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LITERATURA

A redenção da “raça operária”

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Em seu romance ’Travail’, Emile Zola expõe, numa narrativa sobre o movimento operário do final do século XIX, sua genialidade e suas contradições, oscilando entre uma admiração reverente por Fourier e o determinismo brutal do capitalismo incipiente

Alain Morice - (01/10/2002)

No final do século XIX, o clima ideológico era paradoxal: o cientificismo e o naturalismo preparavam-se para conter o movimento de emancipação humana

O segundo dos Quatre Evangiles, após Fécondité, Travail é o último romance de Emile Zola publicado antes de sua morte. A publicação fragmentada de Vérité em jornais foi somente iniciada e, quando ele morreu no dia 28 de setembro de 1902, Justice não passava de um rascunho.

Todas as obras tardias de Zola1 parecem uma grande utopia, em que a impetuosidade magnífica e generosa que consagrou a posteridade do autor genial dos vinte romances da série dos Rougon-Macquart se expressa, a partir de então, em um estilo quase catequético . Trata-se, para Zola, diante do horror que lhe causam tanto o capitalismo triunfante quanto os perigos do socialismo revolucionário, de propor o que se denomina, hoje, um “projeto de sociedade”.

O livro teve uma recepção calorosa quando publicado. Posteriormente, impossível de ser encontrado em livrarias, não é mais muito conhecido.2 Obra apaixonada, ainda que muitas vezes cansativa e marcada por uma monotonia sulpiciana, Travail dá muitos elementos para se pensar – sobre as contradições com as quais se debate o autor entre lirismo e didatismo, e sobre o espírito da época. Há um século, o clima ideológico é paradoxal, o cientificismo e o naturalismo filosófico preparam-se para conter um forte movimento de emancipação humana, como eles o chamam. De tradição paternalista na França, o capital começa a admitir a regulação do Estado e a justiça do trabalho. O progresso, a Exposição de 1900, o otimismo exorcizam as nuvens que se acumulam no horizonte. O magnetismo surge repentinamente em Travail. Ao ler Fourier, Zola se pergunta: o ser humano está condenado a se alienar no trabalho, ao mesmo tempo que tudo demonstra que o trabalho é o meio indispensável à sua liberdade?

Um “produto da raça e do meio”

Ao ler Fourier, Zola se pergunta: estará o homem condenado a se alienar no trabalho quando tudo indica que o trabalho é indispensável à sua liberdade?

A noção de raça está presente em toda a obra de Zola. Algumas vezes, diz respeito à condição humana: em La Débâcle (1892), vê-se um soldado, antes da derrota de Sedan, “submetendo-se à crise histórica e social da raça”. Com mais freqüência, designa uma genealogia ou uma classe hereditariamente constituída: como seus contemporâneos, Zola oscila entre o sentido bíblico (descendência, posteridade) e a conotação determinista e hierarquizante que, no século XX, o racismo moderno e o modo de pensar de todos passaram a ter.

No prefácio (1871) dos Rougon-Macquart, Zola escreve que “como a força da gravidade, a hereditariedade tem suas leis” e, em seguida, conclui: “O primeiro episódio – A Fortuna dos Rougon – deve ter um título científico: As Origens.” Desde o início, a raça designa os operários. Em primeiro lugar, o jovem Silvère, que “devia ter uma natureza inteligente perdida no fundo da força da gravidade de sua raça e de sua classe”, em seguida, Felicité, que “tinha pés e mãos de marquesa e não parecia pertencer à raça dos trabalhadores de que era descendente”.

A saga começa com a tia Dide do primeiro romance, uma “cabeça louca”, que se casa com Rougon, o “camponês mal-educado”, antes de passar a ter o “mendigo Macquart como amante” e, dessa forma, é fundadora de duas linhagens. Zola faz, com seu imenso talento literário, de acordo com o que lhe convém, uma análise combinatória baseada nas sucessivas “escolhas” maternas e paternas, praticando com destreza um empirismo e um relativismo próximos, às vezes, da astrologia. A raça é combinada com a classe ou com o “meio”, como na casa da jovem Catherine de Germinal (1885), “uma boa menina, um produto da raça e do meio, uma resignada. Bem de sua classe (...), em suma, um produto e uma vítima do meio3”.

