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MULHERES

A violência no aconchego do lar

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A Pesquisa Nacional sobre Violência contra as Mulheres na França explodiu como uma bomba, quando foi publicada em junho de 2001: de cada dez mulheres, uma é vítima de violência conjugal e seis morrem por mês em conseqüência disso

Elisabeth Kulakowska - (01/07/2002)

Elas são violentadas, assassinadas, espancadas e insultadas simplesmente porque são mulheres. Anne, que tem mais de 40 anos, magra e bonita, conta seu calvário: “Eu tinha 20 anos quando conheci Jean-Paul; fiquei loucamente apaixonada por ele. Era bonito, sedutor, inteligente, engraçado. Era casado e tinha uma filha pequena. Logo soube que ele batia em sua mulher. Mas eu disse para mim mesma que isso deveria ser culpa dela, que ela não devia fazê-lo feliz. Eu saberia amá-lo. Depois, um dia, o primeiro tapa foi dado. Entrei em pânico e, mais uma vez, pensei que conseguiria convencê-lo.” Os golpes não cessaram. Durante cinco anos, os períodos de calmaria e de felicidade alternavam-se com os períodos em que ele a atacava. “Isso podia acontecer a qualquer hora. À noite, eram pontapés na barriga, muitas vezes ele torcia meu braço nas costas até que quebrou minha clavícula.”

Após seu casamento, a violência dobrou. “Até então, eu trabalhava fazendo ‘bicos’. Mas no dia em que consegui um emprego de assistente de fotógrafo, ele ficou com ciúmes. Após uma crise mais violenta do que as de costume, em que ele batia sem se controlar, saí para me proteger... e voltei uma semana depois.”

Olhos fechados para a violência

Anne é uma mulher machucada que rompe o silêncio sobre a violência conjugal; seu corpo tem marcas de feridas antigas, que reaparecem de tempos a tempos

Tempos depois, Anne teve uma filha. O marido não parou de lhe bater; ao contrário, mesmo grávida, ele continuou. “Quando me levou para a maternidade para o parto, dirigia muito rápido e na pista da esquerda, perguntando-me se estava com medo e, quando voltei da maternidade, ele havia explodido o berço do bebê.” Ainda foram necessários dois anos e meio para o estalo. “No dia da Páscoa, havia preparado com Alice, minha filhinha, ovos pintados, que penduramos no teto de seu quarto. Em minha ausência, Jean-Paul destruiu tudo. Quando voltei, ele disse: “O que é que você fez?” Quando, com sua voz delicada, Alice disse: “Mas não foi você mamãe, foi papai”, ele não suportou e me bateu para matar. Naquele dia, fui ver seus pais toda ensangüentada...”

Foi então que Anne tomou consciência da loucura em que estava metida. Abandonou definitivamente o marido. “Foi a tomada de consciência de que o que eu dizia não era mentira que me fez ir embora”, garante. Seu marido era professor de música em um liceu. “Todo o mundo o adorava e o admirava.” Seus pais eram de um ambiente burguês e culto. Sabiam que o filho era violento, mas nada diziam. Anne também é de uma família com recursos e cultura. Durante dez anos, todos os que viviam no círculo dos dois fecharam os olhos.

“O problema não é delas, mas do marido”

Durante dez anos, seu marido não reconheceu uma única vez ter batido nela. “Não sabia mais se estava louca ou não, nem quem eu era”, conta Anne

É uma mulher machucada que rompe o silêncio sobre a violência conjugal; seu corpo traz marcas de feridas antigas, que reaparecem de tempos em tempos. Mas é também uma mulher de 49 anos que tem um olhar lúcido sobre a engrenagem da violência em que viveu durante uma década. “É preciso acabar com esse clichê de que a mulher que apanha é frágil ou, ao contrário, provocante ou, o que é pior, ‘que gosta de apanhar’. Não há um perfil típico, mas um ciclo infernal da violência em que é preciso se recusar a entrar”, diz ela.

