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DOSSIÊ 11 DE SETEMBRO

A sagrada aliança da ultra-direita

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O surgimento de uma ’intelligentsia’ judaica neo-conservadora na década de 1970, nos Estados Unidos, propiciou uma aliança com a direita fundamentalista norte-americana. Esta união seria sacramentada e incentivada nas décadas seguintes

Ibrahim Warde - (01/09/2002)

É preciso voltar ao fim da década de 1970 para compreender o crescimento do poder da direita cristã norte-americana e sua aliança com Israel

“O Deus do Islã não é nosso Deus e o Islã é uma religião muito maléfica e perversa.” Foram essas as palavras do reverendo Franklin Graham, em outubro de 2001. Quis o acaso que, algumas semanas mais tarde, o público descobrisse que seu pai, o reverendo Billy Graham, sem dúvida o pregador mais respeitado do país, tinha o hábito de fazer afirmações igualmente pouco amenas, mas a respeito dos judeus. A gravação de uma conversa particular com Richard Nixon, em 1972, no salão oval da Casa Branca, acabava de vir a público. O pastor - que desde a década de 50 era íntimo e orientador espiritual de todos os presidentes - queixava-se (entre outras coisas) do domínio absoluto dos judeus sobre os meios de comunicação: “É preciso quebrar esse monopólio, senão o país está perdido.” Billy Graham apresentou suas “sinceras desculpas” por afirmações que “que não refletiam de modo algum seu pensamento”, e lembrou que sempre dera um apoio inequívoco ao Estado de Israel. O herdeiro de seu império de pregação não procurou atenuar seus propósitos anti-muçulmanos. Ao contrário, ampliou-os, na seqüência.

A transição do anti-semitismo à islamofobia é ainda mais chocante no caso do pastor Pat Robertson. Numa obra publicada em 1990, ele se erguia contra “os judeus liberais que, nos últimos quarenta anos, dedicaram-se a reduzir a influência cristã na vida pública norte-americana”. A partir de então, o famoso tele-evangelista atacaria principalmente os muçulmanos: “Eles querem coexistir até o momento em que poderão controlar, dominar e depois, se necessário, destruir.” Em julho de 2002, o mesmo Pat Robertson recebia o prêmio Amigos de Israel, concedido pela Organização Sionista dos Estados Unidos1

Terreno fértil para religiosos reacionários

Esse interesse pelo Oriente Médio não é recente. Desde o século XIX, a região era uma terra de missão para inúmeras igrejas protestantes, dentre as quais algumas não viram com bons olhos a criação do Estado hebraico. Somente os grupos fundamentalistas - que faziam uma leitura literal dos textos sagrados - viam, na criação de Israel, a realização de profecias bíblicas. E, como no caso do pastor Billy Graham, o “sionismo cristão” poderia coexistir serenamente com o anti-semitismo, do qual às vezes se alimentava. O conflito do Oriente Médio, entretanto, estava longe de ser uma das principais preocupações dos pastores ou de suas ovelhas.

Os anos Reagan foram marcados por tumultos na comunidade judaica. Figuras de proa romperam com a tradição progressista e fundaram o movimento neo-conservador

É preciso voltar ao fim da década de 1970 para compreender o crescimento do poder da direita cristã e sua aliança com Israel. As perturbações sociais, políticas e econômicas da época criaram um terreno fértil para os grupos religiosos reacionários, como a Maioria Moral, do pastor Jerry Falwell. Em Israel, o Likud, partidário do “retorno” a toda a terra de Israel (Eretz Israel, o Grande Israel) bíblica, finalmente chegara ao poder. Em 1978 e 1979, o reverendo Falwell foi à Terra Santa a convite do primeiro-ministro Menahem Begin. Entenderam-se tão bem que, em 1980, o pastor foi condecorado com a medalha Vladimir Jabotinsky (nome do fundador do sionismo “revisionista” e mentor de Begin) 2.

Os fundamentalistas de Reagan

Esses anos também foram marcados por tumultos na comunidade judaica norte-americana. Duas de suas figuras de proa, Irving Kristol e Norman Podhoretz, romperam com a tradição “liberal” (no sentido norte-americano, ou seja, progressista) à qual os intelectuais judeus tinham estado ligados durante muito tempo. Depois de ter militado pelos direitos civis, a “discriminação positiva” e a distensão com a União Soviética, eles acabaram realizando uma reviravolta espetacular e fundando o movimento neo-conservador. Inúmeros pontos comuns - a crítica ao Estado de bem-estar social, a volta aos “valores tradicionais”, o anticomunismo puro e rígido, e o apoio irrestrito ao Likud – os aproximaram, a partir daí, da direita cristã3.

