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A era pós-Cardoso

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A vitória de Lula e do PT, nas eleições brasileiras, abrirá um grande debate estratégico. Qual a relação entre a presidência e o poder, quais os limites e possibilidades de agira no quadro institucional, qual a possibilidade de adesão ao sistema, por exemplo

Emir Sader - (01/10/2002)

O ciclo de governos neoliberais no Brasil – iniciado com Fernando Collor de Mello, em 1990 – pode terminar com o fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Seu sucessor – quem quer que ele seja – receberá, junto com uma pesada herança, expressa na fragilidade da economia, um país mudado, em aspectos fundamentais. Quem quer que seja o vencedor, muito provavelmente terá que abandonar o modelo econômico que deu vida ao governo de Cardoso, se esgotou e deve impor a necessidade de mudanças significativas. O que as eleições deste mês definem no Brasil é a direção em que se darão essas mudanças, se o país não quiser repetir a dramática crise argentina.

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O sucessor de Fernando Henrique Cardoso receberá, junto com uma pesada herança, expressa na fragilidade da economia, um país profundamente mudado

A promessa que galvanizou a maioria dos eleitores brasileiros, permitindo a eleição e a reeleição de Cardoso no primeiro turno das eleições presidenciais de 1994 e 1998 respectivamente, era que a estabilidade monetária – como resultado do combate à inflação, definido como objetivo prioritário do país – abriria as portas do Brasil para a retomada do desenvolvimento econômico, interrompido uma década antes, para a chegada de investimentos estrangeiros portadores da modernidade tecnológica, para a geração de empregos, para uma política de redistribuição de renda – terminando com a inflação, definida como “um imposto contra os pobres” – e para o acesso finalmente do país ao primeiro mundo. A crise financeira com que se termina o governo de Cardoso, levando-o a dois sucessivos empréstimos do FMI – um de 10 e outro de 30 bilhões –, simplesmente para garantir que o país não recaia numa crise similar à argentina, revela como aquelas promessas se demonstraram falsas e as transformações operadas no Brasil foram de outra ordem.

O processo de transição

O Brasil – assim como os outros países latino-americanos – havia sido vitimado pela crise da dívida, no início da década de 80, encerrando as décadas de maior crescimento da história do país, começadas com a reação à crise de 1929. O período de ditadura militar (1964-1985) havia sido de expansão econômica porque o golpe se havia dado ainda durante o ciclo internacional de maior expansão do capitalismo, favorecendo ritmos de crescimento muito altos, entre 1967 e 1979, com importação de capitais e com mercados externos disponíveis para uma expansão das exportações brasileiras.

Essas transformações renovaram a classe trabalhadora brasileira, que protagonizou parte significativa da resistência à ditadura militar. Junto a novos movimentos sociais e movimentos cívicos, construíram um bloco opositor que, valendo-se da crise da dívida de 1980, aceleraram o fim da ditadura militar. Este processo de transição, no entanto, foi hegemonizado por forças liberais de oposição, ancoradas na oposição ao “autoritarismo”, prometendo que a reconstrução do processo democrático traria, por si só, a resolução dos graves problemas acumulados nas duas décadas anteriores. Essa visão limitada, mais a capacidade das forças ditatoriais recicladas que participaram da coalizão que a partir de 1985 governaria o país com um presidente civil – José Sarney –, terminaria fazendo com que o Brasil fosse, na região, o país em que os elementos de continuidade com o regime ditatorial sejam os mais fortes, contaminando a transição democrática.

