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Os laboratórios da mentira

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Uma crônica sobre o envolvimento dos meios de comunicação no golpe de Estado de 12 de abril — e sobre os novos esforços da mídia para derrubar, em aliança com as elites, o governo eleito pelo povo

Maurice Lemoine - (01/08/2002)

Na véspera do golpe, uma jornalista-vedete, Patricia Poleo, anunciava à televisão espanhola: “Creio que o próximo presidente será Pedro Carmona”

“Tivemos uma arma de importância capital: a mídia. E como se apresenta a ocasião, aproveito para felicitá-la por isso.” Ainda não é meia-noite em Caracas neste 11 de abril de 2002 que terminará, alguma horas mais tarde, com a queda do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. O vice-almirante Victor Ramírez Pérez parabeniza, ao vivo, a jornalista Ibéyise Pacheco na tela da emissora Venevisión. Vinte minutos antes, entrevistando o punhado de oficiais golpistas que ainda estão na sua frente, ela não pôde esconder, com um ar de conspiradora satisfeita, que mantinha ligações privilegiadas com eles há muito tempo. Mais ou menos à mesma hora, ao ser interrogada ao vivo, de Madri, uma outra jornalista-vedete, Patricia Poleo, estranhamente bem informada sobre o futuro desenrolar de “acontecimentos espontâneos”, anunciava ao canal de televisão espanhola TVE: “Creio que o próximo presidente será Pedro Carmona.” No mesmo instante, entrincheirado no palácio presidencial, o chefe de Estado em exercício, Hugo Chávez, ainda se recusava a renunciar.

Desde sua chegada ao poder em 1998, os cinco principais canais de televisão privados – Venevisión, Radio Caracas Televisión (RCTV), Globovisión, Televen e CMT – e nove dos dez grandes jornais nacionais – El Universal, El Nacional, Tal Cual, El Impulso, El Nuevo País, El Mundo etc. – substituíram os partidos políticos tradicionais, relegados ao vazio pelas vitórias eleitorais do presidente. Com o monopólio absoluto da informação, apóiam todas as ações da oposição, divulgando apenas muito raramente declarações governamentais, não falando jamais da ampla maioria que, no entanto, fora confirmada nas urnas. Desde sempre eles falam dos bairros populares como uma “zona vermelha” povoada de “classes perigosas”, de “ignorantes”, de “delinqüentes” e, achando-os talvez pouco fotogênicos, ignoram com desdém os líderes populares e as organizações.

A entrevista-fantasma de Ramonet

Pesquisas, entrevistas, relatórios, comentários, vão todos no mesmo sentido e com um mesmo objetivo: deslegitimar o poder constituído e destruir o apoio popular do presidente. “Este governo revolucionário é esteticamente uma latrina”, escreve com delicadeza (no dia 22 de março de 2001), por exemplo, o vespertino Tal Cual cujo diretor, Teodoro Petkoff (ex-guerrilheiro marxista que se tornou histericamente neoliberal e ex-ministro privatizador do presidente de direita Rafael Caldera), faz parte dos opositores furibundos. Não que o governo em questão esteja acima de qualquer crítica. Comete erros e inúmeros casos de corrupção mancham funcionários, civis ou militares, que gravitam em torno dele. Mas, além de ter sido democraticamente eleito e de conservar o apoio de uma maioria da população, podemos lhe creditar, tanto no plano nacional quanto no internacional, um certo número de sucessos1.

Jornais e emissoras de TV falam dos bairros populares como uma “zona vermelha” povoada de “classes perigosas”, de “ignorantes” e “delinqüentes”

Má fé, acusações sem prova, ataques à dignidade ou à honra de pessoas ligadas ao governo ou que o apóiam... Nenhum meio é descartado para desacreditar o presidente. Prova disso foi o escândalo provocado em Caracas, no início de março, pela divulgação de uma falsa entrevista de Ignacio Ramonet. Numa declaração supostamente feita a um certo Emiliano Payares Guzmán, pesquisador mexicano na Universidade de Princeton (Estados Unidos), totalmente desconhecido, o diretor do Monde diplomatique criticava severamente o chefe de Estado venezuelano: “Ao presidente Hugo Chávez falta uma assessoria intelectual respeitável, o que faz com que seu navio fique permanentemente à deriva. Quando venceu as eleições, pareceu-me que se delineava alguma coisa de realmente importante. Mas (...) o populismo o venceu, como acontece tão freqüentemente nesses casos. (...) Assisti vídeos em que ele canta boleros santiagueros explicando seu programa econômico, se é que chega a ter algum. Creio que estes fatos, verdadeiros e verificáveis, me poupam de ter que dar uma opinião sobre tal personagem.”