A eleição de Ronald Reagan em 1980 sacramentou essa aliança. Os neo-conservadores passaram a fazer o papel de intelectuais da corte, enquanto o novo presidente nomeava, para seu gabinete, os fundamentalistas mais radicais. O secretário do Interior, James Watt, explicou que a poluição do planeta não deveria ser fonte de preocupação porque “a volta do Senhor está próxima”. E foi diante da Associação Nacional dos Grupos Evangélicos que o presidente pronunciou seu famoso discurso classificando a União Soviética de “Império do mal”.

Uma “liga da virtude”

Foi diante da Associação Nacional dos Grupos Evangélicos que o presidente pronunciou seu famoso discurso, classificando a União Soviética de “Império do Mal”

Durante os anos Bush pai e Clinton, o recuo desses grupos foi apenas aparente: se eram menos visíveis, os neo-conservadores e a direita cristã continuavam a exercer influência sobre o cenário político e ideológico. Em 1989, considerando sua “missão realizada”, o reverendo Falwell dissolveu sua Maioria Moral. As igrejas fundamentalistas estavam, aliás, enfraquecidas pelo escândalo dos tele-evangelistas, e o lobby israelense AIPAC (American Israel Public Affairs Committee) sofreu uma de suas raras derrotas. O presidente Bush recusou-se a garantir um empréstimo de dez bilhões de dólares enquanto o primeiro-ministro Yitzak Shamir continuasse com sua política de estímulo às colônias nos territórios ocupados.

Além disso, a queda do comunismo eliminava um argumento de peso dos que apoiavam os movimentos anticomunistas na América Central (numerosos entre os fundamentalistas), bem como destruía o argumento geoestratégico em favor de Israel (“único Estado democrático e estável numa região ameaçada pela União Soviética”). O AIPAC começou, então, a arrebanhar mais longe: ao invés de concentrar seus esforços em Estados com grande população judia (Nova York, Califórnia, Flórida, Illinois), o lobby pró-israelense construiu alianças por todo o país, inclusive nos lugares onde a população judia era quase inexistente4. Ao longo dos anos Clinton, os escândalos do presidente – e, sobretudo, a luta pelo impeachment, - reuniram novamente neo-conservadores e direita fundamentalista numa liga da virtude, generosamente financiada e muito bem organizada.

Arafat, “o Bin Laden de Israel”

Foram principalmente os atentados de 11 de setembro que cimentaram a aliança entre neo-conservadores e fundamentalistas, ambos empenhados no “choque de civilizações”

Com a ajuda da febre do milênio, a eleição presidencial do ano 2000 marcou o grande retorno de Deus ao debate político. O candidato republicano, George W. Bush, declarou que seu filósofo político preferido era Jesus Cristo, enquanto seu rival, Albert Gore, anunciou que, antes de tomar uma decisão difícil, ele se perguntava: “Que faria Jesus?”. Escolhendo como companheiro de chapa o senador Joseph Lieberman, um judeu ortodoxo conhecido por seu discurso moralizador, agradou a todos os radicais5.

Mas foram principalmente os atentados de 11 de setembro de 2001 que cimentaram a aliança entre os neo-conservadores e os fundamentalistas, ambos empenhados em fazer do “choque das civilizações” uma profecia auto-realizadora. O Islã era, de fato, designado como o novo império do mal. O discurso incansavelmente martelado pela mídia e retomado pela quase totalidade dos parlamentares norte-americanos6 adotava as teses do governo israelense: como Yasser Arafat é o “Bin Laden de Israel”, os dois países estão unidos num mesmo combate. Foram, aliás, os falcões mais próximos de Israel (tais como o secretário-adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz, e o estrategista do Pentágono, Richard Perle) que idealizaram a atualização da doutrina de defesa: a partir de agora, os Estados Unidos irão proceder a ataques preventivos contra países capazes de se equiparem com armas nucleares, biológicas ou químicas - donde a urgência de uma “mudança de regime” no Iraque (leia, nesta edição, o artigo “A nova estratégia de guerra”, de Paul-Marie de la Gorce).

Um guia prático para o fim dos tempos

Segundo pesquisa recente, 59% dos norte-americanos acham que os fatos descritos no Apocalipse vão ocorrer, e 25% acreditam que os atentados estavam previstos na Bíblia

Todos os grandes nomes da direita cristã – Ralph Reed, Gary Bauer, Paul Weyrich etc. - engajaram-se na nova cruzada, com freqüência teleguiada por Israel. Foi o próprio Ariel Sharon, por exemplo, quem quis que o rabino Yechiel Eckstein, fundador do International Fellowship of Christians and Jews, recrutasse Ralph Reed, ex-presidente da Coalizão Cristã, para pregar a boa palavra: dessa forma, 250 mil cristãos enviaram a Israel mais de 60 milhões de dólares. A organização Christians for Israel/USA também financiou a emigração de 65 mil judeus a fim de realizar, segundo seu presidente, o reverendo James Hutchens, “o apelo de Deus, que consiste em ajudar o povo judeu a voltar e restaurar a terra de Israel7”.