As raízes do projeto neoliberal

Depois de várias tentativas consideradas “heterodoxas” de combate à inflação, na década de 80 desenhava-se no país um cenário de adesão ao neoliberalismo

Depois de várias tentativas consideradas “heterodoxas” de combate à inflação, no final da década de 80 começava a se desenhar para o país um cenário similar ao dos outros países da região – a adesão ao neoliberalismo. O Brasil chegou mais tarde que os outros países da região às políticas de ajuste fiscal. Comparado com o Chile, a Bolívia, o México ou a Argentina, a temporalidade específica do Brasil fez com que a saída da ditadura militar desembocasse num clima pouco propício, num primeiro momento, ao neoliberalismo. O retorno à democracia foi consolidado institucionalmente com uma nova constituição, que afirmou direitos, expropriados da cidadania pela ditadura, a ponto de ser considerada por seu presidente como uma “constituição cidadã”. A força dos movimentos sociais emergentes e essa constituição colocavam o Brasil na contramão do já avançado processo de hegemonia neoliberal no continente.

O primeiro projeto neoliberal coerente foi posto em prática por Fernando Collor de Mello, eleito presidente em 1989, porém afastado depois pelo Congresso, por corrupção, em 1992, deixando interrompido o processo de abertura da economia, de privatização, de diminuição do tamanho do Estado e de desregulação econômica – pilares do Consenso de Washington. Fernando Henrique Cardoso, primeiro como ministro da Economia do vice-presidente de Collor de Mello – Itamar Franco – e depois como presidente eleito, em 1994, retomaria esse projeto, dando-lhe novo formato – o de combate à inflação, como modalidade latino-americana do projeto neoliberal de ataque aos gastos estatais como suposta raiz da estagnação e do atraso econômico.

O campeão de “medidas provisórias”

O primeiro projeto neoliberal coerente foi posto em prática por Fernando Collor, eleito em 1989 e afastado pelo Congresso, por corrupção, em 1992

Cardoso governou com maioria absoluta no Congresso, à frente de uma coalizão que englobava seu partido – o Partido da Social Democracia Brasileira, originalmente de centro-esquerda – e forças da direita tradicional. Obteve o apoio unânime do grande empresariado nacional e internacional e governou com o beneplácito de praticamente toda a grande imprensa. Teve, assim, as condições que nenhum outro presidente brasileiro havia conseguido, entre força política, apoio social e sustentação midiática para seu governo. Reformou a constituição “cidadã” tantas vezes quantas desejou, tirando-lhe aspectos reguladores essenciais. Apesar da maioria governamental, Cardoso governou, mais do que qualquer outro presidente, mesmo os ditadores, por meio de “medidas provisórias”, decretos governamentais que, com a complacência do Congresso, se perpetuam, tornando-se, na prática, novas leis. Foi o executivo o responsável pela grande maioria de iniciativas de legislação, completando assim um quadro de governabilidade plena para Cardoso, que conseguiu se eleger e se reeleger (1998) no primeiro turno. Um julgamento do que se transformou no Brasil nesse período é, assim, ao mesmo tempo um julgamento do governo Cardoso e de seu Plano Real de estabilidade monetária.

Como conseqüência da abertura da economia e de uma política cambial voltada par a atração de capitais, visando à estabilidade monetária – objetivo estratégico central do governo de Cardoso – o fluxo de capitais externos não se fez esperar, subindo de 42,5 bilhões de dólares em 1995 (6% do PIB) para 197,7 bilhões em 1999 (21,6% do PIB). Oferecendo aquela que foi a taxa de juros real mais alta do mundo durante a maior parte do seu governo, Cardoso conseguiu obter os recursos, entre empréstimos privados e de organismos internacionais, para conter a inflação que se transferiu para a elevação brutal do déficit público – como se verá mais adiante.

O endividamento do setor público

Fernando Henrique Cardoso, primeiro como ministro da Economia e depois como presidente, em 1994, retomaria o projeto neoliberal, dando-lhe novo formato

Como resultado desse mecanismo monetarista, a inflação caiu da casa dos 50%, em junho de 1994, para 6% um mês depois da implantação do Plano, mantendo-se em níveis baixos ao longo de todos os anos do governo de Cardoso, chegando ao mínimo de 1,79% em 1998, para, depois da crise de 1999, voltar a subir, mas sempre abaixo dos dois dígitos.

