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As moradias-fortalezas dos ricos

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Conseqüência direta de uma mutação demográfica (imigração), do desemprego e da exclusão social, surge, na França, uma nova elite urbana, que vive em verdadeiros ’bunkers’ para classe média alta: são os “guetos para ricos”...

Hacène Belmessous - (01/11/2002)

Os condomínios parecem castelos inexpugnáveis, com muralhas, portões tele-comandados, guardas-noturnos e câmeras de vigilância

Propriedade do grupo Fonta, que tem 21 loteamentos na região de Toulouse, o condomínio “Belles Fontaines de Saint Simon” tem a aparência de um castelo inexpugnável: muralha, portão tele-comandado, guarda-noturno e câmeras de vigilância; cada morador pode visualizar as idas e vindas em seu próprio monitor e localizar, desta forma, os “indesejáveis”. Para entrar, é preciso mostrar um crachá personalizado ou ser convidado por um dos proprietários.

Construído no ano 2000, em um bairro residencial a cinco minutos da estação terminal de metrô, o conjunto é constituído por três imóveis pequenos de dois andares e pequenas casas individuais. No interior, o panorama é banal: espaços verdes bem cuidados, uma multidão de pavilhões independentes e, reluzindo, com a pretensão de ser atrativa, uma piscina reina, no centro. A algumas centenas de metros deste verdadeiro bunker para a classe média alta erguem-se os blocos do conjunto Mirail, um quarteirão de moradias de baixa renda. A imagem do “gueto para ricos” surge imediatamente. Duplamente isolados do mundo exterior, os moradores do conjunto evitam contatos indiretos com os do Mirail. Fazem suas compras, por exemplo, no supermercado Carrefour, pois o Géant, situado à mesma distância de seu domicílio, é freqüentado pelos “miseráveis” do conjunto de baixa renda. “Há eles e nós”, revela um executivo. “É uma espécie de quarto a portas fechadas em que ninguém se fala.”

Imobiliária respira saúde

Fazem as compras no Carrefour, pois o Géant, situado à mesma distância do condomínio, é freqüentado pelos “miseráveis” do conjunto de baixa renda

Em 15 anos a estrutura social da população de Toulouse se transformou profundamente. Na verdade, com a única exceção de Montpellier, é a cidade na França que cresce em ritmo anual mais elevado (1,53% entre 1990 e 1999, para 0,37% do território nacional), ou seja, um aumento de 227.349 habitantes entre 1982 e 19991. Mas essa expansão contínua deu-se em detrimento do setor tradicional (operários, agricultores e artesãos) que perdeu 7 mil empregos por ano, enquanto o número de executivos aumentava em 13 mil por ano. Conseqüência direta dessa mutação demográfica, surgiu uma nova elite urbana, constituída, principalmente, por famílias com filhos ou jovens casais sem filho.

Em Toulouse, o medo do outro e um sentimento de insegurança que chega ao paroxismo criaram condições para uma escalada vertiginosa na busca de segurança que se traduz pela proliferação de conjuntos residenciais “super-seguros”: existem uns vinte, na região de Toulouse. Principal promotor deste tipo de moradia na região – dirige um parque de 5.500 apartamentos, 90% dos quais, alugados –, o grupo Monné-Decroix respira saúde: vendeu 1.746 apartamentos na planta, em 2001, e entregou 1.400. Seu faturamento foi de 195 milhões de euros em 2001 (745 milhões de reais) e de 150 milhões em 2000 (570 milhões de reais). A maior prova de sua vitalidade é o fato de contar com o apoio do capital de três bancos (BNP Paribas, Crédit Mutuel e Crédit Agricole).

Uma “ilha privilegiada”

Em 15 anos, a estrutura social de Toulouse se transformou profundamente: perdeu 7 mil empregos/ano e o número de executivos aumentou em 13 mil por ano

Robert Monné, o diretor-presidente, é um homem hábil. Sabe que a violência urbana valorizou sua empresa2. Aliás, firmas importantes do setor imobiliário já lhe propuseram – sem sucesso, até hoje – uma aliança. Em seu site na Internet ele vende dias prósperos a seus clientes potenciais. “As pessoas querem morar num espaço amplo, bem cuidado, sem tremer a cada vez que alguém bate à sua porta”, proclama. Não obstante, Monné tem consciência de que a sociedade francesa está apenas engatinhando em sua “americanização” e que a classe média alta não se abre sem preconceito às cidades cofre-forte. Quando lhe perguntam sobre a importância da segurança nas residências, expressa o que mais agrada à opinião pública. “Nossos locatários estão contentes de viverem num ambiente cordial”, certifica. E não deixa de mencionar um argumento consistente para apoiar seu raciocínio: “Ninguém tem condições de dar segurança total a um local. Para isso seria necessário colocar um batalhão de policiais diante de cada residência.”

