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MÚSICA

Paris-Bamako: a terceira via

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Uma espécie de terceira via musical franco-malinesa evita as armadilhas do exotismo, assim como as das superproduções, em proveito de uma mistura de modéstia e escuta do outro, paciência e improvisação, sons eletrônicos e acústicos

Jean-Christophe Servant - (01/10/2002)

Agora não são os malineses que se curvam às exigências da cena européia, mas artistas franceses que adotam seu território para fazer brotar sincretismos

Uma longa história de amor musical une a França e o Mali. Protótipo da world music da década de 80, o trabalho de Salif Keita (que acaba de assinar um belo álbum sem compromisso com a variedade1) funcionou como um verdadeiro choque de iniciação para inúmeros viajantes franceses que partiram para a descobrir Bamako e, mais globalmente, a música do oeste africano. Também os lares de Montreuil, subúrbio parisiense por muito tempo considerado “a segunda cidade do Mali”, tiveram um papel considerável na sensibilização das crianças da cena alternativa parisiense no fim da década de 80. Foi dessa pequena influência que germinaram aventuras pessoais como a do veterano jornalista Philippe Conrath, que se tornou, com seu selo Cobalt e seu festival Africolor, organizado em Saint-Denis, o elo obrigatório entre Bamako e Paris.

Da mesma forma – em primeiro lugar Yves Werner e Philippe Berthier – tiveram a coragem de mudar de país para montar aquilo que hoje é um dos estúdios (Bogolan) e um dos selos (Mali K7) mais procurados em Bamako: “Descobri o Mali por acaso”, explica Philippe Berthier. “Eu era vendedor de discos na região de Lyon. Em 1982 fui visitar uns amigos que moravam no Mali e descobri a música local. Voltei para lá em janeiro de 1985 para me instalar definitivamente, com a idéia de montar um estúdio. No fim de 1988, criei a primeira unidade de gravação multicanal do Mali (16 canais), e em seguida a primeira empresa de reprodução de cassetes legal, no fim de 1990”.

Diário de viagem eletrônico

Depois de ter deixado momentaneamente o lugar para outros produtores europeus, em primeiro lugar o britânico Nick Gold, do selo World-Circuit, a quem se deveu a divulgação internacional do guitarrista de Niafunke Ali Farka Tourne2, o vaivém franco-malinês que funcionou até agora em benefício da nova onda de artistas malineses (de Rokia Traore a Neba Solo) vive hoje um movimento que parece concluir o diálogo iniciado há mais de 20 anos. Agora não são mais os artistas malineses que se curvam às exigências e aos cânones da cena européia, mas uma nova onda de artistas franceses que adotam o universo desses africanos e mergulham em seu território para fazer brotar excitantes sincretismos.Uma espécie de terceira via musical franco-malinesa que evita tanto as armadilhas do exotismo quanto as das superproduções, em proveito de uma mistura de modéstia e escuta do outro, paciência e improvisação, sons eletrônicos tanto quanto acústicos.

O produtor Frédéric Galliano dá bela lição, ao mesmo tempo dançante e apaziguante, de “desmistificação” do continente africano

Tomado de paixão pelo oeste da África em 1998, o jovem DJ e produtor Frédéric Galliano também assina um álbum em forma de audacioso diário de viagem eletrônico3 entre dois hemisférios, ao misturar máquinas e instrumentos tradicionais às vozes de figuras mais ou menos conhecidas da cena malinesa e região: os malineses Nahawa Doumbia e Ramatta Doussia, a guineana Hadja Kouyate ou a senegalesa Naffi Diedhou4. Uma bela lição, ao mesmo tempo dançante e apaziguante, de “desmistificação” do continente africano, que ele perseguiu também por meio de seu selo Frikyiwa5.

O novo fôlego musical do Mali

Toma Sidibé, francês nascido em Abidjan e criado em Amiens, desenvolve uma outra produção, muito mais acústica, que mistura os perfumes do reggae, mas com as mesmas intenções: impregnar-se do outro sem esquecer de incluir suas próprias raízes. Em seu álbum “Mali Melo6”, Sidibé canta em bambara, francês e um esperanto que mistura cultura mestiça (judia e muçulmana). Quem é iniciado na percussão pelo malinês Sega Sidibé atravessa fronteiras com uma descontração assumida e palavras que rendem homenagem aos africanos daqui e de lá. Até experimenta uma fusão que deveria fazer escola: o raggasunu!

Para Philippe Berthier, que continua seu trabalho de bruxo com novos artistas malineses, esse interesse por Mali explica-se facilmente: “Eu não sei se há uma relação de amor entre os franceses e os músicos de Mali, mas acredito que as novas sonoridades atraem cada vez mais os amantes da música. Além disso, acho que o Mali é um dos países onde a música é mais original e variada. Cada etnia tem sua música.” Resta esperar que Amadou Tourmani Touré, o novo chefe de Estado malinês, leve um pouco em conta esse incrível novo fôlego musical7: segundo um estudo feito pelo Banco Mundial, a segunda fonte de renda do Mali, depois do algodão, seria a música. Para Philippe Berthier, tudo depende de um esforço contra a pirataria: “O Mali adotou certos acordos, sobretudo em relação à proteção dos produtores e das gravadoras, mas há um longo caminho a percorrer: a lei malinesa ainda não saiu. Quanto às vinhetas holográficas a serem coladas sobre as cassetes, previstas desde março de 2000, deverão finalmente funcionar em breve!”.

(Trad.: Denise Lotito)

1 - Moffou (Universal Jazz/Universal).
2 - Discografia World Circuit/Night And Day. Nick Gold também orientou o cantor Blur, Damon Albarn, na concepção de seu recente álbum gravado em à Bamako : Mali Music (Honest John/ EMI).
3 - African Divas (F.Com/Pias)
4 - Vibrations, número especial “Musique au Mali”, Genebra, abril de 2002
5 - O selo Frikyiwa é distribuído por Discograph.
6 - Toma Sidibe, Mali Melo (Small/Sony).
7 - A assinalar, entre outros, o lançamento do primeiro álbum de Afel Bocoum (World Circuit), guitarrista apadrinhado por Ali Farka Touré, e do novo álbum de Amadou e Mariam: Wati (Polydor/Universal). Também a ser notado, o álbum tecno de Issa Bagayoko : Timbuktu (Six Degrees /Nocturne).




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