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ALBÂNIA

A Otan e a questão dos Bálcãs

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O ’espaço albanês’ é uma representação legítima da identidade lingüística e cultural dos albaneses da Albânia, do Kosovo, da Macedônia e de Montenegro. Compará-lo a um projeto nacionalista seria considerar os albaneses uma “nacionalidade inexistente”

Nils Andersson - (01/06/2002)

A tese de uma “Grande Albânia” provoca irritação. Para o jornalista Mustapha Nano “o projeto é mais estrangeiro do que albanês”

Em 1913, a Conferência de Londres reconhecia a independência da Albânia – embora considerando os albaneses uma “nacionalidade inexistente” – e partilhava seus territórios com a Sérvia: nascia, assim, a questão do Kosovo. Ao fazê-lo, talvez as grandes potências se tivessem inspirado num genial livro de Léon Lamouche que, em 1898, escrevia: “Essa região é, de certa maneira, a quintessência de toda a Europa Oriental. Não é de estranhar que tenham surgido graves questões em meio a uma população tão mesclada, em que as tendências e os interesses se cruzam de uma forma inextricável1.”

A Grande Sérvia, o nacionalismo ustachi croata, a Grande Bulgária, a megali Idea grega2: cada uma dessas ideologias irredentistas3 pretendia redesenhar as fronteiras de seu país tomando por referência o momento que lhe fora mais favorável nos movimentos de invasões, migrações e guerras que constituem a história dos Bálcãs. Como a quadratura do círculo: causa e efeito de ódios e guerras, cada um é o espoliado do outro. Quando, por volta de 1870, os albaneses forjaram sua própria megali Idea, tomaram por referência a epopéia de Skanderberg. Como jamais existira uma “Grande Albânia”, antiga ou medieval, identificaram seus limites às regiões onde se falava albanês. Italianos e alemães exploraram essa Idea durante a II Guerra Mundial, antes que o conflito do Kosovo a reacendesse.

Mudaram interesses, ruíram mitos

A questão de uma “Grande Albânia” provoca irritação na Tirana dos dias de hoje. Genc Pollo, presidente do Partido Democrático R(reformador), considera que, “a respeito da questão nacional, os albaneses encontram-se numa situação de mea culpa permanente”, enquanto, para o jornalista Mustapha Nano, “o projeto de uma Grande Albânia é um tema mais estrangeiro do que albanês e, se existisse, seria suicida”. Para o primeiro-ministro Pandeli Majko, “seria inteiramente ilógico que a Albânia participasse e se empenhasse no processo de integração européia com uma mentalidade nacionalista anterior à II Guerra Mundial”.

As crises internas, as guerras, a tutela exercida sobre os Bálcãs e a expatriação de centenas de milhares de albaneses mudaram o sentimento nacional

Declarações de princípio? Não. As crises internas, as guerras, a tutela exercida sobre os Bálcãs e a expatriação de centenas de milhares de albaneses mudaram o sentimento nacional. Na opinião de Sabri Godo, ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores, “há uns sete ou oito anos, diante da ameaça sérvia, a idéia de união da nação era mais forte entre os albaneses. Quase eternamente separados, queríamos muito poder abraçar-nos, beijar-nos, mas esse sentimento desaparece. Mudaram os modos de vida, os interesses e os diferentes níveis de vida, ruiu o mito da Albânia como centro da cultura albanesa”.

A necessária integração regional

O ex-ministro Genc Ruli, diretor do Instituto de Estudos Contemporâneos, destaca os motivos pragmáticos: “As três populações albanesas enfrentam problemas muito diferentes. Os albaneses do Kosovo querem um país e um governo. Os albaneses da Macedônia enfrentam um problema de discriminação. Para os albaneses da Albânia, o problema está nas questões de desenvolvimento, de trabalho, de emigração e, se o nacionalismo é cego, o instinto é quase sempre sensato. A unificação não significaria uma vida melhor.” Pode ser que existam sentimentos nacionalistas mais radicais no Kosovo e na Macedônia, é claro, mas há uma certa verdade na tirada de Mustapha Nano: “Mesmo que o Ocidente quisesse, essa unificação seria irrealizável.”

Por outro lado, seria um grave erro confundir a idéia da Grande Albânia com a noção de espaço albanês, representação legítima de uma identidade lingüística e cultural comum aos albaneses da Albânia, do Kosovo, da Macedônia e de Montenegro. Compará-lo a um projeto nacionalista equivaleria a considerar os albaneses, como antes, uma “nacionalidade inexistente”. Genc Ruli chega a ver nessa “noção de espaço albanês, um fator, talvez importante, para as boas relações com os outros países da região”.

