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JUDEUS NA FRANÇA

Em busca de identidade

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De dois anos para cá, a evolução do conflito entre israelenses e palestinos e os atentados-suicidas em Israel vêm angustiando boa parte dos judeus franceses. Além dessa, no entanto, há outras dúvidas: qual a essência do judaísmo num país europeu moderno?

Dominique Vidal, Sylvie Braibant - (01/08/2002)

“Há uma verdadeira bipolarização: de um lado, os judeus que assumem como nunca sua identidade; de outro, os que são assimilados e desaparecem”

O que viria a ser a “comunidade judaica”? O conjunto dos franceses de religião, origem ou tradição judaica, que é calculado em 700 mil pessoas? Ou a comunidade organizada, isto é, cerca de 100 mil delas que mantêm algum vínculo com o Consistório ou com uma das associações que fazem parte do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (CRIF)? Quando o presidente deste último, Roger Cukierman, se pronuncia, ele conta com a adesão – no máximo – de um judeu francês em cada sete1

Colaborador de Actualité juive e praticante rigoroso, Jean-Yves Camus é enfático: “Estamos assistindo a uma verdadeira bipolarização: de um lado, há os judeus que assumem como nunca a sua identidade, e do outro, os que são assimilados e desaparecem.” São realidades difíceis de serem mensuradas pois, continua ele, “para nós, os números constituem um tabu: a Torá, assim como a República, proíbe o censo dos judeus”.

Não-judeus são “franceses”

Contentemo-nos, portanto, com aproximações. No Consistório de Paris, Jean-François Strouf insiste sobre a freqüência às sinagogas (que atingiriam, a cada sábado, mais de uma quarta parte dos participantes da grande festa do Kippur); a diminuição do número de casamentos “extra-comunitários” (um em cada dois); a inscrição de cerca de um quarto das crianças numa escola judaica, religiosa ou leiga. E se a venda de carne kosher diminui, seria devido à crise da vaca louca – cada judeu teria, assim mesmo, consumido em média mais de vinte quilos de carne durante o ano de 2001...

“Em certos bairros, há uma tal concentração de sinagogas e de escolas judaicas que se poderia falar de auto-guetização”, revela um jornalista judeu

“Em certos bairros”, observa Jean-Yves Camus, “há uma tal concentração de sinagogas e de escolas judaicas, assim como de lojas ou de restaurantes de comida kosher, que se poderia falar de auto-guetização: ao contrário dos “israelitas” de antigamente, que zelavam para não se expor demais, os ortodoxos de hoje mostram-se, e isto é muito bom. Todavia, alguns o fazem até com uma houtzpa (audácia) muito israelense: tratam facilmente de anti-semita quem se oponha aos seus projetos. Outros, apesar de nascidos aqui, referem-se aos não-judeus como ‘os franceses’...”

Os valores do judaísmo

Esse desejo de estar “entre si” é perceptível na Escola da Aliança Israelita de Pavillons-sous-Bois, no distrito da Seine Saint-Denis, (620 alunos, comparados a 50 na época da fundação, há 38 anos). O bairro é elegante, florido e calmo: um universo de casas pequeno-burguesas. O metrô chega a dois passos. A segurança ao redor da escola é discreta, embora a vigilância tenha sido reforçada desde que alunos que usam a kippa2 começaram a ser insultados quase diariamente. Essa tensão, também perceptível nas ruas, provocou, segundo a diretora, Rachel Cohen, um afluxo de candidatos. “Procura do sucesso escolar, mas também a busca de uma identidade e a esperança de segurança. Aqui, estamos protegidos, não somos designados como o ‘mal’. Até diretores de escolas públicas me pedem para receber alunos!”

Como um eco, uma moça irradiando alegria – que começará seu curso de Medicina no ano que vem – pergunta como conseguirá “deixar o ninho, que [a] protege desde o tempo do primário. Receio muito o exterior, a laicidade”. Uma outra, que entrou somente no ano passado, acrescenta: “Quis encontrar-me com pessoas que partilhem a mesma mentalidade, a mesma maneira de conviver com a religião e a comida kosher.” Matriculado no segundo grau após uma experiência difícil num colégio público, um rapaz insiste sobre “os valores do judaísmo: respeito e tolerância”.

“Onde estava Deus?...”

