), Juan Goytisolo (Espanha), José Saramago (Portugal) e Wole Soyinka (Nigéria)

Christian Salmon - (01/05/2002)

Na época das guerras iugoslavas, o arquiteto Bogdan Bogdanovitch forjou a palavra “urbicídio” para designar a destruição das cidades nos Bálcãs. Na Palestina, o que choca à primeira vista é a violência exercida contra a terra, o território. A perder de vista, são canteiros de obras a céu aberto, colinas estripadas, desmatamento. Paisagens despedaçadas. Tornadas ilegíveis por uma violência que parece pensada. Não apenas a violência das bombas e da guerra, nem a destruição provocada pelas incursões dos blindados, mas uma violência ativa, industriosa. Cadastrada.

A feiúra do concreto e do asfalto estende-se sobre as mais belas paisagens da história humana. As colinas são laceradas pelas “estradas de contorno”, construídas para proteger o acesso às colônias israelenses; nos seus arredores, as casas são destruídas, as oliveiras arrancadas, os campos de laranjeiras derrubados para melhorar... a visibilidade. Em seu lugar, estendem-se os no man’s lands (zonas desmilitarizadas) dominados por torres de observação. Os buldôzeres, que se cruzam por toda parte à beira das estradas, parecem tão estratégicos na atual guerra quanto os tanques. Nunca uma máquina tão inofensiva me pareceu portadora de tanta violência muda. A brutalidade dos buldôzeres.

Um patrimônio em perigo

Na Palestina, o que mais choca é a violência exercida contra a terra, o território. Paisagens despedaçadas devido a uma violência que parece pensada

Não se trata de urbanização selvagem, não tem nada a ver, por exemplo, com os estragos do concreto no litoral do Mediterrâneo. Não é obra do capitalismo estúpido, é o Gosplan! Sente-se a mão voluntarista do Estado que passa uma borracha no passado. Aliás, as duas empreitadas são contemporâneas: ainda na década de 50, para apagar as marcas dos vilarejos palestinos destruídos, foram plantadas florestas de pinheiros em vez de oliveiras ou laranjeiras; porém, a mão do homem ainda pretendia ser civilizadora, plantava e cultivava. Hoje, tomada de um ardor destrutivo, volta-se contra a paisagem. Arranca, pilha, desenraiza; desloca, despovoa. A paisagem é um espaço de sinais e de pontos de referência. Uma página que se pode ler, onde se reconhece uma história. A primeira coisa que choca e dói na vista quando se chega à Palestina é a interferência generalizada na paisagem. A perda de referências. A desorientação. O que se vê em andamento não é a criação pensada de um Estado (palestino), ou binacional, ou ainda de dois Estados (israelense e palestino), mas o esfacelamento, a dissolução da paisagem. A abolição do território. Não é a primeira vez que lugares são desbatizados. Que um nome de rua ou de cidade é substituído por outro. Na Bósnia, isso era chamado memoricídio!! Aqui, porém, não se limitam a mudar os nomes. Desfazem-se os lugares. Matas, colinas, estradas... É o próprio território que é objeto da desfiguração. A geografia, dizem, serve em primeiro lugar para fazer a guerra. Na Palestina, a guerra serve, principalmente, para desfazer a geografia.

Uma coisa que não se ouve o suficiente nos discursos oficiais e nas resoluções da ONU é que este território é uma teia onde se cruzam os fios de uma história milenar; seu subsolo é feito de sedimentos tomados de várias culturas, várias humanidades sucessivas. Até sua paisagem, suas estradas, seus campos e suas oliveiras pertencem ao patrimônio da humanidade. Esse patrimônio está em perigo. A Unesco alarmou-se, com razão, com a destruição dos Budas de Bamyan, no Afeganistão. Será que vamos deixar transformar a Palestina num campo de ruínas, fazer de Jerusalém uma nova Beirute, desaparecerem seus sítios naturais e arqueológicos, sem que alguém se comova?

Buldôzeres “acabam o serviço”

Os buldôzeres parecem tão estratégicos na atual guerra quanto os tanques. Nunca uma máquina tão inofensiva me pareceu portadora de tanta violência muda

Durante uma semana, de Ramallah a Gaza e a Rafah, cruzamos em nosso caminho apenas imagens de destruição: vilarejos, estradas, casas em ruínas. Queimam-se as colheitas, serviços públicos são bombardeados. Equipamentos coletivos, que acabaram de ser construídos, são destruídos pelos tiros de mísseis dos helicópteros e dos F16.

A Comissão Européia acaba de divulgar uma lista, restrita às infra-estruturas financiadas pela União e países membros. É uma lista impressionante e que fala por si só: o porto e o aeroporto internacional de Gaza, a rádio Voz da Palestina, em Ramallah, o Hotel Intercontinental, em Belém, um laboratório médico-legal, infra-estruturas municipais: escolas, residências, estradas, saneamento básico e aterros, mas também a secretaria do Projeto de Cooperação Pacífica, em Jenin, o reflorestamento em Beit Lahia, o Departamento Central de Estatísticas, em Ramallah, os sistemas de irrigação em Jericó... Um conjunto de dezessete infra-estruturas somando um montante de 17,29 milhões de euros (cerca de 36,5 milhões de reais). Quem acreditaria que todos esses equipamentos eram esconderijos de terroristas?

