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DIÁRIO DE BORDO

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Um repórter atravessa, num velho Peugeot, dez mil quilômetros no Oeste do continente perdido. Uma experiência insólita e descobertas inesquecíveis

Chistian de Brie - (01/08/2002)

Ceuta é a zona franca dos pobres, porta de entrada para o Sul, que começa com os cigarros comprados a granel e a gasolina vendida em garrafas

Para o viajante das auto-estradas que atravessam a França e a Espanha em direção a Algesiras, bem protegido em sua confortável cabina, deslizando pela interminável faixa asfaltada, uma determinada Europa existe de fato. A mesma sucessão de entroncamentos, de pedágios em euro, de áreas de repouso, de postos de abastecimento dotados, de forma semelhante, de mil produtos inúteis, impregnados por uma música asséptica. Viagem virtual, como num vídeo game.

Depois de atravessar o estreito de Gibraltar, o território espanhol de Ceuta – a “outra coluna de Hércules” dos geógrafos da Antigüidade – tem uma aparência fora de moda de antigo entreposto colonial de paredes descascadas, freqüentado por uma multidão de Pepe le Moko1 exaustos. Brancos modestos, aposentados modestos, tráficos modestos. Zona franca do pobre, porta de entrada para o sul que começa com os cigarros comprados a granel, a gasolina vendida em garrafas. E, nos arredores das cidades e das vilas, os sacos plásticos, folhas mortas em qualquer estação do ano, passando no ar, rodopiando, dando reviravoltas, pousando por um instante em campos e terrenos baldios, prendendo-se aos galhos das árvores, antes que um sopro de ar as carregue para novos arabescos.

Como conseguir um visto de entrada

Não era uma nota que o funcionário esperava, mas lembrar que o representante de um Estado soberano, mesmo pobre, também pode usar métodos arbitrários empregados contra seus compatriotas no Ocidente

Num bairro residencial de Rabat, no subsolo do agradável e discreto consulado da Mauritânia, exerce suas funções um encarregado dos vistos, jovem, elegante, de ar importante. O escritório fica aberto ao público das oito às dez horas da manhã. São quinze para as dez em nosso relógio e no que está situado atrás do funcionário. Mas ele tem o poder discricionário de decretar o fim do período e o fechamento do escritório: convida-nos secamente a retornar no dia seguinte. Enquanto um empregado negro lhe traz o chá numa bandeja, o homem levanta-se para atender o telefone, com uma grande cortesia e um pouco de deferência.

Combinamos a atitude a tomar. Tendo saído antes do amanhecer de Chefchaouen, na região do Rif, chegando ao consulado cansados, mal vestidos, à vontade, bastaria melhorar a apresentação, começar a conversa sobre um assunto totalmente diferente para obter em alguns minutos o que nos foi recusado. Não era uma nota dentro do passaporte que o funcionário esperava, mas, ao que tudo indica, a oportunidade de lembrar que o representante de um Estado soberano, mesmo que seja um dos mais pobres do mundo, também pode usar métodos arbitrários quase sempre empregados, nos países ocidentais, com seus compatriotas imigrantes.

O jogo dos jeitinhos

Cansados e mal vestidos, basta melhorar a apresentação, bater um papo sobre um assunto totalmente diferente para obter em alguns minutos o visto recusado

A lição nos seria útil por ocasião dos inúmeros controles que marcam qualquer viagem na África: polícia militar, alfândega, polícia civil, antes e depois das fronteiras, na entrada e na saída das cidades, nos principais cruzamentos de estradas, na passagem de uma ponte, de uma balsa, na travessia de um parque, ou em qualquer lugar, em qualquer país. O ritual é sempre o mesmo: diminuição da velocidade, parada, espera e conversa fiada até que se esqueça o que se está esperando, papelada (passaporte, visto, atestado de vacina, passagens, documentos do carro, seguro, carteira de motorista internacional, ficha a ser preenchida em duas ou três vias), antes do carimbo salvador.

