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ISRAEL

A “preparação” da Intifada

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Muito antes da famosa visita-provocação de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, em 28 de setembro de 2000, o exército e os serviços secretos israelenses já estavam preparados para a eclosão do que viria a ser a (segunda) ’Intifada’

Marius Schattner - (01/10/2002)

“Maré alta, maré baixa”, o nome de código dado à Intifada – desde seu começo em setembro de 2000 – traduz a idéia do exército israelense sobre o confronto: um fenômeno natural, inevitável, sem relação de causa e efeito com a ação do governo. E também a idéia de que a onda de violência acabará se quebrando contra a força de resistência do exército. Basta agüentar até o refluxo, até o dia em que o adversário “perder a esperança de arrancar concessões pela força”, segundo uma das expressões favoritas dos dirigentes israelenses.

O comando militar afirma ter visto essa onda de fundo vir de longe. “As informações colhidas e os preparativos realizados nos QG permitiram que não fôssemos surpreendidos pelo conflito armado desencadeado pelos palestinos”, assegurou, em dezembro de 2001, o general Moshe Yaalon, então chefe adjunto do Estado-Maior1. No mais, o Serviço de Inteligência Militar (Aman), que ele dirigia em 1995, teria avisado o primeiro-ministro Yitzhak Rabin que, violando os acordos de Oslo, a Autoridade Palestina não fazia nada para impedir os atentados, sendo que “conhecia os autores, sabia onde se encontravam os esconderijos de armas e avaliava a importância da ameaça terrorista”. Em outras palavras, o Serviço de Inteligência do exército previu, com cinco anos de antecedência, o fracasso do processo de paz2.

Uma “enorme provocação”

“As informações colhidas permitiram que não fôssemos surpreendidos”, afirmou, em dezembro de 2001, o general Moshe Yaalon, chefe adjunto do Estado-Maior

Este sinal de aprovação precisa ser minuciosamente avaliado. No verão de 1995, os serviços secretos militares não apontavam, na realidade, “qualquer indício que permitisse afirmar que Yasser Arafat não estivesse comprometido com o acordo (de Oslo) e com o processo de paz”. Pareceria que, na boa tradição dos serviços secretos, o Aman tenha considerado todas as possibilidades, dizendo ao poder o que este tinha vontade de ouvir3.

Mas certos oficiais superiores, efetivamente, deram o alarme antes de outros. Não surpreende que fossem os que mais se opunham aos acordos de Oslo de 1993, com os palestinos. Todos eles viram na continuação dos atentados, após 1993, a prova da duplicidade de um Arafat que continuaria desejando a destruição de Israel por etapas, mesmo que tais ataques fossem perpetrados unicamente, na época, por grupos islâmicos de oposição.

O seu pior cenário se concretiza em 29 de setembro de 2000, quando se desencadeia a Intifada no dia seguinte à visita à Esplanada das Mesquitas (Monte do Templo) do chefe da oposição de direita da época, Ariel Sharon. Alertado de longa data, o exército estava preparado para o confronto. Tão preparado que Yasser Arafat acusaria o chefe do Estado-Maior, Shaul Mofaz, e o primeiro-ministro trabalhista, Ehud Barak, de terem montado uma enorme provocação, em conivência com Sharon, para acabar com uma Autoridade Palestina cuja legitimidade nunca foi aceita pela direita e por uma parte do exército.

A profecia da desgraça

Ainda segundo o general Yaalon, o Serviço de Inteligência do exército previu, com cinco anos de antecedência, o fracasso do processo de paz

Na realidade, se não existe qualquer prova de que tenha deliberadamente empurrado os palestinos para um confronto, será que o Estado-Maior fez tudo para o evitar? E quando o fogo pegou, será que fez tudo para o conter ou, pelo contrário, o atiçou? Será que não viu nessa prova de força a oportunidade sonhada de quebrar a Autoridade Palestina, podendo até ir contra um governo trabalhista ainda empenhado (até dezembro de 2001-janeiro de 2002) num último esforço para chegar a um acordo com Arafat?