E jamais, durante todos esses anos, seu marido reconheceu uma única vez ter batido nela. “Não sabia mais se estava louca ou não, nem quem eu era. Aceitava tudo porque não era mais eu mesma. Esse homem conseguiu fazer de mim uma coisa, sua coisa, eu que antes de conhecê-lo era muito revoltada e tinha um caráter bem enérgico. Lentamente, insidiosamente, o amor que tinha por ele aceitava qualquer violência. Então eu achava justificativa para tudo, pois tinha necessidade dele.” Uma amiga de Anne, que desde o início a escuta, acrescenta: “A gente sente-se culpada por ter escolhido um homem que bate, é contaminada pelo outro, aniquilada.”

Maguy Lavaux, que em 1978 participou da criação do Centre Flora Tristan – o primeiro local a acolher mulheres espancadas em Paris – também salienta os efeitos devastadores da violência física sobre a auto-estima. Mas observa, com um certo otimismo, que “as mulheres que nos procuram são muito mais jovens do que anteriormente. Isso significa que se revoltam mais rapidamente e que não ficam mais esperando levar uma facada ou serem espancadas durante anos para se tornarem independentes e reagirem. Sabem que isso não vai se resolver com o tempo e que o problema não é delas, mas do marido”.

A violência psicológica e verbal

Maguy Lavaux, de uma entidade que acolhe mulheres espancadas, observa, com otimismo, que “as mulheres que nos procuram são mais jovens do que antes”

Vera Albaret, dirigente de uma associação parisiense de ajuda às mulheres espancadas, confirma essa evolução: “Há vinte anos, as mulheres esperavam que as crianças crescessem para cair fora. Em seguida, passaram a chegar com crianças pequenas e, atualmente, acolhemos mulheres grávidas ou sem filhos. Elas entenderam que bater na mulher era ilegal, que a vergonha não era delas e que podiam escapar da violência.” Mas para muitas, essa tomada de consciência é sempre muito dolorosa. Têm dificuldade de falar. Procuram um centro de ajuda, mas no último momento buscam escapatórias, falando de uma amiga que teria sofrido violência; as manchas que têm no corpo seriam causadas por uma queda... “É inacreditável o número de mulheres grávidas que caem nas escadas embora morem no térreo”, exclama Albaret.

Muriel sabe disso, ela que trabalhava em exposições e teve de mudar de atividade porque as manchas dos edemas eram muito visíveis. “Meu companheiro começou a ser violento quando lhe disse que o deixaria. Ele me ameaçava com garrafas de vinho quebradas, puxava-me pelos cabelos e ainda ia à entrada da escola de nosso filho para me insultar na frente de todo o mundo.”

Embora muitas mulheres não tenham recursos e às vezes nem trabalho, o drama atinge absolutamente todas as categorias sociais. Isso é comprovado pela Pesquisa Nacional sobre Violência contra as Mulheres na França (Enveff1), que explodiu como uma pequena bomba quando foi publicada em junho de 2001: de cada dez mulheres, uma é vítima de violência conjugal e seis morrem por mês em conseqüência disso. “A violência conjugal é uma das causas principais de morte das mulheres por homicídio”, ressalta Maryse Jaspard, que coordenou essa pesquisa. Mais de um milhão e meio estão potencialmente em perigo dentro de suas casas. E especifica: “A violência psicológica e verbal repetitiva (insultos, chantagem afetiva...) são tão destruidoras quanto as agressões físicas.” A essa violência cotidiana, cometida na intimidade dos casais, somam-se todos os outros ataques físicos e morais: de cada cinco mulheres, uma foi alvo de pressões e até de violência física ou verbais na rua, nos transportes coletivos ou em espaços públicos.

