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HISTÓRIA

Como a ocupação invadiu Israel

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Após seu triunfo retumbante contra os três maiores exércitos árabes, o país encheu-se de orgulho, dinheiro e ilusão. Quarenta anos depois, a sociedade está mais frágil, atemorizada e desigual. Há quem tema por suas chances de sobrevivência

Meron Rapoport - (21/06/2007)

Às vezes, a memória engana: quando quarente anos nos separam da Guerra dos Seis Dias, uma parte dos israelenses confortam-se em crer que o período anterior a 1967 foi a idade de ouro, nosso paraíso perdido. E que Israel era uma sociedade humana e justa, onde os valores do trabalho, humildade e solidariedade se sobrepunham à ganância e ao egoísmo. Um ambiente no qual todos se conheciam e ninguém ocupava os territórios.

Evidentemente, é pura ilusão. Em 1966, ano anterior à ocupação, o desemprego atingiu a taxa recorde de 10%. A economia passou por uma forte recessão e, pela primeira vez na história, o número de israelenses que deixou o país superou o dos imigrantes. Os 400 mil árabes israelenses que não abandonaram suas cidades durante a Guerra de 1948 foram liberados do regimento militar [1]. A situação deles não deixou de ser crítica: as terras lhes foram confiscadas progressivamente para construir novas colonias judaicas.

A partir da Guerra dos Seis Dias, Israel foi considerado uma superpotência militar regional e, até mesmo, internacional. Em poucos tempo, a guerra modificou a economia nacional. A properidade pôs fim à recessão e baixou fortemente a taxa de desemprego. Quarenta anos mais tarde, o país é outro. Em 1967, o PIB por habitante era de US$ 1.500; em 2006, chegou a US$ 24mil. Israel passou ao 23º lugar no "Relatório de Desenvolvimento Humano de 2005", do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD). Mais de 1,5 milhão de judeus se chegaram. A população judia total passou de 2,4 milhões para 5,5 milhões. Compreende-se, assim, por que a maioria dos cidadãos israelenses consideram a Guerra dos Seis Dias como um momento decisivo para o sucesso do país.

Porém, para os outros, 1967 contitui-se na causa de todos os males. Teoricamente, a esmagadora vitória das Forças de defesa de Israel frente aos três principais exércitos do mundo árabe — do Egito, Jordânia e Síria — deveria ter promovido um sentimento de segurança. Não foi o caso. Desde 1967, o país passou por, pelo menos, seis conflitos: guerra pelo uso do canal de Suez (1968-1970), Guerra de Kippur (1973), as duas Intifadas (1987-1993 e 2000-2005) e as duas guerras contra o Líbano (1982 e 2006). Cinco mil israelenses e 50 mil árabes (egípcios, sírios, libaneses e palestinos) morreram. Em resumo, o sétimo dia da Guerra dos Seis Dias ainda não terminou.

A dificuldade do país não é apenas o prolongamento do conflito: o exército não está obtendo vitórias. Também historiador, o general reformado Dov Tamari observou, logo depois dos acontecimentos do Líbano (julho de 2006), que a guerra de 1967 foi a última vitória incontestável de Israel. Segundo Tamari, todos os outros braços-de-ferro desembocaram numa retirada ou numa derrota. E, muits vezes, Tel-Aviv fez importantes concessões. Assim, a Guerra de 1973 resultou na retirada total do Sinai, conforme os acordos assinados com o Egito em 1979. A primeira Intifada conduziu aos acordos de Oslo em 1993. A invasão do Líbano, em 1982, terminou numa retirada incondicional, em 2000. Já a segunda Intifada desmantelou as colonias de povoamento de Gaza em quase dois anos.

Uma vitória que apenas ampliou a sensação de medo

No último conflito contra o Líbano, enquanto a classe política acreditava na vitória, somente 20% dos israelenses — segundo uma pesquisa publicada pelo jornal Haaretz, uma semana antes do fim da guerra — diziam-se crentes do triunfo do país. Essa dificuldade de obter uma vitória honesta explica porque um veterano da política israelense, que prefere manter-se anônimo, afirma não estar certo que Israel sobreviva por mais vinte anos. No lugar de apaziguar os medos, os quarenta anos de ocupação não fez mais do que acentuá-los.

Faz tempo que as coisas se turvaram. Após o triunfo de 1967, o general Moshe Dayan, eminente dirigente político da época, pronunciou a célebre frase: "Nós esperamos uma chamada telefônica dos árabes". Ele pretendeu difundir a idéia de que Israel se retiraria dos territórios ocupados — Sinai, Faixa de Gaza, Cisjordânia e Colinas de Golã — em troca de acordos com o mundo árabe. No seu livro 1967 [2], o historiador Tom Segev demonstra que a "boa" intenção do governo israelense não era verdadeira. Mas a posição de Israel foi percebida, no país e em todo o mundo, segundo as palavras de Dayan.