É o que deixa entender o ex-chefe de gabinete de Barak, o advogado Gilead Sheer, um dos principais negociadores com os palestinos. “Uma das concepções dominantes no meio do exército era a profecia da desgraça, chamada a se realizar: o confronto se tornava inevitável, pois os palestinos blefavam, ou mentiam mesmo, e estavam se preparando de armas nas mãos”, escreve em seu livro sobre as negociações. Segundo ele, as orientações do poder civil para reduzir a tensão com os palestinos não eram seguidas na maioria das vezes: “Os blindados (que entravam na área palestina) não voltavam para sua posição de origem (…), só um número ínfimo de operários palestinos era autorizado a voltar a Israel, as barreiras nas estradas eram mantidas” na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Ele se ergue contra a propensão de certos chefes do exército em tomar posições políticas em público, ao “se dirigirem diretamente à opinião pública, passando por cima do governo” eleito, principalmente nos últimos meses do governo de Barak4.

Retomando argumentos clássicos

Certos oficiais superiores, efetivamente, deram o alarme antes de outros. Não surpreende que fossem os que mais se opunham aos acordos de Oslo de 1993

Trata-se de um fenômeno recorrente num Estado onde o exército sempre atuou em função de seu enorme peso na sociedade: é a única instituição que assume, ao mesmo tempo, tarefas de avaliação (com o Aman, a mais importante das agências de inteligência), de planejamento e de execução. É uma instituição que reflete as tendências gerais do país e acolhe cada vez mais colonos e nacionalistas religiosos em suas fileiras, embora estes ainda estejam pouco representados na instância do comando superior. O fenômeno se ampliou durante os últimos meses, enquanto o país era dirigido por dois ex-generais, Sharon e o ministro da Defesa, Benyamin Ben Eliezer, cujo ativismo não perde em nada para o dos chefes do exército.

Dois chefes sucessivos do Estado-Maior, Mofaz e Yaalon, intervieram, assim, estrondosamente no campo político, pregando com exagero a guerra contra a Autoridade Palestina, retomando uma argumentação clássica da direita. Ainda em fevereiro de 2001, antes mesmo que Sharon assumisse suas funções, o general Mofaz classificou a Autoridade Palestina de “entidade terrorista”. Em outubro de 2001, opôs-se à evacuação de dois bairros da cidade de Hebron (desde então inteiramente reocupada), o que, no entanto, fora formalmente decidido pelo governo. Na primavera de 2002, exigiu a expulsão de Arafat, contra a opinião da maioria do governo e de um certo número de especialistas militares.

As relações entre exército e política

O cenário fora tão preparado que Yasser Arafat acusaria o chefe do Estado-Maior e o primeiro-ministro Ehud Barak, de terem montado uma enorme provocação

Quanto ao general Yaalon, ele compara a Intifada a um “câncer” que ameaça a própria existência de Israel como Estado judeu, voltando contra os árabes a imagem de um Israel “câncer” na região. Este câncer tem que ser extirpado de um jeito ou de outro – pessoalmente, Yaalon preconiza uma “quimioterapia”, mas lembra que outros pregam a “amputação”. Além disso, o novo chefe do Estado-Maior denuncia a retirada israelense do Líbano decidida, em maio de 2000, pelo governo Barak, que teria, em sua opinião, “feito o jogo dos interesses árabes”. Acusa os defensores do compromisso e todos os que criticam a conduta do exército de solapar o moral da nação. Afirmações que provocaram uma forte polêmica.

Seguindo o mesmo tipo de raciocínio, o chefe da força aérea, general Dan Haloutz justificou, em agosto de 2002, a morte de civis inocentes durante ataques aéreos “contra terroristas” e se propôs a “processar por traição” os pacifistas israelenses que ousam acusá-lo de crime de guerra.

A questão que se coloca, mais uma vez, é a das relações entre o exército e a política. Questão que, na verdade, remonta à assinatura dos acordos de Oslo de agosto de 1993. Em suas memórias, o general de reserva Uri Sagui descreve o constrangimento de um chefe dos serviços secretos militares, obrigado a recorrer às suas próprias fontes de informação para ficar sabendo que seu governo está negociando secretamente, em Oslo, com a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e que, contra qualquer expectativa, as negociações estão próximas de uma conclusão. “O primeiro-ministro (Rabin) não me havia informado sobre o que estava acontecendo com o ministro das Relações Exteriores (Shimon Peres, que supervisionava a negociação), mas consegui ficar sabendo mais graças às minhas fontes e informei o chefe do Estado-Maior, Ehud Barak5”, revela.