Uma ideologia racista multiforme

No prefácio dos Rougon-Macquart, Zola diz que “como a força da gravidade, a hereditariedade tem suas leis”. Desde o início, a raça designa os operários

Fundamentalmente, esse meio continuará uma produção genética, e tudo acaba na afirmação do Dr. Pascal, no romance de mesmo nome, publicado em 1893: as leis da hereditariedade “manifestam-se em uma raça” e, conseqüentemente, “o tronco explica os ramos, que explicam as folhas”. Um Pascal inquietante: “Uma alegria de sábio tomou conta do doutor diante dessa obra de vinte anos, em que se encontravam aplicadas, muito clara e completamente, as leis da hereditariedade por ele fixadas.” E surpreendente: “Não é belo um conjunto como esse?” – um conjunto que, no entanto, lembremos, Zola concebeu e descreveu como um amontoado de degenerados, artistas e revolucionários fracassados, mundanas, avaros, estupradores de empregadas, especuladores, alcoólatras e assassinos. “É a hereditariedade, a própria vida que produz imbecis, loucos, criminosos e grandes homens”, diz ainda o doutor Pascal, acrescentando: “E a humanidade segue em frente, transportando tudo!”

Nesse universo limitado pelo “sangue” ruim, o partido católico, que odiava Zola, viu nele apenas uma literatura abjeta, e não o gênio. Um gênio, infelizmente, de pleno acordo com essa ideologia racista multiforme que foi uma das bases da Terceira República, de sua aventura colonial e de sua política de domesticação dos trabalhadores pela educação4. Esse racismo não tem nada de execrável em Zola, e não será incompatível com seu engajamento pró-Dreyfus: é uma visão essencialista do mundo – e é a única que reina na época. Ainda seria preciso esperar cinqüenta anos para que um pensamento não-racista do mundo se desenvolvesse em prol da derrota do nazismo. Naquele momento, na virada dos séculos, a raça permanece para Zola a expressão de um complexo de superioridade: de modo geral, só existe para ele raça ruim, ou seja, maldita.

A “nobreza do trabalho assassino”

A raça é combinada com a classe ou com o “meio”, como a jovem Catherine de Germinal, “uma boa menina, um produto da raça e do meio, uma resignada”

Na verdade, em Travail, a “raça” e o “sangue” são prioritariamente pejorativos, como ilustra uma passagem de umas quinze páginas em que esses termos aparecem, no mínimo, doze vezes, na maioria delas associados a qualificações como “decadência” ou “enfraquecida, degenerada, destruída” (3, I) 5. A genealogia dos personagens de Travail remete a essa hereditariedade secular “do assalariado, da antiga galé em que o escravo é torturado e desonrado” (1, V). Por duas vezes, Zola fustiga no romance a fraqueza do operário Ragu, “que tem uma longa escravidão no sangue” e “que treme diante do deus soberano”, seu patrão (1, I; 2, I). E semeia suas descrições metafóricas com animais, comparando Ragu a uma fera, como na cena em que, tomado por um “cio”, viola uma abjeta mulher que vive de seus rendimentos, e que, de repente, consente, “como a fêmea a que um macho rasga o ventre, no fundo dos bosques” (2, IV).

No entanto, a raça operária ganha outro aspecto em Travail. O ignóbil Ragu corresponde à imagem oposta do operário que seu próprio esmagamento torna belo. É o mestre de fundição Morfain, um troglodita portador de “toda a nobreza do longo trabalho que esmaga a humanidade” e “descendente imediato desses operários primitivos, cujo remoto atavismo nele se encontrava, silencioso, resignado, que deu seus músculos sem uma queixa, assim como no início das sociedades humanas”. Um “encantamento” para o apóstolo Luc, personagem principal, que vê nesse “herói” e em seus filhos “a antiga nobreza do trabalho assassino” (1, IV). Estranha nobreza, recorrente no romance. Todavia, em seguida, o velho Morfain ficará furioso ao ver seus filhos (sobretudo sua filha...) adotarem a doutrina de Fourier: “E o pai, com sua obstinação gloriosa em ser apenas um operário sério, cujo esforço bastava para dominar o fogo e vencer o ferro, explodiu dolorosamente ao descobrir que sua raça se degenerava devido a toda essa ciência e a todas essas idéias inúteis” (2, III).