“Informações” absurdas e surrealistas

Divulgada em rede, sem o menor controle, por Venezuela Analítica2, a “declaração” seria imediatamente republicada na primeira página, sem qualquer verificação junto ao suposto entrevistado, pelo diário El Nacional, radiante em poder dar crédito à idéia de um chefe de Estado cada vez mais isolado internacionalmente. Assim que Ignacio Ramonet desmentiu ter pronunciado as palavras que lhe eram atribuídas, El Nacional criticou enfaticamente o mistificador mexicano3 e, mais dissimuladamente, sem nem mesmo lhe pedir desculpas, o diretor do Monde diplomatique.

Num fluxo incessante, multiplicam-se “informações” beirando o absurdo ou o surrealismo. Por exemplo: “Fontes dos serviços secretos revelaram acordos feitos com elementos ligados ao Hezbollah da (ilha venezuelana de) Margarita, que são controlados pela embaixada do Irã. Lembremos que, durante a campanha de Chávez, um tal de Moukhdad teria sido muito generoso com o atual presidente. Isso merece retribuição e agora o Irã quer fazer da Venezuela uma base de operação em troca do treinamento de venezuelanos em organizações iranianas de defesa da revolução islâmica. O terrorismo está entre nós4.”

“Não posso me defender!...”

“Hugo Chávez confessou ser o chefe de uma rede de delinqüentes”, é o título de El Nacional no dia 21 de março. No dia seguinte, Tal Cual menciona “o vômito repugnante provocado pelas palavras coléricas com que ele pretende amedrontar o país”. Insultado, comparado a Fujimori, Idi Amin Dada, Mussolini e Hitler, tratado como fascista, ditador e tirano, o presidente “bolivariano” sofre ataques que, em qualquer país, dariam lugar a uma ação legítima por ofensa ao chefe de Estado. “Uma agressão permanente e desrespeitosa”, indignava-se, em março passado, a ministra do Comércio, Adina Bastidas. “A mim, acusam de financiar a colocação de bombas nas ruas. E eu não posso me defender. Se os atacamos, eles reclamam com os Estados-Unidos!”

“Este governo revolucionário é esteticamente uma latrina”, escreve com delicadeza (no dia 22 de março de 2001), por exemplo, o vespertino Tal Cual

Sem papas na língua, Chávez responde a esse bombardeio da mídia – às vezes com alguns desatinos verbais – em particular durante seu programa semanal “Alô Presidente”, no canal de televisão controlado pelo Estado. Mas, além da virulência verbal, e num regime que em nada se parece com uma ditadura, suas diatribes não se seguem de ações visando a controlar a informação. Desde sua chegada ao poder não houve um único jornalista preso e nenhum meio de comunicação foi fechado pelo governo que, no entanto, é acusado de “achincalhar a liberdade de informação” e de “agredir os comunicadores sociais”.

O tratamento antidemocrático da informação

No dia 7 de janeiro de 2002, uma centena de simpatizantes do presidente cercaram durante várias horas a sede do El Nacional, cantando slogans hostis, gritando: “Digam a verdade!” e atiraram contra a fachada do prédio. “Observa-se, de fato, um aumento de incidentes contra jornalistas”, constata Carlos Correa, coordenador-geral da organização de defesa dos direitos humanos Provea5, “e uma espécie de criminalização destes últimos. Alguns foram pessoalmente atacados. Embora não tenha havido mortos, ainda assim é grave. Mas como os proprietários dos meios de comunicação tomaram posições políticas contra Chávez, o que acontece – e não se sabe mais quem começou, o ovo ou a galinha – é um confronto no qual não é mais possível discutir racionalmente os problemas do país. Agora, dizer que não há liberdade de expressão na Venezuela é um absurdo.”