A retórica do presidente Bush (“quem não está conosco está com os terroristas”, “nós somos bons” etc.) favoreceu um discurso binário e maniqueísta que coincide com os esquemas de pensamento dos radicais. Segundo uma pesquisa recente do Time/CNN, 59% dos norte-americanos pensam que os acontecimentos descritos no Apocalipse vão ocorrer, e 25% acreditam que os atentados de 11 de setembro já eram anunciados pela Bíblia8. Daí o extraordinário sucesso da série Left Behind (cinqüenta milhões de exemplares vendidos): dez volumes – que poderiam ser descritos como o meio caminho entre romance de futurologia e guia prático para o fim dos tempos – que pretendem oferecer as chaves dos mistérios do Apocalipse9.

Um Anticristo “judeu e do sexo masculino”

Para tal concepção, uma saída pacífica em Israel poderia atrasar a realização da profecias. Como afirmou o pastor Hutchens, “não pode haver paz antes do advento do Messias”

Em alguns meios fundamentalistas, a intransigência de Ariel Sharon e seu espírito bélico são recebidos com exaltação. E não foi sua visita – de pura provocação - do dia 28 de setembro de 2000, ao Monte do Templo (a Esplanada das Mesquitas) que desencadeou o ciclo de violência cujo fim está longe? Ora, segundo as Escrituras, é nesse lugar sagrado que será erguido o Terceiro Templo, prelúdio de sangrentas guerras escatológicas. Nessas condições, uma solução pacífica ou concessões territoriais poderiam comprometer – ou atrasar – a realização das profecias. Como salientou o pastor Hutchens: “Não pode haver paz antes do advento do Messias.”

Apesar de sua aparente solidez, a aliança entre extremistas israelenses e fundamentalistas cristãos baseia-se num mal-entendido. O teólogo Harvey Cox afirma: “Se estivesse no campo israelense, eu seria extremamente prudente.” Realmente, a cronologia considerada pelos fundamentalistas tem motivos para preocupar: primeiro as calamidades, os sofrimentos e as guerras; depois, a reconstrução do Templo e a chegada do Anticristo; e finalmente, o segundo advento do Messias e o combate final, em Jerusalém, entre o Bem e o Mal. Os justos serão então levados em “êxtase” para o céu. Dois terços dos judeus serão convertidos, os outros serão eliminados ou condenados10. Para alguns, o fim do mundo está, aliás, mais próximo do que parece. Em janeiro de 1999, o reverendo Jerry Falwell declarava que o advento do Messias poderia ocorrer nos próximos dez anos. Afirmava, também, que o Anticristo já estava entre nós e que era “judeu e do sexo masculino” 11.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler, de Pat Robertson, The New Millenium: 10 trends that will impact you and your family by the year 2000, ed. Word Publishing, Dallas, 1990, Christian Broadcasting Network, 21 de fevereiro de 2002. Ler também, de Michael Kinsley, “Pat Robertson Deconstructed”, The New Republic, 8 de maio de 1995, e o site http://www.patrobertson.com.
2 - Ler, de Grace Halsell, Prophecy and Politics: The Secret Alliance between Israel and the U.S. Christian Right, ed. Lawrence Hill, Westport, Estados Unidos, 1989.
3 - Ler, de Norman Podhoretz, Breaking Ranks: A Political Memoir, ed. Harper and Row, Nova York, 1980.
4 - “How Israel Became a Favorite Cause of the Conservative Christian Right”, Wall Street Journal, 23 de maio de 2002.
5 - Ler, de Howell Raines, “When Devotion Counts More Than Doctrine”, The New York Times, 17 de setembro de 2000.
6 - Ler, de Jeffery L. Sheler, “Evangelicals support Israel, but some Jews are skeptical”, U.S. News and World Report, 12 de agosto de 2002.
7 - Ler, de Jeffrey L. Sheler, “Evangelicals support Israel, but some Jews are skeptical”, U.S. News and World Report, 12 de agosto de 2002.
8 - Time, 23 de junho de 2002.
9 - Time, 23 de junho de 2002.
10 - Ver, por exemplo, os sites http://www.bible-prophecy.com, http://bci.org/prophecy-fulfilled, http://www.raptureready.com
11 - The Washington Post, 16 de janeiro de 1999.




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