A recepção é variável. Na maioria das vezes, pacífica e curiosa. Os pedidos de pequenos presentes são freqüentes; os de propina são raros, por vezes disfarçados pelo recebimento de direitos ou taxas mais ou menos fantasiosas. A extorsão organizada continua excepcional, mas a técnica é bem conhecida. Em Rosso, por exemplo, cidade de fronteira da Mauritânia nas margens do rio Senegal, a obtenção de vários carimbos tem poucas chances de dar certo sem a intervenção de um intermediário bem relacionado que se encarrega, com êxito, de todos os procedimentos, por um preço duramente negociado. Preço esse que aumenta na medida em que se aproxima a hora de fechamento dos escritórios e a partida da última balsa, enquanto sobe o tom das conversas, se acelera a agitação, se amplia a confusão com um excesso de gritos, de chamadas, de risos e de empurrões sob o olhar impassível dos ribeirinhos. E, no entanto, tudo acontece sem animosidade e termina sem rancor, contanto que se aceite o jogo dos jeitinhos e o reconhecimento formal da autoridade do Estado, sobretudo quanto este é fraco e seus agentes, trabalhando em escritórios improvisados, dotados unicamente de um carimbo, muitas vezes não recebem salários há meses.

Uma ante-sala do inferno

O ritual é sempre igual: diminuição da velocidade, parada, espera e conversa fiada até que se esqueça o que se está esperando, antes do carimbo salvador

Nas proximidades da maternidade, em Tilmasma, perto de Uerzazate, no Marrocos, um homem simplório da aldeia, um velho desdentado de aspecto ligeiramente preocupante, usando uma djellaba2 encardida, de andar inseguro, procura atrair a atenção dos transeuntes para o conteúdo de um saco de pano que tem na mão. Duas encantadoras meninas, que voltam da escola de mochila nas costas, param despreocupadas, olham com curiosidade o conteúdo do saco entreaberto, conversam por bastante tempo rindo, depois se afastam, deixando o velho satisfeito, com um sorriso nos lábios. Afinal alguém o considerou como seu semelhante, atento a seu tesouro duvidoso. Só podiam ser crianças.

Visita oficial do rei do Marrocos aos territórios do sul. Multiplicam-se as barreiras de controle das estradas. Em Laâyoune, no Saara ocidental, uma multidão colorida, agitada, invade as ruas decoradas à espera de Mohamed VI. É impossível atravessar a cidade sem levar várias horas. Indicam-nos um caminho duvidoso que deve permitir que a contornemos e voltemos a tomar a estrada atrás do aeroporto. Debaixo de um sol forte, viajando numa nuvem de areia e de poeira amarelada que o vento levanta em turbilhões. São duas horas de marcha dantesca. Primeiro, no meio de habitações miseráveis, mal concluídas e já em ruínas, blocos de concreto acinzentados espalhados em terrenos baldios desertos. Depois, numa zona imensa coberta de escombros, ferro velho e lixo, e aqui e ali uma carcaça de burro ou de camelo. Uma zona repleta de casebres de madeira e chapas onduladas, alguns com antenas de televisão, onde vive uma população miserável, fuçando e reaproveitando tudo o que pode ser reaproveitado, no meio de urubus, cães vadios de olhos amarelos e cabras esqueléticas que se alimentam dos detritos – serviço de animais na coleta do lixo doméstico. Mais adiante, em centenas de hectares, uma floresta imensa de sacos plásticos pendurados em arbustos ressecados na qual nos perdemos, flutuando na poeira. Uma ante-sala do inferno, subproduto do modernismo, perto do aeródromo em que pousaram Jean Mermoz, Saint-Exupéry e os pilotos da Aeropostal, pioneiros da globalização, nos anos 1920 e 1930, nessa região que serviu de cenário a Terra dos homens e ao Pequeno Príncipe...

Um pastor alemão sem ferramentas

Tudo acontece sem animosidade e termina sem rancor, contanto que se aceite o jogo dos jeitinhos e o reconhecimento formal da autoridade do Estado

No ponto extremo do Saara marroquino, 300 quilômetros ao sul de Dakhla, um no man’s land minado, de 60 quilômetros de comprimento, que é preciso atravessar em comboio escoltado por um veículo militar, separa o Marrocos da Mauritânia. Apesar disso, são freqüentes os acidentes. Quando chegamos, a escolta acabava de ser suprimida há algumas semanas e a passagem era feita por conta e risco de cada um. Advertidos do perigo, reunindo alguns carros, iniciamos, à noite, uma travessia que iria durar mais de sete horas. A estrada de asfalto esburacado é impraticável. Sem se afastar demais dela, é preciso se arriscar pelos lados, onde geralmente se atola.

