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Heranças e contradições da era Nasser

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Cinqüenta anos após a Revolução dos Oficiais Livres, a personalidade e a ação política desenvolvida por seu principal líder, Gamal Abdel Nasser, ainda são objeto de polêmicas

Kamel Labidi - (01/07/2002)

A reforma agrária, a distribuição da riqueza e a nacionalização do Canal do Suez aumentaram o prestígio e a influência de Gamal Abdel Nasser

Os autores da Revolução de 23 de julho de 1952, que depuseram o rei Faruk, do Egito, numa época em que o poder estava em mãos das autoridades coloniais britânicas, e a maioria das riquezas – principalmente agrícolas – era dominada por uma minoria de egípcios, surgiram como arautos de um grande projeto social para o seu país e para o restante dos países árabes. A reforma agrária, a distribuição da riqueza, a nacionalização do Canal do Suez e a construção da barragem de Assuan aumentaram o prestígio e a influência do principal articulador do Movimento dos Oficiais Livres, Gamal Abdel Nasser.

No entanto, a avaliação de Nasser, que governou o país até sua morte, em 28 de setembro de 1970, continua divindindo os egípcios e suscitando polêmicas. O principal pomo de discórdia refere-se à atitude de uns e outros em relação ao poder centralizado e pessoal, exercido por um líder carismático que disseminou enormes esperanças, não só para o Egito, mas para toda uma região longamente humilhada pela colonização e sedenta de independência, de desenvolvimento e de dignidade. Um poder que resistiu às potências coloniais da época, combateu a pobreza e as desigualdades sociais, mas, ao mesmo tempo, desencadeou uma repressão violenta contra intelectuais e opositores de todo tipo, como, por exemplo, os Irmãos Muçulmanos e a esquerda.

Os documentos proibidos

Professora de Ciência Política na Universidade do Cairo, filha mais velha e colaboradora assídua de seu pai, Hoda Abdel Nasser admite que continua fascinada com o seu projeto político. Dedica-se há mais de trinta anos à pesquisa e leitura de documentos que poderiam realçar a imagem de um líder acusado de ter contribuído para esfacelar esse sonho político compartilhado durante dezoito anos por milhões de árabes. E desmente essas acusações, divulgadas, inicialmente, pelo presidente Anuar El Sadat, sucessor de Nasser, assassinado em 1981.

Baluarte da luta anticolonialista, Nasser também desencadeou uma repressão violenta contra opositores de todo tipo, como os islamitas e a esquerda

“Ele foi atacado de uma forma injusta e descrito como um dirigente que não dava ouvidos a ninguém. Porém, ao contrário, tinha uma enorme capacidade de ouvir e questionava-se a si próprio constantemente. Chegou a apelar publicamente para que fosse exercida uma vigilância contra a influência nefasta de grupos de pressão que existiam entre seus colaboradores mais próximos”, diz ela, lamentando ainda não ter conseguido acesso às atas das reuniões ministeriais presididas por Nasser. “Consegui acesso aos arquivos oficiais ocidentais, principalmente britânicos e norte-americanos, que tratavam das relações com o Egito durante a presidência de Nasser. Mas, até o momento, não consegui permissão para ler os documentos ministeriais egípcios dessa mesma época. Depois de cinqüenta anos, não deveriam existir documentos secretos”, acrescenta, indignada.

Aumenta liberdade de expressão

Os vários depoimentos de companheiros de Nasser, assim como de seus opositores e vítimas, acrescentados aos documentos publicamente divulgados pelo Foreign Office britânico e pelo Departamento de Estado norte-americano, ainda não permitiram fazer uma avaliação clara e profunda da Revolução dos Oficiais Livres, delimitando suas responsabilidades – não só na derrota humilhante infligida ao Egito por Israel em junho de 1967, mas também na construção de um temível aparelho policial-militar.

As condições para um debate sereno ainda não parecem existir. No entanto, a atitude por parte do governo para com a herança de Nasser e seus partidários evoluiu ao longo do tempo e a margem de liberdade de expressão aumentou sensivelmente.

Um novo projeto de lei que tratava da divulgação de documentos oficiais e proibia o acesso a documentos considerados “secretos por razões de segurança nacional” foi arquivado pelo governo após ter suscitado vivas reações entre jornalistas e intelectuais. Foi criada uma comissão para discutir seus aspectos negativos: “Esse projeto viria juntar-se às leis de imprensa que já estão em vigor. E o resultado dessa lei” – explica Salama Ahmed Salama, um dos colunistas mais respeitados da imprensa oficial – “seria uma sociedade fechada, que não conhece a sua hstória, o seu patrimônio1.”