Messianismo e projetos sociais

Nesse universo limitado pelo “sangue” ruim, o partido católico, que odiava Emile Zola, viu nele apenas uma literatura abjeta, e não o gênio

Cada qual à sua maneira, Ragu, o irrecuperável, e Morfain, o reacionário, ratificam, ao contrário, a futura cidade e a salvação da raça. No devido momento, Zola faz com que eles desapareçam – um nas trevas e o outro no fogo – para dar lugar a uma humanidade livre de sua hereditariedade maldita. Prisioneiro de seu essencialismo, cria o novo trabalhador por intermédio da dupla mediação da ciência e de um redentor.

Em que clima pessoal vai Zola produzir essa evolução? Aos sessenta anos, Zola recebeu inúmeros golpes: não só do Caso Dreyfus e sua condenação seguida por um exílio forçado na Inglaterra (1898-1899) 6, mas uma torrente de insultos, de caricaturas e canções ignóbeis que, pelo menos depois de L’Assommoir (1877), fustigaram sua suposta complacência para descrever a sujeira, a memória de seu pai publicamente manchada, a má recepção de Fécondité (1899), que Charles Péguy, então socialista, assassinou como “um livro conservador, indiferente ao assalariado como o Evangelho de Jesus foi indiferente à escravidão7”.

Diante de tanta incompreensão, a força de viver de Zola triunfa e cria o messianismo de seus projetos sociais. Ele quer permanecer otimista: o progresso e a evolução vencem a resistência da fatalidade e sublimam a raça. Em uma carta, anuncia seu projeto dos Quatre Evangiles: “Tenho todo o próximo século até a utopia. Para o trabalho, todo o desenvolvimento da futura cidade. (...) A justiça, toda a humanidade, os povos se juntam, tornando-se uma única família, a questão das raças estudada e resolvida.” Em seguida, para seu amigo Octave Mirabeau: “Tudo isso é bem utópico, mas o que você quer? Há quarenta anos disseco, é preciso permitir, em minha velhice, sonhar um pouco”.

O culto à Natureza

A genealogia dos personagens de Travail remete a essa hereditariedade secular “do assalariado, da antiga galé em que o escravo é torturado e desonrado”

Com Travail, deixa-se então a lógica impiedosa de perdição de L’Assommoir e não se está mais na profecia apocalíptica que, no fim de Germinal, anunciava a chegada repentina de um “exército negro, vingativo, cuja germinação logo iria fazer a terra explodir”. Entra-se em uma lógica muito cristã de redenção. Será que se trata da reapropriação, pelo ser humano livre, de um destino livre? Isso não é garantido. Mesmo rebatizados de “sonhos”, os projetos redentores de Zola continuarão a ser formulados sem a cobertura da Ciência: desse ponto de vista, não é uma reviravolta.

A inspiração “científica” do romancista era antiga e reivindicada8, mas numerosa e heterogênea: Darwin e Claude Bernard, o positivismo de Auguste Comte, alguns psiquiatras; em seguida, principalmente o doutor Luc e seu Traité philosophique et physiologique de l’hérédité naturelle (1847-1850), do qual ele extraiu muito; Ernest Renan, com seu “dogma” da ciência todo-poderosa, única capaz de “organizar cientificamente a humanidade”; Hippolyte Taine também, apesar de desprezar o ser humano enquanto sujeito capaz de sua própria história.9 Enfim, os utópicos, sobretudo Charles Fourier. É preciso constatar que não se trata da melhor “ciência” mas, fundamentalmente, do que Zola encontra de melhor para dar suporte a seu culto à Natureza, a “recém-chegada que ocupou o lugar dos deuses”, nas palavras de Colette Guillaumin10.

Glorificação e respeito pelo trabalho

Ragu, o irrecuperável, e Morfain, o reacionário, ratificam a salvação da raça. Zola desaparece com eles, livrando a humanidade de sua hereditariedade maldita

Zola revela-se incapaz de isentar a ciência de uma referência divina. “Quando era criança e ouvia falar da ciência, parecia-me que você falava do Bom Deus”, diz Clotilde ao dr. Pascal. Desconhecendo as lições de Kant, Zola acaba ignorando que a fé só poder ter como objeto o que não pode ser demonstrado nem sequer conhecido e que aquele que crê deixa de pensar. Paradoxalmente, em Trois Villes e em Quatre Evangiles, é a religião da ciência que lhe permite ultrapassar o determinismo dos romances anteriores e lançar-se em uma utopia social em que a humanidade constitui seu próprio deus. E o contrapeso retorque no outro sentido: a religião do ser humano se transforma em princípio científico. Após a publicação de Lourdes, uma caricatura mostra um cavaleiro Zola caído no chão, hesitante entre duas selas gravadas respectivamente “Fé” e “Ciência”.