Em Rafah, visitamos um vilarejo arrasado, junto à fronteira egípcia; andamos sobre os muros das casas destruídas. Debaixo dos nossos pés, cadernos de estudantes, utensílios de cozinha, uma escova de dentes. A vida esfacelada. Uma mulher nos explica que deram cinco minutos aos moradores para deixarem o local. Em plena noite. Os buldôzeres passaram por lá várias vezes, para “acabar o serviço”. Essa fórmula está se tornando o lema do exército israelense. De cima das torres de observação, metralhadoras com mira infravermelha vigiam um terreno baldio. Não há soldados. À noite, disparam automaticamente assim que uma luz é acesa. As primeiras fileiras de casa estão crivadas de balas. Os moradores vivem sob a ameaça permanente das armas automáticas. Eis como se criam as zonas de segurança.

Uma fronteira de sombra e luz

Não se trata de urbanização selvagem, não é obra do capitalismo estúpido. Sente-se a mão voluntarista do Estado que passa uma borracha no passado

A máquina de desfigurar age permanentemente, paciente e despreocupada como uma abelha. O que ela faz? Fabrica fronteiras. “Fonteiriza” a todo vapor. Aqui, tudo é fronteira. Ela atravessa cada canto de estrada, cada colina, cada vilarejo e às vezes cada casa.... As barricadas substituem as pracinhas. Fortificações reforçam as muralhas. Cada parede é hostil. Cada casa pode esconder um atirador emboscado. A cada curva pode surgir um posto de controle. Aconteceu de cruzarmos dois numa distância de duzentos metros. Só na Cisjordânia, há mais de setecentos. Algumas ruas foram muradas, o acesso à universidade de Bir-Zeit exige o uso de um sistema duplo de ônibus, ou de táxi, entrecortado por um trecho a pé, obrigatório. O exército israelense transformou os territórios num sistema de alvéolos estanques cujas entradas e saídas são por ele controladas. Contamos 220, verdadeiros ninhos de ratos, para não falar de reservas ou de guetos, onde circulam em permanência os tanques Merkava e sobrevoam os helicópteros Apache, fornecidos pelo exército norte-americano...

É uma fronteira de um novo tipo. Uma fronteira móvel, porosa, difusa. Uma fronteira que mexe. Uma noite, em Ramallah, Mahmud Darwich nos fez subir uma pequena colina de onde se vê Jerusalém. A alguns quilômetros, em linha reta, a cidade cintilava com milhares de luzes. Entre ela e nós, zonas de sombra, algumas luzes esparsas e trêmulas: casas palestinas, e, mais longe, à direita, de novo uma área de luz intensa, de onde partia uma estrada iluminada e vazia conduzindo a uma colônia israelense. E neste brilho da luz na noite, reconheci a fronteira que cintilava.

A ocupação é tão simples quanto isso: o direito de decidir o que está iluminado e o que está mergulhado na escuridão. Do que é visível e do que não é. Do que é permitido o acesso e do que é proibido. A fronteira rege até a divisão da sombra e da luz. É uma fronteira sobrenatural.

Um espaço sem conteúdo nem contorno

Em Rafah, visitamos um vilarejo arrasado. Debaixo de nossos pés, cadernos de estudantes, utensílios de cozinha, uma escova de dentes. A vida esfacelada

O escritor polonês Tadeusz Konwicki disse, um dia, a respeito do seu país: “Minha pátria tem rodinhas; suas fronteiras se deslocam conforme os tratados.” Na Palestina, é ainda pior. A fronteira se move como uma nuvem de gafanhotos. Desloca-se num pulo, conforme os atentados suicidas, como uma súbita intempérie. Pode chegar à sua casa, como o correio, numa noite, à velocidade dos blindados... ou deslizar lentamente como uma sombra. A fronteira rasteja. Cerca os vilarejos, os pontos de água. Ela é móvel, como os muros de um recinto equipados com ganchos, que vimos em Rafah, facilmente transportáveis, conforme os avanços da colonização, como banais biombos de um hábitat evolutivo.

A fronteira é furtiva; como os bombardeiros, esmaga e desintegra o espaço. Transforma-o num espaço-fronteira, em migalhas de território. O espaço-fronteira não organiza os fluxos de circulação; paralisa-os. Não protege mais as pessoas, mas transforma qualquer ponto do espaço numa área minada, qualquer indivíduo num alvo vivo ou numa bomba humana. Aqui, a fronteira não é mais aquela linha pacífica que distingue os espaços de soberania e atribui a cada um o seu lugar. Que dá ao espaço essas figuras, esse contorno, essas cores. Ela rechaça, desloca, desorganiza... Quer estejamos em Israel, quer nos territórios ocupados, o espaço se tornou hostil, um espaço sem conteúdo nem contorno, que generaliza a insegurança. “Suprimir o afastamento mata”, já escrevia René Char.