“Você lê as notícias, vê o os tele-jornais”, lamenta-se o jesuíta Francisco José Virtuoso “e tem a impressão que o país está em pleno conflito. Evidentemente, isto aumenta o clima de tensão.” Já que guerra existe, e que ela foi a vítima escolhida, a maioria popular revolta-se. Não suporta mais certos jornalistas que se acreditam acima de Deus e do Diabo, nem esse tratamento unilateral e antidemocrático da informação.

Chantagem, mentira e manipulação

“Hugo Chávez confessou ser o chefe de uma rede de delinqüentes”, é o título do jornal El Nacional no dia 21 de março de 2002

E os incidentes multiplicam-se. Tomam a feição de um confronto quando a agência de notícias oficial Venpres qualifica de “narco-jornalistas” três personalidades do mundo da mídia. No dia 19 de março, os jornalistas envolvidos – Ibéyise Pacheco (diretora de Así es la Noticia, membro do grupo El Nacional), Patricia Poleo e o apresentador de televisão José Domingo Blanco (Globovisión) – decidem dramatizar ao máximo as acusações. Depois de denunciarem a “perseguição” de que se diziam vítimas, sob as câmeras e os flashes de todos os meios de comunicação – convocados a comparecer à embaixada dos Estados-Unidos – partem para Washington, onde são recebidos como heróis! Assinado por um certo J. Valeverde6, o artigo que provocou todo o incidente foi explicitamente desmentido pelo presidente Chávez, condenado pelo ministro da Defesa, José Vicente Rangel, e acarretaria a punição e demissão do diretor da Venpres, Oscar Navas. O que não impediria uma virulenta campanha, tanto na Venezuela quanto no exterior (leia, nesta edição, o artigo “Golpes sem fronteiras”, de Maurice Lemoine) contra o governo, acusado de querer “amordaçar a imprensa”.

Seja contra seus partidários ou contra o próprio poder, a mídia soube utilizar muito bem a estratégia da profecia auto-realizada. Denunciando atentados à liberdade, quando esta em nada está ameaçada, praticando a mentira e a manipulação, provocaram uma reação, pressionando suas vítimas a cometer um erro, erro que seria em seguida apresentado como a causa (e não a conseqüência) de suas relações difíceis com o poder e com uma larga parcela da população.

Tirando as máscaras

Como não condenar a agressão às equipes de televisão ou a jornalistas por partidários do presidente Chávez? Mas, para eles, como aceitar serem tratados o ano inteiro, nas colunas dos jornais, como “talibans”, como “hordas”, como “celerados”? Como não se indignar que profissionais, ainda que fossem de uma agressividade sem igual e totalmente identificados com a oligarquia, sejam tratados como “narco-jornalistas”? Mas como se surpreender com esse desvio se esses mesmos profissionais multiplicam as acusações falsas e gratuitas contra um presidente sistematicamente apresentado como cúmplice dos “narco-guerrilheiros” colombianos?

Tendo como comissão de frente um punhado de homens poderosos e as vedetes, a grande mídia alterna os outros atores da desestabilização: a organização patronal de Pedro Carmona (Fedecámaras), a Confederação dos Trabalhadores Venezuelanos (CTV) de Carlos Ortega, os militares dissidentes, os tecnocratas da companhia petrolífera nacional (PDVSA) e alguns discretos funcionários norte-americanos7. Reunidos no Bloco de Imprensa Venezuelano (BPV), os meios de comunicação tiraram definitivamente a máscara quando, passando do papel de observadores ao de atores, aderiram à primeira greve geral no dia 10 de dezembro de 2001.

A defesa do direito de “informar”

“Uma agressão permanente e desrespeitosa”, indignava-se a ministra Adina Bastidas. “A mim, acusam de financiar a colocação de bombas nas ruas”

Às “opiniões livres” escritas – “Chegou a hora de mudar o governo. De derrubá-lo8” – juntaram-se manipulações suspeitas nas telinhas e nas rádios. No dia 5 de abril, dois radialistas comentavam, à sua maneira, uma greve de postos de gasolina ligada ao conflito do PDVSA: “Você lembrou de encher o tanque? Vá logo, amanhã não haverá uma gota de gasolina em todo o país!” Incitando os motoristas a se precipitarem sobre os postos abertos, rapidamente lotados, provocaram um caos artificial, já que a greve era apenas parcial e o estoque das bombas de gasolina nunca se esgotou...

