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A radicalidade de Pierre Bourdieu

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Selecionados por Franck Poupeau e Thierry Discepolo, artigos de Pierre Bourdieu revelam, nas suas intervenções públicas, a coerência do engajamento sociológico e político de um “intelectual específico”

Henri Maler - (01/08/2002)

Bourdieu manteve engajamento de “intelectual específico”: hostil aos ensaístas especializados em ocupar a mídia, preocupado em colocar um conhecimento rigoroso a serviço da transformação

Publicado pela editora Agone, que acaba de reeditá-lo após o incêndio que destruiu todo o seu estoque, esse livro de Pierre Bourdieu, “esquecido” pelos grandes meios de comunicação, reconstitui um percurso de quarenta anos de intervenções públicas e permite avaliar a constância, a diversidade e a coerência de um engajamento.

Um engajamento que, apesar de não agradar aos que preferem ignorá-lo, não tem a idade de sua visibilidade nos meios de comunicação: desde a época dos primeiros trabalhos do sociólogo (contra o colonialismo) na Argélia, nunca deixou de ser contemporâneo. Sem dúvida, passou por mudanças significativas, mas, mesmo em suas versões oficiais e institucionais – as propostas de reforma do ensino superior, por exemplo –, jamais se aproximou de uma visão estatal da sociedade e da política. Sua radicalidade, democrática e quase sempre libertária, não data de 1995, quando todos os professores metidos a moralistas que reinavam nos meios de comunicação começaram a se aliar para deplorar uma radicalização que avaliavam à luz de suas abdicações.

O “militantismo sociológico”

É preciso conhecer as inércias sociais que se opõem à transformação da sociedade, se realmente quisermos mudá-la

Os artigos escolhidos por Frank Poupeau e Thierry Discepolo evidenciam que, ao contrário do que se imagina comumente, a lista das intervenções do sociólogo Pierre Bourdieu corresponde quase àquela das obras de sua bibliografia. Portanto, apesar da multiplicação dos alvos, o engajamento público de Pierre Bourdieu continuou a ser sempre fundamentalmente o de um “intelectual específico”, da maneira como Michel Foucault o entendia: hostil aos ensaístas especializados em ocupar os meios de comunicação dominantes e aos especialistas na racionalização da dominação; preocupado em colocar um conhecimento rigoroso a serviço de transformações sociais concretas.

Portanto, é possível constatar a coerência desse engajamento específico, não para imediatamente lhe fornecer um certificado de validade, mas para usufruir de suas contribuições. O fato de toda sua sociologia estar longe daquela funesta ilusão não significa que o “militantismo sociológico” de Pierre Bourdieu tenha a ver com qualquer cientificismo doutrinário que dê à ciência o poder exorbitante de transformar a sociedade submetendo-a a decretos. Ao contrário, Pierre Bourdieu ensina que é preciso conhecer as inércias sociais que se opõem à transformação da sociedade (e ao papel que o conhecimento científico possa ter e desempenhar nesse caso), se realmente quisermos transformá-la e ver esse conhecimento tomar o lugar modesto, mas às vezes decisivo, que pode ter nessa transformação.

Engajamento na ciência e no cotidiano

Um defensor ardente da transgressão dos limites da etiqueta acadêmica. Um partidário da reconstituição do intelectual coletivo, apto a as opor ao individualismo narcisista

Por isso Bourdieu foi ao mesmo tempo um defensor veemente da autonomia do campo intelectual e, mais tarde, como ele próprio reconhecia, um defensor ardente da transgressão dos limites da etiqueta acadêmica, que pretende preservar a pureza do conhecimento confinando seus atores na redoma do Saber. Por isso, em nome da mesma exigência, apesar ou principalmente devido à sua notoriedade, Bourdieu conclamava à constituição de um intelectual coletivo apto a se opor ao individualismo narcisista dos intelectuais que se dedicam prioritariamente aos meios de comunicação que os consagram.

Mas como incentivar a circulação entre os conhecimentos militantes e as contribuições eruditas, se – como sabia muito bem Pierre Bourdieu – os primeiros trazem, na ação e por meio dela, conhecimentos que não são simples crenças preconcebidas? Que relações estabelecer entre o investimento na pesquisa, e até o engajamento militante do pesquisador na qualidade de pesquisador, e o engajamento militante nos combates cotidianos, se o militantismo científico bem fundamentado não se confunde com o carreirismo acadêmico? Essas questões continuam abertas porque levam a tensões que não podem ser totalmente absorvidas. Ao se esforçar para contribuir para a existência de um movimento social europeu, Pierre Bourdieu optou por enfrentá-las sem renegar exigências que os artigos aqui reunidos reconstituem totalmente.
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

Referência Interventions, 1961-2001. Science sociale et action politique, de Pierre Bourdieu. Artigos escolhidos e apresentados por Franck Poupeau e Thierry Discepolo, Editions Agone, Marselha, fevereiro de 2002, 488 páginas, 20 euros. Contribuições de apoio à editora Agone: BP 2326, 13213 Marseille cedex 02, França.




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