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DOSSIÊ TRABALHO

O patronato tece sua teia

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Bancada pelo sindicato patronal – Medef, ’Mouvement des entreprises de France’ –, uma entidade pouco conhecida funciona como um banco de idéias (’think tank’), promovendo encontros com o objetivo de aproximar a esfera pública da empresa privada e das ONGs

François Graner - (01/10/2002)

“Você é a futura elite da nação. Gostaríamos muito de conhecer sua opinião. Para colhê-la, nós o convidamos a passar quatro dias no maravilhoso cenário da abadia de Royaumont.” Foi dessa maneira que cerca de trinta pessoas se encontraram na referida abadia, atendendo ao convite de um certo CEPP, de que a maioria nunca tinha ouvido falar. Fundado pelo patronato e pelo Estado em 1963, esse Centro de Estudos do Setor Público e do Setor Privado funciona atualmente, organizado pelo Medef, como um banco de idéias (think tank) liberais1.

Refletindo preocupações do patronato, ele organiza a cada ano, desde sua criação, um seminário sobre um assunto diferente: do sindicalismo à nova economia, das reestruturações à fiscalização, passando pela educação, pela poupança e pela transferência de poder nas empresas. Para o seminário do outono de 2001, o assunto dizia respeito ao poder das entidades associativas2.

Dirigentes em potencial

Refletindo preocupações do patronato, o CEPP organiza a cada ano, desde 1963, um seminário sobre um tema diferente, da nova economia ao poder das ONG

A maioria dos participantes ignora quase tudo a respeito das associações, mas conta, entre eles, com um conselheiro da câmara do Tribunal de Contas que os controla, uma jornalista que realizou várias reportagens sobre organizações humanitárias e suas ações, um diretor geral de empresa que patrocina o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a representante de várias centenas de associações no Conselho da Europa. Em contrapartida, nenhum representante de associação faz parte do grupo, pois “não teriam encontrado, na França, nenhum que preenchesse os requisitos de seleção do CEPP”.

Considerados passíveis de se tornarem dirigentes do setor público ou do setor privado, os participantes têm entre 30 e 40 anos de idade e são selecionados por cooptação, a partir de indicações dos veteranos dos anos anteriores3. Provenientes quase que exclusivamente da região parisiense, têm diploma de curso superior, tendo, na maioria das vezes, feito dois cursos: economia e administração, mas também ciências, política ou direito. A proporção de mulheres, inicialmente ínfima, chegou a um terço nos últimos anos; a representação dos beurs4 também melhora, em especial graças à sessão de 1990, dedicada ao Magreb. Dois terços dos presentes vêm do setor privado e o setor público é representado por dirigentes políticos, magistrados, militares, professores universitários.

Um vocabulário burilado, tecnocrático

Considerados passíveis de se tornarem dirigentes do setor público ou privado, os participantes têm de 30 a 40 anos de idade e são selecionados por cooptação

O lugar escolhido é isolado o bastante para que os participantes se concentrem em seu trabalho, e perto de Paris o bastante para que os da Île-de-France possam chegar a ele sem dificuldade. Realmente, é preciso conseguir fazer com que se afastem de todas as suas obrigações profissionais e familiares. É com este objetivo que a sessão é programada para uma sexta-feira e um sábado do mês de outubro e, depois, a mesma coisa para o mês de novembro (a participação seria menor se o seminário tomasse dois fins de semana ou quatro dias seguidos).

No primeiro dia, em sessão plenária, após haver apresentado rapidamente o CEPP, os organizadores formam três comissões de mais ou menos dez participantes. A tarefa de cada grupo é organizar-se para preparar um relatório escrito e uma apresentação oral, desembocando em propostas relativas às associações, no âmbito do assunto definido. Como base de trabalho, dispõem de um dossiê escrito e de uma conferência que analisa a ligação entre os pontos de vista dos diplomatas, dos militares e das empresas, feita por um especialista em crises humanitárias, diretor do Eurogroup Institute.

Ao contrário das assembléias de coletivos militantes, o ambiente é moderado, as frases são bem construídas, o vocabulário é burilado, quase tecnocrático. A maioria dos participantes parece treinada nas técnicas de reunião. Vindos em princípio por curiosidade ou para se beneficiarem das vantagens de uma rede de contatos, eles tomam a peito, rapidamente, essa oportunidade de tentar uma reflexão sobre questões de fundo e de se expressar. Todos mostram uma motivação perfeita: deixam a sala de trabalho com dificuldade para as pausas de café ou para as refeições.