Quando, no dia 7 de abril, Ortega e Carmona anunciaram o início da greve geral, Miguel Enrique Otero, diretor do jornal El Nacional, presente ao lado deles, manifestou-se em nome da mídia: “Estamos todos nesta luta, em defesa do direito de informar!” Dois dias depois, o BPV, que acabara de acolher o novo embaixador dos Estados Unidos, Charles Shapiro, decidiu apoiar a greve. A partir de então, as emissoras de televisão passaram a transmitir durante horas, e ao vivo, da sede do PDVSA-Chuao, cujas instalações a oposição usou como local de agrupamento para suas manifestações.

Uma conspiração de “manifestantes pacíficos”

“Tomemos a rua”, ordenava no dia 10 de abril, em editorial não assinado. Ni un paso atrás! (“Nem um passo para trás!”), replicam painéis fixos, divulgados na Globovisión. “Todos à marcha”, apóia outro canal. “Venezuelanos, todos à rua, na quinta-feira, dia 11, às 10 horas da manhã. Traga sua bandeira. Pela liberdade e pela democracia. A Venezuela não se rende. Ninguém nos vencerá.” O apelo à derrubada do chefe de Estado fica tão evidente que, nos dias 9 e 10 de abril, o governo aplica o artigo 192 da lei de telecomunicações: por mais de 30 vezes (entre televisões e rádios), entra em cadeia nacional, com durações de 15 a 20 minutos, a fim de fazer conhecer sua posição. As emissoras contornam a medida, dividem a tela em duas partes e continuam a convocar para a insurreição.

Em janeiro de 2002, simpatizantes do presidente cercaram durante várias horas a sede do El Nacional, cantando slogans e gritando: “Digam a verdade!”

No dia 11 de abril, uma série vertiginosa de coletivas de imprensa de militares e de civis pedindo a renúncia do presidente pontua a batalha da mídia. Na RCTV, Carlos Ortega conclama a oposição a marchar sobre Miraflores (o palácio presidencial). Por volta das 16 horas, assim que a conspiração aparece em toda sua extensão, o poder dá uma ordem de cortar o sinal hertziano dos canais privados. A Globovisión, a CMT e a Televen saem por alguns minutos das telas antes de retomarem seus programas graças ao satélite ou ao cabo. Em todas as telas, uma cena truncada, difundida incessantemente, mostrava contra-manifestantes armados atirando na “multidão de manifestantes pacíficos” (que não estava naquele local!), permitindo que se atribuísse as vítimas desse dia trágico aos Círculos Bolivarianos, organização social dos partidários do presidente.

Entra em cena o poderoso Cisneros

Durante esse tempo, os conspiradores, entre os quais Carmona, reuniam-se na sede da... Venevisión. Permaneceriam ali até as duas horas da manhã para preparar “a seqüência dos acontecimentos”, em companhia de Rafal Poleo (proprietário do jornal El Nuevo País) e de Gustavo Cisneros, homem-chave do golpe de Estado. Multimilionário de origem cubana e dono da Venevisión, este dirige um império de comunicações de dimensões mundiais – Organización Diego Cisneros – presente em 39 países através de 70 empresas9. Tem fortes vínculos de amizade com George Bush (pai). Jogam golfe juntos. Em fevereiro de 2001, o ex-presidente norte-americano passou uma semana de férias em sua propriedade venezuelana, e ambos desejam de forma ardente, e principalmente (entre outras coisas), a privatização da PDVSA10. Naquela noite, o secretário de Estado norte-americano para Assuntos Interamericanos, Otto Reich, admitiria ter “falado duas ou três vezes” com Cisneros11.

Às quatro horas daquela madrugada de 12 de abril, e para evitar um banho de sangue, o presidente Chávez se deixa prender antes de ser levado para a longínqua ilha de Orchila. Sem dispor de qualquer texto assinado por sua mão, sem uma gravação que permitisse confirmar a informação, os meios de comunicação anunciaram em coro sua “renúncia”. O patrão dos patrões, Carmona, se autoproclamou presidente, dissolveu todos os poderes constituídos, legítimos e democráticos. Desde a véspera, às 22 horas, o primeiro veículo de comunicação fechado desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, único meio de comunicação de que dispunha o governo, o canal estatal Venezolana de Televisión (VTV), parou de transmitir, coagida e forçada a fazê-lo12. Ninguém denunciou esse primeiro atentado contra a liberdade de expressão.