Cerco aos nasseristas

Depoimentos de companheiros de Nasser, assim como de seus opositores, ainda não permitiram fazer uma avaliação clara da Revolução dos Oficiais Livres

O número de livros, de artigos publicados e mesmo de programas de televisão em canais privados fazendo a apologia de Nasser e abordando o período de seu governo aumentou bastante com a proximidade do 50º aniversário do golpe de Estado que mudou tão profundamente a fisionomia do Egito, permitindo-lhe exercer uma influência sem precedentes sobre o mundo árabe e em escala mundial.

Ao contrário de seu antecessor, Anuar El Sadat, o presidente Hosni Mubarak considera que o verdadeiro perigo para o regime vem dos radicais islâmicos, e não dos nasseristas, severamente reprimidos até o assassinato do presidente Sadat por um comando islâmico em 6 de outubro de 1981. A partir de então, o país encontra-se em estado de emergência, o que permitiu ao poder desencadear uma guerra sem tréguas contra grupos islâmicos armados, manter a sociedade sob rígido controle e condenar à marginalização os partidos políticos reconhecidos2.

Apesar desse clima de exceção, o Partido Árabe Democrático Nasserista (PADN) conseguiu, em 1990, por meio de uma medida judicial, adquirir uma sede numa rua do Cairo. Logo em seguida, no entanto, as brigas internas provocaram a saída de um bom número de militantes e o enfraquecimento do partido. “Para a maioria dos nasseristas, o drama está no fato de não terem tradição de trabalho de grupo e de serem incapazes de analisar criticamente a experiência de Nasser, ou mesmo de desenvolver o seu pensamento”, avalia Mahmud Kandil, um nasserista independente e ativista de direitos humanos. “As brigas internas, que opõem a velha guarda à militância jovem, chegaram ao paroxismo em meados da década de 90 e acabaram enfraquecendo o PADN e criando um clima de renúncia e decepção entre os militantes mais sinceros.”

“Ouvir e obedecer”

Ao contrário de Sadat, o presidente Hosni Mubarak considera que o verdadeiro perigo para o regime vem dos radicais islâmicos, e não dos nasseristas

Por seu lado, Mohamed Fayek, – ex-ministro da Informação, responsável pelas relações com os movimentos de libertação durante o governo Nasser e atual presidente da Organização Árabe de Direitos Humanos (OADH) – explica que “a corrente nasserista é muito ampla, mas o problema é que existem obstáculos à liberdade de ação dos partidos políticos”.

A questão das liberdades individuais não era uma prioridade para esse ex-ministro de Nasser até o dia em que foi preso por ordem do presidente Sadat. “Quando um ministro é condenado a dez anos de prisão por ter manifestado sua discordância do presidente da República e apresentado sua renúncia, então é porque há uma crise profunda no regime”, justifica-se Fayek, lembrando que, na época de Nasser, o tema mais candente era o que se referia aos “crimes perpetrados pelos colonizadores, e não o das violações de diretos humanos, como é o caso agora”.

Análise da qual não partilha, naturalmente, um homem como Refaat Al Said, secretário-geral do Partido da Aliança Nacional Progressista e Unitária, que foi “barbaramente torturado nos ‘centros de detenção da Revolução’” por ter dado “um apoio crítico” a um novo regime sedento de “apoios incondicionais”. “Nasser tratou-nos como alunos que devem limitar-se a ouvir e obedecer. Não aceitava crítica alguma, nem sugestões ou modificações, caso sua decisão tivesse sido tomada”, acrescenta esse dirigente político que já fora preso, uma primeira vez, no final do reinado do rei Faruk.

Liberdade, mas com limites

Refaat Al Said, dirigente político, foi “barbaramente torturado” por ter dado “um apoio crítico” a um novo regime sedento de “apoios incondicionais”

“Devemos reconhecer os erros e as flagrantes violações de direitos humanos cometidos durante o governo de Nasser, tais como o enforcamento do mártir Sayed Qotb * e a perseguição aos islamitas e aos comunistas. Deveríamos manifestar nossos pedidos de desculpa às famílias dos militantes desses movimentos”, diz Hamdin Sabbahi, parlamentar e líder do Partido Karama (Dignidade), uma organização nasserista não-autorizada. Ex-presidente da União dos Estudantes da Universidade do Cairo, não conheceu pessoalmente Nasser, mas passou várias vezes pela cadeia por ter defendido princípios que lhe são caros. Para ele, foi a “pouca participação popular na Revolução de 23 de julho de 1952 e a prioridade dada a questões de segurança sobre as de ordem política que permitiram que a própria revolução fosse tão profundamente afetada”.