Militares pró-paz

O exército sempre atuou em função de seu enorme peso na sociedade: é a única instituição que assume tarefas de avaliação, de planejamento e de execução

O ex-chefe do Aman, no entanto considerado no exército como um moderado, lamenta “ter tomado, tarde demais, conhecimento da Declaração de Princípios (do acordo de Oslo) para poder influir sobre ela”. O general Barak estava convencido de que o mecanismo das retiradas militares sucessivas previstas por Oslo jogava contra Israel, na medida em que este deverá “entregar territórios sem contrapartida”. Ele classifica o acordo de “queijo suíço cheio de buracos”. Quando, na seqüência, foram consultados, os especialistas militares multiplicariam as medidas de segurança para se assegurarem de que as armas da polícia palestina não seriam usadas contra Israel e de que as colônias de povoamento poderiam gozar da segurança necessária, o que permitiria que crescessem num ritmo acelerado.

Não podemos deduzir, entretanto, que o comando superior era radicalmente contrário ao acordo de Oslo, afirma o general de reserva Danny Rostchild. “Alguns oficiais superiores desconfiavam, outros eram contra, outros a favor e, pessoalmente, eu estava encantado”, diz o ex-chefe da administração militar nos territórios ocupados até 1995.

O sucessor do general Barak como chefe do Estado-Maior de 1995 a 1998, general Amnon Shahak, por exemplo, é um defensor convicto dos acordos de Oslo. A exemplo de outros dirigentes militares, considera que os acordos reforçam a segurança do país. Isto o colocaria em conflito com o primeiro-ministro, de direita, Benjamin Netanyahu, que – ironia do destino – acusa, na época, o alto comando de ingerência na política6. O chefe do Departamento de Segurança Interna - civil - (Shin Beth), almirante de reserva Ami Ayalon, também era favorável ao compromisso com os palestinos. Após ser reformado, em 2000, defenderia a retirada incondicional dos territórios ocupados.

Negociações paradoxais

O chefe da força aérea, general Dan Haloutz justificou, em agosto de 2002, a morte de civis inocentes durante ataques aéreos “contra terroristas”

Em contrapartida, os opositores a Oslo contam em suas fileiras com o general Mofaz, chefe do Estado-Maior de 1998 a julho de 2002, e o atual chefe das forças armadas, o general Yaalon que, desde 1995, ocupa postos-chave frente aos palestinos: chefe do Serviço de Inteligência militar, comandante da região que abrange a Cisjordânia e chefe adjunto do Estado-Maior de 2000 a 2002.

Todavia, mais do que por motivos ideológicos, é por uma visão estreita que o exército freia a aplicação de Oslo, segundo Danny Rotschild. Porque, para um militar, os imperativos de segurança “a curto prazo” são mais importantes. Quando os fundamentalistas islâmicos lançaram a primeira onda de ataques suicidas em Israel, em 1994, após o assassinato de cerca de trinta muçulmanos em Hebron pelo colono Baruch Goldstein, o exército se declarou favorável ao cerco dos territórios palestinos (embora o Shin Beth tivesse apontado os riscos). O objetivo era deter os atentados em Israel impedindo a entrada de palestinos; porém, o cerco jogava no desemprego mais de 100 mil trabalhadores empregados em Israel e dava um duro golpe à credibilidade do processo de paz por parte de uma população que, no mínimo, esperava dele melhores condições econômicas.

Hesitante, desconfiado e divido em relação aos acordos de Oslo, o exército encontrou-se numa situação paradoxal. De um lado, fora encarregado de aplicar o acordo, inclusive sob governos trabalhistas que apostavam na implicação dos militares na negociação para convencer a opinião pública. De outro, preparava-se para um confronto com os mesmos palestinos que eram seus interlocutores, um confronto que explode, com a abertura de um túnel antigo por Israel, na noite de 23 a 24 de setembro de 1996, sob a cidade velha de Jerusalém, ao longo da Esplanada das Mesquitas. Os muçulmanos vêem nisso uma ameaça para o terceiro local santo do Islã. Passeatas, duramente reprimidas, transformam-se em rebelião e, depois, em batalha ordenada com a entrada de policiais palestinos. O exército israelense não estava nem um pouco preparado para enfrentar a situação, pois não havia sido informado com antecedência, pelo primeiro-ministro Netanyahu, sobre o sinal verde para a abertura do túnel. O saldo foi pesado: 80 mortos, dos quais quinze militares israelenses.