A reunião do Estado-Maior golpista

“Você lê as notícias, vê o os tele-jornais”, diz o jesuíta Francisco Virtuoso “e tem a impressão que o país está em guerra, o que aumenta a tensão”

A mídia comemorou o golpe de Estado (censurando o uso dessa expressão) com um entusiasmo não dissimulado. E com motivos. Recebendo na Venevisión, desde as 6 horas e 45 minutos da manhã, o almirante Carlos Molina Tamayo e Victor Manuel García, diretor do instituto de pesquisas Ceca, o apresentador Napoleón Bravo se vangloria de ter emprestado sua casa particular para gravar, alguns dias antes, um chamado à rebelião do general González González. Por seu lado, García menciona seu papel no centro da operação dos militares rebeldes, em Fort Tiuna: “Num determinado momento, ficamos sem comunicação e eu devo agradecer aos jornais e às televisões por sua solidariedade, por toda a cooperação que nos trouxeram para obter as comunicações com o exterior e passar as ordens que me indicava o general González González.”

“Um passo em frente”, era a manchete triunfal de El Universal. O jornalista Rafael Poleo, que registrou o relatório da primeira reunião do Estado-Maior golpista, encarregou-se (com outros) de redigir o ato fundador do novo governo (à tarde, seria oferecida à sua filha, Patricia Poleo, pelo “presidente” Carmona, a direção da Agência Central de Informações). Assinado pelo patronato, a Igreja e os representantes de uma pseudo “sociedade civil”, o decreto que ratifica o estabelecimento de uma ditadura seria também endossado por Miguel Angel Martínez, em nome dos meios de comunicação. Foi lido por Daniel Romero, secretário particular do ex-presidente social-democrata Carlos Andrés Pérez e... empregado do grupo Cisneros.

A perplexidade da CNN...

Na embriaguez da revanche, abateu-se a repressão. Entre as imagens sinistras da prisão do ministro do Interior, Ramón Rodríguez Chacín, e do parlamentar Tarek William Saab, insultados e espancados por uma multidão em fúria proveniente dos bairros nobres, a RCTV lança “caçadas humanas”, publicando uma lista das personalidades mais procuradas e retransmitindo ao vivo, no ritmo ofegante dos programas norte-americanos, as perseguições mais brutais. Em contrapartida, transmitida ao vivo para todos os canais, a coletiva de imprensa do procurador-geral da República, Isaias Rodríguez, foi interrompida brutalmente, depois de cinco minutos, quando ele mencionou os excessos do “governo provisório” e denunciou o “golpe de Estado”.

Depois de denunciarem a “perseguição” de que se diziam vítimas, alguns jornalistas-vedetes partem para Washington, onde são recebidos como heróis!

No dia 13 de abril, rebenta a onda avassaladora dos partidários de Chávez e oficiais leais retomam o controle da situação. No entanto, seria somente através do noticiário da CNN em espanhol – acessível somente a assinantes de TV a cabo –, pelos sites do diário madrilenho El País e da BBC de Londres, que os venezuelanos receberiam informações. Por volta das 14 horas, anunciando a revolta da 42a brigada de pára-quedistas de Maracay, a CNN se surpreendeu: “A mídia local não diz nada.” De fato, à liberdade de informação tão intensamente reivindicada, sucedeu a lei do silêncio... Filmes de ação, receitas de culinária, telenovelas, desenhos animados e partidas de beisebol das grandes ligas norte-americanas passaram a ocupar a telinha (RCTV), somente entrecortados pela retransmissão da seqüência em que o general Lucas Rincón anunciou a “renúncia” do presidente Chávez.

A triste cena dos jornalistas amedrontados

Além dos milhares de conexões pela Internet e das ligações feitas de telefones celulares, só a imprensa alternativa podia romper o bloqueio. Espaço importante de comunicação e informação cidadã, jornais, emissoras de televisão e rádios populares apareceram nos Barrios. Mas, experiências modestas, foram ainda os primeiros alvos da “transição democrática”. “Chávez nunca nos pediu que transmitíssemos seus discursos ou que fizéssemos propaganda sua”, diria Thierry Deronne, apresentador da Teletambores. “Mas os golpistas não hesitaram um segundo em prender nossos dirigentes e confiscar nosso material de transmissão, a fim de cortar toda possibilidade da população se informar de maneira alternativa à da mídia sobre o golpe de Estado.” Em Caracas, a Radio Perola, a TV Caricuao, a Radio Catia Libre e a Catia TV sofreram perseguições, brutalidades e detenções arbitrárias. Que ninguém denunciou.

