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No lastro do fracasso da esquerda social-democrata e do avanço da direita, a nova esquerda italiana busca seus caminhos

Antonio Negri - (01/08/2002)

Há um ano, as grandes manifestações de Gênova contra a reunião de cúpula do G-8 abalaram a Itália. Alguns meses antes, a esquerda fora varrida do mapa e Silvio Berlusconi, eleito por uma esmagadora maioria, imaginara que poderia governar a seu bel-prazer. Gênova abalou seus projetos. Emergindo com força, o movimento antiglobalização retomou a mobilização dos cidadãos e novas formas de luta se multiplicaram com a ofensiva dos trabalhadores em inúmeras frentes. Embora pareça paradoxal, a vitória da direita – ao retomar a mobilização cívica – deixa entrever a esperança de uma refundação da esquerda e de uma reconstrução da República.

Após a vitória de Silvio Berlusconi nas eleições legislativas de maio de 2001, quem se interessasse, na Itália, pelo cenário político sabia que a esquerda estava em debandada total. Não só teve sua representação política reduzida, como também perdeu a confiança. A ascensão da social-democracia chegava ao fim e a conversão ao reformismo do ex-grande e glorioso Partido Comunista Italiano terminava em uma derrota histórica. As diferentes tendências que compunham o centro-esquerda se digladiavam, portanto, sob o olhar irônico e feroz do vencedor.

Nova aliança política e social

Embora pareça paradoxal, a vitória da direita deixa entrever a esperança de uma refundação da esquerda e de uma reconstrução da República

E então vieram Gênova e os acontecimentos de julho de 2001. O movimento antiglobalização, armado de escudos de papelão e de espadas de plástico, partiu para o ataque contra a reunião de cúpula do G-8. Tratava-se de uma nova grande aliança de forças políticas e sociais.

Politicamente, esse grupo era constituído por independentes da extrema-esquerda (os chamados tute bianche: macacões brancos) e por católicos com experiência em trabalho voluntário. Apoiando-se em sua representatividade quantitativa e na qualidade de sua militância, ambos reuniam e conduziam uma tribo dispersa.

Do ponto de vista social, a multidão de Gênova foi a primeira representação concreta dos novos precários do trabalho social produzidos pela revolução pós-fordista. Desciam às ruas sem ter uma consciência real de sua força, mas certos de nada dever à direita no poder – e menos ainda à centro-esquerda, desbaratada por ter contribuído para quebrar a resistência operária diante do neoliberalismo e participado estupidamente da formação de novos proletários. Também tinham consciência de uma nova miséria: exatamente ali, no trabalho intelectual e imaterial em que os sinais de emancipação surgiam mais do que em qualquer outro lugar.

O movimento “da ciranda”

Politicamente, o grupo antiglobalização era constituído por independentes da extrema-esquerda (os tute bianche: macacões brancos) e católicos de esquerda

Gênova representou, portanto, um choque enorme. Pela primeira vez na história da Itália, a polícia agiu sem restrições, usando técnicas de “guerra de baixa intensidade” parecidas com as que são às vezes empregadas por Israel na Palestina. Carlo Giuliani, um jovem manifestante, foi morto com um tiro no rosto dado por um policial que tinha a sua idade.Vinte e quatro horas depois, durante a noite, uma centena de manifestantes foram barbaramente agredidos, quando dormiam, por grupos de policias exaltados.

Ausente da preparação das manifestações, a esquerda social-democrata não soube reagir – nem mesmo diante desse terrível espetáculo. A oposição parlamentar continuou vergonhosamente tímida e imóvel, incapaz de protestar diante daquela perversão da democracia cuja responsabilidade o governo de Berlusconi assumiu.

Foi assim que um novo cenário começou a se delinear: militantes de base, intelectuais, professores e mulheres rebelavam-se contra a inconsistência da liderança de esquerda e a incapacidade de seus quadros políticos. São chamados de movimento dei girotondi (movimento da ciranda), por andarem em círculos, como numa ciranda. Ele contesta menos a social-democracia enquanto tal do que a inércia e o vazio de seus dirigentes; e se expressa através de manifestações de homens e mulheres de esquerda de que participam alguns intelectuais de renome1.

As primeiras “greves de cor”

Estes movimentos de crítica intelectual coincidem com o desenvolvimento dos movimentos sociais. A Itália assiste à proliferação de manifestações de resistência. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a direita procurou organizar, no dia 10 de novembro, uma manifestação de “solidariedade à bandeira norte-americana” ou, em outras palavras, à decisão dos Estados Unidos de desencadearem uma guerra planetária de longa duração: centenas de milhares de pessoas desfilaram em protesto contra esse projeto, manifestando seu desejo de paz.

Do ponto de vista social, a multidão de Gênova foi a primeira representação concreta dos novos trabalhadores precários produzidos pela era pós-fordista

Também os imigrantes protestaram em Roma e em outras cidades contra o projeto de lei Bossi-Fini2, que vincula diretamente os direitos dos imigrantes (em particular a obtenção do visto de permanência) à posse de um contrato de trabalho. Essa é a expressão perfeita da hipocrisia de uma sociedade que ocupa o primeiro lugar na Europa no que se refere ao trabalho clandestino e à violência do seu governo. A resistência é tão grande, que o movimento dos imigrantes conseguiu realizar, este ano, as primeiras “greves de cor” nos setores industriais mais importantes do norte da Itália.