Uma moça pergunta como conseguirá deixar a escola [religiosa], que a protege desde o tempo do primário. “Receio muito o exterior, a laicidade”, diz ela

Responsável, há quarenta anos, pela sinagoga da rua de Montevideo, no XVI distrito de Paris, o rabino ortodoxo Daniel Gottlieb expressa circunspeção: “Embora muito evidente, a volta ao judaísmo permanece minoritária. Se 90% dos judeus participam do culto do Kippur, bem poucos vêm a cada sábado. Cerca de 80% deles casam com um parceiro não-judeu. As escolas judaicas não recebem mais que uma de cada quatro crianças judias – e seu sucesso é diretamente ligado ao das escolas privadas em geral. Quanto à carne kosher, não se deve esquecer que é também consumida por muitos muçulmanos3.”

Mesmo se transposto para proporções mais razoáveis, o fenômeno de “rejudaização” das últimas décadas é inegável. Lembremos o pós-guerra. De 1942 a 1944, 79.500 dos 330 mil judeus que viviam na França foram deportados – apenas 2.500 sobreviveram. Dois terços das vítimas eram estrangeiros. Um trauma como esse explica que, após a Libertação, muitos dos que escaparam ao genocídio não soubessem mais o que significava ser judeu. Como Elie Wiesel, alguns perguntavam-se “onde estava Deus em Auschwitz4”. Mas o Holocausto não abalou apenas a fé...

“Rejudaização” pelas tripas

O rabino ortodoxo é circunspecto: a volta ao judaísmo é evidente, mas minoritária. Cerca de 80% casam com um parceiro não judeu”...

Foi um período confuso – explica Henri Hajdenberg, que “inventou” a Renovação Judaica em 1973, antes de presidir o CRIF, de 1995 a 2001 – em que, diante de uma “identidade abalada”, se impunha uma “reconstrução pessoal e familiar”. Nessa árdua tarefa, muitos se apoiaram num “compromisso comunista ou socialista que superava o fato de serem judeus”. Outros militaram como sionistas.

Diretora da Fundação do Judaísmo Francês, Nelly Hansson manteve, de sua província, a lembrança de uma “desjudaização relativa. O anticlericalismo à francesa – contra os rabinos, assim como contra os padres – não impedia, mesmo sem respeitar a lei kosher, de se encontrar entre amigos na sinagoga”. Indagado sobre o assunto, seu pai, livre-pensador, mencionava a presença necessária de dez homens, a chamada minyan, para rezar: “Mesmo que não tenhamos fé, devemos permitir aos crentes que rezem...”

“Pus na sua frente a vida e a morte. Escolha a vida.” Théo Klein cita esse ensinamento de Moisés para explicar o renascimento, essencialmente individual, do judaísmo francês do pós-guerra. Ele próprio “superjudaizado” durante a sua juventude, engajado na Resistência judaica sem ter sido “comunista nem sionista”, subiria todos os degraus da “hierarquia”, da presidência da União dos Estudantes Judeus (UEJ) à do CRIF, de 1983 a 1989. Mas respeita todos aqueles que, durante um longo tempo, preferiram esquecer a deportação, deixando a sinagoga e se casando com um(a) não-judeu(ia)... “A rejudaização”, segundo ele, “fez-se pela tripas.”

Chegam os judeus da África do Norte

De 1942 a 44, 79,5 mil dos 330 mil judeus que viviam na França foram deportados. Apenas 2,5 mil sobreviveram

Principalmente tripas sefarditas – ou, para ser mais preciso, judeus-árabes5. “A chegada dos judeus da Tunísia, do Marrocos e principalmente da Argélia, modificou profundamente a comunidade judaica francesa, pondo em risco o lugar, até então majoritário, dos ashkenazim6”, lembra Théo Klein. Quantitativa e qualitativamente: pois os pieds noirs7 trouxeram com eles uma “religião popular”, que praticavam semanalmente, ou até todo dia. “Ressuscitaram o judaísmo francês”, exclama o rabino Daniel Fahri, líder do Movimento Judeu Liberal8, antes de ponderar: “Possuíam o entusiasmo e os ritos, porém pouca coisa no plano cultural. Sua chegada radicalizou o Consistório.” “E eles tinham”, complementa Jean-Yves Camus, “contas a acertar com a França, que revogou o decreto Crémieux em julho de 1940, ‘capitulou’ diante da Frente de Libertação Nacional argelina em 1962, e ainda acolheu mal aqueles a quem tinha ‘traído’.” Daí o sentimento de “vingança” que sentiram durante a Guerra dos Seis Dias, acrescenta Meïr Waintrater, editor da revista mensal L’Arche, para quem “1967 marca a certidão de nascimento simbólico do judaísmo francês moderno”. Foi a primeira vez” explica Hajdenberg, “que judeus desceram à rua como tais”.