Com dois filhos, um com quatro meses e o outro com dois anos, Marie Durand aluga3, desde julho de 2000, um apartamento do grupo Monné-Decroix em um conjunto residencial cujo nome tem uma conotação campestre: “Allée de la Garonne”. Essa jovem, de 34 anos, trabalha em um hospital de Toulouse; seu marido é engenheiro. “Decidimos alugar este apartamento de quatro cômodos porque podemos deixar nossos filhos brincando lá fora sem vigilância, sem grade e um muro de cerca para protegê-los”, declara. Mas essa paz de espírito tem um custo. “Nossos amigos não podem nos visitar de improviso. Temos que estar presentes para permitir que eles entrem no condomínio”, revela a jovem. “Além disso, como as vagas para estacionar são limitadas e numeradas, nem sempre têm a possibilidade de guardar seus carros.” Essa submissão a um regulamento interno implacável não é objeto de contestação. É, de uma certa forma, o preço a ser pago por levar uma vida confortável e tranqüila. “Aqui, nós estamos numa espécie de ilha privilegiada”, comenta.

O descrédito da cidade pública

O grupo imobiliário Monné-Decroix vendeu 1.746 apartamentos na planta em 2001. Seu faturamento foi de 195 milhões de euros (745 milhões de reais)

A proliferação4 de enclaves habitados pela classe média alta em território francês é sinal de que as tensões provocadas pela ruptura social – a massa dos desfavorecidos sobrevive às custas de artifícios (renda mínima de inserção, contratos de emprego de solidariedade, empregos jovens etc.), enquanto a minoria, os que têm posses, acumula lucros – estão alterando o modelo da sociedade. As cidades francesas, que sempre foram o caldeirão da mistura social e do viver junto, estão, atualmente, tomadas pelo demônio da diferenciação. À imagem das gated communities norte-americanas – subúrbios residenciais estruturados por um apartheid sócio-étnico5 – as fortalezas francesas consagram um ideal urbano baseado numa comunidade de destino. Quer sejam engenheiros em aeronáutica, pesquisadores, advogados, arquitetos ou jornalistas, esses grupos de profissionais fizeram a opção da secessão urbana em nome de um “entre-si”, abandonando o espaço público para os pobres, os que provocam medo porque não souberam tomar o alegre trem da globalização.

Mais que as questões da insegurança, a globalização da economia é a principal causa para estes “agrupamentos de afinidades”, pois ela transformou as regras da sociabilidade. Celebrando constantemente os méritos do global contra o local e a qualidade das redes contra a proximidade, a constituição de arquipélagos caracterizados pela concentração das riquezas nas mãos de uma nova burguesia está desacreditando a cidade pública. Ora, é esta que propicia o encontro entre as classes populares e as classes médias na rua, nos clubes de esporte ou nas escolas. É o caso de um casal de executivos médios, com uns quarenta anos, que depois de terem vivido em um bairro popular parisiense, acabam de comprar uma bela casa em um dos inúmeros enclaves de Toulouse optando por uma mudança profissional. “Mesmo que continuemos votando nos comunistas e defendamos a idéia da mistura social, tínhamos necessidade de nos instalarmos em um lugar tranqüilo”, justificam.

Um modelo “de exportação”

A constituição de arquipélagos caracterizados pela concentração das riquezas nas mãos de uma nova burguesia está desacreditando a cidade pública.

A responsabilidade da mídia por esse cenário brutal de regressão social é evidente. A dramaturgia que surge do espetáculo de carros incendiados e do apedrejamento da polícia é um mecanismo bem montado. No palco mágico das telas de televisão aparece um mesmo cenário: um grande conjunto residencial, identificado por seus grupos de jovens de origem magrebina ou da África negra e os múltiplos grafites nas fachadas dos imóveis, filmado com a câmera na mão por jornalistas colocados sob proteção policial. Essa arte de dirigir, além do fato de que transforma o real em espetáculo e gera uma informação incompleta, anestesiou toda a vida política francesa.