Palavra “classe” é tabu

Dois terços vêm do setor privado e o setor público é representado por dirigentes políticos, magistrados, militares, professores universitários

No último dia, na presença de alguns veteranos do CEPP, cada uma das três comissões apresenta oralmente suas propostas. Oficialmente, trata-se de fazer a síntese do trabalho de todos. Não se registra nenhuma idéia ou opinião que não esteja “em sintonia”. Todos tiveram liberdade para refletir e discutir, mas dentro de um quadro pré-definido. Desse modo, desde o início, depois de horas de debate para escolher um ângulo de abordagem pertinente, eles constatam que não conseguiram se afastar do que é proposto pelo dossiê, cuja sugestão de conjunto assimila os contrapoderes associativos a agitadores que entraram à força no jogo normal.

De modo geral, o vocabulário condiciona os termos da reflexão. Assim, a palavra “associação”, empregada de maneira muito natural por todos os participantes que militam ou que dão dinheiro a uma associação, foi descartada. Sua etimologia, que lembra “social” ou “sociedade”, evocaria o contexto conhecido e tranqüilizador da lei de 1901. A expressão martelada, e traduzida do inglês, foi organização não governamentais - ONG. Todas as comissões tiveram dificuldades para defini-la. Uma delas desistiu de fazê-lo.

Um termo recorrente, “ideologia”, descreve pejorativamente a que está na outra ponta: a ideologia “comunista de antes de 1989”. A onipresente ideologia liberal aparece como normal, naturalizada. Por causa de sua conotação “ideológica”, a palavra “classe” é tabu, relegada numa frase do tipo: “Daqui por diante, a sociedade não pode mais ser reduzida a classes com interesses convergentes e homogêneos.” A observação fica mais saborosa ainda quando é expressa no âmbito do CEPP, uma rede em vias de consolidar uma classe média alta, homogênea, através de sua educação, de seus valores, de suas relações.

Legitimidade e poder

São formadas três comissões, de mais ou menos dez participantes, que preparam um relatório uma apresentação oral, com propostas relativas às associações

A associação tem vocação para ser uma empresa como as outras. O vocabulário liberal se implanta desde o título, que inclui os conceitos de “governança” e de “exceção francesa” 5, subentendendo-se que o Hexágono estaria “atrasado” em relação à norma anglo-americana. A questão da concorrência e das “partes de mercado” das associações humanitárias é colocada com insistência: por que nossas associações francesas, insuficientemente poderosas para ocuparem o terreno em caso de crise, deixam sempre as ONGs estrangeiras abrirem os mercados para suas empresas? Outras questões reveladoras: é possível falar de retorno de investimento, de valor agregado no caso de uma associação?

Os conceitos de legitimidade e de poder são auscultados. As referências na matéria são o eleito político, responsável diante de seus eleitores, e o dirigente de empresa, responsável diante dos acionistas, todos os dois legítimos porque prestam contas externamente. O eleito sindical ou associativo só presta contas internamente. Uma associação não estaria, pois, habilitada a intervir no campo político. No entanto, o Medef, confederação sindical patronal, nunca deixou de fazer isso (leia, nesta edição, “A voz do poder patronal”, de Paul Lagneau-Ymonet). E, se o CEPP se preocupa com o fato de que uma associação possa manipular uma empresa, ou mesmo um Estado, ele não se preocupa com o perigo de manipulação de um Estado por uma empresa (durante essa sessão, a ação da Elf no Congo suscitaria algumas reflexões sobre o assunto).

Lugar de reflexão e comunicação

O termo “ideologia” refere-se pejorativamente à ideologia “comunista de antes de 1989”. A onipresente ideologia liberal aparece como normal, naturalizada

O funcionamento das associações é analisado a partir do ponto de vista das empresas, particularmente quanto ao aspecto financeiro. A idéia de uma agência de pontuação é retomada incessantemente: ela atribuiria notas às associações, conforme a eficácia de sua gestão (porcentagem do dinheiro dos doadores efetivamente gasta para o objetivo estabelecido) e, ao mesmo tempo, da realização dos objetivos (conseqüências desses gastos). Essas notas ajudariam os doadores e os patrocinadores a determinarem onde investir seu óbolo. Colocariam as associações em situação de concorrência e as forçariam a ser transparentes: publicação das contas e de seus relatórios de atividades.

Por que o CEPP dispendeu milhares de euros para convidar esses trinta participantes? E, sobretudo, por que essas centenas de jornadas de trabalho (que poderiam representar somas consideráveis)? Não se trata de colher e depois difundir idéias muito importantes: os relatórios de cada ano são “arqueologizados” (sic). O CEPP tampouco busca se tornar conhecido: a propaganda, por enquanto, lhe é indiferente.