Nossos companheiros de viagem, inexperientes, nos deixam estabelecer o trajeto. Entre eles, num carro minúsculo, um pastor alemão, sua mulher em final de gravidez e três filhos de dois a oito anos. O pastor não tem caixa de ferramentas nem material para reparos ou socorro, com exceção de uma bíblia enorme colocada sobre o painel. Ele atola mais vezes do que devia. A cada parada, as crianças escapam pela porta de trás e se divertem sob nossa vigilância preocupada, enquanto é preciso esvaziar os pneus, cavar, colocar placas de metal, empurrar, pegar as placas enterradas na areia, voltar a encher os pneus. Mas para os adultos tensos, daí a pouco exaustos, a visão renovada dos três pequenos príncipes de pijama, cheios de uma felicidade despreocupada sob a soberba abóbada estrelada, é uma promessa de salvação.

Com pedágio, sem auto-estrada

O deserto reserva outras surpresas. A temperatura é bastante baixa. Não apenas à noite, mas de dia também. Outro paradoxo: o deserto não é deserto

Enquanto estamos parados em pleno deserto do Saara, a centenas de quilômetros de qualquer aglomeração, passa, não muito longe, uma caminhonete pintada de rosa bombom transportando em cima uma canoa. Na lateral, há um cartaz amarelo: “Ao Pecado Gracioso – Confeiteiro, fabricante de chocolate, sorveteiro – Blois”. É uma prova de que as miragens existem... Aliás, fomos encontrar a caminhonete num camping de Nuakchott. Pertence a viajantes holandeses gozadores, que não vieram fazer uma entrega a um cliente longínquo, mas decidiram manter como estava o carro comprado de segunda mão.

O deserto reserva ao neófito outras surpresas. A temperatura é bastante baixa. Não apenas à noite, mas de dia também, mesmo na primavera, nessa parte do Saara mauritano, próxima ao mar. Outro paradoxo: o deserto não é deserto. O Saara ocidental marroquino é cortado por uma estrada asfaltada de 1.500 quilômetros, com postos de abastecimento e aglomerações, de Tiznit a Guerguarat, onde, mais do que a paisagem rochosa ou coberta de mato, só as placas indicadoras de passagem de rebanho decoradas com um camelo lembram que se está bem longe da França.

Quanto ao deserto de areia sem estrada demarcada da Mauritânia, está cheio de carcaças de carros: dizem que, abandonados por pouco tempo, são depenados em algumas horas. Se os projetos se concretizarem, será em breve asfaltado também. Enquanto isso, anda-se numa boa velocidade, obrigatoriamente conduzidos por um guia autorizado e com um preço pré-determinado bastante alto, num percurso sem pontos de referência. Uma espécie de auto-estrada com pedágio sem auto-estrada, cortada por raros rios temporários, esses cursos d’água sem água.

O naufrágio da Medusa

Numa área de 12 mil quilômetros quadrados, o parque de Arguin é um viveiro de peixes onde se encontram aves migratórias da Europa – e até da Sibéria

Os 500 quilômetros de deserto que separam Nuadhibu de Nuakchott são um encanto. Saindo da grande cidade do norte, contorna-se a baía dos Galgos, afastando-se da costa atlântica para leste por algumas dezenas de quilômetros, antes de bifurcar direto para o sul no banco de areia de Arguin. Logo depois, o espetáculo é fantástico. Imensas dunas de areia ocre alaranjado deslizam para o azul Matisse de um mar calmo. A perder de vista, entrelaçados por canais cintilantes, estendem-se terrenos lodosos cobertos de vegetação, pequenas ilhas alagadiças e mangues povoados por milhares de flamingos rosa, pelicanos brancos, garças acinzentadas, espátulas, gaivotas, alcatrazes, andorinhas-do-mar, albatrozes...

Numa área de 12.000 quilômetros quadrados, de um lado e de outro do Paralelo 20, o parque nacional do banco de areia de Arguin é um gigantesco viveiro de peixes onde se encontram aves migratórias da África, da Europa e até da Sibéria. Mais adiante, a travessia se estende entre as dunas e o mar. Na maré baixa, numa estreita faixa de areia de 200 quilômetros de comprimento, é preciso passar a toda velocidade, deixando para trás uma névoa de gotículas e levantando diante de si nuvens de pássaros de um branco cintilante. Algumas aldeias de pescadores abrigam os remotos descendentes das tribos almorávidas, bravos guerreiros e muçulmanos místicos que, nos séculos XI e XII, depois de subjugarem os berberes, conquistaram o Marrocos e em seguida a Espanha. Mais próximo da atualidade, em 2 de julho de 1816, uma fragata francesa encalhou no banco de areia de Arguin. Dos 147 passageiros, trinta sobreviventes do naufrágio vagaram durante muito tempo, acabando por se entre-devorarem, numa balsa improvisada. A fragata chamava-se A Medusa...

