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JUDAÍSMO

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A questão da identidade é a angústia maior dos judeus franceses. Como diz Valérie Zenati, baseia-se numa religião de que ignoram os textos, num ultranacionalismo por um país que não é deles e no culto à memória dos mortos que não conheceram

Dominique Vidal, Sylvie Braibant - (01/08/2002)

Uma mesma pergunta preocupa quase todas as pessoas entrevistadas durante esta pesquisa: de seu judaísmo, o que deixarão para seus filhos?

Nelly Hansson não se conforma com a idéia do judaísmo reduzido à corrente radical mais ortodoxa. “Seria assustador”, desabafa

Hélène e Alain Nahoum-Kohen passaram mais tempo em reuniões políticas do que nas sinagogas. Seu filho Samuel acabara de realizar sua bar mitzvah1. Filha de uma família grega exterminada em Auschwitz, Hélène afirma: “Somos todos marranos2. Para resistir à globalização, é preciso conservar a sua identidade, mas em segredo. Eu me apego ao desenraizamento, ao exílio. Um camponês fincado à sua terra ficará longe de mim. Mas estarei sempre próxima de um camponês desenraizado.” O que não a impediu de fazer circuncidar seu filho nem de aceitar sua bar mitzvah. Descendente de judeus do Egito alimentados pela Revolução francesa e pelo comunismo, Alain se define como um “judeu errante, ou até deserdado”. “Compreendendo” e “respeitando” a busca de seu filho por uma identidade, ele vê no seu comportamento a “necessidade de se opor aos pais”. O próprio Samuel relativiza sua fé e garante apoiar Israel mas não estar disposto a ir até lá para lutar. Menciona os insultos anti-semitas de alguns jovens árabes: “Sinto-me herdeiro da história do Holocausto e da história dos judeus do Egito. E se não sou praticante, acho importante a transmissão de valores, para não ser aculturado como alguns amigos meus.” “Fico feliz que meu filho, com sua bar mitzvah, se sinta emancipado”, enfatiza o pai, enquanto a mãe conclui: “Cada geração escolhe seu próprio caminho.”

Originária da Argélia, a família da Valérie Zenati deixou a França, após os atentados da rua Copernic e da rua des Rosiers em Paris, e foi para Israel, de onde ela voltou – no sentido literal e figurativo – após a (primeira) Intifada: “O país já não era o que queríamos que fosse.” O que mais a impressiona é “a tensão de muitos judeus franceses. Como se tivessem medo do vazio. Sua identidade já não se baseia em algo de palpável: uma religião de que já não conhecem os textos; um ultranacionalismo por um país que não é deles; o culto da memória por mortos de quem ignoram a vida antes do Holocausto…” O que irá deixar ao seu filho Lucas, de 5 anos e meio? “Fez a circuncisão para não romper a corrente e eu lhe ensinarei as grandes festas judaicas, assim como a história de nossos ancestrais.” Mais tarde, irá ensinar-lhe hebraico para que “possa ler a Bíblia. Mas o mais importante são os dez mandamentos e a luta para que nenhum homem seja tratado como um sub-homem. Inclusive em Israel e na Palestina.”

“O gueto me apavora. Essas pessoas que têm todas a mesma história, a mesma paranóia, não me interessam”,diz a historiadora Annette Wieviorka

Também Nelly Hansson “não se conforma com a idéia do judaísmo reduzido a um radicalismo ortodoxo. Seria assustador”. Mas, ao pensar nos dois filhos, um muito judeu e o outro menos, ela censura-se por ter “transmitido uma dimensão individual, e não coletiva, do vínculo com o povo judeu”. Mesmo assim, em sua opinião o essencial é a “continuidade histórica” e a “missão de sismógrafo das doenças da sociedade” que incumbe aos judeus. Em hebraico, conclui, chamamos de tikkun “o conserto que complementa a obra de Deus tornando o mundo melhor”…

“Não me coloco a questão do ‘ser judeu’ de meus filhos”, afirma, por seu lado, a historiadora Annette Wieviorka. Ainda pequena, freqüentava uma colônia de férias do Bund: “Éramos confrontados com duas perguntas: O que é ser socialista? O que é ser judeu? A primeira era fácil de responder: bastava dividir os docinhos entre todos. A segunda ficava sempre sem resposta.” Sua filha, durante muito tempo indiferente, agora está usando uma magen David3 ao pescoço. Quanto a seu filho, casou-se com uma não-judia. “De qualquer maneira, somos menos filhos de nossos pais do que de nossa geração.” Como muitos judeus nascidos logo depois da guerra, ela sentia o desejo de assimilar-se, que se prolongaria pelo engajamento político. Militante maoísta, chegou a ensinar em Cantão. “A minha história”, continua, “é também o meu jeito de ser judia. Muito pessoal. O gueto me apavora. Essas pessoas que têm todas a mesma história, a mesma paranóia, não me interessam.”
(Trad.: David Catasiner)

1 - N.T.: Cerimônia judaica de iniciação religiosa que se realiza quando o rapaz completa 13 anos.
2 - Judeus da Espanha que foram obrigados a converter-se ao cristianismo para evitar a extradição.
3 - Literalmente, “escudo” de David, mas também conhecido como “estrela de David”.




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