Inteiramente dedicado à sua esperança, Zola não meditou sobre o pessimismo cético de seu cúmplice e admirador, Anatole France, que, por intermédio de M. Coignard, evocou “a necessidade, cujas leis [...] ainda reinarão quando Prometeu destronar Júpiter”. Mas não é o próprio Zola que, por meio de Luc, o herói de Travail, se considera o Titã Prometeu, criador e salvador da humanidade11?

Na verdade, no exílio em Londres, Zola confia sem modéstia a Jaurès: “Um amigo me emprestou Fourier e eu o leio no momento com fascínio. Não sei ainda o que resultará de minhas pesquisas, mas quero glorificar o trabalho e, com isso, obrigar os homens que o profanam, que o subjugam, que o sujam de feiúra e miséria, a finalmente respeitá-lo.” Três quartos de século antes, Fourier dissera que “o verdadeiro pecado original [...] foi a submissão do primeiro escravo, pois ela se perpetua: os filhos dos escravos também foram escravos12”.

A descoberta dos filósofos sociais

Incompreendido, Zola quer, no entanto, permanecer otimista: o progresso e a evolução vencem a resistência da fatalidade e sublimam a raça

O que resulta das pesquisas de Zola em Travail? Nos primeiros capítulos, reina sobre a condição operária um clima de apocalipse digno de Eugène Sue, com uma escalada de situações em que dominam trevas, nuvens escuras, medo, violência e fome. Indo de Paris para uma cidade de fundições, Luc considera, com temor, muitos horrores concentrados na pequena órfã Josine (e sua futura mulher, que ele tirará das garras do Mal): “Tudo o que tinha visto do trabalho injustamente distribuído, desprezado como uma humilhação social, que leva à miséria atroz da maioria, resumia-se para ele no caso abominável dessa triste moça por quem seu coração disparou.”

Uma noite, tomado de angústia e de insônia, achou na biblioteca de seu anfitrião Jordan “todos os filósofos sociais, todos os precursores, todos os apóstolos do novo Evangelho”. Os mesmos que Zola pediu que lhe enviassem quando estava no exílio: “Fourier, Saint-Simon, Auguste Comte, Proudhon, Cabet, Pierre Leroux, e ainda outros, a coleção completa, até os mais obscuros discípulos”. Luc optou por ler Solidarité, escrito por um discípulo de Fourier, cujo título “acabava de emocioná-lo13”.

Em sua agitação noturna, Luc descobre o duplo “golpe de mestre” da doutrina de Fourier: por um lado, “utilizar as paixões do homem como as próprias forças da vida” onde o “desastroso erro do catolicismo” foi tentar “destruir o homem no homem” – uma fórmula gloriosa; por outro lado, “o trabalho transformado em honra e que se tornou a função pública [...]. Bastará reorganizar o trabalho para reorganizar toda a sociedade” (1, III), “a única verdade, a própria vida, a única lei da vida, o deus de todas as religiões, a paz, a alegria, como é a saúde, uma festa” (1, V), “único e soberano” (3, I), “salvador, criador e regulador do mundo, da lei e do culto” (3, IV).

Trabalho, alegria e felicidade

O ideal do trabalho oscila entre as duas ordens irredutíveis da fé e da verdade, submetendo a última às exigências da primeira. O pensamento de Zola diviniza, com um único movimento, a sociedade resultante desse trabalho e o protagonista Luc que o torna assunto seu. A antropologia moderna sabe que toda divinização trai uma dominação aqui na terra. A propósito, lembremos a máxima de Fourier, grande inspirador do Zola de Travail: “A desigualdade entre ricos e pobres entra no plano de Deus.”

Na “raça” operária à maneira de Rougon-Macquart, a metáfora com animal leva à “besta” e às “feras” – o que o racismo colonial durante muito tempo evocou falando de “selvagens”. A raça que Luc quer fundar, ao contrário, é baseada no modelo do falanstério e da “harmonia realizada”, a da “colméia”. Por uma coincidência, 1901 foi também o ano em que Maurice Maeterlinck publicou La vie des abeilles, uma obra que suscitou inquietantes interpretações zoomórficas. Em Travail, a fecundidade continua presente, e as escolhas onomásticas de Zola não devem muito ao acaso: enquanto a mina “comedora de homens” de Germinal se chama Le Voreux, a fábrica redentora tem um nome cheio de promessas: La Crêcherie.