Transporte coletivo de todo tipo

O espetáculo é fantástico. Imensas dunas de areia ocre alaranjado deslizam para o azul Matisse de um mar calmo. A perder de vista, canais cintilantes, pequenas ilhas, mangues povoados de flamingos

Do Marrocos a Gana, rodovias e estradas de terra apresentam ininterruptamente o filme animado da vida diária africana. Em technicolor e som dolby. Em países sem redes de estradas de ferro, em que o avião é inacessível para a maioria e os cursos d’água são poucos e raramente navegáveis, tudo passa por alguns eixos rodoviários que ligam cidades e regiões. Espetáculo garantido, continuamente renovado. Do nascer do sol ao crepúsculo e até muito tempo depois, tudo anda lentamente, com paradas freqüentes, nem sempre voluntárias. Um arsenal completo de veículos motorizados de segunda mão.

Caminhões antigos trepidantes, arrastando-se como caranguejos sobre pneus carecas, expelindo fumaça de óleo diesel ou levantando nuvens de poeira, sobrecarregados, bem acima da altura permitida, com todo tipo de mercadorias, que ameaçam cair a cada curva ou sacudida, muitas vezes levando no alto passageiros – eles próprios carregados de pacotes, sacos, bicicletas e até cabras, que é preciso içar para cima. Transportes coletivos de todo tipo, do ônibus interurbano ao táxi coletivo, passando pelas mais diversas variedades de “carros fechados”: caminhões, caminhonetes, pequenos furgões adaptados para passageiros, com a lata cortada dos lados em forma de quadrado, de círculo, de coração para a ventilação, bancos rústicos no interior, portas e estribos na parte de trás ou dos lados onde se penduram aqueles que não conseguiram entrar, bagageiros lotados no teto, grades para pendurar frangos e galinhas d’Angola. Todos têm em comum o fato de amontoarem muito mais viajantes e bagagens do que podem suportar. Com ares de velhas carruagens do tempo de Luís Felipe.

“Não sei a hora, mas tenho tempo”

Do Marrocos a Gana, rodovias e estradas de terra apresentam ininterruptamente o filme animado da vida diária africana. Em technicolor e som dolby

Misturam-se a isso, arrastando-se, carroças puxadas por burros ou por pessoas, bicicletas e mobiletes sobre as quais se mantêm em equilíbrio instável homem, mulher e crianças, ou cestas de aves, engradados de legumes, pilhas de tecidos, mesas, fornos, máquinas de costura... Acompanhados de rebanhos de bois, cabras e camelos, que ficam à beira da rodovia ou da estrada de terra, atravessam-na inesperadamente, parando durante um tempo. E por toda parte, ao longo das rodovias, da manhã à noite, pessoas que andam, andam, andam, sem pressa, a quilômetros de distância da primeira aldeia. De todas as idades, em pequenos grupos, conversando, de mãos dadas ou com o braço sobre o ombro um do outro, freqüentemente muito carregados. Sobretudo as mulheres: o meio de transporte mais comum, levando sobre a cabeça, em imensas bacias de plástico colorido, água, madeira, carvão, cereais, frutas, legumes, tecidos, quinquilharias...

As cidades que cruzamos são motivo de paradas prolongadas. À beira da estrada, alinham-se dezenas de minúsculas barracas: vendinha, mercearia, cabeleireiro, joalheiro, mecânico-ferreiro, cibercafé... Cercados por vendedores ambulantes de mangas, bananas, abacaxis, laranjas, mamões, pãezinhos, patês, espetinhos, peixes defumados, pratos prontos, tabaco, cartões de telefone... O conjunto artisticamente apresentado, numa magia de cores, de aromas, uma animação que se prolonga até tarde da noite, quando, à luz dos braseiros, toma-se lentamente um café solúvel – creme em pó, coquetel preparado num copo plástico com os gestos teatrais de um barman de grande hotel. Bem cedo de manhã, pequenos grupos estão parados, sentados à sombra de uma árvore, no meio de um monte de pacotes mal feitos, sacos variados, esperando interminavelmente, mas sem impaciência, a chegada pouco provável de um hipotético ônibus trepidante ou de um táxi coletivo superlotado. “Quando vai passar? – Hoje. – Sei, mas a que horas? – Não sei a hora, mas tenho tempo.” Aqui, o tempo não é uma mercadoria com preço determinado.