Nesse mesmo período, Israel engrenou, em outro lugar, um processo que tornaria todos os acordos de troca de territórios pela paz quase impossíveis. O primeiro-ministro trabalhista Levi Eshkol, considerado moderado, deixou os primeiros colonos instalarem-se na Cisjordânia (em Kfar Etzion) antes do fim de 1967. Dayan, então ministro da Defesa, ordenou a destruição de vilas e vilarejos sírios no platô do Golã ocupado para permitir a construção de uma colônia israelense sobre as ruínas da cidade síria de Kuneitra. E, no início de 1968, os israelenses foram autorizados a viver no coração da cidade ocupada de Hebron.

Quarenta anos depois, estamos diantes dos resultados. O centro de Hebron transformou-se numa cidade fantasma, onde os palestinos não são autorizados a habitar, passear e, sequer, fazer compras. Tudo isso para deixar o lugar livre para não mais do que 500 colonos judeus. Não é por azar, que o primeiro atentado-suicida na cidades — após o do Baruch Goldstein em 1994 — matou 39 muçulmanos no seio da mesquita de Abraham, na caverna dos Patriarcas.

Colônias de ocupação: o monstro ameaça Israel, seu criador

É suficiente olhar um mapa para compreender que as colônias da Cisjordânia foram construídas de acordo com um plano estabelecido: de uma parte, para isolar as comunidades palestinas uma das outras, e de outra, para criar uma continuidade entre as colônias judaicas e o território do Estado de Israel de antes de 1967. Essas implantações também foram construídas ao redor dos bairros árabes de Jerusalém, para separá-los (a parte oriental) das cidades e aldeias palestinas . Depois, construídas no vale do Jordão, para separar a margem oeste do Jordão da Jordânia. As estradas foram construídas ao longo das colônias, no coração da Cisjordânia, para cortar Naplus de Ramallah, ou Kalkilya de Tulkarem.

Grande arquiteto da colonização, Ariel Sharon declarou abertamente, em 1975, que seu objetivo era impedir a criação de uma entidade palestina. Apoiada por todos os governantes, de direita e esquerda, a estratégia foi bem sucedida. Atualmente, mais de 150 mil israelenses habitam centenas de colônias na Cisjordânia, e mais de 200 mil ocupam as novas aglomerações construídas na Jerusalém ocupada. Tal número permite modificar a atitude da classe política a esse respeito. Com exceção das formações árabes e do Partido Comunista, todos os dirigentes israelenses — de Yossi Beilin a Ami Ayalon, e de Ehoud Olmert a Tzipi Livni — consideram que a união dos "blocos de colônias" é parte integrante de qualquer acordo de paz. O fantasma do famoso muro de separação visa integrá-los a Israel.

O que é estranho é que esses mesmos dirigentes, incluindo Sharon, admitem — privada e , às vezes, publicamente — que as colônias constituem o principal obstáculo à assinatura de um acordo de paz com os palestinos e o mundo árabe. Israel é como uma vítima desse monstro que ele mesmo articulou, durante 40 anos de ocupação. É impossível absorver tais colônias sem anexar a margem oeste do Jordão, um passo que mesmo os governantes de extrema direita recusaram-se a dar. Tal recusa deve-se às implicações internacionais, jurídicas e demográficas. A diferença de taxa de natalidade faria com que o "Grande Israel" comportasse uma maioria palestina. Porém, os governantes não podem se desembaraçar das colônias, na medida em que tornaram-se componentes da sociedade israelense. A colonização tornou-se uma armadilha.

Israel tombou voluntariamente? Está tão acostumado à ocupação ao ponto de não poder mais ficar sem ela? Há quarenta anos, vivemos em uma sociedade baseada em privilégios. Mesmo antes da Guerra dos Seis Dias, os novos imigrantes originários de países árabes tinham direitos inferiores aos dos judeus provenientes da Europa. E os palestinos que viviam em Israel eram, da mesma forma, desfavorecidos. Mas depois de 1967, o Estado instaurou um sistema oficial de descriminação. Ele privou milhares de palestinos habitantes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (em 1967) de seus direitos políticos [3]. A vida deles passou — em todos os aspectos — para o controle dos comandantes militares.

Com a "riqueza", desigualdade social cada vez mais mais alarmante

Ao longo desses 40 anos, as relações entre os palestinos que vivem sob a ocupação e os israelenses são profundamente desastrosas. A situação de benefício de alguns e privação de direitos de outros parece absolutamente normal. As restrições cada vez maiores impostas aos palestinos, em matéria de deslocamento, e o fato de os israelenses só poderem encontrá-los na Cisjordânia quando servem como soldados levaram à acentuação das diferenças.

