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No atual clima de intimidação de pré-guerra com o Iraque, vários dirigentes europeus adotam, em relação ao império norte-americano, a atitude de submissão servil que cabe aos vassalos fiéis. Ao final, como prêmio, quem sabe, uma gotinha do petróleo iraquiano...

Ignacio Ramonet - (01/10/2002)

Um império não tem aliados. Tem vassalos. A maioria dos países membros da União Européia parece ter esquecido essa realidade histórica. Sob nossos olhos e sob a pressão de Washington, que os força a assumirem sua guerra contra o Iraque, países que, em princípio, são soberanos, deixam-se reduzir à triste condição de satélites.

A condição de império, antes considerada uma acusação de “antiamericanismo primário”, é abertamente reivindicada pelos radicais de direita do governo Bush

Questionou-se bastante o que teria mudado na política internacional após os atentados de 11 de setembro de 2001. Com a publicação pelo governo norte-americano, no último dia 20 de setembro, de um documento que define a nova “estratégia nacional de segurança dos Estados Unidos1”, passa a existir uma resposta. Atualmente, a arquitetura geopolítica mundial conta com uma única hiperpotência em sua cúpula, os Estados Unidos – que “gozam de uma força militar inigualável” e que não hesitariam “em agir sozinhos, se necessário, para exercer [seu] direito à autodefesa, agindo a título preventivo”. Uma vez identificada “uma ameaça iminente”, “os Estados Unidos intervirão antes mesmo que ela se concretize”.

Desprezo e arrogância

Objetivamente, essa doutrina restabelece o direito à “guerra preventiva” que Hitler pôs em prática, em 1941, contra a União Soviética, e o Japão, no mesmo ano, contra os próprios Estados Unidos... Com uma única pincelada, ela também apaga um princípio fundamental do direito internacional, adotado no final da Guerra dos Trinta Anos, por ocasião do Tratado de Westfália, em 1648: nenhum Estado tem o direito de intervir, e principalmente manu militari, nos assuntos internos de outro Estado soberano (princípio esse que foi ignorado em 1999, por ocasião da intervenção da Otan em Kosovo).

Tudo isso significa que acabou a ordem internacional fundada em 1945, no final da II Guerra Mundial, imposta pela Organização das Nações Unidas (ONU). Contrariamente à situação que prevaleceu no mundo durante uma década – entre a queda do Muro de Berlim (1989) e o desaparecimento da União Soviética (1991) – Washington assume, agora sem qualquer tipo de complexo, sua posição de “líder global”. E o faz, além do mais, com desprezo e arrogância. A condição de império, que antigamente era considerada uma acusação típica de “antiamericanismo primário”, é agora abertamente reivindicada pelos radicais de direita que abundam no atual governo do presidente Bush.

A submissão servil dos europeus

As Nações Unidas foram marginalizadas e reduzidas ao papel de uma sala de taquigrafia, devendo inclinar-se diante das decisões de Washington

Apenas citadas, de passagem, no documento de 20 de setembro, as Nações Unidas foram, conseqüentemente, marginalizadas, ou reduzidas ao papel de uma sala de taquigrafia, devendo inclinar-se diante das decisões de Washington. Porque um império não se inclina senão diante de uma lei que ele próprio tenha promulgado. Sua lei transforma-se em Lei universal. E fazer com que todos respeitem a Lei – inclusive pela força – torna-se sua “missão imperial”. E, assim, fecha-se o círculo.

No atual clima de intimidação de pré-guerra com o Iraque – e sem que, necessariamente, tenham consciência das mudanças estruturais que vêm ocorrendo – vários dirigentes europeus (da Grã-Bretanha, Itália, Espanha, Holanda, Portugal, Dinamarca, Suécia...) já adotaram, em relação ao império norte-americano, num reflexo de poodle, a atitude de submissão servil que cabe aos vassalos fiéis. Gritam pedindo passagem, independência nacional, soberania e democracia. Do ponto de vista mental, ultrapassaram a linha que separa o aliado do vassalo, o parceiro do fantoche. Em nome de suas forças armadas, suplicam pelo papel pouco glorioso de recrutas temporários... E, se possível, após a vitória norte-americana, uma gotinha de petróleo iraquiano...

Isso porque ninguém ignora que, muito além dos argumentos mencionados, um dos principais objetivos da guerra que se anuncia contra o Iraque é, realmente, o petróleo. Abocanhar a segunda reserva mundiais de hidrocarboneto permitiria ao presidente Bush conduzir a seu bel-prazer o mercado petrolífero planetário. Como protetorado norte-americano, o Iraque poderia duplicar rapidamente sua produção do brut, o que teria como conseqüência imediata a queda dos preços do petróleo e, talvez, a retomada do crescimento econômico nos Estados Unidos.

Os objetivos estratégicos de Washington

Ninguém ignora que, além dos argumentos mencionados, um dos principais objetivos da guerra que se anuncia contra o Iraque é, realmente, o petróleo

Também permitiria visar a outros objetivos estratégicos.

Em primeiro lugar, assentar um duro golpe num dos fantasmas que atormentam Washington, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e, de tabela, em alguns de seus países membros – em particular, a Líbia, o Irã e a Venezuela (embora não fossem poupados países amigos, como o México, a Indonésia, a Nigéria e a Argélia...).

Em segundo lugar, o controle do petróleo iraquiano permitiria um certo distanciamento em relação à Arábia Saudita, considerada, cada vez mais, como um santuário do islamismo radical. No (improvável) cenário wilsoniano de uma alteração profunda no mapa do Oriente Médio2 – anunciada pelo vice-presidente Richard Cheney – a Arábia Saudita poderia ser desmantelada e seria instituído, na forma de protetorado norte-americano, um emirado “independente” na rica província de Hassa, onde estão situadas as principais jazidas de petróleo sauditas e cuja população é majoritariamente xiita.

Nessa perspectiva, a guerra contra o Iraque não faria senão preceder, num prazo curto, outro ataque contra o Irã, país que Bush já incluiu como membro do “eixo do Mal” As reservas iranianas em hidrocarbonetos viriam completar o butim que Washington pretende abocanhar nessa primeira guerra da nova era imperial...

Poderia a Europa opor-se a essa perigosa aventura que se anuncia? Sim. Como? Em primeiro lugar, utilizando seu duplo direito de veto (França e Grã-Bretanha) no Conselho de Segurança da ONU. Em seguida, obstruindo o instrumento militar (a Otan) com que conta Washington para sua expansão imperial e cujo uso é sujeito ao voto dos países europeus3. Em ambos os casos, no entanto, teriam que se comportar como parceiros. E não como vassalos.

(Trad.: Jô Amado)

1 - O texto está disponível na íntegra, em inglês e francês, no site: www.lemonde.fr
2 - Alteração a que se oporia a Turquia, que não quer, em hipótese alguma, que exista um Estado curdo na região (leia, nesta edição, os artigos de Michel Verrier e Faleh A. Jabar).
3 - Ler, de William Pfaff, “Nato’s Europeans could say no”, International Herald Tribune, 25 de julho de 2002.




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