Uma frugalidade tranqüila

Os peuls falam entre si com extrema suavidade, numa língua encantada que nos toca como uma carícia. É um momento de felicidade

O sol já desapareceu há horas, a noite logo cai e a temperatura não baixa. O ar da noite é ainda bem quente em Senewaly, pequena aldeia do Sael a noroeste do Mali, entre Kayes e Nioro, próximo ao deserto mauritano. No coração do que foi o primeiro reino de Gana que, durante cerca de mil anos, prosperou com o comércio, através do Saara, de ouro, sal e escravos. Sentados no chão, sob o caramanchão de folhagens do pátio de terra batida que liga os tradicionais casebres de adobe, embalados pelo canto obsessivo das cigarras, saboreamos o chá quente e a hospitalidade de uma família de pastores. Trouxemos conosco, até a casa deles, um sobrinho jovem, aprendiz de ferreiro, que pedia carona no cair da tarde e que nos guiou no escuro por um bom caminho, de aldeia em aldeia. O dia foi duro. Horas de estradas esburacadas, de pistas onduladas cortadas por valas, nuvens de poeira, numa paisagem cada vez menos arborizada, dominada por feios baobás de troncos paquidérmicos, e galhos no feitio de cotos. A temperatura exterior ultrapassava os 45 graus e a de nossos refrigerantes, o nível de um banho bem quente.

Recuperada a calma, permanecemos silenciosos na penumbra, com os olhares brilhando só com a luminosidade das brasas do fogo mantido por uma mulher bela e elegante, que cuida da panela de arroz com carneiro. Junto dela, uma menina com tranças feitas de contas das cores de seu vestido leve nos olha, séria. Faz o gesto gracioso e comovente das meninas africanas: o braço passado por trás das costas, como se fosse um cipó, o outro, ao lado do corpo, a barriga um pouco para a frente. À nossa volta não há objetos inúteis, há uma frugalidade tranqüila: algumas esteiras e almofadas, três copos de chá, enchidos regularmente e distribuídos segundo um ritual e uma precedência estabelecidos pelo chefe de família, uma bacia esmaltada da qual cada um tira com a mão um pouco de arroz e de carne.

A avidez desenfreada dos laboratórios

O mercado das crianças pobres da África não é suficiente para fornecer os dividendos aos fundos de aposentadoria do mercado de capitais e aos aposentados do hemisfério norte

Juntaram-se à família vizinhos que vieram ver os “doutores” e conversar. Só um deles fala um pouco de francês. Será preciso que traduza e a noite vai ser longa. O mais idoso, que, pela primeira vez em sua vida não pôde acompanhar seu rebanho na migração anual de pasto, não consegue compreender por que vim de tão longe. Os nativos da tribo peul são grandes viajantes, mas não se viaja sem motivo. Os meus lhe são incompreensíveis e não o convencem. Acolhedora, atenta, curiosa, alegre, cortada por longos silêncios meditativos, a conversa revela pouco a pouco o prazer de estar junto, enquanto a noite traz finalmente seu frescor benfazejo.

Os peuls falam entre si com extrema suavidade, numa língua encantada que nos toca como uma carícia. É um momento de felicidade. Daqueles que haverá muitas vezes a oportunidade de partilhar, no acaso dos encontros. Fugitivo, pois a desgraça nunca está muito longe. A menina adormeceu. Ficamos sabendo que era a melhor amiga de uma criança da família que morreu de malária há algumas semanas. É uma das principais doenças infecciosas mundiais que matam por ano centenas de milhares de crianças. Os grandes laboratórios farmacêuticos há muito tempo perderam o interesse pelo assunto. Em nome da boa governança da empresa. O mercado das crianças pobres da África não é suficientemente rentável para fornecer os dividendos de retorno de investimentos aos fundos de pensão do mercado de capitais e aos aposentados do hemisfério Norte, velhos e ricos, que alimentam. A mesma avidez desenfreada condena à morte as vítimas da Aids que assola o continente, sem outra terapia que não sejam as campanhas de prevenção onipresentes (leia, nesta edição, o artigo de Philippe Rivière sobre o assunto).

Programa sobre suíços obesos

À beira da estrada, no Mali, sede da recente Copa da África de futebol, podem-se ver imensos painéis nos quais três jogadores formam a barreira diante de seu goleiro, com as mãos cruzadas no baixo ventre. Têm como legenda: “Esta não é a proteção conveniente. Use a camisinha.” E num hotel modesto de Bobo Diulasso, em Burkina Faso, este pequeno cartaz que é de deixar perplexo: “Solicitamos a nossos clientes que entreguem seus preservativos na recepção antes de saírem do estabelecimento.”