Matar a revolta no embrião

O primeiro-ministro, general Barak, estava convencido de que o mecanismo das retiradas militares sucessivas previstas por Oslo jogava contra Israel

“Essa confusão constituiu uma virada. O comando militar não teve mais dúvida: a explosão de ira serve a Arafat como meio de pressão para obter vantagens na negociação”, declarou o ex-chefe do Departamento Histórico do exército, Igal Eyal. A lição disso tudo é que “confrontos se reproduzirão em maior escala ainda, envolvendo as forças de segurança palestinas, quando as negociações entrarem numa fase decisiva, ou se os palestinos proclamarem unilateralmente sua independência7”.

Para o exército, os preparativos se intensificariam em julho de 2000, após o fracasso das negociações de Camp David e em função de preparativos no campo do adversário, principalmente no interior do Fatah. As posições de guarda foram reforçadas em redor das colônias, novas táticas foram estudadas, unidades fizeram treinamentos especiais, planos de intervenção foram estabelecidos, em particular a operação para toda a Cisjordânia, cujo nome de código era “Campo de Arame Farpado”.

Estes planos passariam a ser aplicados desde o começo da Intifada. Tratava-se de bater duro, de matar a revolta enquanto era ainda um embrião. O resultado foi um número elevado de palestinos mortos nas primeiras semanas de confronto – oito vezes maior que o número de israelenses mortos! Dois anos depois, a relação cairia de um para três, o número de mortos israelenses ultrapassando os 600, em grande parte civis, “contra” mais de 1.800 palestinos mortos.

Um “descontentamento crescente”

Não podemos deduzir que o comando superior do exército era radicalmente contrário ao acordo de Oslo, afirma o general de reserva Danny Rostchild

Não se tratava apenas de preparativos táticos. Foi toda uma concepção do “confronto limitado” que o comando militar elaborou antes mesmo do início da Intifada. “O comando militar entendeu que não bastava aplicar orientações – pouco claras e mudando sempre – do poder político, mas que deveria interpretar suas inspirações, como o arquiteto com seu cliente, isto é, pensar de modo diferente a luta, introduzir novos conceitos, levar em conta restrições internacionais e o peso da opinião pública”, explica o general de reserva Iri Kahn, um dos responsáveis pelo Departamento de Pesquisas Operacionais do exército, encarregado da formação e reflexão estratégica dos oficiais superiores.

“O objetivo não é ocupar um território, retomar o controle das áreas autônomas palestinas (seria, porém, o que ocorreria na prática), menos ainda restabelecer uma administração militar com todos os encargos que isto representa, mas, sim, provar aos palestinos que a violência não compensa e se volta contra eles.” Nesse momento, e só então, Israel deveria apresentar um plano de paz, pois não haveria solução durável “sem solução política”.

Essa hora se aproxima, afirma um outro oficial superior da ativa, do Departamento de Planejamento Estratégico do exército, que menciona um “descontentamento crescente da população palestina” em relação à sua direção e a Arafat. Ele também tem em vista, na hora certa, um acordo político cujos contornos ainda não podem ser revelados por Israel. Porém, isto acontecerá sem o chefe palestino, que ele acusa de ter lançado deliberadamente uma “verdadeira guerra”, e não um levante popular como parecia ser. Na opinião desse oficial, o exército esperava por isso, mas não havia considerado “que a luta durasse tanto tempo, fizesse tantos mortos e provocasse uma onda tão sangrenta de atentados suicidas”. Aí também, Arafat, com seu lado irracional, seria o único culpado.

A “morgue” do comando militar

O exército ficou numa situação paradoxal: fora encarregado de aplicar o acordo e preparava-se para enfrentar os palestinos que eram seus interlocutores

A explicação vale o que vale. E tem a vantagem de isentar totalmente Israel e seu exército de qualquer responsabilidade, não apenas no que se refere à origem das perturbações, mas também no que envolve a repressão que provocou a morte de centenas de civis inocentes e a destruição maciça de casas no âmbito de uma política de punições coletivas.

