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EDITORIAL

Objetivo: Bagdá

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Hoje como ontem, a Casa Branca não tem interesse na volta dos inspetores, mas num pretexto para uma aventura militar que pode acentuar ainda mais o fosse que separa o mundo muçulmano do Ocidente

Alain Gresh - (01/09/2002)

A resolução da ONU fala em “criar no Oriente Médio uma zona desprovida de armas de destruição maciça”. Jamais foi posta em prática: a atenção foi toda desviada para o Iraque

“Ele usou armas químicas contra o seu próprio povo e contra seus vizinhos.” “Invadiu os países vizinhos.” “Matou milhares de seus concidadãos.” Condoleezza Rice, assessora para a Segurança Nacional do presidente George W. Bush, enumera os argumentos – segundo ela, “irresistíveis” – que forçam os Estados Unidos a intervir no Iraque e derrubar o presidente Saddam Hussein1. Alegações irrecusáveis: em setembro de 1980, o regime de Bagdá atacou o Irã, dando início a um dos conflitos mais sangrentos após a II Guerra Mundial; acuado, utilizou armas químicas antes de executar, por emissões de gás, 5 mil curdos iraquianos em Halabja, em março de 1985. E, na época, os Estados Unidos lançaram alguma cruzada contra esse “tirano sanguinário”?

Segundo a imprensa norte-americana confirmou recentemente, um grupo de sessenta oficiais norte-americanos forneceu secretamente ao Estado-Maior do Iraque, naquela época, “informações pormenorizadas sobre a evolução das forças iranianas” e discutiu planos de batalha. Informados sobre o uso de gás, esses conselheiros militares não se opuseram, “pois pensavam que o Iraque lutava pela sua sobrevivência2”. A partir de 1984, o governo Reagan restabelecera relações diplomáticas com Bagdá – rompidas desde a guerra de 1967 – e o Iraque, promovido pelo Ocidente à categoria de bastião contra a “revolução islâmica”, fora riscado da lista de países que apoiavam o terrorismo. Empossado presidente em janeiro de 1989, George Bush pai assinou uma orientação tão cínica quanto imbecil: “As relações normais entre os Estados Unidos e o Iraque serviriam a nossos interesses de longo prazo e contribuiriam para a estabilidade na Golfo e no Oriente Médio. Devemos propor formas de estimular o Iraque a moderar seu comportamento por meio de um aumento de nossa influência.”

A “primeira guerra preventiva”

Atenta em vasculhar o programa iraquiano de armas de destruição maciça, a “comunidade internacional” jamais tentou apurar algo sobre as empresas dos EUA que ajudaram Badgá...

Durante esse período, empresas norte-americanas, com a concordância do Departamento de Estado, exportaram para o Iraque produtos que poderiam ser utilizados para a fabricação de armas bacteriológicas3. É compreensível que a “comunidade internacional”, tão atenta, durante a década de 90, em localizar a história do programa iraquiano de armas de destruição maciça, jamais tenha tentado apurar algo sobre as empresas estrangeiras que ajudavam Bagdá. Dos Estados Unidos à Alemanha, passando pela França, eram muitos os governos ocidentais que estavam implicados.

Atualmente, discute-se nos Estados Unidos a deposição militar do presidente Saddam Hussein. Um debate enérgico, que aborda mais os meios do que os objetivos. A questão que se coloca não é: “Devemos fazê-lo?” e sim: “Como o faremos?” As reticências dos aliados árabes – preocupados com a impunidade absoluta do governo de Ariel Sharon – e europeus nada significarão, sem dúvida, senão o adiamento dessa “primeira guerra preventiva” do século XXI (leia, nesta edição, os artigos de Philip Golub e de Paul-Marie de La Gorce).

Objetivos dissimulados

Oficialmente, essa operação teria como objetivo as armas de destruição maciça de Bagdá. Lembremos que o desarmamento do Iraque foi exigido pela Resolução 687 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 3 de abril de 1991. A cláusula 14 desse documento especifica que as medidas “se inserem numa iniciativa cujos objetivos são os de criar no Oriente Médio uma zona desprovida de armas de destruição maciça e de quaisquer mísseis nucleares”.