A arquitetura da desapropriação

Janelas em frestas, fachadas em muralhas, alinhamento de prédios, cidades-casernas: o que vemos das colônias israelenses sugere uma arquitetura fechada sobre si própria, um auto-fechamento que obviamente se deve à exigência de segurança, mas que confessa uma obsessão do espaço, um espaço temido, rechaçado, o espaço-medo. “A verdade de uma época”, dizia Hermann Broch em relação à Viena do fim do século, “em geral pode ser lida em sua fachada arquitetônica”.

A máquina de desfigurar age permanentemente, paciente e despreocupada como uma abelha. O que ela faz? Fabrica fronteiras. “Fronteiriza” a todo vapor

Se isso for verdade, então a das colônias israelenses terá valor de um slogan. Ela expressa uma relação quase de pânico com o ambiente. Um medo do fora. O contrário da hospitalidade do lugar. Um tipo de exofobia inversa do processo de ocupação. Quanto mais uma pessoa avança no território inimigo, mais se fecha no interior de si própria. A fórmula vale para toda a sociedade israelense. Não o exo-colonialismo, para retomar uma distinção de Paul Virilio, do qual é exemplo a arquitetura aberta sobre o exterior dos espanhóis na América Latina, mas um endo-colonialismo, uma colonização que não se limita à apropriação de um espaço hostil, mas significa uma desapropriação de si. Seu tipo ideal é o bunker.

O apartheid rodoviário

É um aspecto que o debate político e a mídia não abordam satisfatoriamente: a colonização israelense dos territórios ocupados não é somente injusta e ilegal; é impossível; baseia-se numa “impossibilidade de morar” que é característica das patologias do exílio e que atinge também os habitantes dos campos de refugiados. As colônias israelenses são, para falar francamente, inabitáveis. Não apenas desconfortáveis, ou perigosas, ou pouco viáveis a longo prazo. Elas revelam a impossibilidade de “morar”, que é a outra face do retorno... Uma espécie de antiurbanismo. Um urbanismo de guerra como falamos de uma economia de guerra. Um urbanismo da incivilidade.

Daí, suas formas paradoxais. Um hábitat exorbitado, literalmente extravagante. A segurança de cada colônia, no coração de espaços povoados por maioria palestina (5 mil colonos para 1,5 milhão de palestinos, apenas na região de Gaza), exige esforços de segurança constantes, o controle total de entradas e saídas; cada carro de colono que passa provoca congestionamentos de vários quilômetros nas ruas adjacentes, bloqueadas pelos pontos de controle. Um tipo de apartheid rodoviário que exige constantemente novas proezas da engenharia civil.

Guerra contra o território

A ocupação é tão simples quanto isso: o direito de decidir o que é visível e o que não é. A fronteira rege sombra e luz. É uma fronteira sobrenatural

Em Gaza, vimos estradas separadas por muros de vários metros de altura, uma ponte em construção passando por cima dos territórios ocupados. Alguém mencionou um projeto de estrada beirada por canais infestados de jacarés! Pareceu-nos que era exagero, mas dá uma idéia do clima. O ministro israelense dos Transportes chegou a orçar um projeto faraônico de viaduto que ligaria Gaza à Cisjordânia. Todos esses projetos, verdadeiros ou falsos, são prova, de qualquer forma, de uma imaginação do pânico. O outro deve ser ostensivamente conjurado. Rechaça-se ou imobiliza-se. Nunca, num espaço tão pequeno, se conseguiu paralisar tanta gente. A circulação entre Israel e os territórios ocupados está totalmente bloqueada. Quantos palestinos reclamaram conosco dessa prisão domiciliar? Os encontros tornaram-se impossíveis. Por simples razões de circulação. Impossível, evidentemente, ir de Ramallah até Gaza. Mas mesmo para ir de um ponto a outro na Faixa de Gaza, pode-se demorar mais de que para ir de Tel Aviv a Nova York. Nos territórios ocupados, Israel não ocupa apenas o espaço, mas também o tempo. Horas de espera nos pontos de controle antes de voltar para casa.

Os israelenses passaram, em algumas décadas, da utopia do kibutz à a-topia das colônias. Queriam transformar o deserto num jardim, dizia-se na década de 60, quando o projeto dos kibutzim ainda seduzia. Desde então, transformaram o jardim bíblico num deserto, num terreno baldio, até num campo de batalha.

Os onipresentes buldôzeres, à beira das estradas, representam uma confissão perturbadora. A daquela pergunta que fazia Kafka: “Como fazer para morar?” Aqui, não se trata de morar, mas de desalojar. De destruir. É a primeira guerra travada por buldôzeres. Um esforço de “desterritorialização” sem precedente na história. É uma guerra total, no sentido de que não é feita apenas contra as populações, mas contra o próprio território. É uma guerra agorafóbica. Não se almeja a divisão do território, mas a sua abolição.
(Trad.: David Catasiner)




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