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ARGÉLIA

O flerte contrariado com os EUA

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Apesar da anunciada “parceria estratégica”, a história das relações entre a Argélia e os Estados Unidos consiste de intercâmbios contínuos, mas difíceis, entrecortados por crises

William B. Quandt - (01/07/2002)

Quem iria imaginar, apenas alguns anos atrás, que o comandante da VI frota norte-americana poderia ir um dia a Argel em visita oficial? Ou que o presidente Abdelaziz Bouteflika seria recebido por George W. Bush, no salão oval, por duas vezes num período de quatro meses? Isso significaria que os Estados Unidos e a Argélia estão viabilizando essa “parceria estratégica” freqüentemente mencionada pelo chefe de Estado argelino?

Os argelinos gostam de lembrar que John Kennedy, ainda senador, apoiou a independência da Argélia e Ben Bella foi recebido por ele na Casa Branca

Na França, há quem desconfie, há muito tempo, que Washington gostaria de desempenhar um papel de primeiro plano em Argel. No entanto, ainda é um pouco cedo demais para se concluir que a capital norte-americana está prestes a roubar de Paris seu papel de parceiro privilegiado da Argélia. As relações entre esta e Washington sempre foram difíceis e, se a tendência atual é positiva, subsistem ainda muitos obstáculos para que possam ser estabelecidas relações estreitas entre os dois países. O Egito e a Arábia Saudita – sem precisar mencionar Israel – continuam tendo muito mais influência nos meios oficiais de Washington. A história das relações entre a Argélia e os Estados Unidos é feita de intercâmbios contínuos, mas freqüentemente difíceis, entrecortados por crises precisas. Nada faz prever uma melhora significativa num futuro próximo.

Exportação de gás argelino

Os argelinos gostam de lembrar que, em 1957, John Kennedy, ainda senador, se pronunciou favoravelmente à independência da Argélia. Pouco depois dos acordos de Evian, Ahmed Ben Bella seria recebido por Kennedy na Casa Branca. Mas, para Washington, o simbolismo dessa visita seria rapidamente estigmatizado pela viagem de Ben Bella a Havana, exatamente antes da crise dos mísseis soviéticos, em outubro de 1962. Na cabeça de muitos norte-americanos, as opiniões políticas do primeiro presidente da Argélia independente não seriam muito diferentes das de Fidel Castro. Em todo caso, depois do assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, ninguém, nas fileiras do poder norte-americano, estava disposto a se comprometer com Ben Bella. Quando este foi destituído por um golpe de Estado em 1965, não parece que o fato tenha provocado grande comoção em Washington.

Houari Boumediene, seu sucessor, representou um desafio bem diferente para os Estados Unidos. Veemente defensor do Terceiro Mundo, muito crítico em relação à política norte-americana no Vietnã e no Oriente Médio, não deixou de ser um homem pragmático que queria desenvolver o intercâmbio econômico com a América do Norte. No entanto, quaisquer que fossem então as esperanças de melhoria das relações bilaterais, estas desapareceriam em 1967, com a guerra dos seis dias entre Israel e os países árabes. A Argélia rompeu relações diplomáticas com Washington. Vínculos econômicos, no entanto, iriam subsistir, sobretudo através da empresa El Paso, que desempenhou um papel na exportação do gás natural argelino. E Boumediene, por intermédio de um homem de negócios, Rachid Zeghar, manteria uma comunicação discreta com os norte-americanos.

O obstáculo dos islamitas radicais

Boumediene representou um desafio diferente: defensor do Terceiro Mundo, foi muito crítico em relação à política dos EUA no Vietnã e no Oriente Médio

Depois de sua morte prematura no final de 1978, as relações entre os dois países tomaram um bom caminho e, em Washington, começou-se a esperar que, sob a presidência de Chadli Bendjedid, a liberalização da Argélia fosse permitir uma aproximação. Argel desempenhou um papel muito útil na libertação dos reféns detidos pelos estudantes de Teerã em 1980, mas isso não contou muito aos olhos do novo governo do presidente Ronald Reagan, que se voltou para o Marrocos. Quando terminou a década de 80, a Argélia estava às voltas com uma transição tumultuada. Os Estados Unidos observavam, fascinados, a marcha indecisa em direção à democracia, bem como o crescimento do movimento islâmico, mas há poucas provas convincentes de alguma implicação norte-americana nos acontecimentos que abalaram o país entre 1988 e 1992.

