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DOSSIÊ 11 DE SETEMBRO

O papel dos islamitas moderados

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Os movimentos islâmicos de natureza moderada, que vêm tentando há vinte anos participar da vida política, social e cultural de seus países, sofreram um sério abalo com os atentados de 11 de setembro. Agora, tentam retomar o terreno perdido

Wendy Kristianasen - (01/09/2002)

Os islamitas que aderiram às redes da Al Qaida vêm do fundamentalismo radical e têm na direção homens que combateram ao lado dos mudjahidin no Afeganistão

A partir de 11 de setembro de 2001, o Ocidente parece preocupado com “o choque de civilizações”. No entanto, o que é designado pelo termo de “fundamentalismo islâmico” está longe de ser homogêneo. No campo muçulmano, as crenças religiosas misturam-se com uma aspiração à mudança política e social para dar origem a movimentos de tipos muito diferentes, que se prevalecem muitas vezes das correntes reformistas nascidas entre o final do século XIX e começo do século XX. A corrente salafista - em referência aos ancestrais, à primeira geração dos discípulos de Maomé - clama por uma volta às origens. Os salafistas, atualmente muito influenciados pelo wahhabismo1 saudita, não formam um movimento organizado. Freqüentemente preocupados com a prioridade do que é “islamicamente permitido” e do que não é, aumentaram sua influência sobretudo entre as jovens gerações de muçulmanos no Ocidente, que temem perder suas raízes e suas tradições.

Os que aderiram às redes da Al Qaida são provenientes desse campo salafista, no Oriente Médio ou na Europa. Muitas vezes, têm na direção homens que combateram ao lado dos mudjahidin contra os soviéticos no Afeganistão. Caracterizam-se por sua hostilidade ao Ocidente e à complacência pró-ocidental para com os regimes dos países onde moram.

Vida legal e objetivos reformistas

Também na órbita desse campo salafista, os Irmãos Muçulmanos foram criados no Egito, em 1928, e se espalharam por todo o mundo árabe. Mas, devido a freqüentes rupturas com os grupos precedentes, deram origem a organizações que fazem o jogo da legalidade, que se “nacionalizaram”, ou seja, se integraram ao jogo político nacional, fazendo prevalecer, muitas vezes, os interesses locais sobre qualquer perspectiva “pan-islâmica”.

Os Irmãos Muçulmanos deram origem a organizações que fazem o jogo da legalidade, que se “nacionalizaram” – se integraram ao jogo político nacional

O projeto islamita, como demonstrou a revolução iraniana, visa antes de tudo ao poder político. Para consegui-lo, os islamitas de vários países (Argélia, Tunísia, Marrocos, Egito, Jordânia, Líbano, Sudão, Kuait, Turquia etc.) se engajaram na vida política de seus próprios países, com resultados diferentes conforme as situações. Tiraram proveito da derrota do nacionalismo árabe após a guerra árabe-israelense de junho de 1967, da revolução iraniana e do colapso do socialismo. Mas recuperaram muitos de seus temas, a ponto de se pode falar de um “nacionalismo islâmico”.

A passagem para métodos legais e objetivos reformistas iniciou-se há décadas. Alguns, como o partido Al-Wasat (o Centro), originário dos Irmãos Muçulmanos egípcios, começaram até a questionar as interpretações tradicionais do Islã e mesmo do direito islâmico (fiqh). Essa evolução dos moderados é que foi abalada pelos acontecimentos de 11 de setembro.

Uma posição insustentável

“A maioria dos islamitas não concordou com os ataques contra Nova York e Washington”, afirma Leith Shbeilat, um islamita jordaniano independente, ex-deputado, muito conhecido em seu país. “Mas a reação dos Estados Unidos radicalizou as massas. Foi o Ocidente que nos reduziu, a nós, moderados, ao silêncio.”

Para as pessoas comuns do mundo árabe, Osama bin Laden, graças ao ataque que perpetrou contra os Estados Unidos, tornou-se um herói mítico, um símbolo poderoso para os muçulmanos, uma espécie de Che Guevara. Os islamitas moderados foram pegos no contrapé por esse sentimento popular e radical que não podiam ou não ousavam seguir. Em decorrência disso, são acusados de elitismo.

Na Jordânia, onde os islamitas são vistos há muito tempo como uma oposição democrática cujo papel parlamentar é importante, o 11 de setembro teve um efeito nocivo. Para Ibrahim Gharaibeh, 42 anos, pesquisador no Centro Oumma de Amã, “a Confraria ficou acuada numa posição insustentável: seus membros eram 100% contra os atentados de setembro, mas dizer isso era cortar relações com o povo... Como declarou Bush: ‘Ou vocês estão conosco, ou estão contra nós.’ Ora, os Irmãos Muçulmanos não apoiavam ninguém.”