Renasce a iniciativa sindical

Uma outra frente de resistência formou-se contra a reforma do sistema escolar imposta pelo governo Berlusconi: centenas de milhares de estudantes e professores protestaram nas ruas durante várias semanas.

Em resumo, a partir do verão de 2001, assistimos a um ciclo de lutas ininterruptas contra a guerra e também contra a injeção de doses cada vez fortes de neoliberalismo na sociedade italiana. Gênova foi o início e continua a servir de referência.

Foi igualmente a partir de Gênova, e paralela a essas inúmeras lutas, que renasceu a iniciativa sindical. Depois da vitória de Berlusconi, o movimento sindical também ficou profundamente desorientado. Embora uma minoria tenha aderido às iniciativas antiglobalização – como a Federação dos Metalúrgicos da Confederação Geral Italiana dos trabalhadores (FIOM-CGIL) e também inúmeros sindicatos de professores –, a direção dos grandes sindicatos estava tão confusa quanto a da DS (Democracia de Esquerda, ex-PCI). Esta habituara-se a gozar de um “crédito de situação” em troca de seu apoio aos governos de centro-esquerda. Dois episódios iriam reverter essa inércia.

A reconstrução da esquerda

Ausente da preparação das manifestações de Gênova, a esquerda social-democrata não soube reagir diante daquele terrível espetáculo

O primeiro foi a tentativa da social-democracia, após sua derrota, de deslocar ainda mais à direita o eixo de reconstrução da esquerda. No congresso da Democracia de Esquerda (DS), em Pesaro, em novembro de 2001, deu-se um enfrentamento muito duro com a CGIL. A direção dos ex-comunistas parece uma elite política sem escrúpulos quando se trata de aderir ao poder global, conjugando cinismo e “blairismo”. A decisão da CGIL é difícil: ela sabe que os operários jovens sentem-se mais próximos dos manifestantes de Gênova que do velho corporativismo da esquerda. O sindicato devia, portanto, opor-se à guinada neoliberal de centro-esquerda.

O segundo é provocada pela arrogância do governo Berlusconi. Este pretende revogar o artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores, que proíbe qualquer demissão sem “justa causa”. Esse direito, que geralmente não se aplica, torna-se mais simbólico.

Foi em torno dessas duas provocações que a direção sindical se aproximou dos movimentos autônomos, dos “genoveses”e dos “cirandeiros” (girotondi), alimentando ao mesmo tempo o movimento contra a guerra, contra a reforma escolar e contra a discriminação dos imigrantes. No dia 23 de março de 2002, três milhões de pessoas terminaram em Roma uma longa marcha que começara pouco menos de um ano antes, em Gênova. Um movimento formidável está em vias de se reconstruir e que contesta não só o atual governo como também – e principalmente – a oposição, colocando na ordem do dia a reconstrução de uma esquerda digna deste nome.

Uma direção sindical obreirista

Representando atualmente cerca de 20% do eleitorado italiano, esse movimento, evidentemente complexo, tem à sua frente vários cenários possíveis. O primeiro se baseia na hipótese da manutenção da atual direção “blairista” de centro-esquerda, à qual a grande imprensa dá um apoio incondicional. Essa perspectiva levaria, com certeza, a uma retomada da luta sindical, até de resistência violenta. Mas é possível – segundo cenário – que, apesar de suas divisões, a atual direção da CGIL consiga, com o apoio de certos setores radicais do mundo católico, reconstruir uma bancada social-democrata decente de esquerda, que poderia, a curto prazo, afirmar-se em termos eleitorais.

Um novo cenário começou a se delinear: militantes de base, professores e mulheres rebelavam-se contra a inconsistência e incapacidade da esquerda

Esta hipótese é muitas vezes vista com bons olhos: teria a vantagem de marginalizar esses pós-comunistas que, a partir da década de 70, reprimiram os movimentos sociais, apunhalaram os sindicatos, burocratizaram a representação parlamentar e contribuíram para a atual tendência ideológica reacionária, traindo a tradição comunista. No entanto, impõe-se uma extrema prudência. O mais preocupante, nesse cenário, não é a probidade nem a coerência da direção da CGIL, mas seu déficit cultural, que poderia ser qualificado como obreirista: na realidade, está vinculado a um projeto governamental ilusório, baseado na velha idéia de que a classe operária ainda pode ser portadora de valores “hegemônicos”, no sentido gramsciano do termo.

Um programa de “democracia absoluta”

Mas, infelizmente, as coisas já não vão por aí. A maioria dos novos movimentos considera necessário refundar a esquerda sobre um novo povo: os trabalhadores, mas também os precários e os pobres; os trabalhadores industriais, mas também os trabalhadores intelectuais; os homens brancos, mas também as mulheres e os imigrantes. Eis no que consiste o último cenário, proposto pelo movimento antiglobalização, que é o fator de maior peso. Trata-se de recompor a esquerda a partir de um novo programa do tipo welfare state, com uma renda mínima garantida, cidadania universal e liberdade para os movimentos migratórios, uma nova definição de bens comuns a preservar e promover, no meio ambiente e na vida produtiva, assim como na “biopolítica”.