A socióloga Martine Cohen pondera, entretanto, essas correlações: “A renovação no mundo judaico ocorreu uma década após a chegada dos judeus da África do Norte. O fim da década de 60 e a primeira metade da década de 70 foram fundamentalmente marcados por um desenvolvimento cultural e comunitário em que a dimensão religiosa encontra-se minimizada, e que acompanha uma inserção social individual dos judeus da África do Norte9.”

Respeito pelos antepassados

Nelly Hansson também adverte contra qualquer visão que não considere a história: “Os filhos e os netos daqueles sefarditas muito religiosos não são como eles. Modificaram-se, como o fizeram antigamente os descendentes dos ashkenasim. Afrancesaram-se – salvo quando a tendência geral ao comunitarismo os tenha isolado numa identidade religiosa.”

Portanto, basta um rápido olhar retrospectivo para o perceber: a “rejudeização” iniciada na década de 60 baseia-se em três pilares fundamentais – a religião, a solidariedade com Israel e a memória do Holocausto. Mas cada um se apóia mais ou menos no outro. “Se você perguntar a trinta judeus sobre o que é ser judeu, você obterá trinta respostas... pelo menos”, previne o rabino Gottlieb!

O trauma do Holocausto explica que muitos dos que escaparam à deportação e ao genocídio não soubessem mais o que significava ser judeu

“Ser judeu é, antes de qualquer outra coisa, ser religioso, isto é, conformar-se com um ideal de vida”, afirma Yoni, de 15 anos, nascido em Estrasburgo e de origem argelina. Mais praticante do que seus pais, estuda numa escola religiosa, freqüenta regularmente a sinagoga e come kosher. Por que essas “concessões”, como ele chama curiosamente as obrigações que se impõe? “Por respeito ao que sofreram os nossos ancestrais, da Inquisição ao Holocausto: assimilar-se seria renegá-los.” Ele espera transmitir estas regras de vida aos filhos que terá, com uma mulher judia, obviamente. Todavia, não pretende impô-las a qualquer pessoa: “O judaísmo deve ser tolerante, para reunir o máximo de judeus.” Yoni, aliás, não vibra nem um pouco por Israel: “É um país como qualquer outro, e eu prefiro, aconteça o que acontecer, ficar na França.”

Por que o silêncio?

Assim como ele, os alunos da 3a série do 2o grau do colégio de Pavillons-sous-Bois não podem imaginar o seu judaísmo fora da religião, mas, ao contrário dele, alguns pensam em emigrar para Israel, que consideram ameaçado. Não hesitam em divulgar um apoio quase incondicional, e admitem a recíproca, pró-palestina, entre os jovens muçulmanos. Uma lógica de identidade atualmente interiorizada, como uma mocinha que sente “uma ligação quase materna com o Estado de Israel”.

O rabino Fahri considera muito importante essa questão da “dupla fidelidade”: “Esse conflito mexe comigo. Tenho orgulho da minha integração e da minha cultura francesa, do meu judaísmo e do meu apego (não incondicional) a Israel. Fico apavorado com a idéia de uma posição brutal da França contra esse país. Não sei o que faria…”

A “rejudeização” iniciada na década de 60 baseia-se em três pilares fundamentais: religião, solidariedade com Israel e memória do Holocausto

Outros teorizam a sua solidariedade incondicional. Em plena discussão sobre os perigos que implica a política do general Ariel Sharon para Israel e para os judeus, um dirigente comunitário – que prefere não ser citado – confessa: “Mesmo aqui, muita gente pensa que a política de Sharon é perigosa.” Surpresa: aqui, na Rua Broca, n° 39, sede do Fundo Social Judaico Unificado? Mas então, por que ficam calados? “Com a evolução demográfica, Israel tornou-se o principal centro judaico. E dá a cada judeu francês a sua legitimidade. Por esse motivo, não podemos criticar o governo israelense, seja ele qual for”. Nosso interlocutor ficaria, por sua vez, surpreso ao ser comparado com os comunistas que, em nome da solidariedade para com a União Soviética, ficaram cegos diante da lenta decomposição do “socialismo real”...