Declarações equilibradas, movimentos radicalizados

O partido Al-Wasat (o Centro), originário dos Irmãos Muçulmanos, até questiona as interpretações tradicionais do Islã e mesmo o direito islâmico (fiqh)

Esse dilema iria suscitar intensos debates. O dr. Abdel Mejid Thuneibat, líder (mouraqab al-am) da Confraria na Jordânia, admite sem problemas: “Mesmo que tenhamos declarado sem rodeios que éramos contra os atentados, sentimos os efeitos das fortes pressões norte-americanas sobre os países muçulmanos e árabes para que se livrassem dos islamitas, exacerbando o pretenso choque de civilizações.”

As pressões intensificaram-se a partir de 11 de setembro. Em março e abril de 2002, por exemplo, ocorreram protestos contra a política israelense – sobretudo contra o ataque em Jenin – nos quais a Frente de Ação Islâmica (FAI), braço político dos Irmãos Muçulmanos, tomou parte, com a permissão das autoridades. Mas quando o governo desautorizou uma caminhada até a embaixada de Israel, no dia 12 de abril, a FAI cancelou sua participação duas horas antes da manifestação. Como observa Taher Al-Masri, um ex-primeiro-ministro: “A partir de setembro, os islamitas souberam muito bem administrar a situação.”

O dr. Abdel Latif Arabiyyat, presidente do conselho (majlis al-shura) da FAI, multiplicou esforços para se distanciar dos ataques de 11 de setembro: “Não temos nada a ver com a Al Qaida ou com o Taliban e não só não aprovamos suas ações como não aprovamos as dos Estados Unidos.” Mas será que essas declarações “equilibradas” satisfazem uma opinião pública que se tornou ferozmente anti-norte-americana e radicalizada diante do espetáculo da repressão a oeste do rio Jordão, pela qual ela considera Washington diretamente responsável?

Pretexto para reprimir

Por toda parte da região, o último ato do drama da Palestina permitiu aos islamitas retomarem um pouco do terreno perdido. Através de todo o Oriente Médio, desempenharam um papel de destaque na organização, no final de março, das manifestações de solidariedade para com os palestinos - manifestações que fizeram com que os regimes árabes refletissem sobre sua cumplicidade com um Ocidente que avalizava a política de Ariel Sharon.

“Não temos nada a ver com a Al Qaida ou com o Taliban e não só não aprovamos suas ações como não aprovamos as dos Estados Unidos”, diz um dirigente da FAI

Mas, a despeito das novas circunstâncias, os islamitas tiveram que se mostrar prudentes. O movimento preocupou-se em permanecer no interior dos locais permitidos, essencialmente os campi universitários, para não provocar os poderes instituídos. Procurou manter a calma, sobretudo após os acontecimentos de 8 de abril de 2002 em Alexandria, quando protestos e repressão policial se excederam, ocasionando uma morte. Ainda mais porque o regime egípcio usou o 11 de setembro como pretexto para reforçar as medidas de repressão contra os Irmãos Muçulmanos - principal força de oposição política do país, embora proibida. Foram presos 22 de seus membros, que serão julgados por terem participado nos protestos contra a agressão norte-americana ao Afeganistão2. O dr. Abdel Moneim Abu al-Fouttouh, dirigente jovem e dinâmico, declara: “Os atentados de setembro deram aos regimes árabes a oportunidade para atiçarem o medo dos islamitas, que constituem sua principal oposição. No mundo muçulmano, todos sofreram por causa da identificação com os extremistas.”

Islamitas sob vigilância

E acrescenta: “Não acreditamos mais na violência.” Na Palestina, no entanto, a violência tem um sentido totalmente diferente. “A idiotice de Bush consiste em chamar de ‘violência’ o que fazem os palestinos”. Porque, para os árabes e os muçulmanos de toda a região – e não somente para os islamitas –, os palestinos não fazem senão defender-se de Israel.

Por toda parte, os islamitas estão sujeitos a uma vigilância mais intensa, em particular quanto a suas atividades financeiras. Em nenhum lugar isso ficou mais evidente do que no Kuait3. O governo que, para se contrapor à oposição progressista leiga, cortejava há muito tempo os islamitas (o grupo mais importante do Parlamento), fechou centenas de barracas ilegais, através das quais transitaria dinheiro clandestino, enquanto atividades de caridade eram submetidas a inspeções minuciosas. Os recursos financeiros consideráveis do país, assim como o número relativamente elevado de kuaitianos que estão em Guantanamo - inclusive o porta-voz da Al Qaida, Suleiman Abu Ghaith - tiveram como conseqüência o aumento dessa vigilância. O secretário do Tesouro norte-americano, Paul O’Neill, foi pessoalmente ao Kuait, em janeiro de 2002, com o objetivo de impedir o envio de fundos para Al Qaida.