Atualmente, são inúmeras as organizações de defesa de direitos humanos e sindicatos – entre as quais a Organização Egípcia de Direitos Humanos e o Sindicato dos Advogados – que são dirigidos por personalidades consideradas nasseristas. Assim como seus amigos políticos, que continuam ocupando cargos influentes nos meios de comunicação oficiais e na área cultural, essas pessoas dispõem de uma grande liberdade de expressão, embora conscientes da existência de limites que não devem ser ultrapassados – principalmente na forma de críticas ao presidente Mubarak ou a chefes de Estado de países irmãos.

Conquistas ameaçadas

Porém, apesar do medo instilado pela polícia política no país inteiro, e mesmo na opinião de seus opositores, Nasser continua sendo considerado um líder histórico que soube ocupar um lugar privilegiado no coração das pessoas mais pobres e entre os intelectuais. O dramaturgo e escritor Tawfik Al Hakim contou, no dia seguinte ao da morte do raís, como ele próprio tinha cedido diante do seu “poder de sedução” e das “imagens esplêndidas das realizações da Revolução4”...

Atualmente, são inúmeras as organizações de defesa de direitos humanos e sindicatos que são dirigidos por personalidades consideradas nasseristas

Abul Ela Mahdi, ex-líder do movimento estudantil islâmico e um dos participantes do forum Egito pela Cultura e pelo Diálogo, avalia que “os aspectos positivos da época nasserista são inegáveis”. “As reformas sociais e o ensino e a assistência médica gratuitos permitiram que surgisse no país uma nova elite, saída das camadas sociais mais modestas”, explica esse jovem engenheiro que, já há alguns anos, afastou-se da militância no movimento dos Irmãos Muçulmanos5. Ora, essas conquistas sociais estão em vias de desaparecer rapidamente, devido ao programa de privatização adotado há mais de dez anos e acompanhado de perto pelos credores do Egito. Ainda que, até o momento, o Estado pareça resistir às pressões populares.

Os privilégios de aluguéis baixos para os antigos contratos de locação ou de ajuda material aos estudantes de famílias necessitadas “estão por um fio”, confirma Mahmud Kandi, enquanto “o que sobrou do serviço público no país foi deteriorado, devorado por uma privatização marcada pela corrupção, sob o olhar cúmplice de sindicalistas aliados aos novos ricos”.

Integração com o mundo árabe

Atualmente, não é raro – como observa Imed Chahin, professor de Ciência Política na Universidade norte-americana do Cairo – ver manifestantes, hostis à política do governo, brandindo cartazes com a fotografia de Nasser e mesmo gritando palavras de ordem nasseristas, como “Levanta a cabeça bem alto, meu irmão!”

A nostalgia da época nasserista cresceu ainda mais em abril e maio deste ano, por ocasião das agressões do exército israelense contra o povo palestino. Além das fotografias de Nasser, presentes nas manifestações por todo o país, voltaram subitamente à moda velhas canções nacionalistas, de Um Kalsum, Abdel Halim Hafez e Mohamed Abdel Wahab, chamando Nasser de “exemplo do nacionalismo”, apelando à unidade árabe e à resistência contra a invasão e o colonialismo israelenses. Por toda parte, ouviam-se as palavras de Abdel Wahab: “Oh, irmão, as injustiças passaram dos limites! A guerra santa e o sacrifício passaram a ser um dever!”

Para Mahmud Abdel Fadhil, ex-chefe do departamento de Ciências Econômicas na Universidade do Cairo, “esse intenso sentimento popular de solidariedade para com a Intifada é fruto da Revolução de julho”. E lembra que Nasser “soube romper com as correntes isolacionistas que defendiam prioritariamente o fato de o Egito pertencer à civilização faraônica ou mediterrânea”. Segundo Fadhil, uma das principais realizações da Revolução de 23 de julho foi ter desenvolvido no povo, “tanto nas elites, quanto nas outras camadas sociais”, o sentimento de que o seu país é parte integrante da nação árabe e que “não pode existir desenvolvimento econômico ou ação política dignos desse nome fora desse contexto”.