Os meios de comunicação tiraram definitivamente a máscara quando, passando de observadores a atores, aderiram à primeira greve geral de dezembro de 2001

No final da tarde, multidões aglomeram-se diante da RCTV (e depois, da Venevisión, da Globovisión, da Televen e da CTM, bem como diante das sedes dos diários El Universal e El Nacional), atirando pedras e obrigando jornalistas a divulgarem uma mensagem exigindo o retorno do “seu” presidente. Um ataque intolerável contra a mídia!... O episódio daria lugar à cena lamentável de jornalistas amedrontados que, num pedido de socorro jogado sobre as ondas, esqueciam seu comportamento golpista: “Nós também fazemos parte do povo, também somos venezuelanos e cumprimos nosso dever. Não é possível que as pessoas que apóiam o tenente-coronel Hugo Chávez (esquecendo, de passagem, que ele é o chefe de Estado) nos considerem como seus inimigos.”

A “mídia do golpe”

No entanto, seria preciso esperar 20 horas e a retomada das transmissões do canal estatal Venezolana de Televisión – recolocada em operação por militantes das televisões comunitárias auxiliados por militares da guarda presidencial – para que desabasse o muro de silêncio e que os venezuelanos descobrissem: a situação estava sofrendo uma reviravolta.

Com exceção de Ultimas Noticias, nenhum outro jornal anunciou no dia seguinte a volta do presidente legítimo. As emissoras de televisão privadas não emitiram qualquer boletim de informação – só a Globovisión retomou as informações divulgadas pelas agências internacionais de notícias13.

Ainda que o restabelecimento da normalidade democrática não tenha dado lugar a qualquer medida de repressão contra ela, os grandes meios de comunicação continuam a colocar-se como vítimas, dedicando um espaço hegemônico aos “heróis do golpe de Estado”, falando de “vazio de poder”, pedindo a renúncia do presidente Chávez – tratado como “assassino” – e dos que não o traíram (particularmente o procurador-geral da República, Isaias Rodríguez). A “mídia do ódio”, para quem quiser ver e ouvir, reivindica simplesmente o título de “mídia do golpe”.
(Trad.: Fabio de Castro)

1 - Ler, de Maurice Lemoine, “Avancées bolivariennes”, Le Monde diplomatique, maio de 2002. 2 -http://www.analitica.com/cyberanali...
3 - Posteriormente, este declararia ter feito essa estranha manipulação justamente com o objetivo de demonstrar a ausência de seriedade na imprensa venezuelana...
4 - “Entrelíneas”, El Nacional, 15 de março de 2002.
5 - Programa Venezolano de Educación-Acción em Derechos Humanos.
6 - Posteriormente se descobriria tratar-se do pseudônimo de um indivíduo suspeito, Rafael Kries.
7 - Ler, de Maurice Lemoine, “A ‘sociedade civil’ contra o povo”, Le Monde diplomatique, maio de 2002.
8 - “Derrubar o governo”, El Universal, 20 de março de 2002.
9 - Entre elas, Univisión (80% dos programas em espanhol nos Estados Unidos), Canal 13, Chilevisión, DirectTV Latin America, Galavisión, Playboy TV Latin America, Playboy TV International, Uniseries, Vale TV, Via Digital e AOL Latin America.
10 - O primeiro desejaria ver a empresa nas mãos de uma corporação norte-americana próxima aos seus interesses; o segundo cobiçaria a Citgo, filial norte-americana da PDVSA.
11 - Newsweek, Paris, 22 de abril de 2002.
12 - Assim como a VTV, também a Radio Nacional de Venezuela e a agência oficial Venpres foram tiradas do ar.
13 - Revoltados e com nojo, alguns jornalistas se demitiriam, como Andrés Izarra, da RCTV, onde a direção da empresa impôs: “Nada de chavismo na tela.”




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