Ativistas e moderados

Os fundadores da Renovação Judaica, em meados da década de 70, tinham uma postura que se baseava mais na política do que na identidade. “Foi aquele momento”, lembra uma advogada que, na época, militava na extrema-esquerda na Faculdade de Tolbiac, “que descobri o movimento militante anti-sionista radical, quando este ainda não propagava um anti-semitismo latente. Debatia-se tudo, menos aquele assunto. É por isso que deveria ser novamente lançado um judaísmo político, tentando contrabalançar a política pró-árabe da França.”

Trinta anos depois, Henri Hajdenberg observa: “A opinião dos judeus franceses muitas vezes é mais irrealista que a opinião pública israelense, diretamente confrontada com a realidade do Oriente Médio. Paradoxalmente, parece mais fácil aceitar a perspectiva de um Estado palestino lá do que aqui. Também porque aqui se ouve mais a voz dos ativistas que a dos moderados.” E ataca os judeus que criticam o general Sharon de fora da comunidade, na qual a maioria apóia o primeiro-ministro. Por isso se diz que “a comunidade judaica está voltada para baixo, e não para cima”.

Uma identidade para o futuro

“Pus na sua frente a vida e a morte. Escolha a vida.” Théo Klein cita essa lição de Moisés para explicar o renascimento do judaísmo francês do pós-guerra

Basta voltar a assistir, um após o outro, Noite e neblina, de Alain Resnais, e Shoah, de Claude Lanzmann, para avaliar o quanto a memória do genocídio e de sua dimensão especificamente judaica – durante muito tempo enterrada com a memória da II Guerra Mundial, reapareceu e se impôs à consciência de todos. “Descobri a Shoah quando tinha oito anos, assistindo à série Holocausto”, lembra Valérie Zenati, de cerca de trinta anos, que ensina hebraico num liceu parisiense. “Um verdadeiro trauma, ao qual devo pesadelos apavorantes. Foi assim que o genocídio se tornou ‘a minha história’, o que é raro para um judeu da África do Norte”, reconhece sorrindo.

Esther Benbassa e Jean-Claude Attias não esperavam provocar um escândalo ao publicar Les Juifs ont-ils un avenir?10. A expressão “religião da Shoah” podia efetivamente chocar. Benbassa explica-se: “O genocídio não constitui uma identidade para o futuro.” E Attias complementa: “Ele cria uma barreira entre judeus e não-judeus, ocultando uma história plurimilenar que não se limita a perseguições.” Sem levar em consideração que identificar o judaísmo ao Holocausto significa a exclusão de 60% dos judeus franceses, que não o sofreram na África do Norte. Nelly Hansson se declara “plenamente de acordo” com a idéia de que “a história judaica não é apenas um sinônimo de tragédias, mas também de criação, de contribuição intelectual, de ética, de pedagogia e de pluralidade”.

“O judaísmo é polifônico”

“A chegada dos judeus da Tunísia, do Marrocos e principalmente da Argélia, modificou profundamente a comunidade judaica francesa”, diz Théo Klein

Cultivar que memória do genocídio? A essa questão, Eyal Sivan e Rony Brauman, os primos mal-comportados – abominados pelo establishment judaico – respondem através de seus filmes. Ao primeiro, deve-se Izkor, em que o filósofo Yechayahu Leibovitz critica radicalmente o alistamento da juventude em Israel. E em 1999, os dois dirigiram Um Especialista a partir das imagens arquivadas do processo de Eichmann. “Renunciar à memória seria intelectualmente idiota e moralmente indefensável”, avalia Rony Brauman. “Ela nos é tão necessária quanto os pulmões. E nos humaniza.” E a memória do Holocausto deve ser inscrita, como a de qualquer acontecimento importante, “na história da humanidade. Para evitar manipulações ideológicas e tentar tirar, para o futuro, as lições do passado”.

Religião, memória, Israel. Martine Cohen insiste sobre o surgimento, há vários anos, de um “quarto pilar, cultural, que se apóia na leitura de uma revista, na preferência por uma rádio, na participação de um centro comunitário, em cursos de história ou de idiomas.”

Base desse “pilar cultural”, Haïm Vidal Sephiha diz de si próprio que é “o rádio-relógio do judeu-espanhol”. Até recentemente professor na faculdade de Línguas Orientais, onde criou a cadeira do hebraico, o ensino desse idioma se deve à reapropriação da identidade por ocasião de sua volta de Auschwitz. “Havia um preconceito segundo o qual os judeus-espanhóis não tinham sido deportados, destino que só os judeus da cultura iídiche teriam sofrido. Isso é falso! 11” Seus discípulos, assim como seus alunos, pertencem principalmente a famílias originárias do norte da África. Mesmo assim, se todo o mundo atualmente se diz sefardita, ele tenta evitar confusões: “A maioria dos judeus na França são judeus árabes, de rito sefardita. Os únicos ‘verdadeiros’ sefarditas são os descendentes dos judeus da Espanha. Ao invés de misturar tudo, deveríamos reabilitar os falares judeus-árabes. O judaísmo é polifônico.”