Da “guerra santa” à “pregação”

As manifestações do final de março fizeram com que os regimes árabes refletissem sobre sua cumplicidade com um Ocidente que avaliza a política de Sharon

Enquanto os porta-vozes desse movimento fazem pairar a ameaça de novos atentados contra o Ocidente, uma revolução tranqüila transcorre no Egito, no interior da organização radical islâmica mais importante, o Grupo Islâmico (al-gama’a al-islamiyya). O atual chefe do Gama’a no país, Karam Zuhdi, denunciou publicamente Osama bin Laden e a Al Qaida. Numa entrevista concedida na prisão ao semanário Al Moussawwar em 21 de junho de 2002, explica: “Condenamos categoricamente os ataques de 11 de setembro... Prejudicam o Islã e os muçulmanos4.” “Foram ilegais”, prossegue, “uma vez que matar comerciantes é haram (proibido) e o World Trade Center estava cheio de comerciantes. Também é pecado do ponto de vista islâmico, supondo que foram mesmo muçulmanos que perpetraram esses atentados, matar inocentes - mulheres, crianças, idosos - e havia mais de 600 muçulmanos nesses prédios, todos eles vítimas inocentes.”

Zuhdi diz ainda que o Gama’a vai pedir desculpas ao povo egípcio por suas ações equivocadas durante a década de 90 e até pretende indenizar as famílias que perderam algum de seus membros durante esses atentados. O dinheiro viria da venda de um livro em quatro volumes, Rectification de pensées erronées (Retificação de pensamentos equivocados), publicado em árabe no inverno passado, pela editora Maktab al-Turath al-Islami, do Cairo. Esse livro expõe o novo pensamento do movimento que passou do djihad à da’wa (pregação) e à rejeição do que anteriormente havia considerado como uma dispensa islâmica que permitia recorrer à violência, classificar outros muçulmanos como apóstatas (takfir) e agir em função disso.

Uma reviravolta decisiva

Essa é a conclusão de uma evolução iniciada em 1996, quando os dirigentes do Gama’a, na prisão, publicaram sua primeira declaração de paz, dissociando-se dos ativistas do djihad dirigidos por Ayman Zawahiri, que atualmente é o principal assessor de Osama bin Laden. Foi Montasser Zayat, advogado e porta-voz oficioso do Gama’a, que patrocinou essa notável evolução. O dr. Zayat considera o djihad como responsável por ter organizado, com Bin Laden, os ataques de 7 de agosto de 1998 contra as embaixadas norte-americanas de Nairobi e de Dar es Salaam, nos quais morreram 224 civis. Considera que esses atentados foram uma “resposta aos apelos de cessar-fogo por parte de nossos dirigentes5”.

No Egito, a organização radical islâmica mais importante, o Grupo Islâmico, denunciou Osama bin Laden e a Al Qaida e renunciou ao uso da violência

De qualquer maneira, esses atentados mostraram que o terrorismo internacional podia ser contraproducente: a maioria dos mortos e feridos foi de africanos. Mas a reviravolta decisiva viria com a reação popular diante da onda de violência no próprio Egito, desencadeada pelo Gama’a e culminando com o assassinato de 53 turistas estrangeiros em Luxor, em novembro de 1997. O dr. Zayat explica: “O país havia passado por dez anos de violência: foram muitos mortos; era um preço alto demais a ser pago pelo país, principalmente em termos de turismo. É verdade que o atentado de Luxor causou uma grande divisão no interior do grupo: foi uma catástrofe. E foi anti-islâmico.”

Retomar o território perdido

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 aprofundaram o fosso que separa os militantes dos demais, dando ainda mais sentido a essa incrível transformação do Gama’a. Apesar das acusações de ter cedido à pressão das autoridades egípcias, parece que se trata, nesse caso, de uma reviravolta estratégica. O djihad egípcio, cujos dirigentes também estão na prisão, passa atualmente por um processo similar que ainda não foi tornado público. O professor Saededdin Ibrahim, sociólogo e militante dos direitos humanos, na prisão por abuso de fundos sociais, entre outras acusações (na realidade, por ter redigido relatórios sobre os escândalos parlamentares e sobre os confrontos entre coptas e muçulmanos em 1995), confirma que, “neste ano, os militantes do djihad presos, como eu, em Toura, renunciaram à violência”.

A passagem histórica da revolução ao reformismo vai permitir ao Gama’a retomar sua posição no território ocupado apenas pelos Irmãos Muçulmanos, mas no qual tanto ele como outros grupos radicais se desenvolveram na década de 70. Cada vez mais, grupos estabelecidos, com apoio sólido e efetivos importantes em seus respectivos países, procuram trabalhar dentro do contexto nacional, onde a violência não é mais tolerada.

(Trad.: Regina Salgado Campos)

1 - N.T.: O movimento wahhabita designa uma forma de islã muito rigorosa, em vigor na Arábia Saudita.
2 - Em 2001-2002, dezenas de outros membros foram detidos em três momentos. Deve ainda acrescentar-se uma centena de Irmãos Muçulmanos que já estavam na prisão sem que tivesse havido processo.
3 - Ler, de Wendy Kristianasen, “Essor e divisions des islamistes koweïtiens”, Le Monde diplomatique, junho de 2002.
4 - Associated Press, 25 de junho de 2002; ler também os artigos de Mohammed Gamal Arafa, correspondente no Cairo para Islam Online. Site: http://www.islamonline.net/English/...
5 - Depois dos acontecimentos de setembro de 2001, continuam as críticas entre Zawahiri e Zayat, tendo cada um deles publicado um livro.




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