Este programa novo – para uma outra fase, mais avançada, da revolução comunista – já está inserido na consciência de inúmeros cidadãos e militantes da nova esquerda. É um programa de “democracia absoluta”, como teria dito Spinoza e como desejava Marx: uma República baseada na mais ampla cooperação possível dos cidadãos e na construção e desenvolvimento de bens comuns. A liberdade de todos seria o preço. O outro extremo da alternativa seria o distanciamento das urnas, o êxodo negativo e frustrado dos cidadãos.

O erro da “greve generalizada”

A Itália assiste a uma proliferação de protestos desde que a direita procurou organizar uma manifestação de “solidariedade à bandeira norte-americana”

Na Itália, portanto, a ordem do dia implica um debate aberto e profundo entre os vários elementos desse novo movimento e os da esquerda sindical. Para todos, é preciso desvincular-se da atual direção social-democrata, destruir a continuidade burocrática que asfixia os movimentos sociais, reunir as forças sociais em torno de um novo programa que se oponha ao mercado globalizado. É preciso também recuperar, para as dinâmicas de participação e de cidadania, os 20% de eleitores que contestam de maneira passiva, através da abstenção. Estes podem representar uma formidável alavanca de transformação.

Desnecessário seria enfatizar a extrema importância assumida, desse ponto de vista, pelas temáticas da administração participativa – e, em geral, pelas dos movimentos associativos. Essas temáticas implicam uma completa renovação do próprio conceito de política, concebida não de maneira representativa, mas de maneira expressiva, assim como o conceito de militância. O importante é torná-las eficazes.

Depois do dia 23 de março, este mecanismo de crescimento contínuo de movimentos e lutas sofreu, aparentemente, uma diminuição de intensidade política. Essa fase de incerteza ocorreu quando o movimento antiglobalização, diante da convocação pelos sindicatos para uma greve geral, no dia 16 de abril de 2002, convocou, por sua vez, uma “greve generalizada” sem, no entanto, definir as formas. Onde a greve ocorreu, essa palavra de ordem resultou em pequenas manifestações que, diferentemente do que se passa nas fábricas quando os operários cruzam os braços, não tiveram um peso real na correlação de forças: trabalhadores precários, trabalhadores sociais, flexíveis ou móveis, não conseguiram “fazer mal” ao patrão. Daí uma certa perda de confiança, acompanhada pela tentação de se apegar aos bons velhos métodos de representação próprios da CGIL.

Renasce o “laboratório Itália”

A resistência é tão grande, que o movimento dos imigrantes conseguiu realizar as primeiras “greves de cor” nos setores industriais do norte do país

Vã tentação: o problema não são os dirigentes, mas a linha política, a retomada da esperança. O problema é que a social-democracia esgotou seu papel histórico. Em todas as assembléias, ouve-se atualmente ser reafirmada a necessidade de se refundar o movimento fora da continuidade social-democrata, unindo os operários das fábricas aos outros trabalhadores e excluídos, reconhecendo na “precariedade” social e nas forças intelectuais da produção um papel político predominante.

Mas o que principalmente se manifesta, um pouco por todos os lados, é a vontade inteligente e intensa de descobrir novas formas de luta social que possam expressar a nova unidade dos que protestam. Tenta-se, principalmente, fazer greves nas unidades de trabalho imaterial, relatar as lutas pela Internet, desarticular o comando nas metrópoles. Assim, e somente assim, uma nova esquerda poderá ser reconstruída.

Resumindo: não existe, na Europa, uma única situação em que, melhor que na Itália, um fracasso da esquerda social-democrata tenha sido seguido por uma ação de resistência eficaz. Passamos por uma espécie de sobressalto das consciências, algo difícil de definir, mas que garante que, para lutar e mudar o mundo, as massas não têm mais necessidade da social-democracia. O “movimento dos movimentos” busca novas formas de expressão, ao mesmo tempo no plano teórico e na luta concreta; tenta pôr em prática novos dispositivos de hegemonia. O “laboratório Itália” recomeçou a trabalhar.
(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - O cineasta Nanni Moretti, por exemplo, é um deles. Seu discurso improvisado – por ocasião de um comício da centro-esquerda no início de fevereiro de 2002, na Praça Navona, em Roma – mobilizaria uma tendência do “pessoal de esquerda”, que passaria a formar correntes humanas ao redor de diferentes instituições ameaçadas pelas reformas do governo de Berlusconi, como a sede da estatal Radiotelevisão Italiana (RAI), os tribunais etc.
2 - Umberto Bossi é o líder da Lega Norte (Liga do Norte) conhecida por suas posições “separatistas” e xenófobas; Gianfranco Fini dirige a Aleanza Nazionale, ex- Movimento Social Italiano (MSI, fascista) que em meados da década de 90 tornou-se um partido da direita liberal. Bossi e Fini fazem parte do governo Berlusconi.




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