Numa ruela de um bairro popular de Lomé, uma TV instalada no meio da rua. No programa do canal em língua francesa, um documentário sobre os problemas dolorosos dos adolescentes suíços obesos...

Numa ruela de um bairro popular de Lomé, no Togo, pouco distante do mercado central, um grupo compacto de crianças e adultos usufrui do frescor da noite, vendo uma televisão instalada no meio da rua. Rostos surpresos e sinceramente compadecidos. No programa do canal em língua francesa, um documentário sobre os problemas dolorosos e o tratamento caro dos adolescentes suíços obesos. Cinismo e zombaria. Cerca de três décadas depois dos primeiros acordos de Lomé – que tentaram estabelecer entre o Norte e o Sul relações menos desiguais – a ajuda ao Togo foi suspensa há anos, mergulhando o país na recessão. Pune-se desta forma o povo, culpado por sofrer com um regime ditatorial que foi implantado e apoiado durante trinta anos.

A presença da juventude na sociedade

A sobrevivência é difícil em Lomé, como na maioria das cidades e aldeias por onde passamos. A pobreza continua sendo a condição da maioria das pessoas, atingidas pela falência dos serviços públicos, os cortes de água e de eletricidade. É preciso uma enorme imaginação e criatividade diárias para garantir pelo menos uma refeição, com uma renda média inferior a um euro (cerca de 2,9 reais). Se o custo de vida é duas ou três vezes menos elevado do que na França, o salário mínimo ou o de um executivo é vinte vezes menor. E são poucos os que têm salário. Mais raros ainda os que o recebem regularmente.

No entanto, apesar do que sofre, a África é a vida. Abundante, exuberante, desenfreada, insolente, divertida. Com a maioria da população com menos de vinte anos, é a juventude que vence e impregna as relações sociais com sua força vital palpável em toda parte, conferindo-lhes essa convivência natural, mistura de entusiasmo e de despreocupação. Os velhos, pouco numerosos, não ficam assim por muito tempo. De volta à França e ao silêncio da vida sedentária, as angústias com a segurança e a xenofobia de uma população que envelhece tendo medo de seus filhos nos abatem.

“Frango cadáver” e “frango bicicleta”

Apesar do que sofre, a África é vida. Abundante, exuberante, desenfreada, insolente, divertida. É a juventude que vence e impregna as relações sociais com sua força vital

Se a África é a vida, a vida é a música, ao mesmo tempo culto ritual e necessidade fisiológica (leia nesta edição “O artesão do futuro”, de Christian de Brie). A música e a dança. Inseparáveis, onipresentes: na rua, nos pequenos pátios, nos mercados, nos jardins, no campo, por toda parte. Os bebês aprendem a cantar e a dançar quando ainda estão às costas das mães, bem antes de saber andar. Todas as músicas do continente, de uma prodigiosa diversidade, e as de fora. Na Europa, uma noite por ano, a festa da música nos faz experimentar um ar de liberdade, como uma injeção de advertência, para não esquecer completamente. Lá, todos os dias são de festa da música, sem a qual os africanos perderiam esperança e dignidade.

É simbólica a distinção africana entre o “frango cadáver” e o “frango bicicleta”. O que é o frango cadáver? Asséptico, estufado com hormônios, recheado de antibióticos, engordado com farinhas, criado em gaiolas, com bom desempenho, gordo, sem gosto, pesado, controlado, rotulado, enfileirado no necrotério dos balcões frigoríficos dos grandes supermercados, em sua mortalha de plástico, com um código de barras como epitáfio, à semelhança de nossas sociedades. O que é o frango bicicleta? Baixinho, magricela, sujo de pó, criado na rua, vagando nos pátios, alimentado pela força das pernas, pedalando debaixo do calor para surrupiar do que subsistir, dançando de um pé para o outro, antes de acabar, firme e saboroso, pendurado de cabeça para baixo e penas nas costas, ao ar livre, na frente de uma barraca. Se você não quiser acabar como frango cadáver, vá à África, ao encontro do frango bicicleta, para achar as raízes esquecidas no berço da humanidade.
(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - Nome de um herói (um condenado pela justiça interpretado por Jean Gabin) e do filme de mesmo nome (que se passava no Kasbah, ou seja, na parte antiga da cidade árabe de Argel), dirigido por Julien Duvivier em 1936.
2 - N.T.: Túnica de mangas longas e capuz, tradicional dos povos dá África do Norte.




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