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EXTREMA-DIREITA

Avanço neofascista em Flandres

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Nas eleições legislativas de junho de 1999, quando obteve 19,4% dos votos, o partido neofascista Vlaams Blok tornou-se a segunda mais importante formação política do norte da Bélgica, a exemplo do que já ocorrera em Antuérpia

Magali Uytterhaeghe - (01/05/2002)

A peste negra neofascista propaga-se lenta, mas inexoravelmente, nos mínimos recantos da Bélgica, em especial no triângulo Antuérpia-Bruxelas-Gand

“Quando troveja em Antuérpia, chove em Gand”: a antiga expressão flamenga, que ilustra o papel de “iniciador de novas tendências” da grande cidade-porto, permanece atual. Quando o primeiro “domingo negro” completava exatamente dez anos – naquela ocasião, o Vlaams Blok (VB), partido de extrema-direita do norte da Bélgica, teve uma escalada espetacular em Antuérpia1 – o fato repetia-se nas eleições legislativas de junho de 1999 em Gand, quando, com 19,4% dos votos, o partido se tornou o segundo mais importante. Outro domingo a ser marcado com uma cruz negra.

As eleições municipais de outubro de 2000 confirmaram essa tendência: a peste negra, aparentemente muito contagiosa, propaga-se lenta, mas inexoravelmente, nos mínimos recantos de Flandres, e particularmente no interior do triângulo Antuérpia-Bruxelas-Gand.

Imigração, insalubridade e delinqüência

Gand? Quem poderia acreditar nisso? Uma cidade de tradição socialista, com sua universidade progressista, suas inúmeras festas populares, seu histórico edifício Vooruit, símbolo da luta operária, seu labirinto medieval Patershol, onde ficam os melhores restaurantes da cidade, seu prestigioso museu Smak, suas célebres “três torres” e principalmente seu incontornável Castelo dos Condes de Flandres onde, em 1500, nasceu Carlos V, o imperador que teve que voltar da Espanha em 1540 para abafar uma violenta revolta na cidade...Como parece longínqua a bravura do povo de Gand!

Constantemente retratada como uma cidadezinha burguesa e rica onde é bom viver, Gand não corresponde a essa primeira impressão dada aos turistas

Constantemente retratada como uma cidadezinha burguesa e rica, onde é bom viver, Gand não corresponde realmente a essa primeira impressão dada aos turistas. É certo que a segunda metrópole de Flandres, com 225 mil habitantes, é relativamente segura, com uma economia – baseada na indústria têxtil, na metalurgia e no setor de serviços – que evolui favoravelmente e uma taxa de desemprego de “apenas” 8,5%. Mas, como todas as grandes cidades, Gand conta também com bairros populares menos ricos, como Dampoort, Meulestede, Muide e Nieuwvaart, que abrigam um número maior de estrangeiros e que têm maiores problemas de insalubridade e delinqüência.

Estagnação é sinal positivo

“A emergência do Vlaams Blok em Gand, em 1999, foi uma enorme surpresa, tanto para o mundo político quanto para o intelectual”, explica Marc Reynebeau2 , jornalista do semanário flamengo Knack. “Os cidadãos de Gand tinham o hábito de zombar do fenômeno de Antuérpia, mas não duvidavam nem um pouco que o VB realizaria uma tal arrancada. A coalizão de Gand, no entanto, tomou algumas medidas para evitar esse desvio eleitoral.” Na realidade, já há vários anos, a chamada maioria violeta (liberais do VLD, socialistas do SP e nacionalistas do VU&ID21) vem empreendendo um grande trabalho de reformas e renovação nos bairros populares. “Mas”, prossegue o jornalista, “essas iniciativas tiveram um efeito perverso: por um lado, suscitaram ciúmes nos bairros que não faziam parte do programa de renovação e, por outro, fizeram subir o preço dos imóveis, afetando diretamente os habitantes locais.”

O saldo eleitoral de Gand continua sendo confortável e contém elementos satisfatórios, segundo a análise de Filip Rogiers3 , jornalista do diário De Morgen: “Gand é uma cidade atípica, pois prova que a política de ‘boa governança’ também dá frutos”. Os números atestam: das eleições nacionais de junho de 1999 até o pleito municipal de outubro de 2000, o VB passou de 19,4% para 19,5%. “Ao contrário das outras cidades, onde o partido de extrema-direita ainda realiza claros avanços”, garante o jornalista, “essa estagnação é um sinal muito positivo. A execução de uma política clara, eficaz e coerente constitui um bom remédio para combater, e até erradicar, a extrema-direita. Por isso a coalizão violeta foi recompensada em termos eleitorais e pôde, portanto, manter-se no poder.”