A anulação do segundo turno das eleições legislativas, em janeiro de 1992, colocou um dilema para os Estados Unidos. Se essa medida nada tinha de democrática, o provável vencedor das eleições, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), professava um anti-americanismo violento a partir da guerra do Golfo, em 1991. No entanto, nessa época, determinadas autoridades de Washington estavam persuadidas de que, cedo ou tarde, a FIS chegaria ao poder e que era preciso, portanto, manter contato com ela, mesmo depois de sua interdição. Na opinião dos norte-americanos, era preciso tirar lições da revolução iraniana e continuar o contato com um movimento de oposição, pois um dia ele poderia chegar ao poder. Portanto, durante o período de 1992-1995, os Estados Unidos assumiram uma postura bastante distanciada em relação ao governo de Argel, encontrando os dirigentes da FIS discretamente, de vez em quando, na Europa ou nos Estados Unidos. Washington apoiou oficialmente o plano de paz de Sant’Egidio (Roma1) que, divulgado no início de 1995, pedia a reconciliação entre o governo e a FIS.

A década da violência

Em fins de 1995, no entanto, a política norte-americana começou a mudar. Depois da eleição de Liamine Zeroual como presidente, o Departamento de Estado decidiu reconciliar-se com os dirigentes de Argel. Durante muitos anos, só tinha havido algumas raras reuniões de alto nível, mas, pouco a pouco, as coisas começaram a evoluir. O novo presidente, no entanto, iria revelar-se um reformador fraco, e seus interlocutores norte-americanos nada conseguiram.

A partir de 1978, as relações entre os dois países melhoraram. Washington esperava que a liberalização da Argélia fosse permitir uma aproximação

A Argélia da década de 90 transmitia ao mundo uma imagem contrastada e muitas vezes opaca. De um lado, havia os frutos do esforço pela democratização – uma imprensa relativamente livre, uma pluralidade de partidos, um verdadeiro debate eleitoral e premissas de reformas econômicas. De outro, havia o nível de violência assustador que o governo não podia ou não queria controlar. E mesmo as autoridades norte-americanas partidárias do desenvolvimento das relações com o governo argelino admitiam facilmente que o caráter civil deste último era apenas uma fachada por trás da qual se escondia o verdadeiro detentor do poder, o Estado-Maior, cujos contatos com os Estados Unidos eram raros.

Começa a era Bouteflika

Um dos traços mais marcantes nas relações bilaterais foi o envolvimento de ONGs na Argélia. Tanto a Human Rights Watch quanto a Anistia Internacional assumiram a missão de observar de perto a situação no país e denunciar as violações de direitos humanos. Além disso, o National Democratic Institute começou a estimular a democratização, criando relações com jornalistas independentes e até, depois das eleições de 1997, com deputados da Assembléia Nacional. Essas iniciativas modestas não acarretaram, é claro, mudanças decisivas, mas aumentaram um pouco o comprometimento norte-americano e exerceram uma certa pressão sobre o regime em questões que preocupavam a mídia e muitos norte-americanos.

A mudança mais importante nas relações bilaterais ocorreria na primavera de 1999, com a eleição de Abdelaziz Bouteflika para a presidência. A votação propriamente dita estava mais próxima de uma farsa, mas, pelo menos, a Argélia tinha finalmente como presidente um verdadeiro estadista, que fala inglês com facilidade e se preocupa em estabelecer relações com o mundo exterior.

Argel desempenhou um papel muito útil na libertação dos reféns detidos no Irã em 1980, mas isso pouco contou para o governo do presidente Ronald Reagan

O novo presidente não é um desconhecido para Washington, pois foi ministro das Relações Exteriores na época de Boumediene, entre 1963 e 1978. Durante esse período, poucas pessoas em Washington o viam com simpatia. Era considerado agressivo, arrogante e, em geral, hostil aos Estados Unidos. Mas os tempos mudaram e Bouteflika beneficiou-se, como presidente, do aval dos dirigentes árabes moderados, que o apresentaram como um líder sensato. Quando dos funerais de Hassan II em Rabat, em 25 de julho de 1999, ocorreu um rápido encontro informal com o presidente Clinton, que ficou com uma impressão favorável. Foi nessa mesma ocasião que o presidente argelino apertou a mão do novo primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, o que, aos olhos de alguns norte-americanos, constituía uma garantia.