Vítimas do assédio moral

“É inacreditável o número de mulheres grávidas que caem nas escadas embora morem no térreo”, diz Vera Albaret, que dirige uma entidade em Paris

A pesquisa Enveff indica que 50 mil mulheres entre 20 e 59 anos foram vítimas de estupro no ano 20002. Se compararmos esse número ao da polícia, concluiremos que apenas 5% dos estupros de mulheres maiores de idade são objeto de queixa. Como no caso das mulheres espancadas, todas as associações de luta contra o estupro criticam a idéia de que existiria um estereótipo “da” mulher violentada. No entanto, ao telefonarem para a entidade Informações sobre Estupro de Mulheres muitas delas se sentem obrigadas a especificar: “No entanto, eu estava de calça comprida”, ou então “nunca mais usei saia desde a agressão”. Também não há um status socioeconômico que predisponha a ser vítima. Quaisquer que sejam sua idade e aparência, ser do sexo feminino constitui o principal fator de exposição ao risco de uma agressão sexual.

No local de trabalho, o “assédio moral e sexual” claramente identificado graças aos livros de Anne-Marie Hirigoyen3, e agora punido por lei, continua um fenômeno em expansão e atinge particularmente as mulheres. “As vítimas de assédio moral são profundamente destruídas pois, na maioria das vezes, sofreram durante vários anos situações muito degradantes”, conta Sylvie Martin, advogada em Poitiers.

Marie deixa claro quando encontra seu advogado: “Na época, era novata em um restaurante. Inicialmente, meu patrão pedia que me vestisse mais sexy, pois dizia que isso me valorizaria. Em seguida, quando passava por mim, começou a me roçar até o dia em que me jogou em um canto para me apalpar. Eu tinha vergonha de aceitar, mas fiquei paralisada pelo medo. Tive que fazer sexo oral com ele.” Para Sylvie Martin, “é um caso extremo, a vítima era muito jovem e sentiu-se responsável pelo que lhe aconteceu, pois tinha o sentimento de ter aceito”. Mas são inúmeros os exemplos.

O silêncio inquietante das vítimas

Embora muitas mulheres não tenham recursos e às vezes nem trabalho, a pesquisa confirma que o drama atinge absolutamente todas as categorias sociais

Recentemente, um executivo de uma agência dos Correios foi desmascarado inteiramente por acaso. Por ocasião de uma pesquisa sobre o assalto à mão armada da agência em que trabalhava, uma das empregadas desabafou. “Esse assalto não foi nada perto do que suporto aqui todos os dias”, declarou aos pesquisadores. “No início, eram piadas obscenas e, se eu não ria, ele me chamava bem alto – para que todos ouvissem – de santinha do pau oco. Depois, ele sempre dava um jeito de me mandar buscar pacotes em uma sala e ficar sozinho comigo.” Ela prestou queixa. Como sempre, os autores da violência respondem invariavelmente “que a mulher está delirando ou que está apaixonada”, garante Sylvie Martin.

Embora consciente dessa realidade multiforme há muito tempo, Maryse Jaspard reconhece, no entanto, ter ficado muito surpresa com a amplitude do silêncio e com o que as mulheres que sofrem essa violência escondem, principalmente aquelas de meios sociais com mais recursos. Ela ressalta que “dois terços das mulheres que declararam ter sofrido violência conjugal disseram isso pela primeira vez na pesquisa. Esse relatório permitiu, entre outras coisas, a evolução do conceito da mulher espancada redutor e pejorativo para o de mulher vítima da violência, que remete a todas as mulheres”.

A dominação masculina persiste

50 mil mulheres foram vítimas de estupro em 2000. Comparando com os dados da polícia, conclui-se que apenas 5% dos estupros são objeto de queixa

Por sua vez, Catherine Morbois, representante regional dos Direitos das Mulheres e da Igualdade, enfatiza o papel central da pesquisa na mobilização do Estado contra o fenômeno. “Em 1989, quando cheguei à delegação Île-de-France, passei oito noites em um carro de polícia para conseguir um número: 60% das ações eram relacionadas a violência conjugal, ou seja, a mulheres espancadas.” Essa cifra era conhecida pela polícia, mas jamais havia sido revelada. E as entidades sempre encontravam obstáculos na busca de “números confiáveis”, quando solicitavam ações de prevenção de envergadura junto a autoridades públicas.