Essa “iniciativa” regional jamais foi posta em prática. A atenção foi totalmente desviada para o Iraque, submetido a um boicote mortífero que leva sua população a morrer de fome, desagrega a sociedade e... reforça a regime baa’thista. De 1991 a 1998, inspetores da ONU desenvolveram um trabalho impressionante, garantindo a destruição do programa nuclear, a quase totalidade dos mísseis e uma parte importante das armas químicas. Foi criado um sistema de controle de longo prazo, com a instalação de câmeras de vigilância em dezenas de lugares. Caminhava-se, finalmente, para o desarmamento e para o fim do boicote. Mas Washington, como se veria, tinha outros objetivos.

Objetivos dissimulados

Oficialmente, essa operação teria como objetivo as armas de destruição maciça de Bagdá. Lembremos que o desarmamento do Iraque foi exigido pela Resolução 687 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 3 de abril de 1991. A cláusula 14 desse documento especifica que as medidas “se inserem numa iniciativa cujos objetivos são os de criar no Oriente Médio uma zona desprovida de armas de destruição maciça e de quaisquer mísseis nucleares”.

Essa “iniciativa” regional jamais foi posta em prática. A atenção foi totalmente desviada para o Iraque, submetido a um boicote mortífero que leva sua população a morrer de fome, desagrega a sociedade e... reforça a regime baa’thista. De 1991 a 1998, inspetores da ONU desenvolveram um trabalho impressionante, garantindo a destruição do programa nuclear, a quase totalidade dos mísseis e uma parte importante das armas químicas. Foi criado um sistema de controle de longo prazo, com a instalação de câmeras de vigilância em dezenas de lugares. Caminhava-se, finalmente, para o desarmamento e para o fim do boicote. Mas Washington, como se veria, tinha outros objetivos.

À sombra da bomba nuclear

O chefe dos inspetores no Iraque entre1991 a 97, revelou: os EUA encarregaram o grupo de espionagem e pressionaram para a criação de um impasse capaz de justificar intervenção militar

Rolf Ekeus, que dirigiu a equipe de inspetores das Nações Unidas no Iraque de 1991 a 1997, revelou recentemente que não só os Estados Unidos encarregaram os inspetores de tarefas de espionagem, como os “pressionaram para que desempenhassem missões controversas, do ponto de vista iraquiano, criando assim um impasse que pudesse justificar uma ação militar direta4”. Foi o que ocorreu em 1998, quando Washington decidiu bombardear o Iraque, sem o aval da ONU, forçando os inspetores a saírem do país e deixando o programa de armas iraquiano fora de qualquer controle.

Hoje, como ontem, a Casa Branca não tem interesse na volta desses inspetores e, sim, num pretexto para uma aventura militar que tende a acentuar ainda mais o fosso que separa o mundo muçulmano do Ocidente. Como saber quais seriam as conseqüências de uma tal aventura, numa região abalada pela ofensiva do governo israelense contra os palestinos?

Ex-assessor do presidente Bush pai, Bret Scowcroft lançou uma advertência: “Israel seria a primeira vítima de uma guerra, como em 1991. (...) Desta vez, o uso de armas de destruição maciça poderia conseguir provocar represálias israelenses, talvez com a utilização de armas nucleares, desencadeando um Armageddon no Oriente Médio. 5

(Trad.: Jô Amado)

1 - Entrevista à BBC, Londres, 15 de agosto de 2002.
2 - The New York Times, 18 de agosto de 2002.
3 - Relatório do Senado norte-americano citado por William Blum, “What The New York Times Left Out”, Znet Commentary, 20 de agosto de 2002.
4 - Financial Times, Londres, 30 de julho de 2002.
5 - Wall Street Journal, 15 de agosto de 2002.




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