O juízo e a justiça

“1967 [a Guerra dos Seis Dias] marca a certidão de nascimento simbólico do judaísmo francês moderno”, afirma o jornalista Meïr Waintrater

Méni Wieviorka dedica-se também a essa polifonia no Centro Medem (700 membros), do qual ele é uma das principais figuras. O estatuto fundador dessa instituição reivindica a adoção do iídiche (quase exterminado com o genocídio) e a herança do Bund revolucionário12. “Queríamos que o iídiche não morresse. Ora, não é mais falado em Israel, nem nos Estados Unidos, nem na Europa. Em Israel, até passa por idioma dos mortos, dos perdedores, dos covardes. Somente os Lubavitch, os ultra-ortodoxos ainda o utilizam! Nós nos posicionamos mais na tradição do Iluminismo.”

Mas convenhamos: a pedagogia tem seus limites. Mesmo acrescentando um quarto pilar, os demais mencionados até aqui não resumem – ou será que deixaram de resumir? – a concepção de vários dos nossos entrevistados. O rabino Gottlieb, por exemplo, contesta: “O judaísmo não é uma religião. Aliás, é uma palavra que nem existe em hebraico: o termo dat foi “inventado” para traduzir Maimonide13. Não, o judaísmo é uma relação com Deus, com os homens, com valores, com a história.” Para Théo Klein, se o “ser judeu” é relacionado à Bíblia e ao Talmude, ele se baseia nos ensinamentos de Abraão: michpat (juízo) e zedaka (justiça). “Em outras palavras, o judaísmo é, em primeiro lugar, uma organização da sociedade objetivando a justiça.” Mas o que tem essa definição de especificamente judaico? “Ao contrário do Novo Testamento, a Torá não coloca o princípio do amor, mas o da justiça. Na sociedade cristã, a confissão limpa o erro. A sociedade judaica, pelo contrário, lembra-nos sempre a nossa responsabilidade.”

As “identidades plurais”

“Ao invés de misturar tudo, deveríamos reabilitar os falares judeus-árabes. O judaísmo é polifônico”, diz o professor Haïm Vidal Sephiha, judeu-espanhol

Mais institucional, Meïr Waintrater lamenta principalmente “a ausência de um modelo de identidade judeu-francês coerente”. Logicamente, alegra-se com a renovação religiosa, intelectual e política das últimas décadas, lembrando o avanço trazido por instituições como a escola de quadros de Orsay e o papel central de personalidades como Léon Ashkenazi, o chamado Manitu. “Mas o discurso judeu atual, muito dividido, parece uma massa mal batida. Precisamos de um mínimo comum, aceitável pelos laicos e pelos religiosos. Infelizmente, cada um vê esse mínimo como seu máximo! Quando teremos o nosso Vaticano II?”

Assumidamente leiga, a historiadora Annette Wieviorka concebe de forma diferente sua busca de identidade. Seus trabalhos são uma referência e ela é a cada vez mais solicitada sempre que se trata do genocídio: “Nas palestras, nos seminários e nas comissões onde sou convidada, é por ‘isso’, porque sou judia. Porém, se sou efetivamente judia, sou também uma mulher, francesa, pesquisadora...” O mundo moderno chama “identidades plurais as que se misturam em cada pessoa, as origens, as profissões, as opiniões, as crenças. E esta mistura evolui de uma época para outra. O ‘ser judeu’ é apenas uma parte de nós próprios.” “E não necessariamente a mais importante”, afirmou, como um eco, Rony Brauman, também convencido de que vivemos o momento das “recomposições de identidades”.

Aproximação dos leigos

“Mesmo aqui, muita gente pensa que a política de Sharon é perigosa”... “Mas então, por que ficam calados?”