Distância cresce entre ricos e pobres

Nasser continua sendo considerado um líder histórico que soube ocupar um lugar privilegiado no coração das pessoas mais pobres e entre os intelectuais

A política da Infitah (abertura) econômica iniciada por Sadat e aporfundada por Mubarak deve levar em conta, acrescenta Abdel Fadhil, a existência, no Egito, de “importantes forças sociais e uma elite influente que defendem um desenvolvimento econômico independente, idéia que era cara a Nasser”.

A campanha pelo boicote de produtos israelenses e norte-americanos, lançada pelo Comitê de Apoio à Intifada do Povo Palestino em colaboração com organizações sócio-profissionais, dá uma idéia da dimensão dos sentimentos nacionalistas que existem na sociedade. A própria imprensa oficial repercutiu a notícia, embora a crescente dependência econômica e militar em relação aos Estados Unidos provoque críticas inflamadas, tanto nos meios políticos quanto intelectuais.

Essas críticas tendem a aumentar, na medida em que a dependência se faz acompanhar pela distância crescente que separa ricos e pobres e por uma brusca freada na mobilidade social que, após a Revolução de 23 de julho, ganhara um impulso sem precedentes.

Uma tática “desastrada e burra”

“É normal”, explica Abdel Fadhil, “que as pessoas que tenham compreendido o sentido da justiça social e da dignidade oponham resistência a qualquer tentativa de dilapidar direitos adquiridos e sintam saudade dos tempos de Nasser – e mesmo que tenham tendência a esquecer os atentados às regras básicas da democracia e os excessos de poder pessoal de Nasser.”

Mas o atual poder – que, a esse respeito, é considerado pelo historiador Cherif Yunes, da Universidade de Heluan, “um bom aluno da escola nasserista” – não parece disposto a permitir que se organize essa resistência, e menos ainda a correr o risco de uma verdadeira democratização das instituições do país. Estas continuam nas mãos de uma maioria de pessoas que fez seu aprendizado político, antes da morte de Nasser, nas fileiras da Organização da Juventude Socialista (OJS) e da União Socialista Árabe (USA). “Os próprios sindicatos estão na dependência do poder. Exatamente como nos tempos de Nasser”, acrescenta Yunes.

Não é raro ver manifestantes, hostis à política do governo, brandindo cartazes com a fotografia de Nasser e gritando palavras de ordem nasseristas

Outra herança dos tempos de Nasser, a lei de exceção permite amordaçar a sociedade, mas não impede que certas correntes políticas se desenvolvam na clandestinidade. Fortemente combatido e interditado – exceto por um breve período durante o governo de Sadat –, o movimento islâmico egípcio, por exemplo, consideradas todas as suas tendências, tornou-se a principal força de oposição no país, muito mais importante que os nasseristas que, por sua vez, também buscam uma identidade religiosa. “O Estado não concede o direito de existir aos islamitas e até ignora os elementos mais moderados, como os do Wassat. É uma tática desastrada e até burra”, avalia o jornalista Mohamed Sid Ahmed.

Os militares na cena política

Um dos grandes erros, que talvez tenha custado muito caro ao país, foi privar os estudantes, a partir de 1952, do aprendizado da democracia e da liberdade. Segundo Mohamed Nur Farhat, professor de Direito e ex-assessor da ONU para questões de direitos humanos, o vazio político criado dentro das universidades “transformou a comunidade estudantil em presa fácil para as correntes extremistas, que utilizam a religião para seus fins”. Em sua opinião, “a doença do oportunismo e da hipocrisia”, que corroeu as organizações políticas nascidas com a Revolução, transformando-as em “trampolins para jovens oportunistas”, corrói atualmente o Partido Nacional Democrático (PND) do presidente Mubarak.

Acuado por uma onda interna de contestação – ampliada, recentemente, por uma série de casos de corrupção envolvendo deputados e empresários vinculados ao partido – o PND continua sendo dirigido pelas velhas raposas do establishment. Irá ele fazer uma “terapia de rejuvenescimento” por ocasião de seu próximo congresso, previsto para o mês de setembro? Um dos candidatos ao cargo de secretário-geral, atualmente exercido por Yussef Wali, ministro da Agricultura, seria Gamal Mubarak, empresário e filho do atual presidente da República.