Nesse contexto, a proliferação de zonas urbanas privadas e seguras não seria motivo de preocupação – os corretores imobiliários sempre foram atores econômicos do desenvolvimento urbano –, se não tirasse proveito da atitude benevolente dos políticos locais e do Estado. Depois de ter construído vinte e dois condomínios somente na região de Toulouse, o grupo Monné-Decroix já exporta seus projetos para outras metrópoles do país: Tours (2 condomínios), Avignon (3), Nantes (3), Montpellier (4), Lyon (3), Marselha (1), Bordeaux (3) etc. Um condomínio seguro deverá ser entregue em Alfortville em 2003 e outro, em Marne-la-Vallé, aguarda o desfecho das discussões, que já estão em andamento. A lista de prefeitos que deram permissão de construir não pára de crescer. “Há cidades em que a iniciativa foi nossa e outras em que fomos procurados”, revela Monné. Um aspecto importante nessa evolução é que os políticos que solicitam esse tipo de moradia são originários de todos os partidos políticos. “A maioria das municipalidades em que estamos instalados é de esquerda”, salienta Monné.

Recuperando o “atraso”

A proliferação de zonas urbanas privadas não seria motivo de preocupação se não tirasse proveito da atitude benevolente dos políticos locais e do Estado

Desgastado por três décadas de fracasso político nos subúrbios populares, também o Estado optou por privilegiar este movimento dissidente. Para conquistar os favores da classe média, o governo de Lionel Jospin deu seu consentimento à estratégia de invasão do espaço público através de dispositivos de segurança – 201 municipalidades se equiparam com câmeras, entre 1997 e 1999, para vigiar as vias públicas – e elaborou um plano de redução dos impostos que beneficia principalmente a classe média alta. Um estudo do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE) revela que os 25% domicílios mais ricos conseguem mais de 50% (46,5 bilhões de reais) do montante em francos em isenção de impostos diretos e do TVA6. As opções orçamentárias do governo de Jean-Pierre Raffarin apresentadas em setembro de 2002 – um aumento considerável das verbas destinadas à polícia militar e à polícia civil e redução no Imposto de Renda, essencialmente em favor das camadas superiores – reforçam essa tendência.

Nesse contexto de ausência de compromisso por parte do Estado diante da inflação de enclaves fortificados, um ator inesperado acaba de surgir: o mundo dos bancos. Segundo Jacques Guinault, diretor do setor habitacional do BNP – uma filial do BNP Paribas e do Axa – a irrupção dos banqueiros não é surpreendente. “Há na França um mercado da segurança que vem crescendo, mas ainda está disperso e mal organizado”, diz ele. “Sabendo que nossa profissão é a de proporcionar segurança patrimonial, pensamos que temos toda legitimidade para propor à nossa clientela de particulares nossa competência nessa área.” Mediante uma contribuição mensal, o cliente do BNP dispõe de um sistema de alarme e de um sistema de vídeo-vigilância que protege permanentemente seu domicílio.

Criado em setembro de 1998, o setor habitacional do BNP é uma empresa que cresce. Em 2001, seu faturamento foi de 22 milhões de francos (12,8 milhões de reais), ou seja, 12.500 contratos assinados. Entretanto, o principal banco francês não é o único no mercado. Outros bancos, concorrentes, assim como cooperativas, querem sua parte no bolo. Inclusive porque, embora apenas 1% dos domicílios franceses sejam equipados com um dispositivo de vídeo-vigilância, os profissionais da área de seguros avaliam que a França logo irá recuperar seu “atraso” em relação à Grã-Bretanha, onde 15% dos lares são super-equipados em termos de segurança...

(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Seu índice de empregos “estratégicos” também é excepcional (10,68% em 1990, repartido em três áreas: pesquisa pública, pesquisa industrial e informática. Considerando o país, somente Paris tinha uma taxa mais alta, de 14,73%. Os empregos estratégicos dizem respeito a funções que exigem uma alta qualificação e que têm um papel determinante no desenvolvimento econômico de uma área urbana.
2 - Ler, de Stéphane Béaud e Michel Pialoux, “Emeutes urbaines, violence sociale”, Le Monde diplomatique, março de 2001.
3 - Trata-se, na realidade, de um tipo de empréstimo (leasing).
4 - Ver Le Guide Officiel de l’habitat toulousan, Toulouse, 2001, 12,50 euros.
5 - Ler, de Robert Lopez, “Hautes murailles pour villes de riches”, Le Monde diplomatique, março de 1996.
6 - N.T.: TVA: Taxe sur la Valeur Ajoutée, um imposto que permite a dedução na declaração do IR.




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