A abertura da economia levou a uma rápida elevação das importações e à perda do que era uma das conquistas da economia brasileira – sua competitividade externa –, produzindo déficits na balança comercial como nunca o país havia conhecido, com reflexos diretos na balança de pagamentos, aumentados pelo ingresso de capitais especulativos. Enquanto as exportações subiram de 35 para 52 bilhões de dólares de 1992 a 1997, as importações mais do triplicaram, subindo de 20,5 para 61,3 bilhões, com a balança passando do superávit de 15,2 bilhões de dólares para o déficit de 8,3 bilhões, numa diferença significativa de quase 23,5 bilhões de dólares.

O nível de endividamento do setor público subiu vertiginosamente, de 30% do PIB, em 1994, para 61,9% em julho de 2002, resultado catastrófico para um governo que dizia que o Estado gastava muito e mal e que seu objetivo central, para combater a inflação, seria o saneamento das contas públicas. Com o agravamento da crise ao longo de 2002, subiu não somente o nível de endividamento, mas também a qualidade da dívida, elevando-se a proporção de dívidas em dólares, diminuindo os prazos e aumentando os juros dos empréstimos – como no caso do último, em agosto de 2002, de 30 bilhões de dólares, do FMI, dos quais seis foram liberados para que o governo de Cardoso pudesse concluir seu mandato sem decretar moratória e o restante dependendo da aceitação dos condicionamentos do FMI pelo próximo presidente.

A financeirização da economia

Apesar da maioria governamental, Cardoso governou, mais do que qualquer outro presidente, mesmo os ditadores, por meio de “medidas provisórias”

Isso se deu porque a estabilidade monetária foi obtida essencialmente através da atração de capitais especulativos, mediante estratosféricas taxas de juros, e não do crescimento e consolidação da economia ou do saneamento das finanças públicas. Estas, ao contrário, se elevaram aos níveis mencionados como resultado das mesmas taxas de juros que atraem capitais especulativos, mas multiplicam na mesma medida as dívidas.

O crescimento econômico tampouco foi retomado. Depois de viver a década de 80 como uma “década perdida”, o Brasil teve que constatar que não se tratava apenas disso, mas de que o país, depois de ter crescido como nunca na sua história entre as décadas de 30 e de 70, entrava num período de décadas de baixo crescimento, ou mesmo de estagnação. Assim, se na década de 80 o crescimento fora reduzido a 3,02% e a renda per capita aumentara somente 0,72%, como resultado da crise da dívida, na década passada a taxa de expansão da economia foi ainda menor, de 2,25%, e uma expansão da renda per capita de 0,88% – uma vez mais, menos da metade do crescimento demográfico, no país de distribuição de renda mais injusta do mundo.

Um balanço sintético das transformações vividas pelo Brasil na década de 90, e especialmente durante o governo Cardoso, pode ser resumidos em dois aspectos centrais: a financeirização da economia e a precarização das relações de trabalho. A modalidade adotada de estabilização monetária, como foi dito, centrada na atração de capitais financeiros para os papéis da dívida pública, promoveu esse capital a um papel hegemônico na economia. As campanhas de Cardoso foram prioritariamente financiadas pelos maiores bancos brasileiros, o sistema bancário foi o beneficiário do único plano – milionário – de salvação econômica e, principalmente, os serviços da dívida pública consomem mais do que 100 bilhões de reais por ano. Em 2002, 2003, e 2004 o Brasil precisará de um bilhão de dólares por semana para financiar as amortizações da dívida externa de 30 bilhões e o déficit em conta corrente, de 20 bilhões de dólares, em condições que, até aqui, o fluxo foi de 20 bilhões de dólares por ano.

A precarização do trabalho

Com aquela que foi a taxa de juros real mais alta do mundo durante a maior parte do seu governo, Cardoso conseguiu obter recursos para conter a inflação

O Estado brasileiro está financeirizado, com seu funcionamento completamente inviabilizado, caso não se renegociem pelo menos os prazos da dívida. De contrário, seguirá o caminho fracassado do governo De la Rúa. A economia se acha financeirizada, pelo grau de endividamento das pessoas, pela proporção altíssima de investimentos dos bancos em papéis da dívida do governo em comparação com a pequena fatia dedicada a empréstimos para investimentos, pela proporção crescente de investimentos especulativos das empresas industriais, comerciais e agrícolas. Como se não bastasse, os postos econômicos chave do governo são ocupados por pessoal do setor financeiro, nacional e internacional, que retorna sistematicamente ao setor privado.