Podia não ser a melhor “ciência” mas foi a que Zola encontrou para dar suporte a seu culto à Natureza, a “recém-chegada que ocupou o lugar dos deuses”

Pelo menos, pela adesão de todos os seus membros, pela sua ordem, sua grande higiene, sua maneira particular de ser separada do resto da nação e do Estado – o que é característico da doutrina paternalista em que o patrão deve suprir seus operários, até por sua afetação, a futura cidade de Zola evoca a do Roi Babar, em que, trinta anos depois, Jean de Brunhoff exaltará de forma semelhante Harmonia e Trabalho para a edificação de seus jovens leitores: “Trabalhemos com alegria e continuaremos a ser felizes”, diz Babar. Travail exalta a harmonia social e o novo homem, baseados na trilogia de Fourier de uma “ampla associação do capital, do trabalho e do talento” (que, nos escritos de Zola, é transformado em “inteligência”). Seu anfitrião “Jordan traria o dinheiro necessário, Bonnaire e seus camaradas dariam os braços, ele seria o cérebro que concebe e dirige”, e se daria “o desaparecimento certo do assalariado” (1, V).

Salvação da raça e da humanidade

Logo que fechou Solidarité, o destino de Luc se impôs: ele “rendeu-se aos apelos dos miseráveis (...), ele os salvaria por meio do trabalho regenerado” (1, V). Posteriormente, o romance dirá como a “negra estagnação dos deserdados” o encheu de uma tal “piedade” ativa, que ele jurou “dar sua vida ao destino dos miseráveis” (2, II).

Dar sua vida: desde Jesus e dos mártires, sabemos que idéias de superioridade e de poder esse projeto pode veicular. A cidade do trabalho finalmente libertada. É em torno de si mesmo que Luc constrói, conscientemente ou não, seu próprio poder e ascendência sobre ela. Juntando um registro sentimental a todos os aspectos (racional, social, financeiro, moral) de uma catástrofe industrial iminente, avança seus peões – o que constitui a tradução literária do sincretismo do argumento. Inicialmente, possui a operária Josine que, dessa maneira, ele salva da raça anunciando a salvação de toda a humanidade. Possuir significa fazer um filho, e encontra-se o tom do romance Fécondité: “A partir de então, Josine era sua mulher. Era dele, somente dele, pois estava grávida de um filho dele”, porque Luc tirou-a das mãos do mau Ragu (2, IV). Como Zola não pode dizer que o mundo do trabalho pertence a Luc, ele encarna a humanidade na personagem Josine, por uma curiosa confusão entre poder e posse e, em seguida, toda a grande herança da mulher grávida daquele que a domina: “É um filho, é um homenzinho, bem que eu disse! (...) Obrigado, obrigado, Josine! Obrigado pelo belo presente! Eu te amo e te agradeço, Josine!” (2, V).

Cientificismo, messianismo e racismo

Travail exalta a harmonia social e o novo homem, baseados na trilogia de Fourier de uma “ampla associação do capital, do trabalho e do talento”

À medida que a nova fábrica é construída, e em sua esteira a cidade idílica com sua escola, sua prefeitura, suas salas de jogos, seus banheiros públicos e suas lojas, à medida que se aproxima do romance sentimental, sob o cajado de Luc, a equipe dirigente se simplifica. E chega-se ao esquema final do apóstolo rodeado por três mulheres que o adoram e fazem tudo: “Elas iam para todos os lugares onde havia uma fraqueza a proteger, uma dor a aliviar, uma alegria a nascer” (3, I). Essas mulheres quase transformadas em freiras, “ele as chamava sorrindo suas três virtudes, e as considerava, por motivos diferentes, a própria expansão de seu amor, as mensageiras de tudo o que ele gostaria de deliciosamente desenvolver no mundo”. Um contraponto à bigamia de um Zola que teria preferido que em sua própria vida tudo se passasse com igual harmonia.

No final de Travail, perto da conclusão, como a peça que falta em um quebra-cabeças e que não se pensava mais ser possível achar, surge enfim, quase como um lapso, no meio de uma frase que conta a descendência de um desses inúmeros casamentos eugênicos que Zola arranja com cuidado, a palavra que faltava: Charles, descendente de Luc, é apresentado como o “filho do mestre da Crêcherie” (3, IV). “Mestre”: eis quem dá o sentimento de uma volta à questão que já se julgava ultrapassada.