“Política de proximidade”

“A emergência do Vlaams Blok em 1999 foi uma enorme surpresa, tanto para o mundo político quanto para o intelectual”, diz o jornalista Marc Reynebeau

Segundo Filip Rogiers, o prefeito socialista Frank Beke conseguiu formar uma equipe unida do tipo holandês* , exalando energia positiva. O que, definitivamente, não é o caso da “coalizão monstro” de Antuérpia, que reúne todos os partidos democráticos, mas cujos membros passam mais tempo brigando que buscando um acordo em relação à política a ser conduzida.

Bastante tímido e reservado por natureza, o prefeito de Gand pega sua bicicleta, todos os domingos, e vai visitar os moradores dos bairros populares, segundo o bom e velho método político do porta-a-porta: “Eu espero ficar muito atento aos problemas cotidianos das pessoas”, explica. “Estou convencido de que a individualização e o isolamento das pessoas na nossa sociedade reforçam a extrema-direita. Devemos responder a essa nova necessidade restabelecendo o diálogo entre o poder local e os moradores. Foi por isso que criamos – nos bairros mais pobres, onde coabitam autóctones e imigrantes – uma série de ‘centros de bairro’ onde assistentes sociais integradas à comunidade ajudam os moradores em seus problemas cotidianos. Também criamos um ‘sistema de diálogo permanente’ entre a população, os servidores municipais e os políticos. O objetivo é facilitar a resolução de problemas acelerando a comunicação entre as vizinhanças, os bairros e os diferentes centros urbanos.”

Insatisfação infla extrema-direita

A “política de proximidade” adotada pela coalizão violeta também se reflete em consultas populares. A cidade de Gand organizou, nos últimos anos, dois plebiscitos: sobre a criação de um estacionamento subterrâneo no centro da cidade e sobre a gratuidade dos transportes coletivos. Para satisfação da maioria dos cidadãos de Gand, o primeiro projeto foi abandonado devido ao resultado negativo na votação. Mas o segundo sofreu uma onda de críticas, já que a formulação “manipuladora” da questão criava confusão. A irritação dos habitantes de Gand atingiu seu paroxismo quando a equipe de Beke instaurou seu muito controverso “plano de mobilidade”, que o povo apelidou ironicamente de “plano de imobilidade”. De um dia para o outro, o número de placas de contra-mão multiplicou-se no centro da cidade, provocando a raiva de motoristas e comerciantes. Um descontentamento que provavelmente teve um papel nada desprezível no número crescente de votos de protesto a favor do VB.

Os números comprovam uma estagnação: das eleições de junho de 1999 até as municipais de outubro de 2000, o VB passou de 19,4% para 19,5%

“São principalmente os pequenos problemas do cotidiano que alimentam esse sentimento de insatisfação”, acrescenta Marc Reynebeau, “como o cocô de cachorro nas calçadas ou os sacos de lixo muito caros. Esses problemas são explorados pelo VB na propaganda que eles divulgam maciçamente nos bairros populares; mas exageram, principalmente a taxa de criminalidade, que é relativamente baixa.” Uma tática que se revelou frutífera: basta roubar uma bolsa para se ter a impressão que se vive numa cidade perigosa. “A percepção é que conta”, prossegue o jornalista. “Além disso, as tradicionais estruturas sociais e sindicais, que davam assistência às pessoas nesses problemas cotidianos, estão em ‘vias de extinção’, o que deixa o campo livre ao Blok.”

Focos de resistência

Por completo? Alguns grupos, como o Blokbuster, originário de círculos anarquistas, ou o Militant Links, uma organização de esquerda, chegam de tempos em tempos a organizar uma manifestação contra o VB. Mas não se trata de grandes movimentos de resistência. Outros, como o grupo Deblokkeren, fazem campanhas pré-eleitorais espalhando cartazes de celebridades que tentam dissuadir os eleitores de votar na extrema-direita. Ação que produz, segundo um bom número de especialistas, um efeito contraproducente, tendo em vista o caráter quase sempre arrogante de slogans como “eu voto inteligentemente”.

Alguns grupos, como o Blokbuster e o Militant Links, organizam manifestações contra o VB, mas não se trata de grandes movimentos de resistência

Além das organizações antifascistas, a Universidade de Gand (RUG) também se mostra sensível à presença da extrema-direita em sua cidade... e, até recentemente, dentro de seu conselho administrativo. Há cerca de um ano, os estudantes da RUG manifestaram-se contra a presença do senador Roeland Raes, do VB, no conselho administrativo de sua alma mater, e bloquearam-lhe o acesso por duas vezes. Suas reivindicações foram atendidas quando as idéias revisionistas de Raes, divulgadas pelo jornal flamengo De Morgen, permitiram ao reitor da Universidade obter sua renúncia. Na seqüência desse incidente, o Parlamento flamengo votou um decreto permitindo aos conselhos universitários elegerem os seus membros. Ironia do destino: Raes foi substituído por uma ecologista de origem turca.