Essa hegemonia, por sua vez, representou uma transformação significativa – em termos quantitativos e sociais – do orçamento público, em que os gastos com educação diminuíram de 20,3% sobre as receitas correntes, em 1995, para 8,9% em 2000, enquanto os gastos com juros da dívida subiram de 24,9% das receitas para 55,1% em 2000. No seu conjunto, os gastos com educação e saúde foram superados pelos gastos com pagamento dos juros da dívida.

O outro resultado característico das transformações operadas na sociedade brasileira na década de 90 foi a precarização do mundo do trabalho. O Brasil tinha um processo relativamente atrasado de incorporação de sua mão-de-obra ao mercado formal de trabalho. Uma economia originalmente exploradora extensiva da força de trabalho no campo, na produção do café para exportação, junto ao fato de ter sido o país que mais se atrasou para terminar a escravidão – o país teve o recorde de três séculos e meio de trabalho escravo, formalmente terminado em 1888 –, foi responsável pela inexistência de reforma agrária e pela relativamente recente incorporação maciça da mão-de-obra migrante ao mercado formal de trabalho.

A explosão da economia informal

O nível de endividamento do setor público subiu vertiginosamente, de 30% do PIB, em 1994, para 61,9% em julho de 2002, um resultado catastrófico

De qualquer forma, em períodos de democracia e de ditadura, de crescimento e de estagnação, houve uma permanente incorporação ao mercado formal da mão de obra proveniente de relações pré-capitalistas no campo ao longo de cinco décadas. Esse processo foi se estagnando na década de 80 pela incapacidade da economia, em recessão, de continuar absorvendo esse contingente de força de trabalho. Na década de 90, com a afirmação de Cardos de que “viraria a página do getulismo” na história brasileira – referindo-se ao tipo de Estado construído por Getúlio Vargas (1930/45 e 1950/54) –, terminou, ao debilitar a capacidade regulatória do Estado, enfraquecendo o outro lado desse Estado – o da extensão dos direitos de cidadania mediante a extensão da carteira de trabalho e do contrato formal, com seus direitos e deveres. Como resultado da política de “flexibilização laboral” – eufemismo que mal esconde o aumento da “super-exploração” do trabalho – a maioria dos trabalhadores brasileiros não dispõe de carteira de trabalho, isto é, de contratos formais que lhes possibilitem ser “sujeitos de direitos” e, portanto, cidadãos.

A abertura da economia, unida a essa política que promove a precarização do trabalho, produziu uma nova migração interna, já não mais do setor primário ao secundário ou ao comércio formal, dentro do terciário, mas do secundário à informalidade dentro do setor terciário. Essa migração deixou de representar uma ascensão social – pela melhor qualificação da força de trabalho e pela passagem da informalidade ao contrato formal de trabalho – para representar exatamente o seu oposto – o rebaixamento da qualificação e a perda de direitos, a rigor, a perda de cidadania, deixando a maioria dos trabalhadores de serem sujeitos de direitos laborais, via pela qual os trabalhadores tiveram tradicionalmente acesso a seus direitos básicos. Se em 1991 mais da metade dos trabalhadores brasileiros tinham conseguido chegar à economia formal e aos direitos da carteira de trabalho – mais precisamente, 53,7% da força de trabalho –, esse índice passou a cair até chegar a 45% em 2000, com o restante, 55%, na informalidade.