Além da ausência de democracia – origem de todos os problemas que impediram a concretização do sonho de desenvolvimento –, a presença persistente de oficiais do exército na cena política também contribuiu para criar um profundo desequilíbrio. “É importante encontrar um equilíbrio e uma relação sadia entre o exército e a sociedade civil”, avalia Abdel Fadhil.

O triunfo da ideologia liberal ocidental

Para Mahmud Abdel Fadhil, professor de economia, o “intenso sentimento popular de solidariedade para com a Intifada é fruto da Revolução de julho”

A liberdade concedida à imprensa e aos intelectuais, e até tolerada dentro do Parlamento – controlado por uma maioria pertencente ao PND – parece oferecer ao poder algumas válvulas de segurança. Autoriza-o, de tempos a tempos, a lembrar à oposição legal, que diz sentir-se “enjaulada”, que existe mais liberdade no Egito que em outros “países irmãos”.

Mas a mídia, e principalmente o programa “Voz dos Árabes”, está longe de exercer a influência que tinha nos tempos de Nasser sobre as pessoas comuns e nos “países irmãos”. Os egípcios ficam, quase sempre, de olhos grudados nos programas de televisão da emissora Al Jazira, do Catar. O tom de liberdade desse canal, abordando assuntos considerados “tabus” no Cairo, incentivou os diretores das empresas a ampliarem a margem de liberdade da mídia audiovisual, assim como o círculo de seus convidados. Entre estes, vêem-se atualmente pessoas consideradas até recentemente como indesejáveis, vinculadas a correntes políticas não reconhecidas – como Montasser Ezzayat, Selim Al Awa, Abu Ela Mahdi, islamitas independentes, ou Dhia Eddin Daud, líder do partido nasserista, ou ainda Hafez Abu Seada, secretário-geral da Organização Egípcia de Direitos Humanos.

Os dirigentes políticos começam a reconhecer, por exemplo, a necessidade de fazer concessões em matéria de liberdades públicas, para melhor fazer serem aceitas pela opinião pública – na ausência de verdadeiras opções democráticas – as políticas econômicas e sociais tão difíceis de por em prática. Cinqüenta anos após o golpe de Estado de julho de 1952, a ideologia liberal ocidental vence a revolução nasserista, que além de ter resistido ao Ocidente, trabalhou, em vão, pela desestabilização dos aliados ocidentais na região. Porém, por enquanto, não passa de uma frágil abertura oferecida por um poder sem projetos mobilizadores, que permite a manifestação das imensas frustrações de milhões de pobres devastados por crescentes desigualdades, assim como as de uma elite sedenta de justiça – não só para o Egito, mas para a Palestina.
(Trad.: Jô Amado)

1 - Al-Ahram, edição semanal, Cairo, 20-26 de fevereiro de 2002.
2 - O Partido Nacional Democrático (PND), do presidente Mubarak, controla a maioria das cadeiras nas duas câmaras do Parlamento (a Assembléia do Povo e o Conselho Consultivo). A coalizão dos partidos de oposição (o partido Al Wafd, o partido da Aliança Nacional Progressista e Unitária, o Partido Árabe Democrático, nasserista, e o Partido Liberal) detêm apenas 17 das 454 cadeiras que existem na Assembléia. Dos 37 parlamentares “independentes”, 17 são próximos dos Irmãos Muçulmanos. Nas eleições municipais de 8 de abril de 2002, o partido do governo abocanhou 99,5% dos votos apurados.
3 - Enforcado em 1965, Sayed Qotb, um dos dirigentes dos Irmãos Muçulmanos, continua sendo um dos pensadores mais influentes dos movimentos islâmicos. Sobre a história dos Irmãos Muçulmanos, ler, de Olivier Carré e Michel Seurat, Les Frères mulsulmans (1928-1982), ed. L’Harmattan, Paris, 2002.
4 - Ler Le Retour de la conscience, ed. La Librairie d’Egypte, Cairo, 1977.
5 - Quando um grupo de jovens militantes dos Irmãos Muçulmanos, do qual participava Abul Ela Mahdi, decidiu criar o partido Al Wassat (O Centro), em 1965, isso sucitou a fúria da direção dessa confraria, criada em 1928 por Hassan El-Banna. Mas o poder recusou-se a reconhecer esse partido legalista. Ler, de Wendy Kristianasen, “L’islam bousculé par la modernité”, Le Monde diplomatique, abril de 2000.




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