Uma preocupação fundamental, pois embora a Albânia só deseje voltar-se para o Ocidente, nem por isso deixa de pertencer aos Bálcãs e sua segurança depende da evolução dessa região, composta por países frágeis. Por isso, Genc Pollo vê “na integração regional uma boa forma de reduzir as tensões, criando uma situação mais vantajosa às relações entre esses países e à sua integração à União Européia e à Otan”.

Um quadro de instabilidade

Seria um grave erro confundir a idéia da Grande Albânia com a noção de espaço albanês, representação legítima de uma identidade lingüística e cultural

A integração à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é o segundo “suplício de Tântalo” dos albaneses. Ao longo de todo o processo de implosão da Iugoslávia, e principalmente durante a guerra do Kosovo, os albaneses viam na aliança um protetor. Em meio à tempestade, o governo “pôs à disposição da Otan o seu território, o seu espaço aéreo e suas águas territoriais4”. Quando a casa pega fogo, chamam-se os bombeiros sem analisar todos os parâmetros ou avaliar os desgastes colaterais provocados pela sua intervenção. Ainda hoje, a Otan é considerada como uma “garantia” para a segurança do país e, para o ministro da Defesa, Luan Rama, a melhor prova disso é que, “se ela saísse da região, deixaria o campo livre às atividades dos extremistas”.

Que sentido dá a Albânia a essa integração? “Considerando o meu perfil” – explica Luan Rama (formado em Letras, jornalista e ex-ministro da Cultura) – “recuso a demagogia da politicagem: trata-se de concretizar um projeto. Não se trata de tirar vantagens nem de uma ação de caridade para podermos resolver nossos problemas internos. Queremos aderir à Otan? Então, precisamos fazer outra pergunta: o que irá significar essa contribuição? Para compreendê-la, tem que ser levada em conta a situação da região. Os Bálcãs continuam sendo uma zona problemática. A questão institucional da Macedônia não pode ser resolvida pela força... No Kosovo, ainda persistem muitos problemas e as instituições são frágeis. A minoria sérvia não se sente segura, em parte pelos crimes cometidos por sérvios, mas também porque grupos extremistas albaneses não compreenderam que a guerra acabou... Em Montenegro, persiste o dilema entre partidários da independência e os que desejam a integração à Sérvia... Na Sérvia, se um ilusionista realizasse um plebiscito a favor ou contra a Otan, esta seria, evidentemente, rejeitada.” Do contexto desse quadro, emerge uma Albânia menos instável que seus vizinhos e, principalmente, em completa solidariedade com a aliança.

Novos candidatos à Otan

Ao longo de todo o processo de implosão da Iugoslávia, e principalmente durante a guerra do Kosovo, os albaneses viam na Otan uma presença protetora

No âmbito da integração à Otan, a reforma dos exércitos prevê uma redução dos efetivos dos atuais mais de 40 mil homens para 16 mil, assim como uma diminuição dos armamentos, mas, explica Luan Rama, “esse desafio da Albânia não deve ser isolado de uma evolução semelhante no resto dos Bálcãs, num espírito de coexistência entre Estados soberanos e na perspectiva de uma integração balcânica”. Os discursos nacional-populistas nos Bálcãs, e mais além, nos países vizinhos, assim como a aquisição de tanques e aviões – caso da Macedônia, por exemplo – não incentivam um clima de segurança. Mas o primeiro-ministro, Pandeli Majko, insiste em afirmar: “Fora da diplomacia, não existe possibilidade de segurança nos Bálcãs, uma segurança indispensável à integração européia. Esta não deve basear-se em interesses nacionalistas ou em lobbies, e sim, inserir-se num processo que englobe toda a região. Nesse sentido, esforçamo-nos por fazer o que compete à Albânia, sem dizermos que somos os melhores, mas sem admitir que sejamos os piores.”

No próximo mês de novembro, em Praga, deverão ser escolhidos, entre nove países candidatos, os que serão admitidos na Otan. A conferência preparatória, em Bucareste, já descartou as candidaturas da Albânia e da Macedônia. O que representou uma desilusão considerável para o governo albanês: o papel de retaguarda desempenhado pela Albânia durante a guerra do Kosovo, assim como a sua moderação por ocasião do conflito na Macedônia, eram, na opinião dos governantes, um trunfo a seu favor. Mas a vontade da Otan, bem como a da Europa, não é senão a de manter a região sob sua tutela, ainda que os albaneses se possam considerar excluídos e passem por uma grave crise de identidade.
(Trad.: Jô Amado)

1 - La Péninsule balkanique, ed. Paul Ollendorf.
2 - De acordo com essa concepção, a Grécia se estenderia por “dois continentes e cinco mares”, incluindo uma parte da Turquia.
3 - N.T.: O irredentismo é uma doutrina política nacionalista que reivindica a anexação de territórios onde seja falado o mesmo idioma.
4 - Shaban Murati, AIM, 20 de julho de 1999.




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