O enigma da periferia pobre

A estabilidade monetária foi obtida mediante a atração de capitais especulativos, com taxas de juros astronômicas, e não pelo crescimento da economia

Diante desse quadro, as camadas médias viram aprofundar-se sua cisão interna, iniciada no período da ditadura militar. Desde aquele momento iniciou-se um processo de ruptura interna, com os setores assalariados – especialmente os do setor público – sofrendo uma tendência à proletarização, enquanto uma franja mais restrita conseguia se reciclar, enganchando-se na dinâmica de modernização protagonizada pelas grandes corporações.

Os processos de financeirização e de precarização das relações de trabalho afetaram essa tendência das camadas médias. O desemprego, a informalização, a decadência dos serviços públicos e a restrição do emprego no setor bancário jogaram ainda mais para baixo os estratos inferiores das classes médias, enquanto a sofisticação do setor de serviços e a expansão do setor financeiro permitiram que algumas novas franjas pegassem carona nessas modalidades globalizadas de investimento de capital. Aprofundou-se assim a diferenciação interna dos setores intermediários, permitindo cada vez menos que fossem englobados numa única categoria, seja pelas diferenças de renda, como de patrimônio e especialmente de ideologia.

Os setores populares, particularmente aqueles que mais crescem, os das populações pobres da periferia das grandes cidades – 40% da população brasileira situa-se em sete regiões metropolitanas –, protagonizam os episódios mais cruéis da crise social brasileira – desemprego, miséria, exclusão social, violência, narcotráfico, ausência do Estado de direito e do Estado de bem-estar social. Aí se situa o grupo majoritário da população brasileira – crianças e jovens pobres da periferia das grandes cidades. Excedente do capitalismo, são vítimas dos esquadrões da morte, da discriminação e, particularmente, da falta de lugar social para eles. Não se socializam nem na família, nem na escola e menos ainda no trabalho. Não estão em partidos, nem de esquerda, nem de direita, nem nos movimentos sociais. Não dispõem de espaços de lazer e de cultura, lutam com a polícia, protagonizam o narcotráfico, fazem músicas rap de protesto, dançam e brigam em violentos bailes de periferia, não recebem nada da “sociedade organizada” e não sentem que devam nada a ela. Seu contato é o do contágio dos estilos de consumo, o da violência policial e o de formas variadas de ação, legal e ilegal, para sobreviver, material e espiritualmente. São o grande enigma da sociedade brasileira. Para onde caminhem – a violência, o banditismo, a cultura de protesto, a luta social e política –, pode-se dizer que tenderá a caminhar a sociedade brasileira.

Os motores da mobilização

Um balanço das transformações vividas pelo Brasil pode resumir-se a dois aspectos: a financeirização da economia e a precarização das relações de trabalho

As igrejas são reflexo de todas essas perturbadoras transformações sociais. A igreja católica se enfraqueceu, seja pela ação conservadora do Vaticano, que debilitou a teologia da libertação e seus principais representantes na hierarquia eclesiástica, seja pela virada conservadora no comportamento popular que, diante da irracionalidade dos tempos e a ausência de alternativas políticas de redenção e das promessas impossíveis do mundo do consumo, se voltaram maciçamente para as religiões evangélicas ou para as variantes conservadoras do catolicismo, de que o fenômeno dos “padres cantores” é a versão midiática. As religiões evangélicas funcionam, nos espaços populares pobres, diante da ausência dos poderes públicos, como alternativa ao narcotráfico para uma parte dos jovens, embora os dois mundos possam conviver por cima sem maiores conflitos. Mas essas religiões funcionam também como formas comunitárias de apoio, seja na busca de emprego, na construção coletiva de casas ou no apoio em situações de crise financeira – de forma mais ou menos similar ao trabalho assistencial dos narcotraficantes.

Os movimentos populares sofrem simultaneamente do desemprego, da fragmentação e informalização do mundo do trabalho, da virada conservadora da consciência popular e da institucionalização da vida política, inclusive dos partidos de esquerda. Junto com a cúpula da Igreja católica – especialmente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB –, a CUT e o MST, continuam a ser os motores de mobilização do movimento social, como o plebiscito da Alca – convocado por essas entidades, junto a outras – o demonstrou. Mas as pressões do governo para asfixiar os sindicatos, os assentamentos dos sem terra, os programas sociais das prefeituras e governos de Estado populares, a promoção governamental de sindicatos amarelos, dificultam a capacidade de ação dessas organizações, que são por isso os mais combativos aderentes à luta de resistência ao neoliberalismo.