Doutora na Faculdade de Letras de Paris-VII, Anny Dayan Rosenman insiste sobre um aspecto judaico: “Não queremos mais ser viajantes sem bagagens” à moda dos “israelitas” de antigamente. Mas o que ela coloca nas malas? “Um fundo cultural comum, com uma dimensão judaica.” Convicta de que a maioria dos judeus franceses são leigos, ela fundou, com o escritor Albert Memmi, há cerca de dez anos, a Associação por um Judaísmo Humanista e Laico. “Sabemos que a transmissão não se efetua mais em bloco, mas à la carte.”

Além dos valores que se baseiam nos textos dos profetas, a professora trabalha, por exemplo, “sobre um certo número de escritores que, cada um à sua maneira, têm um vínculo com o judaísmo”. Um jeito, entre outros, de “ajudar os judeus leigos a escolherem juntos a sua herança”. Por falar nisso, Anny Dayan Rosenman sugere uma solução simples para o “problema” dos casamentos mistos: “Que os rabinos reconheçam a patrilinearidade, e então, o que vivem hoje como uma hemorragia se tornará uma contribuição!” O movimento judeu liberal da França antecipou esse desejo de abertura: reconhece como judia”, explica o rabino Fahri, “qualquer pessoa de pai judeu ou de mãe judia e educada dentro do judaísmo. Levamos em consideração a experiência das pessoas e pedimos que outros complementem a sua formação”.

Decomposição/recomposição de identidades

Queríamos que o iídiche não morresse, mas em Israel até passa por idioma dos mortos, dos perdedores e dos covardes”, revela Méni Wieviorka

“Ao invés de mobilizar os judeus da França negativamente, seria uma oportunidade de incentivá-los a participar positivamente na definição de um judaísmo do século XXI, uma verdadeira cultura na diáspora”, insiste Jean-Claude Attias. Esse objetivo ambicioso implica “a reconquista do pluralismo na comunidade organizada”. É impossível avançar enquanto persistir o bloqueio dos ortodoxos e da direita: uns tremem diante dos casamentos exógamos, de mulheres rabinas, das conversões e dos homossexuais; outros taxam de anti-semita qualquer pessoa que critique o governo israelense. “Está na hora de fazer convergirem as forças críticas.”

O que restará da identidade judaica daqui a um século? “No fundo, tanto faz”, responde Rony Brauman. “O judaísmo não irá escapar ao movimento geral de decomposição/recomposição das identidades. É impossível conter a verdade judaica num gueto. A mistura é inevitável. E ninguém sabe no que irá resultar...”

Talvez nesta “evidência medíocre” poetizada pelo George Perec14: “Um silêncio, uma ausência, uma pergunta, um questionamento, uma hesitação, uma inquietação, uma certeza inquieta...” Ou na confiança tranqüila da Méni Wieviorka: “Para mim, quem chega e se apresenta dizendo “eu sou judeu”, então é judeu.”
(Trad.: David Catasiner)

1 - Cukierman recusou-se a falar com os jornalistas que faziam a pesquisa.
2 - Pequeno barrete, circular, que cobre o alto da cabeça.
3 - Na IV Feira Eurokosher, realizada no início de junho em Paris, calculou-se em 60% o percentual de consumidores não judeus de produtos kosher (Témoignage chrétien, 13 de junho de 2002).
4 - Ler La Nuit, Editions de Minuit, Paris, 1958.
5 - A palavra bíblica sefarad foi utilizada para designar a Espanha.
6 - A palavra bíblica achkenase foi utilizada para designar a Alemanha.
7 - N.T.: Ao pé da letra, pés pretos: cidadãos de nacionalidade francesa nascidos em países do Norte da África.
8 - Majoritária nos Estados Unidos, essa corrente foi “importada” pela França em 1977, país onde continua minoritária e, de certa forma, isolada pelo judaísmo “oficial”.
9 - Ler “Les Juifs de France aujourd’hui. Du modèle confessionel au modèle communautaire”, revista Migrations-Formation nº 82, setembro de 1990.
10 - Ed. Lattès, Paris, 2001.
11 - Quase a metade dos 375 mil judeo-espanhóis enviados para a Europa e para a Ásia Menor só voltaram da deportação após 1945...
12 - O Bund – Organização Social-Democrata dos Operários Judeus – nasceu na Rússia, na clandestinidade, em 1897. Seria uma das componentes que levaram à vitória do Partido bolchevique, em 1917.
13 - N.T.: Moisés Maimonide, teólogo, filósofo e médico do século XII, que serviu na corte de Saladino. Alguns de seus principais textos – entre eles, uma interpretação do Talmude – foram escritos em árabe.
14 - Les récits d’Ellis Island, POL, Paris, 1994.




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