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CULTURA

O que dizem os dinossauros?

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De repente, os dinossauros passaram a ganhar espaço nos jornais. Mas não é por um interesse bizarro por “mundos perdidos”: o que move a mídia são os sonhos loucos que aparecem com as promessas genéticas de um novo “salto” da humanidade

Serge Tisseron - (01/08/2002)

Dinossauros e homens pré-históricos estão na moda. Isso já aconteceu no início do século XX, quando a literatura – e depois o desenho animado e o cinema – lançaram-se na reconstituição de “mundos perdidos”. Essas narrativas revelavam uma ambivalência própria da época. O homem ocidental experimentava a tentação de imaginar que as civilizações “primitivas” eram a sua própria representação em estado nascente.

Atualmente, o conhecimento da pré-história fez enormes progressos e os dinossauros e os primeiros homens entusiasmam de outra maneira. Não é mais a descoberta dos povos desconhecidos que ocupa a primeira página dos jornais, mas as manipulações genéticas. Elas abrem caminho aos mais loucos sonhos: seriam os pesquisadores capazes de criar novos humanos dotados de desempenho mental superior? Um novo “salto” da humanidade estaria sendo preparado, semelhante ao que ocorreu há 35 mil anos, quando os primeiros homo sapiens apareceram para superar o homem de Neandertal?

O medo da idade adulta

No início do século XX, o homem ocidental imaginava que as civilizações “primitivas” eram a sua própria representação em estado nascente

Os romances de Jean M. Auel1,que alcançaram um sucesso fenomenal no mundo inteiro, aparentemente nada têm a ver com essas questões. No primeiro volume da saga, o autor conta a vida de um grupo de homens de Neandertal que se parecem muito conosco. O leitor é conduzido a espantar-se com as prodigiosas capacidades de um pequena sapiens recolhida pelos homens de Neandertal. E é isso que a narrativa de Jean M. Auel tem a ver com as preocupações lembradas acima, pois se a genética modificou o ser humano, teríamos todas as chances de nós mesmos nos encontrarmos na situação dos homens de Neandertal! Essa inquietação é muito mais forte porque os adultos já a experimentam em sua vida cotidiana. Não estariam eles, diariamente, diante do risco de se verem “ultrapassados”? E, no entanto, não são novas criaturas dotadas de poderes extraordinários que os ameaçam, mas seus próprios filhos! Como os homens de Neandertal de Jean M. Auel, muitos adultos tentam “permanecer jovens”, não se deixar ficar fora do tempo, mas sentem que, quaisquer que sejam seus esforços, mais cedo ou mais tarde ficarão à margem do caminho.

Os dinossauros e os homens de Neandertal nos interessam por duas outras razões. Permitem a apresentação de duas questões insolúveis, que não deixam de preocupar qualquer ser humano: sua existência anterior à sua vinda ao mundo e os ancestrais que o precederam em sua linhagem.

O enigma e a mágica dos dinossauros

Comecemos pela pré-história de cada um. Tratando-se de dinossauros, a criança os distingue facilmente dos Pokémons, dos trolls ou de outros balrogs2. Os dinossauros existiram “de verdade”! No entanto, vieram antes dos homens, um pouco como o bebê antes da criança. É possível ser jovem e velho de uma só vez – a publicidade nos garante isso – adulto e adolescente – em uma palavra, os adulescentes e, até, homem e mulher. Porém, ninguém pode ser, de numa só vez, um bebê que não fala e um adulto. Nesse campo, a coexistência é impossível. É um pouco como os monstros pré-históricos e os homens: é preciso habituar-se a nunca pensar neles juntos.

A isso se soma uma consideração enigmática e mágica: os dinossauros desapareceram sem que ninguém soubesse como, nem por que. Não é dessa mesma forma misteriosa que representamos a nossa própria passagem da vida de bebê, ainda privado de linguagem, da qual não guardamos lembrança alguma, para aquela criança em que nos transformamos? Essa questão está, aliás, em muitos contos de fadas: o sapo se transforma num jovem príncipe sem que nunca se compreenda por qual mecanismo.

O mistério da pré-história pessoal

Estaríamos às vésperas de um um novo “salto” da humanidade, semelhante ao que permitiu os primeiros homo sapiens superarem o homem de Neandertal?

Dessa maneira, na criança, a paixão pelos dinossauros se encarrega de uma parte das interrogações que ela tem sobre sua entrada na vida. O volume pesado, que os impede de se moverem com facilidade, é uma imagem da impotência motora do recém-nascido. O gigantesco apetite repete o momento da vida do bebê no qual seu elo com o mundo se organizava em torno do desejo de levar tudo à boca e da angústia de ser devorado. Quanto à divisão dos dinossauros em duas categorias, herbívoros e carnívoros, ela é um espelho das tendências opostas que toda criança experimenta: pacífico e social, por um lado, como os grandes ruminantes; carnívoros e predadores, por outro, à imagem do tyrannosaurus rex.