Um grande debate estratégico

As camadas médias viram aprofundar-se sua cisão interna, com os assalariados – especialmente no setor público – sofrendo uma tendência à proletarização

O Partido dos Trabalhadores continua sendo a expressão política que canaliza a grande força social acumulada pela esquerda brasileira nas duas últimas décadas, embora sua opção institucional tenha enfraquecido seu enraizamento no movimento popular e tenha transformado de forma significativa sua composição interna, seja no sentido da elevação da média de idade de seus membros, seja no distanciamento de uma composição social popular, assim como no peso significativo de quadros vinculados a estruturas administrativas, partidárias, parlamentares e de governos – 75% dos representantes, no último Encontro Nacional do PT, realizado em Recife, em novembro de 2001, tinham essas origens.

Essa opção também resultou numa moderação nas posições políticas do PT, tanto em temas como a dívida externa, a reforma agrária, a Alca, a presença de capitais estrangeiros na imprensa, como nas modalidades de atuação. Pressionado pela forte presença de Lula como candidato à presidência, contando, no entanto, contra si com graus importantes de rejeição nas classes médias e nas elites, as campanhas presidenciais foram sempre momentos de ajuste na imagem pública do candidato e do próprio partido, na perspectiva de viabilizar sua vitória eleitoral.

Quer o PT triunfe nas eleições presidenciais deste ano ou seja mais uma vez derrotado, pode-se prever um grande debate estratégico. No caso de vitória, a discussão sobre as relações entre governo e poder, sobre os limites e as possibilidades de ação nos marcos institucionais atuais, sobre as possibilidades de cooptação e de ruptura etc. Caso Lula perca, provavelmente se terá esgotado uma etapa na vida do PT, depois da direção do partido ter flexibilizado ao máximo as posições políticas, na perspectiva de uma aliança com o grande empresariado industrial e de obter apoios de outros setores da elite tradicional, sem com isso conseguir triunfar, o que deve fazer reaparecer tendências mais esquerdistas dentro do partido, além da eventual saída de quadros para organizações de centro e de centro-esquerda.

Uma proposta alternativa à Alca?

Esses dois grandes fenômenos – a financeirização da economia e a precarização do mundo do trabalho, com todos os seus desdobramentos – sintetizam a pesada herança deixada por Cardoso para seus sucessores. Uma herança que, além de econômica e social, também se reflete no campo político, na crise da ainda recentemente instaurada democracia política, já com fortes índices de abstenção, de desinteresse, de desprestígio de políticos, governos e partidos.

Quem quer que suceda a Cardoso, pode-se dizer que a cara do Brasil não seguirá igual. O modelo econômico está esgotado – só se prolongou devido a cada vez mais sucessivos empréstimos do FMI, que aumentaram mais ainda a fragilidade da economia brasileira – e será necessariamente modificado. Resta saber em que direção se dará essa mudança, se em alterações cosméticas – como as prometidas pelo candidato oficialista, José Serra, ou pelo representante da “terceira via”, Ciro Gomes – ou se em ruptura com as políticas neoliberais, como promete Lula. Assim como o Brasil, transformado pelos oitos anos de governo de Cardoso, mudou substancialmente a face do país e essa fisionomia certamente sofrerá outras tantas mudanças, dada a crise de hegemonia com que termina seu governo e seu projeto. Daí a importância da eleição presidencial brasileira, a disputa por um novo projeto hegemônico.

Uma vitória opositora pode significar não apenas a superação positiva da crise atual no Brasil, mas também uma proposta de fortalecimento do Mercosul, com a criação de uma moeda comum, para resgatar a Argentina da sua crise e, através da reconstrução dessa aliança, colocar uma proposta alternativa à Alca, de integração latino-americana.




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