“O que está acontecendo no Tsahal?”, pergunta o jornalista Nahum Barnéa, vedete do jornal de grande tiragem Yediot Aharonot, após a morte de duas crianças e de dois adolescentes, no dia 31 de agosto, durante uma “operação de queima de arquivo” que errou o alvo - outro deslize pelo qual o ministro da Defesa, mais uma vez, se desculpou e sem que, mais uma vez, nenhuma sanção, nem a mínima crítica, fosse aplicada aos responsáveis. O jornalista, que esmiúça a “morgue” do comando militar, questiona não só a legitimidade moral desse tipo de operação - o exército assume deliberadamente o risco de matar parentes da pessoa que está na mira - como também sua lógica interna, ainda mais que acontece após um período de relativa calma e pode desencadear um novo ciclo de atentados e represálias8.

Não se trata apenas de deslizes ou mancadas, observa o orientalista Avraham Sela, também ex-oficial superior do serviço secreto militar. “Houve, principalmente no início da Intifada, uma vontade muito nítida de provocar muitas vítimas, não somente entre os atiradores palestinos, mas entre manifestantes que, de modo geral, só tinham pedras como armas. Assim fazendo, o exército efetivamente quebrou a revolta popular, mas ela se transformou em terrorismo e luta armada”. Que não acabará, realmente, sem uma proposta política digna de crédito para os palestinos, o que não se vê aparecer.

Essa “morgue” do comando militar disfarça, segundo ele, “uma ausência de estratégia real”, o objetivo de quebrar a vontade adversa e não pode ser considerada, politicamente, como um objetivo de guerra. O mais grave, segundo esse pesquisador da universidade hebraica de Jerusalém, é que, por trás do discurso sobre a irracionalidade de Arafat e sua vontade de destruir, existe um “conceito estereotipado dos palestinos e dos árabes, nos quais só acreditamos quando dizem que querem destruir Israel, sem levar em conta que, na prática, as pessoas estão prontas a aceitar um modus vivendi”, conforme comprovam várias pesquisas de opinião.

(Trad.: David Catasiner)

1 - Ler, de Moshe Yaalaon, “Les préparatifs des forces à un conflit limité”, revista Maarahot (texto em hebraico), Tel-Aviv, n° 380-381, dezembro de 2001, pp. 24 a 30.
2 - Entrevista de Yaalon à revista militar israelense Mabat le Moreshet Hamodiin sobre a história da Inteligência, Tel-Aviv, 28 de janeiro de 2002: “Propus ao primeiro-ministro Yitzhak Rabin que desse um ultimato (a Yasser Arafat), intimando-o a agir contra o terrorismo, senão o processo de paz seria interrompido”, revela o atual chefe do Estado-Maior.
3 - Cf. artigo de Yossi Melman, Haaretz, Tel-Aviv, 16 de agosto de 2002, citando um documento do Departamento de Análise, do Aman.
4 - Ler, de Gilead Sheer, A portée de la main, (em hebraico), ed. Tamar, Tel-Aviv, 2001, p. 368.
5 - Ler, de Uri Sagüi, Orot be Arafel (Luzes na neblina), autobiografia (em hebraico), ed. Yediot Aharonot, Tel-Aviv, 1998, pp. 186-187. Ele destaca que, na época, era a favor de negociações diretas com a OLP, uma opinião longe de ser unânime no exército.
6 - Principalmente durante o Conselho de Ministros, no dia 15 de junho de 1998. Cf. nota Agência France Presse, 15 de junho de 1998.
7 - Esses acontecimentos não impediriam o governo Netanyahu de, mais tarde, retirar o exército de quatro quintos de Hebron. A lição que os militantes palestinos tiraram disso foi de que os israelenses cedem mais facilmente se tiverem que enfrentar a violência, aponta o jornalista Charles Enderlin, que, a esse respeito, cita o chefe do Fatah, Marwan Barghouti, desde então preso e “julgado” por Israel. Ler, de Charles Enderlin, Le Rêve brisé, ed. Fayard, Paris, 2002, p. 74.
8 - Yediot Aharonot, 1° de setembro de 2002. Desde então, uma CPI absolveu os militares por essa morte e pela morte de mais oito palestinos durante dois outros incidentes, preconizando que fossem tornadas mais severas as instruções sobre disparos.




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