Para as crianças menores, os dinossauros parecem representá-las antes do começo, ou seja, em sua existência fetal. É nesse sentido que deve ser compreendido o que aconteceu com uma “professora” que tentou explicar o desenvolvimento de sua gravidez a crianças pequenas. Para verificar se haviam compreendido bem, ela propôs que modelassem algo que correspondesse à idéia que faziam do feto. Eles modelaram pequenas criaturas, curvadas sobre si próprias, como se pode ver em imagens de ultra-sonografias, mas alguns acrescentaram nas suas costas espinhos semelhantes àqueles com que quase sempre fantasiamos os dinossauros3!

Se os dinossauros podem lembrar à criança o mistério de sua pré-história pessoal, também têm dois trunfos para evocar indiretamente nossos ancestrais: pertencem a uma espécie extinta e conheceram uma glória sem igual.

Uma “consciência planetária”

Se a genética modificou o ser humano, teríamos todas as chances de nõs mesmos nos encontraramos na situação dos homens de Neandertal, sugerem os romances de Auel

Os dinossauros foram os senhores do mundo em sua época, assim como o foram nossos ancestrais. E, como eles, não foram carinhosos uns com os outros! Os combates sem piedade que esses mastodontes realizaram uns contra os outros lembram, para as crianças, as violências exercidas por uns humanos contra outros durante todo o século XX4. Os dramas que pressentem estão todos representados na história dos dinossauros: migração, perseguição, qualquer tipo de violência...

Os primeiros homens são, como nossos ancestrais, ao mesmo tempo longínquos e familiares: totalmente estranhos para nós por seu modo de vida e, ao contrário, muito próximos por suas reações emocionais, como enfatizam constantemente os romances de Jean M. Auel.

Mas por que buscar tão longe uma representação de nossa humanidade? Primeiro, porque se trata de estabelecer uma base comum a toda a humanidade e, dessa maneira, contribuir para uma espécie de “consciência planetária”. Outras razões poderiam também se relacionar à dificuldade encontrada por muitas famílias em abordar sua história recente.

Os segredos da história coletiva

A paixão pela genealogia que tomou conta de nossa sociedade desde a década de 80 é conhecida. Alguns professores tentaram utilizar esse encanto para sensibilizar seus alunos para a história do século XX. Eles os levaram a construir suas árvores genealógicas com a ajuda de suas famílias. A intenção era excelente. Tratava-se especialmente de incitar as crianças a refletirem sobre a sucessão das gerações, a mobilidade geográfica e a mestiçagem, assim como sobre a I Guerra Mundial ou o período da invasão nazista. As crianças aderiram ao projeto.

O mundo sem piedade dos dinossauros e o vagar sem destino dos últimos pré-sapiens destacam a agonia de pertencer a um mundo já ultrapassado

Infelizmente, as famílias não as acompanharam! Pior ainda, um grande número delas reclamou: nos armários há segredos demais dos quais os pais não querem falar! Um bom número de pais não tinha vontade de que seus filhos lhes perguntassem sobre sua própria história. Enfim, o desvendamento da história coletiva progride, mas as histórias familiares resistem. E isso é um grave problema. É possível fingir que não se vê. Pode-se repetir que a escola deve ensinar os grandes valores republicanos e que isso deve passar pela informação dos períodos sombrios de nossa história. O problema é que não dá para acreditar nisso. Existem, em todas as categorias sociais, famílias em que a troca de informações e o questionamento são incentivados e outras em que pedaços inteiros da história familiar, dolorosos ou vergonhosos, que permanecem encerrados em uma espécie de “armários”.

Novos contos de fadas

A escalada do extremismo de direita nas últimas eleições na Europa, e especialmente na França, não é desprovida de relação com o silêncio familiar. Seria conveniente, então, aceitá-la como inevitável? Não. Onde o Estado pode agir, ele deve incentivar o desvendamento das histórias familiares sem o qual a compreensão da história coletiva permanece impossível.

Em todo caso, a paixão pela pré-história alimenta novos contos de fadas: o mundo sem piedade dos dinossauros e o vagar-sem-destino dos últimos “pré-sapiens” destacam a agonia de pertencer a um mundo já ultrapassado. E cristalizam o sentimento doloroso de que os dramas não resolvidos da vida de nossos ancestrais continuarão a pesar sobre nós ainda por muito tempo...
(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - Ler, de Jean M. Auel, 1980 Les enfants de la terre, Paris, Presses de la Cité, 1991 (5 tomos).
2 - Os trolls e os balrogs são criaturas monstruosas criadas pelo escritor J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis).
3 - Agradeço a Luc Gourand, radiologista que trabalha com tomografias, por esse episódio.
4 - Ler, de Pascal Hachet, Dinosaures sur le divan, psychanalyse de Jurassic Park, Paris, ed. Aubier, 1998.




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