Petróleo e guerra anti-terrorismo

O presidente Clinton, no entanto, iria decepcionar muito os dirigentes argelinos, pois Bouteflika nunca foi convidado a ir a Washington. Tanto que, quando o novo governo de George W. Bush tomou posse em janeiro de 2001, a Argélia fez questão de esquecer a rejeição, mostrando que sua proposta de “parceira estratégica” passava a ter uma nova pertinência. De fato, o presidente argelino Bouteflika iria encontrar Bush duas vezes – em julho de 2001, e depois em dezembro do mesmo ano. Como explicar essa evolução?

O petróleo e a “guerra contra o terrorismo” são as duas chaves para compreender essa reviravolta. É preciso lembrar as relações que o presidente Bush mantém com as companhias de petróleo desde o tempo em que era governador do Texas. Uma dessas empresas, a Andarko, cuja sede é em Houston, investiu muito na Argélia e descobriu novas reservas – doze jazidas desde 1991, segundo o último balanço publicado, para um total de 2,8 bilhões de barris. A produção iniciou-se em 1998 e poderá atingir até 500 mil barris por dia no início de 2003. Trata-se, evidentemente, de cifras modestas se comparadas com a produção dos países do Golfo, mas para uma empresa petrolífera independente norte-americana é um volume de atividade não desprezível.

Obstáculos à normalização

De 1992 a 1995, os Estados Unidos assumiram uma postura bastante distanciada em relação à Argélia, encontrando os dirigentes islâmicos discretamente

A “guerra contra o terrorismo” também entra na melhora atual das relações. Logo após o 11 de setembro, Bouteflika, como muitos outros chefes de Estado, pôs à disposição seus serviços. Em contrapartida, claro, esperava que os Estados Unidos passassem a admitir que a batalha de Argel contra os militantes islâmicos e a de Washington contra a Al-Qaida eram do mesmo tipo. Faz muito tempo que as autoridades argelinas mencionam a existência de um vínculo entre os “árabes do Afeganistão” e suas próprias redes terroristas. Embora atualmente os dois governos estejam alinhados, não se pode dizer que alguma colaboração efetiva e concreta se tenha desenvolvido entre os dois países nesse setor.

É preciso, no entanto, não menosprezar os obstáculos que se opõem ao pleno desenvolvimento das relações entre os dois países, a começar pelo conflito palestino-israelense. É impossível para os argelinos se sentirem à vontade com um governo norte-americano que parece querer dar um cheque em branco a Ariel Sharon. O segundo obstáculo é a questão, sempre em suspenso, do Saara Ocidental, na qual Washington apóia decididamente o Marrocos2. Em terceiro lugar, há o evidente déficit democrático da Argélia, o desrespeito pelos direitos humanos, as práticas eleitorais duvidosas. Enfim, nem a França, nem o Egito, nem a Tunísia, nem o Marrocos se sentem satisfeitos com a aproximação entre Argel e Washington. Ora, cada um desses países tem um peso na política externa dos Estados Unidos. E ninguém tem interesse em que o que poderia parecer como uma aproximação estratégica com a Argélia pudesse prejudicar essas outras relações.

Condições para um “futuro radioso”

O petróleo e a “guerra contra o terrorismo” são as duas chaves para compreender essa nova reviravolta nas relações entre os dois países

Enfim, não existe nenhuma base social sobre a qual fundamentar relações estreitas entre os dois países. Muito poucos norte-americanos – sejam eles homens de negócio, turistas, estudantes, jornalistas ou funcionários – viajam para a Argélia. E relativamente poucos argelinos vão aos Estados Unidos. Se dois governos podem manter relações normais sem desenvolver ligações profundas entre seus povos, estas raramente terão a oportunidade de se aprofundarem. As ligações entre Washington e Argel continuam sendo o resultado da atuação de alguns dirigentes políticos e de alguns executivos do petróleo. O seu nível de interesse tem altos e baixos, suas preocupações podem variar, de modo que as relações continuam superficiais.

Se a Argélia progredisse claramente para uma situação de mais democracia; se a economia fosse reformada no sentido desejado por Washington; se a violência acabasse e se os vínculos envolvendo petróleo e o gás se desenvolvessem mais; então, as relações entre os dois países poderiam ter um futuro radioso. Mas são muitos os “se”...
(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Ler "La plate-forme de Rome", Le Monde diplomatique, março de 1995.
2 - Ler Lahouari Addi, "Introuvable réconciliation entre Alger et Rabat", Le Monde diplomatique, dezembro de 1999.




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