Cordão sanitário em torno do VB

Mas isso não bastaria para atenuar a realidade. Uma parte do eleitorado do VB apóia “ativamente” as teses extremistas do partido. Como prova, o testemunho alarmante de Marc Reynebeau a respeito da infiltração do VB na polícia de Gand. Após ter recebido ameaças por telefone no mês de março último, o jornalista, especialista em matéria de extrema-direita – e, portanto, pouco apreciado nos meios do VB –, havia advertido imediatamente as forças da ordem. Estas lhe haviam proposto organizar algumas patrulhas em seu bairro, avisando-o que isso implicava um certo perigo. “A polícia”, enfatiza Marc Reynebeau, “me explicou que não era do meu interesse fornecer meu nome e endereço, pois isto poderia ‘dar idéias’ a certos policiais partidários do Blok. Na verdade, a ameaça por telefone não me assustou tanto quanto a reação da polícia, que me deu um sentimento real de insegurança: as forças da ordem não são capazes de me proteger porque são infiltradas pelo Vlaams Blok.”

O VB tira sua popularidade da imagem nacional do partido, e não dos patetas locais que o representam nos quatro cantos de Flandres. As figuras de frente vendem seus slogans populistas através de uma propaganda maciça e apostam cada vez mais na respeitabilidade. Mesmo Filip Dewinter, o representante bastante popular da ala radical do partido, aparou as arestas de seu “Plano de 70 pontos”, o programa de imigração racista e xenófobo do VB. Uma estratégia que não parece de todo modo trazer seus frutos: todos os partidos democráticos reafirmaram, várias vezes, sua vontade de manter um cordão sanitário impedindo o Blok de participar de toda e qualquer forma de poder.

Integridade e bom senso não bastam

Muitos partidos democráticos avaliam que é preferível situar-se no terreno do partido de extrema-direita a incitar um conflito com ele

A luta contra a extrema-direita e o VB ainda permanece tabu. As instituições públicas e a classe política flamengas continuam convencidas de que qualquer forma de contestação aberta em relação ao Blok e seu discurso corre o risco de conferir-lhe a auréola de vítima. Muitos partidos democráticos avaliam que é preferível situar-se no terreno do partido de extrema-direita a incitar um confronto ideológico com ele.

Em março de 2002, por exemplo, a maioria política não aprovou o projeto de lei outorgando o direito de voto aos estrangeiros para as eleições municipais, embora quatro dos seis partidos da coalizão apoiassem a proposta. A um ano das eleições nacionais, o partido liberal flamengo do primeiro-ministro avaliou que não era oportuno assumir qualquer compromisso a esse respeito. Da mesma maneira, a decisão do reino privando os partidos racistas de doações públicas demorou a chegar à mesa do Conselho Ministerial. E, também por isso, o juiz encarregado do processo – movido pelo Centro em Defesa da Igualdade de Oportunidades e pela Liga dos Direitos Humanos contra o VB – declarou-se incompetente, apesar do parecer da Corregedoria condenando os delitos racistas da imprensa.

O Estado belga terá que se munir de uma bateria de instrumentos para lutar contra a extrema-direita. Enquanto seus representantes não tiverem a necessária vontade política para utilizá-los, o VB continuará disseminando, tranqüila e impunemente, sua ideologia xenófoba. As pequenas vitórias cidadãs conquistadas em Gand não fazem senão limitar os estragos do partido neofascista. A denúncia das propostas revisionistas pela mídia, a recusa da indiferença pelos estudantes, o compromisso moral do reitor, a execução de uma política municipal clara e conseqüente e a ‘política de proximidade’ com os moradores revelam, simplesmente, a integridade e o bom senso. Será preciso muito mais para fazer recuar de forma definitiva o Vlaams Blok.
(Trad.: Fabio de Castro)

1 - Havia muito tempo que esse fenômeno vinha sendo preparado. Ler, de Ingrid Carlander, “Anvers la cosmopolite, Anvers la brune”, Le Monde diplomatique, maio de 1995. Com relação às ambições do VB em Bruxelas, ler, de Serge Govaert, “Bruxelles convoitée par l’extrême droite flamande”, Le Monde diplomatique, janeiro de 1998.
2 - Autor de Le Siècle de la Belgique, ed. Racine, Bruxelas, 2000, e de Het klauwen van de leeuw. De Vlaamse idetiteit van de 12de tot de 21ste eeuw, ed. Van Halewyck, Louvain, 1995.
3 - Autor de , ed. Nijgh & Van Ditmar, Amsterdã, 2001.
4 - Maioria pragmática e coerente que se distingue das alianças circunstanciais permeadas de disputas intestinas.




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