Um dos maiores solavancos da sociedade israelense após 1967 foi sua rápida transformação em uma sociedade capitalista moderna. Os grandes trabalhos desencadeados após a guerra criaram uma potente classe de empreendedores, que exploraram a mão-de-obra dos territórios ocupados a baixo custo. Bilhões de dólares — desde 1973, os EUA concedem 3 bilhões por ano a Israel, a título de ajuda militar — são investidos em alta tecnologia militar, tranformando o país em superpotência high-tech.

Devido ao sistema de privilégios instaurado com a ocupação, a sociedade foi progressivamente dividida, até um ponto extremo. Em 1967, mais de 80% da força de trabalho estava ligada a um sindicato único e potente, que controlava um terço da economia nacional. Os kibbutzim recebiam grande atenção. Atualmente, com menos de 25% de trabalhadores sindicalizados, temos uma das sociedades mais injustas do mundo ocidental: se considerarmos os coeficientes de Gini, que mede as desigualdades, o Estado hebreu ocupa o 62º lugar — um dos piores entre as economias avançadas [4]. Dezoito famílias controlam 75% da economia. Tal situação é, parcialmente, consequência da Guerra de Seis Dias.

Há outros resultados importantes. Depois de 1967, o conflito palestino-israelense ocupou um lugar preponderante (senão o mais importante) na cena internacional. Israel lucrou com tal conjuntura. Suas excelentes relações com os EUA, seu papel destacado na geopolítica do planeta, seu potente exército e sua prosperidade devem-se a esta posição. Assim como o fato de a Liga Árabe, após recusar todos os tipos de negociação, ao final da Guerra de Seis Dias, propor-lhe, agora, que conclua uma paz global com os países árabes.

Após a derrota de 2006, o medo do suposto "gigante islâmico"

As conseqüências de 1967 envolvem, também, aspectos muito negativos. Se Israel ganhou um lugar tão privilegiado no Ocidente, é porque o Estado hebreu é considerado uma sangrenta linha de frente entre Ocidente e Oriente — entre a civilização "judaico-cristã" (estranha combinação quando se conhece a história dessas duas religiões) e a muçulmana. Depois dos atentados do 11 de setembro, essa visão foi largamente disseminada, sobretudo, pela direita religiosa, para quem, após 1967, a colonização das terras de Israel obedece à vontade divina. Tal perspectiva transformou o conflito territorial e político em cultural e religioso. O vice primeiro-ministro e chefe do Partido Israel Beitenou ("Israel, nossa casa"), que preconiza a transferência de zonas árabes de Israel para os territórios ocupados, declarou ao jornal Haaretz que país era um "exemplo do mundo livre" [5].

Isso explica o sentimento apocalíptico que tomou conta de diversos setores da sociedade israelense após o conflito do Líbano, em 2006. Na medida em que o Hezbollah é apresentado como o braço armado do Irã, e a República Islâmica como a articuladora dessa "guerra de civilizações", o fracasso do exército israelense (poderoso e ultra-sofisticado) frente a alguns milhares de combatentes xiitas (vistos como mal-treinados) representou um trauma. Muitas pessoas interpretaram o fato de milhares de foguetes atirados sobre o norte de Israel — durante um mês, sem que o exército se mobilizasse — como o sinal que nós, israelenses, não somos desejados na região e poderemos ser derrotados pelo gigante muçulmano.

Esses quarenta anos paralisaram a sociedade a tal ponto que seus governantes não têm ombridade para realmente solucionar o conflito. A ocupação terminou por invadir Israel.

Tradução: Carolina Gutierrez
carol@diplo.org.br

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Nesta edição, sobre o mesmo tema:

A batalha que incendiou o Oriente Médio
Quarenta anos depois, um retorno “Guerra dos Seis Dias” revela: o conflito que envenenou as relações entre Israel e Palestina não teve como origem a disputa entre os dois povos. Seria um sinal de que a paz é possível?

Sob o signo da frustração
A derrota no conflito de 1967 transtornou o mundo árabe. É a partir dos traumas associados a ela que crescem a influência da religião, a tentação da violência, o conservadorismo moral como forma de “purificação” e os governos cada vez mais afastados de seus povos

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Dinastias, golpes e... insurreições
Desde a constituição de seus Estados nacionais, o mundo árabe tem sido marcado por governos que se eternizam (muitas vezes apoiados por potências estrangeiras) e por fortes sobressaltos políticos. O período pós-67 manteve esta tendência



[1] Esse regimento, que os obrigava a toque de recolher e a pedir licença para se deslocar, favoreceu a judeização das regiões árabes de Israel.

[2] Tom Segev, 1967, Denoël, Paris, 2007.

[3] Atualmente, são 3,5 milhões de palestinos nestas condições

[4] Para o coeficiente de Gini, zero representa a perfeita igualdade. Em 2006, Israel obteve 39,2 contra 36 do Reino Unido; 32,7 da França; 28,3 da Alemanha; e 40,8 do sEUA.

[5] Haaretz, Tel-Aviv, 30 de março de 2007.


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