No que diz respeito aos médicos, raramente detectam os casos de violência sexista e alguns, inclusive, não os detectam. Catherine Morbois especifica: “Eles devem contar com uma série de associações de psiquiatras, ou psicólogos, para os quais possam enviar as vítimas e também os agressores. Entre os clínicos-gerais de nossa rede, todos afirmam ser confrontados, no mínimo uma vez por dia, pela violência sexista.” Embora a legislação na França4 continue imperfeita, evoluiu positivamente.

Mas as relações sociais, em sua grande maioria, ainda estão “sob a dominação masculina sobre as mulheres”, avalia a maioria das pessoas envolvidas nesse combate. Na vida econômica, assim como na vida social e política, as mulheres continuam longe dos cargos de responsabilidade. E na maioria das vezes sua identidade é reduzida ao papel de mãe, de “guardiã do lar” ou de amante... Essa realidade de uma sociedade dominada pelos homens explica por que a violência passa por todas as camadas da população, qualquer que seja o nível social ou cultural.

Violência começa na submissão

“Os autores da violência respondem invariavelmente que ‘essa mulher está delirando ou está apaixonada’”, garante a advogada Sylvie Martin

Segundo Wassyla Tamzali, advogada argelina e responsável durante vinte anos pelo programa da Unesco sobre a condição feminina, um longo trabalho ainda terá que ser realizado para “aos poucos, identificar todos os tipos de violência, uma vez que ela ainda é interiorizada como um ato cultural. Nesse combate, as mulheres são muitas vezes as piores inimigas das mulheres”, prossegue essa feminista convicta.

A verdade é que compreender as causas da violência masculina é também um meio de avançar para a igualdade. Psicanalista e responsável por uma pesquisa com os autores da violência, Alain Legrand se recusa também a definir o perfil do homem violento. O que não quer dizer que o agressor seja “qualquer pessoa”, mesmo que seja encontrado em todas as categorias socioprofissionais e com qualquer idade.

“Em uma situação conflituosa banal, o homem violento sente-se totalmente questionado. Não é capaz da menor diferenciação em seu julgamento. Sente-se ameaçado por não controlar mais a outra e agredi-la dá a ele o sentimento de retomar o controle. Nesse tipo de relação, a outra não é um objeto de desejo, mas um objeto de necessidade”, explica Legrand, como se estivesse de acordo com Anne. “O homem pensa estar em uma situação de sobrevivência: é ela ou eu”, continua ele. Ao mesmo tempo, “a maioria desses homens é incapaz de viver sozinho e não pode viver sem a outra, está disposto a tudo”. E isso é verdade nos dois sentidos, como Anne apontou tão bem: “A violência começa onde há a submissão de cada qual a um papel”, garante Wassyla Tamzali.
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - Enquête Nationale sur les Violences Envers les Femmes en France (ENVEFF), coordenada pelo Instituto de Demografia da Universidade de Paris e dirigida pela Secretaria do Estado para os Direitos das Mulheres e da Formação Profissional/Serviço dos Direitos das Mulheres e da Igualdade.
2 - Os pesquisadores da Enveff determinaram um indicador global de agressões sexuais.
3 - Ler, de Anne-Marie Hirigoyen, Le Harcèlement moral: la violence perverse au quotidien, ed. Pocket, Paris, 2000, e Malaise dans le travail, ed. Syros, Paris, 2001.
4 - No dia 23 de dezembro de 1980 foi sancionada a lei sobre a repressão ao estupro. Pelo decreto do dia 5 de setembro de 1990, a Suprema Corte reconhece o estupro entre marido e mulher. No dia 2 de novembro de 1992 foi sancionada a lei sobre o abuso sexual com base na autoridade nas relações de trabalho; em 1994, entrou em vigor o novo Código Penal, que ampliou as definições das agressões sexuais e aumentou a pena de prisão por estupro. Em 17 de janeiro, a lei sobre a modernização social define o contexto jurídico do assédio moral no trabalho.




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