Os organizadores admitem isto: o essencial está na constituição da rede. Os participantes encontram pessoas mais variadas do que aquelas com quem convivem todos os dias; estabelecem relações informais privilegiadas com pessoas que poderão voltar a contatar se sua carreira o exigir. O Medef enfatiza esta dimensão: um lugar de reflexão, de comunicação entre mundos diferentes permite a alguns informarem-se ou abandonarem preconceitos.

O processo de cooptação

Para o Medef, trata-se de um lugar de reflexão, de comunicação entre mundos diferentes, que permite a alguns informarem-se e abandonarem preconceitos

Esse era, na origem, um dos motivos da criação do CEPP. No início da década de 60, o patronato e o Estado gaullista desejavam ver uma única e mesma elite nacional dirigir, ao mesmo tempo e de modo homogêneo e concertado, o setor industrial do Estado, o setor privado e as altas administrações. Depois disso, o mundo mudou, o patronato francês também6: ele usa o CEPP para outras missões.

Para pretender falar em nome de toda a sociedade dita civil, é essencial convidar pessoas de todas as opiniões para participarem de foruns. Em Davos, os think tanks anglo-saxões já usam essa técnica. Por sua vez, na França, o patronato o faz. A Fundação Saint-Simon lhe havia proposto uma abertura para a centro-esquerda7; o CEPP estreita a ligação público-privado. Os participantes saem daí munidos do vocabulário e dos referenciais de pensamento que correspondem à ideologia liberal.

Há vinte anos, e sobretudo no último período, o capitalismo demonstra sua capacidade para canalizar e recuperar as críticas. Não hesita em convidar os opositores mais ferrenhos, fazendo-os vislumbrarem a possibilidade de se expressar e de “fazer as coisas avançarem”. Os que se recusam são apontados como incorrigíveis que se excluem a si mesmos do “debate”. Os que aceitam, perdem sua imagem de opositores radicais, ou até acabam moderando sua oposição8.

De toda forma, o tema de 2001 do CEPP era representativo da tendência atual: tratando das associações, o patronato procurava analisar as forças e as fragilidades de seus adversários declarados. Uma outra razão, mais profunda, impunha essa escolha de tema. Os contrapoderes associativos se opõem à ideologia patronal no que diz respeito à economia: eles preferem a qualidade de vida à qualidade dos lucros. Porém, associações e patrões às vezes se juntam para se opor ao Estado, privilegiando a esfera privada. Ora, a estratégia do Medef é, de fato, tirar do Estado em proveito do indivíduo ou da associação de indivíduos. Sua tática atual incita-o a facilitar, especialmente através de colóquios, a aproximação entre empresas e associações.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - O anuário 1998 do CEPP explica: “Estrutura de diálogo, o CEPP, criado em 1963, tem por objetivo reunir, para o estudo de temas da realidade econômica e social, homens e mulheres que estão na vida profissional há alguns anos e já ocupam cargos de responsabilidade na administração pública ou nas empresas. De fato, o CNPF [Centro Nacional do Patronato Francês] e as grandes administrações que estão na origem do CEPP consideraram que seria oportuno que jovens executivos de empresas privadas e de serviços públicos se encontrassem independentemente do desenvolvimento de sua carreira e tomassem consciência, longe de todas as contingências profissionais, de suas formas de pensar e de suas respectivas posições. ”.
2 - O tema da sessão era: “Emergência de novos poderes: ONG, Coordenações... Sua influência sobre a governança e a democracia. Seu lugar e papel nas instituições mundiais e européias (OMC, Comissão etc...) e entre nossos parceiros europeus. Existiria ainda uma exceção francesa?”
3 - No anuário, encontram-se alguns nomes conhecidos da política e das finanças: Jean-Pierre Soisson (1967), Pierre Méhaignerie (1972), Jean-Yves Haberer (1965), Claude Bébéar (1969), Jean-Charles Naouri (1980).
4 - N.T. Nome dado aos jovens de origem magrebina, nascidos na França e filhos de pais imigrantes.
5 - Cf. Bernard Cassen, “Le piège de la gouvernance”, Le Monde diplomatique, junho de 2001, e Thomas Frank, “Cette impardonnable exception française”, Le Monde diplomatique, abril de 1998.
6 - Instalado nos locais do MEDEF, o CEPP é, desde a privatização das grandes empresas, muito mais influenciado pelo privado do que pelo público.
7 - Ler, de Vincent Laurent, “Les architectes du social-libéralisme”, Le Monde diplomatique, setembro de 1998, e “La mondialisation est arrivée près de chez vous”, Le Monde Libertaire, 8 de novembro de 2001.
8 - Cf. Luc Boltanski e Eve Chiapello, Le nouvel esprit du capitalisme, Gallimard, 1999, e Serge Halimi, “Eternelle récupération de la contestation”, Le Monde diplomatique, abril de 2001.




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