Mas a publicação de Travail foi saudada pela esquerda. Harlor, jornalista feminista, fala de “um novo poema sobre a vida”. Os discípulos de Fourier organizam um banquete. Jaurès foi caloroso: “Finalmente, a revolução social encontrou seu poeta”. Com o distanciamento, certamente cômodo, de cem anos, é preciso dizer, todavia, como a incapacidade de Zola de extirpar o misticismo cientificista de seu pensamento e seu messianismo, combinados a uma ligação com a teoria das raças, conduziram projetos contestáveis.

O proletariado marginalizado

Restam as terríveis angústias do fim do século XIX que Zola tinha no fundo de si mesmo. Os três pesadelos das “três virtudes” de Luc, com que termina o romance, indicam um triplo pânico: Josine com os “coletivistas”, Soeurette com os “anarquistas” e Suzanne com a guerra total revelam muito bem porque um Zola que se horrorizava com tudo isso – e quem o desaprovaria um século depois? – mergulhou em tão duvidosas religiões.

A religião do trabalho que professou Zola vem de uma fé no ser humano? Deixemos essa pergunta de lado. Lamentemos, no entanto, com Jaurès que, no que ele qualifica de “obra admirável”, comparável em “grandeza épica” com a Lenda dos Séculos, o romancista tenha confiado a “dois burgueses poderosos desgostosos de seu privilégio14” o cuidado da “construção da sociedade ideal”, negando, dessa maneira, pela última vez, ao proletariado a faculdade de se erguer como sujeito da História.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

1 - A trilogia das Trois Villes – Lourdes, Rome, Paris (1894-1898) tem como protagonista Pierre Froment, padre que abandonou a batina e pai dos quatro “ apóstolos ” que Zola põe em cena em seus Quatre Evangiles.
2 - A edição consultada é de 1928, de acordo com a edição original de Eugène Fasquelle. Esperava-se uma reedição para o centenário. As citações extraídas de Travail, romance dividido em três livros de cinco capítulos, serão registradas assim : (2, IV) equivale a (livro 2, capítulo IV).
3 - O caráter nato, essa mistura “química em que se juntam as características físicas e morais dos pais, sem que nada deles pareça ser encontrado no novo ser” (em resumo, o destino), completa para Zola o dueto “raça-meio”.
4 - Ler Manière de voir, n° 58, “ Polémiques sur l’histoire coloniale ”, julho-agosto de 2001.
5 - O contexto diz respeito a uma dinastia de operários que se tornaram patrões de uma fábrica, de acordo com a tradição paternalista dos mestres de fundições e de minas, que Zola foi um dos primeiros a descrever. A dinastia foi arruinada, o que reforça a idéia da maldição que pesa sobre a raça operária.
6 - Ao chegar em Londres, assinou o registro do hotel com o nome de Pascal (cf. acima).
7 - Esse primeiro Evangile é, de fato, uma pesada apologia da família numerosa, da mãe no lar… e do colonialismo: “Não há, nas colônias, raça mais fecunda que a raça francesa (…) E nos multiplicaremos e vamos encher o mundo!”
8 - “Eu me contentarei em ser sábio”, havia anunciado o autor de Histoire naturelle et sociale.
9 - Mais tarde, quando Travail foi concebido, Émile Durkheim também começa a ser difundido. O criador da sociologia racionalista é severo com “a metafísica positivista de Comte” que tanto agradava a Zola. Mas sua célebre prescrição (“Os fatos sociais devem ser tratados como coisas”) se presta a utilizações contraditórias, entre objetivação e naturalização.
10 - L’idéologie raciste-Genèse et langage actuel, Mouton, Paris, 1972.
11 - Os irmãos Goncourt (citados por Armand Lanoux) afirmaram que, desde o primeiro dos Rougon-Macquart, o motor de Zola não era “ tanto a hereditariedade quanto a vontade de poder do autor”.
12 - Observa-se aqui, assim como mais tarde, em Zola, essa onipresença da metáfora religiosa aplicada à hereditariedade.
13 - Trata-se de Hippolyte Renaud. Por sua vez, o romancista havia feito contato, em 1896, com Jules Noirot, ardente discípulo de Fourier e amigo de Godin (fabricante de fornos para fundição e criador, ao lado de sua fábrica, de uma cidade comunitária, a cooperativa. Este deu-lhe para ler Solutions Sociales, desse último, e… Solidarité.
14 - Ele fala de Luc e de seu anfitrião, Jordan, capitalista arrependido.




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